terça-feira, 7 de outubro de 2008


Génova (José Ames)

DESONERAÇÃO


http://www.blog.speculist.com/archives/brain.jpeg


"É precisamente contra este peso da pessoa culta que se ergue a vaga de desoneração provinda dos novos media. (...) É verdade que o utente não pára de escolher - na medida em que, à sua maneira, tem de prestar justiça à qualidade cumulativa de acontecimentos cognitivos que se sucedem uns aos outros. No entanto, o que recolhe não são experiências, isto é, complexos de saber integrados sob forma pessoal, narrativa e conceptualmente ordenados: são endereços onde poderá dispor de agregados de saber mais ou menos formatados se, por uma razão ou por outra, quiser recorrer a eles."

"Palácio de Cristal" (Peter Sloterdijk)


Desonerar é também aliviar a carga da memória que na escola de outros tempos, dizia-se, era a principal função do saber. Decorar os nomes dos rios e dos seus afluentes ou das estações da linha de comboio ( a propósito, no filme de Kurosawa, "Madadayo", há um ex-aluno que homenageia o velho professor recitando o nome dos apeadeiros durante todo o convívio, como um autómato ), ou aprender a história dando relevo à narrativa e às personalidades era algo que permanecia gravado, mas sem ajudar à compreensão das coisas.

Foi esta ideia de que é melhor ensinar a pensar do que sobrecarregar a memória que motivou alguma vontade reformista.

Infelizmente, em vez de se ensinar a pensar, promoveu-se o uso de conceitos ideológicos "passe-partout" (como o de sistema e o de estrutura) que prepararam a entrega da inteligência às modernas ferramentas (as calculadoras e os "Magalhães").

Como diz Sloterdijk, não sabemos mais, nem compreendemos melhor, mas julgamos saber o endereço onde se pode saber, se um dia precisarmos.

O resultado é que o saber, de facto, não nos modifica, porque não está em nós. É um álibi que permite apenas considerarmo-nos mais avançados do que, por exemplo, o homem da Renascença.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


(José Ames)

A FÉ TÉCNICA



"O século dezoito foi testemunha do fim da retórica, i.e. do fim duma fé técnica na comunicação. (...) A manipulação consciente das formas era uma das possibilidades, outras fizeram uso da paradoxalização, da ironia e do cinismo. Por outras palavras, o erro comunicacional foi notado e depois adoptado como forma de comunicação. De maneira a evitá-lo, foi cometido deliberadamente. Deste modo uma pessoa tinha a garantia de não ser censurada por não saber o que estava a fazer ou por não apreender imediatamente os meios que tinha à disposição. Foi esta forma que tão bem se adaptou ao Iluminismo."

"Love as passion" (Niklas Luhmann)


Como diz Luhmann, há sentido que se perde quando certas palavras são proferidas. O dito e o não-dito, na relação com outra pessoa, podem ter valores desiguais, servirem a uma e serem prejudiciais à outra.

A incomunicabilidade pode estar no âmago da intimidade. A corrente passa, e é a verbalização que provoca o curto-circuito.

Na era da publicidade e das comunicações de massa, por outro lado, a diferença entre a verdade e a mentira tornou-se uma espécie de jogo semântico. Ninguém toma a mensagem da publicidade a sério (excepto os publicitários) e este reflexo contaminou igualmente a política.

Tal como no século dezoito, entrar no jogo é evidenciar que sabemos o que as palavras valem. Depois da perda da fé nas palavras, verificou-se, naquele século, um regresso à natureza, com o amor romântico,

E é isso que nós já não podemos fazer. Nem no amor podemos já considerar a sexualidade como natureza.

domingo, 5 de outubro de 2008


Alcácer do Sal (José Ames)

O ADMIRÁVEL


Philippe Sollers


"Escrevem-se maus romances sinistros, anda-se à volta, sem entrar, em torno do castelo interior. Existe agora uma caricatura do erotismo, tão pesada e ridícula como a da censura. Existe toda uma má literatura que floresce num mercado controlado por patetas, tendo como princípio fazer crer que toda a gente é dotada para a sexualidade, como para a pintura ou para a música."

