segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010


(José Ames)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O CAOS INICIAL


"Soleil levant" (Claude Monet)


"A nossa vaidade, as nossas paixões, o nosso espírito de imitação, a nossa inteligência abstracta, os nossos hábitos estão em actividade há muito tempo e a tarefa da arte é desfazer essa actividade, fazendo-nos recuar na direcção de onde viemos para as profundezas onde o que existiu verdadeiramente permanece desconhecido entre nós."

(Marcel Proust, citado por Alain de Botton)


O impressionismo esclarece muito do método proustiano, porque a forma como o romancista descreve as suas personagens procura manter-se "fiel à confusão inicial, pintando uma impressão visual antes de esta ser anulada por aquilo que ele sabe" (Alain de Botton, falando daquela escola).

Não há dúvida que "desfazer" o trabalho do espírito para ir ao encontro da primeira impressão é também, dum certo modo, anular a personalidade e alcançar o começo do mundo, o que faz jus à opinião de que, nos grandes artistas, é o impessoal que conta.

Mas para Proust, esse começo do mundo é o próprio passado, sobretudo a idade da "confusão inicial", cujas impressões a nossa personalidade, despoticamente, chamou à sua corte ou exilou para sempre.


Vizela (José Ames)

A VERDADE DA APARÊNCIA


Paul Delvaux


"O progresso do conhecimento resume-se talvez a uma melhor compreensão da nossa ignorância."

"La Monnaie" (Robert Mosé)


Como as ilusões de óptica e os erros causadas pela aparência das coisas ( o tamanho da lua, por exemplo) podem todos ser explicados pela nossa forma e pela nossa situação, se compreendêssemos sempre por que nos enganamos e julgamos saber aquilo que, de facto, não sabemos, teríamos atingido, talvez o maior conhecimento a que podemos aspirar.

É por essa razão – era a lição de Alain – que aprendemos muito melhor, por exemplo, com os erros científicos do passado, cujo contexto e evolução podemos perceber, do que com as teorias mais recentes que nos podem surpreender, mas sem instruir.

sábado, 13 de fevereiro de 2010


(José Ames)

UM HOMEM DA IGREJA



"Como eu visse que a Assembleia aquecia e se amotinava contra o presidente de Mesme, saí, já não sei com que pretexto, e disse a Quatresous, conselheiro das Inquirições e o mais impetuoso espírito que havia na agremiação, para alimentar a escaramuça, porque eu tinha experimentado já várias vezes que o meio mais adequado de fazer passar um assunto extraordinário nas assembleias era o de excitar a juventude contra os velhos."

"Mémoires" (Cardinal de Retz)


Há homens que vivem na política como o peixe na água. Mas deixar-se flutuar ou arrastar pela corrente não era o génio de Retz. Sentimos, naquilo que escreveu, a paixão de agir e quanto o retiro final, nas palavras de La Rochefoucauld, "foi a mais falsa acção da sua vida."

Italiano, como Maquiavel, mas querendo-se francês de gema, Paul de Gondi tem o gosto do espectáculo e da improvisação fulgurante.

É talvez justa a ideia que o Co-Adjutor e os seus comparsas durante a Fronda estivessem a fazer uma espécie de peça teatral com um argumento que ele gostaria de ter escrito.

A primeira impressão destas Memórias, porém, é a de que Retz encarava a política com uma objectividade que é raro encontrar mesmo nos nossos tempos. Ele sabia que o homem integrado num corpo colectivo não se comporta como o indivíduo que era ainda há pouco, mas como um outro ser.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Mértola (José Ames)

A HISTÓRIA VIVA



Arthur Stanley Eddington (1882/1944)


"O Físico: – Estranha matéria aquela que você estuda! Confessou ao princípio que não lhe dizia respeito saber se as suas proposições eram ou não verdadeiras, e agora acaba de dizer que não se preocupa sequer em saber de que é que está a falar.

O Matemático: – Aí está uma excelente definição das matemáticas puras que, de resto, já foi dada por um matemático eminente."

"Espace, Temps, Gravitation" (A.S. Eddington)


Se definirmos todo o objecto da matemática como um problema, por que é que esse problema tem de ser real e encontrar eco no modo como nos relacionamos com a natureza?

É legitimo pensar que, para além dos falsos problemas, há problemas "inúteis", quimeras do puro raciocínio, sem qualquer aplicação prática, a não ser a da ginástica mental.

Por outro lado, aquilo a que chamamos de natureza pode ser indiferente ( em relação a nós ), mas não é de certeza incoerente, visto que nós podemos pensar. Os nossos esquemas são úteis dentro dum certo âmbito e não noutros, e só são coerentes em si mesmos, por abstracção de tudo o resto.

