quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O MÉTODO DA ACÇÃO



"O método da acção política aqui esboçado ultrapassa as possibilidades da inteligência humana, pelo menos enquanto essas possibilidades são conhecidas. Mas é isso precisamente que lhe dá o valor. Não se deve perguntar se se é ou não capaz de o aplicar. A resposta será sempre não. É preciso concebê-lo duma maneira perfeitamente clara; contemplá-lo por muito tempo e muitas vezes; afundá-lo para sempre no lugar da alma onde os pensamentos ganham as suas raízes: e que ele esteja presente em todas as decisões. Há talvez então uma probabilidade de que as decisões, embora imperfeitas, sejam boas."

"L'Enracinement" (Simone Weil)


Não restam dúvidas que o método de acção preconizado por Simone não se aprende, nem é um conhecimento que se possa adquirir com a experiência. Trata-se mais duma espécie de inspiração como aquela de que é pertinente falar-se em relação aos artistas.

Isto é assim porque, a exemplo de outros antes dela, a filósofa entende a política como uma arte (uma "arte de composição em planos múltiplos"). Nenhuma ideologia, por mais universal que seja, está à altura de inspirar este método. Porque é o caso, não de aplicar fórmulas ou princípios, mas, verdadeiramente, de criar algo de novo com o imprevisível de que é feita a política.

Quantos homens teriam a coragem de abandonar os seus esquemas, as suas rotinas, os seus truques, para absorver a ideia inspiradora no mais fundo se si mesmos de modo a que todas as suas decisões dela estivessem sempre misteriosamente imbuídas?

Quando Simone Weil diz que o método não pode ser alcançado pela inteligência humana só quer dizer que não se trata aqui de lógica, mas de algo que transcende o próprio indivíduo e logra exprimir o génio dum povo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


Porto (José Ames)

A LIBERDADE DA IRONIA


Proudhon e seus filhos, por Gustave Courbet (1865).


"Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das ciências, da admiração das grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição deste grande universo, e da admiração de mim mesmo."

P.J.Proudhon, citado em "As Farpas" (Ramalho Ortigão e Eça de Queirós)


Eliasoph fala numa "solidariedade cínica" entre os jornalistas que amplifica a sua suspeita e a sua distância em relação ao activismo político. É este um dos efeitos da defesa "à outrance" do conceito de objectividade e da abstenção política a que supostamente obriga.

Ora esse cinismo reforçado (por deformação profissional, poderíamos dizer) está muito longe da ironia tão louvada pelo autor da "Filosofia da miséria", embora ambas possam ser politicamente estéreis. Não é por acaso que Marx (que inverteu o título da obra de Proudhon) é sarcástico em relação ao espírito de independência que sustenta a ironia. O que nos alerta para outro tipo de fanatismo (o dos "reformadores"?) que é o duma sociedade em que a política fosse uma obrigação absoluta, como se se pudesse prescindir do pensamento autónomo, da sua liberdade, das suas dúvidas e dos seus impasses.

Se precisamos de individualidades como Proudhon e de jornalistas que se recusam a ir além da objectividade é porque não podemos viver sem o espírito crítico, mesmo quando parece fora da política.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010


(José Ames)

OBJECTIVIDADE



"Muitos repórteres pensam que não é ético envolverem-se, porque pensam que isso compromete a objectividade jornalística. Por isso mantêm-se voluntariamente na ignorância de movimentos quer da direita, quer da esquerda. Ouve-se constantemente falar na famosa 'tendência liberal da imprensa'. Muitos repórteres são liberais: zombam da intolerância, são pela igualdade dos sexos e fazem reciclagem. Mas não são politicamente activos, e suspeitam das pessoas que o são."

"Francis, jornalista, citado em "Avoiding politics" de Nina Eliasoph)


O problema da acção está aqui bem formulado. Porque agir é interromper a "objectividade" e decidir-se por uma das opções, entrando, naturalmente, numa dinâmica de afectos potenciadora da própria acção.

Nesse sentido, a ética jornalística está de facto em causa. Por muito que pretenda ser objectivo, o jornalista "engagé" reflectirá, a maior parte das vezes inconscientemente, os ídolos da sua tribo e uma perspectiva particular.