"Casanova, o admirável" (Philippe Sollers)


Mas, enfim, M. Sollers, quando a bitola é o prazer, não há maior artista do que o próprio, ninguém que melhor conheça o seu instrumento!

A fraqueza dos discursos sobre um homem como Casanova tem origem na pretensão moralista ou na ignorância da sua arte (por só fazer sentido para nós a "miséria sexual" de hoje).

Mas toda a gente é dotada para o prazer, mesmo os masoquistas. Donde, a sexualidade, aqui, seja muito mais do que o prazer. Sollers não vai mais longe. Repare-se como a palavra amor não se pode aplicar aqui, nem sequer o nome de Eros. Há, de facto, um discurso obrigatório sobre o erotismo, que é o da pornografia. Ele é tão asséptico e insignificante como a personagem cinematográfica de Casanova.

Não a de Fellini, apesar de o cineasta achar o personagem desinteressante, não o reduziu à figura dum atleta do sexo. Entrevemos o que o seu sonho tem de destrutivo e como só podia ter futuro na literatura.

sábado, 4 de outubro de 2008


(José Ames)

ETNICAMENTE CORRECTO


Henry Morton Stanley


"No período de poucos anos, o jornalista e explorador de África Henry Morton Stanley celebrou, por conta do rei Leopoldo II da Bélgica, pelo menos quatrocentos "tratados" com chefes africanos que estes interpretaram na maior parte dos casos como acordos de amizade, ao passo que os Europeus viram neles tratados de submissão e contratos de exploração."

"Palácio de Cristal" (Peter Sloterdijk)



A desigualdade nessas relações entre a nação desenvolvida e o reino tribal não era evidente para ambos os lados. À ilusão por parte de uns correspondia o cinismo dos outros.

Isso, mesmo se esta é uma leitura moralista, era sempre preferível à nua relação de forças.

Mas o ponto é: em que pé se deveriam, se poderiam estabelecer tais relações?

O "respeito" etnológico levaria simplesmente à abstinência de quaisquer contactos. A qualquer coisa de tão imponderável como, em relação a nós, se fosse o caso duma extrema precaução nos avanços da tripulação dos ovnis.

A panela de ferro nunca deveria encontrar a panela de barro.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008


Bath (José Ames)

A HUMANIDADE LIVRE DE SI MESMA


W.A.Mozart, aos 11 anos


"É frequentemente a impressão que temos ao atravessar todo o século XVIII: os seres humanos estão ali, como que privados da humanidade e, por assim dizer, desligados dela. A concentração da sua liberdade é tal, que ela parece estar eternamente avançada relativamente a nós. Oiçam Mozart: isto compreende-se imediatamente. O mesmo efeito de golpe de ar ao lermos Casanova. Se ele tem razão e se o provou, nove décimos das ruminações humanas irão desabar. Decidimos, então, que ele se vangloriava. Mas nada é menos certo."

"Casanova, o admirável" (Philippe Sollers)


Livres como quem se solta, como quem sai duma prisão tendo ainda no corpo a forma das grades. Livres, como se diz, da própria humanidade que é a origem dos deuses.

Foi este século que criou o mundo moderno, não dum golpe, nem em sete dias, demiurgicamente, mas como quem submete tudo a exame para tomar posse duma herança (Ramalho chamou-lhe o século da análise).

As artes parecem não ter anunciado esta revolução. Mozart é o encontro da forma clássica e desse espírito livre, que às vezes nos parece ligeiro, e em Casanova, libertino. Mas o motto do veneziano era "Sequere Deum", seguir Deus e, até ao fim, julgou-se perseguido pelos jacobinos.

São dois exemplos do pensamento não sistemático. É difícil, às vezes, fazer sentido das suas contradições. A música divina, como um país para onde um emigrava com a intransigência artística de um Morel (Proust) e a mesma inconsequência numa correspondência infantil, escatológica.

O cavaleiro de Seingalt, esse, diz detestar a morte "porque ela destrói a razão". Estranho. A vida é aqui identificada à razão, o que é muito do seu século. Do mesmo passo, o seu donjuanismo feliz se reivindica da racionalidade. Porque é conforme à vontade de Deus...

