segunda-feira, 19 de maio de 2008

O CÉU DOS LAMPIÕES

http://tecfa.unige.ch/perso/frete/memoire/scenario/univers/reverberes.html


"Os primeiros ensaios de iluminação a gás ao ar livre coincidiram com a infância de Baudelaire: foram colocados candelabros na Place de Vandôme. Sob Napoleão III, o número dos candeeiros a gás aumenta rapidamente em Paris. O facto trouxe mais segurança à cidade, fez a multidão sentir-se nas ruas como em casa, também à noite, e baniu o céu estrelado do cenário da grande metrópole de forma mais radical do que o tinham feito os prédios altos."

"Charles Baudelaire" (Walter Benjamin)


Toda a luz artificial é um ecrã. As grandes cidades projectam-se, de noite, contra o céu, tornando irreal o que está para além desse espectáculo.

Não podia deixar de ser assim, visto que tivemos de nos relacionar cada vez mais connosco próprios e não sabemos já lidar com a Natureza.

Mas começamos a sentir que esta não pode ser simplesmente "protegida", depois de a termos considerado como objecto de conquista. A consciência ecológica é ainda uma consciência de proprietário a quem compete zelar pela conservação dos seus bens.

E assim se acendeu o gás e apagou o céu. Este é cada vez mais um assunto de especialistas.

Quem tem tempo para considerar? (*)


(* segundo Ernout e Meillet, o lat. considerare significava originalmente "examinar com cuidado e respeito religioso os astros, segundo os princípios da astrologia" - Dic. Houaiss)


(José Ames)

POBRES EM MUNDO


Peter Sloterdijk


"De facto, durante meio século, a filosofia europeia, generosamente assistida pelas artes literárias e figurativas, desenhou imagens do mundo para pessoas ausentes, pobres em mundo e perdidas em signos estéreis."

"Se a Europa acordar" (Peter Sloterdijk)


Pobres em mundo é uma expressão de Heidegger. Os animais, por exemplo, seriam pobres em mundo. Não teriam representação do mundo. Em relação aos europeus isto significaria uma perda de realidade causada pelos traumatismos do século XX.

A que mundo reduziram a Europa as duas guerras mundiais? Sloterdijk fala num espaço vazio e na "tenaz das novas potências mundiais de oeste e leste". Se mundo há, a Europa já não ocupa nele um lugar central.

Bom, podíamos dizer que a tenaz perdeu já uma das suas mandíbulas e que talvez o centro não esteja em lado nenhum.

Mas o pensamento tecno-científico originário do velho continente parece ter-se tornado universal, como se fosse a condição sine qua non da redistribuição do poder e da influência cultural.

O dínamo grego tornou-se o princípio de todo o movimento.

domingo, 18 de maio de 2008


Amalfi (José Ames)

O ELO DA ATENÇÃO



"A falta de atenção dos alunos, de que todos os professores se queixam, não é senão uma das formas desta nova consciência cool e desenvolta, ponto por ponto análoga à consciência telespectadora, captada por tudo e por nada, ao mesmo tempo excitada e indiferente, sobressaltada pelas informações, consciência opcional, disseminada, nos antípodas da consciência voluntária, "intro-determinada".

"A Era do Vazio" (Gilles Lipovetsky)


Se entramos numa era de "indiferença pura, com o desaparecimento dos grandes fins e grandes iniciativas que merecem o sacrifício da vida", evitamos, ao mesmo tempo, "os sobressaltos da religiosidade histórica (*) e os grandes desígnios paranóicos."

É talvez essa a origem do fenómeno conhecido pelo "politicamente correcto" e duma tolerância que se confunde com o relativismo moral.

Mas num mundo globalizado, que toma consciência dos seus violentos contrastes, essa apatia confronta-se com o que lhe é mais oposto - e lhe recorda o seu próprio passado - , sob a forma do fanatismo político-religioso.

A mudança do tipo de atenção, no Ocidente, devida aos novos media e às novas formas da cultura, não deve, contudo, levar-nos a pensar que se trata dum indício duma decadência já vista, cercada pela vitalidade dos novos bárbaros.

Desde logo porque, apesar das diferenças gritantes, o modelo de cultura fundado na tecnologia impõe-se mesmo aos que sonham lançar-se ao assalto do império.

O nuclear, como um deus sem povo, nem cultura, unindo as duas pontas do arco, é disso o melhor sinal.


(*) A tradução é de Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria para a "Relógio d'Água";
no contexto, o adjectivo histérica, parecia-me mais adequado, do que histórica.

sábado, 17 de maio de 2008

OS FOLHETINS


Walter Benjamin (1892/1940)


"Devido a esta nova situação - a redução do custo das assinaturas -, o jornal tem de viver dos anúncios...; para conseguir muitos anúncios, o quarto de página dedicado à publicidade precisava de ser visto pelo maior número possível de assinantes. Era preciso um isco que se dirigisse a todos, sem se preocupar com opiniões pessoais, e cujo valor era o de colocar a curiosidade no lugar da política... Uma vez garantido o ponto de partida, a assinatura por 40 francos, através do anúncio, chegava-se quase necessariamente ao romance em folhetim."