Mas, por outro lado (e o exemplo americano é elucidativo), a objectividade não pode procurar uma equidistância, moralmente neutra, sem que o jornalismo perca o seu sentido cívico. Então, neste, como em outros casos, o que decide é a facilidade. Obrigados a pensar ( e a decidir) sobre as questões éticas e, por isso, devendo recusar a espécie de pensamento que é a opinião colectiva e a ideologia das organizações (a sua semântica, diria Luhmann), ficam-se pela apresentação de factos, muitas vezes irrelevantes, mas que lhes permite absterem-se de adoptar opiniões "enviesadas", mesmo quando se sentem atraídos por elas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010


Foz (José Ames)

CHAPÉUS



"Stepan Arkadyevitch pegou e leu um jornal liberal, não extremista, mas advogando o ponto de vista da maioria. E apesar do facto de a ciência, a arte e a política não terem para si um interesse especial, ele sustentava firmemente esse ponto de vista sobre todos os assuntos adoptado pela maioria e pelo seu jornal, e só mudava de opinião quando a maioria mudasse – ou, falando com mais rigor, ele não mudava de opinião, era ela que mudava imperceptivelmente dentro de si."

"Anna Karenina" (Leo Tolstoy)


O irmão de Anna adoptava as opiniões prevalecentes dentro do seu círculo, sem pensar nisso mais do que se tivesse de escolher um chapéu. As suas ideias eram, de facto, um capítulo da etiqueta social. Não era nenhum Pascal, dando o devido valor às convenções, mas guardando um pensamento próprio debaixo do chapéu.

Como não era o caso, Stepan, sendo uma personagem encantadora, fazia infeliz os seus por não ser capaz de resistir a uma tentação.

O "vira-casaquismo", ou a mudança brusca de opinião, em política, não é normal. É muito mais natural fazer-se 180º com todo o seu "círculo" mais a comunicação social. Porque há duas translações a ter em conta, coisa que não acontecia no tempo de Tolstoi. A televisão é o centro do relativismo por não poder tomar partido. Ao adoptar as opiniões da maioria recebe esse relativismo que ela própria difundiu. Mas para além deste movimento, existe, com velocidades diferentes e porventura sentidos diferentes, a rotação dos grupos e dos sub-grupos.

Nisto, estamos ainda à espera de Copérnico.

domingo, 10 de janeiro de 2010


(José Ames)

A PERFEIÇÃO DA LÓGICA



"O termo 'sociedade' engloba, evidentemente, todas as relações sociais, incluindo todas as relações pessoais – as relações entre uma mãe e o seu filho, assim como as que existem entre um funcionário da segurança social e qualquer um dos dois. Por muitas razões, é totalmente impossível controlar todas, ou 'quase' todas estas relações; quanto mais não seja porque, com cada controlo das relações sociais criamos toda uma série de novas relações que é necessário controlar. Em suma, a impossibilidade é uma impossibilidade lógica."

"A Pobreza do Historicismo" (Karl Popper)


O conceito de totalidade (da sociedade, do universo, etc.) impõe-se ao nosso espírito, mas frequentemente utilizamos as palavras que se lhe referem como se soubéssemos do que estamos a falar. Porque quando falo dum baralho de cartas, posso dizer que as conheço como parte desse conjunto (se me abstrair de considerar todos os outros aspectos que são a estrutura daquilo a que chamamos um baralho de cartas). Se falo, porém, em sistema sócio-político sirvo-me de uma abstracção diferente, porque realmente não o posso conhecer enquanto tal. Limito-me a utilizar esse conceito dentro duma frase ou duma teoria que não pode ser testada e que, portanto, vale tanto como outra. Não se pode dizer sequer que ela é uma melhor aproximação da verdade, porque estamos apenas dentro da lógica.

É por isso que as ideologias podem viver mil anos na sua perfeição fechada ao mundo.


sábado, 9 de janeiro de 2010


Foz (José Ames)

O FIO PERDIDO



"Assim o desaparecimento inegável da tradição no mundo moderno não implica de maneira nenhuma um esquecimento do passado, porque a tradição e o passado não são a mesma coisa, contrariamente ao que nos quereriam fazer crer aqueles que crêem na tradição dum lado, e aqueles que crêem no progresso do outro – e o facto que os primeiros deplorem esta desaparição, enquanto que os últimos se felicitam com ela, não muda em nada a questão."

"La crise de la culture" (Hannah Arendt)


O passado independente da tradição tem talvez "uma frescura inesperada e diz-nos coisas para que ninguém teve ainda ouvidos.", mas deixou de estar ligado a nós como uma raiz. Tornou-se um depósito ou uma mina de símbolos, com que podemos "fundar" uma pré-história à medida dos nossos interesses.