De qualquer modo, esta liberdade tão "eternamente avançada relativamente a nós", como diz Sollers, é solidária de um sujeito que não começou ainda o seu próprio processo. A teologia foi destronada, mas não a metafísica do eu.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O ESPÍRITO DIPLOMÁTICO


Karl Polanyi (1886-1964)


"Nesses anos, sempre que Karl (Polanyi) discutia política, lembrava-me de uma velha história do mais notável diplomata de Napoleão, Talleyrand, que, ao saber da morte de um seu colega, considerou apenas: 'Só gostava de saber o que ele quis dizer com isso.'"

"Memórias de um economista" (Peter Drucker)


Na diplomacia nada é o que parece, pela necessidade de se evitarem os movimentos vivos ou deixar transparecer o humor, por causa das interpretações indesejáveis. O diplomata deve ser por isso esfíngico, o que, no fundo, é fazer o tempo jogar o papel mais importante.

O dito de Talleyrand é o espírito da diplomacia levado ao extremo. A natureza (a morte) é o contrário da diplomacia, é contra ela que essa arte se exerce. E não há melhor ilustração do "tudo é político", isto é, tudo tem um significado e tem de estar em vez de outra coisa (a verdade).


(José Ames)

A FÁBRICA DOS SONHOS

http://getasecondlife.net


"Seja como for, Hollywood, a metrópole pacífica das imagens, arrebatou há meio século a palma às centrais mediterrânicas de emissão de morais e de mistérios, Roma e Jerusalém. Desde logo, as suas mensagens não se dirigem às pequenas culturas, cujos mercados são demasiado tacanhos para os produtos do novo e distractivo imperialismo. Quando se conseguem distribuir em duas dezenas de versões dobradas, garantem já lucros substanciais."

"Palácio de Cristal" (Peter Sloterdijk)



A "fábrica dos sonhos" revelou-se, de facto, mais importante do que o fórum ou o jornal, a oração matinal de Hegel, para conformar os indivíduos e instituir a espécie de paz que advém de se partilhar a mesma religião.

A identificação com os modelos propostos pelo cinema de massas consegue o que nenhuma prédica consegue: o sentimento de que o princípio das nossas acções vem de nós mesmos e de que não somos forçados por qualquer moral exterior e nem mesmo pela lógica a fazer o que fazemos.

Mas talvez que a mensagem de Hollywood não seja, verdadeiramente, o "american way of life" (e o que seria isso, quando são múltiplos os modos de ser americano?). Esse cinema, ao escrever o guião dos nossos sonhos diz-nos o que somos para lá da personagem oficial. E assim cria, como todo o imaginário, um espaço-refúgio necessário à integração social, porque, não é verdade? nunca cabemos na personagem oficial.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008


Aquileia (José Ames)

O NASCIMENTO DE VÉNUS




"Luminoso porém e ainda sem sombras,

como um bosque de bétulas em Abril,

quente, vazio e patente estava o pudor."


"Nascimento de Vénus" (Rainer Maria Rilke, tradução de Paulo Quintela)


O poeta descreve-nos a deusa emergindo das águas tal como a célebre pintura de Botticelli a fixou para sempre.

Num movimento cinematográfico (se não estivesse desajustado quanto ao espírito, quase diria com um toque de Borowicz), o corpo magnífico é percorrido com um olhar descendente:


"a sombra esbelta das pernas foi cedendo,

os pés abriram-se e resplandeceram

e os tornozelos vivos quais gargantas

de homens que bebem."


Depois o olhar sobe ao ventre para ficar preso naquele porém e vibrar na cadência dos três adjectivos finais da estrofe: quente, vazio e patente.

O hino à beleza é interrompido por uma espécie de violência, o princípio de um temor emboscado.

E a verdade é que os versos finais nos falam da morte:


"Mas ao meio-dia, na hora mais pesada,

ergue-se o mar mais uma vez e arroja

um delfim àquele mesmo lugar.

Morto, roxo e aberto."


Que abertura é esta senão a do segredo mais íntimo?