Em última análise, o sucesso da matemática só se pode explicar pela evolução da espécie no seu contexto terráqueo. Por isso, tinha razão Platão ao dizer que, de facto, não aprendemos, mas nos lembramos das ideias, como se tivéssemos vivido outra vida.

Na matemática encontramos a história viva da nossa aprendizagem de estruturas como o tempo e o espaço.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010


(José Ames)

HOMO PARTIDARIUS


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"Eu pensava nestes problemas que a escolástica confunde, procurando saber através de que sinais poderia reconhecer se um homem é republicano ou não, radical ou não, socialista ou não. Orientar assim a observação é fazer um mau uso das classes; porque todo o homem é em qualquer grau republicano e em qualquer grau socialista, mesmo César e Napoleão; e há muitas outras ideias a aplicar a um homem, se o queremos conhecer um pouco. A idade importa muito, e a gordura, e o estado do fígado, sem contar com a riqueza, a função, mil outros atributos, que acabarão em conjunto, por nos permitir uma previsão passável."

"Vigiles de l'esprit" (Alain)


As classes pouco nos dizem sobre o homem e, como diz o filósofo, numa crise ou numa guerra, as etiquetas não nos servem para prever o seu comportamento. Para nos aproximarmos disso, é preciso conhecer o homem todo.

Mas esta sabedoria aplica-se à infância dos partidos. Porque quando eles absorvem toda a vida política e, sobretudo, se são "monitorizados" pelos meios de comunicação, a etiqueta conta mais do que a psicologia ou a análise sociológica para compreender uma nova espécie política.

É então ainda mais verdade que todo o homem está, nalgum grau, mal classificado. Mas esses "erros" de atribuição são o que permite a flexibilidade relativa das etiquetas frente à realidade social.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


Lisboa (José Ames)

FECHAR O JOGO



"Procura-se o sentido da história. Ora aquele que crê que a história tende para um fim está muito perto de não se contentar em pensar esse fim e de erigir planos para o realizar. Mas, ao fazer isso, ele mostra-nos qual é a sua impotência. Os planos temerários que os detentores da força pretendem basear sobre um conhecimento total da história afundam-se em catástrofes. Os planos que traçam no seu círculo estreito indivíduos isolados fracassam também; ou então alcançam, pela intervenção de outros factores, uma situação completamente diferente, tendo um outro sentido que não figurava em nenhum plano. O curso da história surge-nos como uma máquina de moer à qual ninguém escapa, ou então com um sentido com infinitas interpretações, que se manifesta contra toda a expectativa, através de acontecimentos novos, que permanece sempre equívoco, um sentido que nunca conhecemos mesmo quando nele confiamos."

"Introduction à la Philosophie" (Karl Jaspers)


Eis Hegel revisto depois das catástrofes do século XX. A história não é a história do Espírito revelando-se a si próprio. A própria ideia do progresso sofreu um revés definitivo. É inútil, pois, pressupor que ela tem um fim.

"Mas a filosofia da história exige que se procure o sentido, a unidade, a estrutura da história universal. Esta não pode visar senão a humanidade inteira." (ibidem)

Deixemos de lado a questão de saber se hoje é possível uma filosofia da história como seria a dum hegelianismo revisto. Não tem o sentido a mesma força de precipitação que a "tendência para um fim"?

O perigo duma tal visão das coisas reside na ideia dum falso poder operacional, uma vez "correctamente" interpretado o sentido da história.

A história seria, assim, um sistema para parar o jogo e fechar todas as saídas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


(José Ames)

O LEGADO ROMANO


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"Todo o artista italiano alia à maturidade o esforço de justificar a obra pela tradição; e além disso, por instinto atávico, quase sem advertir vai calando os remorsos que lhe deixam as suas inovações reafirmando-a onde pode na vida privada. Um italiano garante-se sempre, vive entre pesos e contrapesos, é revolucionário e conservador ao mesmo tempo, e esta é a sua lei."

"Viaggio in Italia" (Guido Piovene)


Ao ler estas linhas, não posso deixar de recordar o que diz Hannah Arendt sobre a tríade romana da religião, autoridade e tradição, tríade que não funciona desfalcada duma das suas partes.

O italiano de que fala Piovene, mesmo quando se julga próximo, pelas ideias, dum artista moderno, cedo verifica que isso não corresponde à verdade. Isso tem a ver com o culto do passado que foi o legado do Império que a Igreja Católica com tanto sucesso assimilou.

"Foi só quando isso se produziu, somos tentados a dizer, que a fé cristã se tornou uma "religião", não apenas no sentido pós-cristão, mas no sentido antigo também." (Hannah Arendt)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Gaia (José Ames)