Quando um autocrata inventa uma genealogia ou apaga das fotografias os seus adversários, por razões de Estado ou para a mitificação da sua figura é assim que se relaciona com o passado.

Este "novo" poder sobre o passado é, de facto, um corte das raízes e significa privarmo-nos da "dimensão da profundidade da existência humana." Coisas impensáveis ainda há um século, como a dominação totalitária ou o emprego da bomba atómica para "salvar vidas" (dos americanos e dos nipónicos se o Japão fosse invadido) só são possíveis sem o fio condutor da tradição e porque nos tornámos "livres" para experimentar tudo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


(José Ames)

A FÉ DESESPERADA



Hermann Göring (1893/1946)


"A derrocada dos Alemães toca-nos mais de perto do que confessamos a nós próprios. O que não deixa ninguém em sossego, é a enormidade do simulacro em que eles viveram, o carácter gigantesco da sua ilusão, a força cega da sua fé desesperada. Certamente que sempre execrámos aqueles que confeccionaram a mistura infecta e repugnante desta fé, os verdadeiros responsáveis que foram pouco numerosos e que tiveram a inteligência bastante para o fazerem; mas os outros, todos aqueles que não fizeram mais do que crer, aqueles que em alguns anos reuniram e condensaram tanta força na sua fé quanto os judeus ao longo de milénios, aqueles que tiveram vitalidade e apetite suficientes para realmente querer o seu paraíso terrestre, querendo e desejando a dominação do mundo, prontos antes de tudo e acima de tudo a matar por isso, prontos a morrerem eles mesmos por isso, e tudo no mais curto prazo – essas inumeráveis cobaias sãs e florescentes, esses meros animais treinados e levados a crer como nunca o foi nenhum muçulmano -, que são eles, então, realmente, que são eles agora que a sua fé se desmorona?"

"Le Térritoire de l'homme" (Elias Canetti)


Não está aqui, para responder à pergunta lamentosa de Canetti, a estupidez infinita da espécie de que falava Einstein? Ele que dizia poder ter dúvidas sobre o outro infinito, o do universo, mas não sobre este, que nos leva à auto-destruição?

A massa é a mesma em todas as latitudes e não é uma especialidade germânica. Nenhum dos condenados em Nuremberga esteve à altura de reconhecer as consequências dos seus actos. Göring foi ao ponto de argumentar que os soviéticos tinham vestido os uniformes nazis e forjado o filme das atrocidades nos campos que foi presente ao tribunal. Os Americanos, na sua recente conversão à psicanálise, tinham mandado um psicólogo judeu, Leon Goldensohn, para perceberem se havia algum motivo de ordem familiar ou sexual na vida desses tubarões do regime que pudesse invalidar a categoria de monstruoso, a única que dava conta do sucedido aos olhos de quem desconhecia o horror burocrático e que não ouvira ainda falar da "banalidade do mal".

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010


Roma (José Ames)

HIROHITO



"Além disso, o inimigo agora possui uma nova e terrível arma com o poder de destruir muitas vidas inocentes e de provocar danos incalculáveis. Se continuássemos a combater, não só isso resultaria no ulterior colapso e obliteração da nação japonesa, mas levaria à extinção total da civilização humana.

Sendo este o caso, como salvaremos Nós milhões dos Nossos súbditos e expiaremos perante os sagrados espíritos dos Nossos Antepassados Imperiais? Esta é a razão por que ordenámos fossem aceites as disposições da Declaração Conjunta das Potências."

Declaração de Hirohito, imperador do Japão (em 14/8/1945)


De facto, os EUA estavam a preparar mais bombas além das que destruíram Hiroshima e Nagasaki, caso o Japão não capitulasse.

Depois da primeira e atroz decisão, motivada, segundo os apoiantes de Truman, pela preocupação de salvar milhões de americanos e de nipónicos na prevista invasão do arquipélago, era de esperar que o limite moral já não se impusesse com a mesma força.

Hirohito, como se vê, não pensava, como Hitler, que a nação devia afundar-se com ele. E a ideia duma responsabilidade para com os Antepassados coloca-o num nível incomparável com o do pequeno führer. Por outro lado, o seu prognóstico duma extinção da humanidade deve entender-se como retórica adequada ao momento de humilhação suprema.