"Charles Baudelaire" (Walter Benjamim)


Esta evolução na imprensa parisiense de meados do século XIX, que mobilizou escritores como Alexandre Dumas e Eugène de Sue, é um bom exemplo daquilo a que hoje chamamos de despolitização.

A necessidade económica, e não os desígnios de qualquer comité secreto da burguesia, estava, como se vê, na sua origem.

O papel crescente da publicidade no financiamento dos jornais mudou-lhes o carácter. O folhetim tornou-se mais importante do que a política ou a linha editorial. Vemos hoje, com a televisão, onde tudo isso levava.

Poderíamos dizer que a função de informar e de formar a opinião pública não se paga a si própria e que quanto mais dispendiosos forem os meios para levar a cabo essa missão mais aquilo que se diz é condicionado e desvirtuado pelas "condições de produção".

A Internet permite-nos, talvez, esperar uma mudança nessa situação.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

EPPURE SI MUOVE


Galileu enfrentando a Inquisição


"Ora a fé não estava certamente mais implicada no século XVII pelas descobertas da astronomia do que está hoje pelas da física ou da paleontologia. Galileu e os seus juízes não falavam das mesmas coisas: um falava das leis e do mundo físico, os outros não falavam de nada. Por muito intensa que pudesse ser a sua fé, ele não corria, portanto, o risco de traí-la se respondesse o que quer que fosse."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


Não havia, diz Jeanson, um terreno comum entre a verdade científica e o dogma. Mas o problema é a linguagem induzir nas pessoas a ideia de que as palavras querem sempre dizer alguma coisa.

É claro que a Inquisição temeu que a fé sofresse com os efeitos duma contradição nas palavras, e, nisso, enganou-se miseravelmente.

Galileu que, segundo este autor, fraquejou ao comentar a sua abjuração, como se existisse uma contradição real, parece-me, pelo contrário, ter resumido o melhor possível a situação.

O "Eppure si muove" remete para a teologia o problema de encontrar um outro sentido para as palavras.


(José Ames)

DESVELAMENTO


http://www.sgeier.net/fractals/fractals/


"Os homens dizem: "Tudo passa", mas quantos apreendem o alcance desta aterradora banalidade? Quantos fogem da vida, a cantam ou a choram? Quem não está imbuído da convicção de que tudo é vão? Mas quem ousa afrontar as consequências disso? O homem de vocação metafísica é mais raro do que um monstro - e no entanto cada homem contém virtualmente os elementos dessa vocação. Bastou a um príncipe hindu ver um enfermo, um velho e um morto para compreender tudo."

"Précis de Décomposition" (Emil Cioran)


Somos incapazes de renunciar. "Esperamos tudo - mesmo o Nada - só para não ficarmos reduzidos a uma suspensão eterna, a uma condição de divindade neutra ou de cadáver."

O véu de Maya só pode retirar-se se compreendermos que, na realidade, "nada passa".

É outra maneira de usar a razão, mas que não é contra a vida, essa.

Se se atinge esse cume do pensamento em que deflagram as grandes negações é porque a razão não negou antes do tempo.

Haverá então qualquer coisa como a fidelidade à origem?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

PROFECIA


http://www.derok.net/derok/images/sports/implosion.jpg


"Tudo o que é necessário para salvar a humanidade de uma catástrofe é o passo a ser dado por um desses Estados independente em relação ao outro, não por meio da guerra que produziria o desastre, mas mediante acordo."

"Ensaios Impopulares" (Bertrand Russell)


A ideia de Russell era que os EEUU e a URSS tinham que chegar a um acordo para salvar o mundo duma catástrofe.

Como não podia perceber o grau de podridão que já atingia uma das superpotências e, nisso igual a tantos outros intelectuais, julgando a realidade pelo seu conceito, só imaginava uma saída na impensável humilhação política dum primeiro passo ou num mais do que improvável acesso de responsabilidade humanitária.

Afinal, a solução para esse problema - que trouxe outros perigos para a humanidade - foi a implosão nunca vista de um regime que, como num filme acelerado, nos deu a última versão do Declínio e Queda.

Decididamente, os únicos profetas são os que acertam por acaso.


Caserta (José Ames)

INÚTIL RECTIFICAÇÃO


Amour et Psyche (Antonio Canova)


"Por vezes, nas noites de espera, a angústia é devida a um medicamento que se tomou. Falsamente interpretada por aquele que sofre, ele acredita estar ansioso por causa daquela que não vem. O amor nasce neste caso, como certas doenças nervosas, da explicação inexacta de um mal-estar penoso. Explicação que não é útil rectificar, pelo menos no que respeita ao amor, sentimento que (seja qual for a causa) é sempre erróneo."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Proust parece pensar, como Lacan, que no desejo não há relação.

A imagem que desencadeia o desejo não é real, embora nasça sempre de um encontro. A sedução é interpretação e reflexo. O outro procura coincidir com a projecção do desejo, tornando-se verdadeiramente uma máscara (persona) do mesmo.

Se é assim, explicar que se trata de uma ilusão é absolutamente inútil. Porque o desejo, no caso do amor, não passa sem esse engano, esse cinema que o outro ilumina dentro de nós.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

JUDAS AVATAR



"Em todo o empreendimento humano, podem encontrar-se duas espécies de traidores: aqueles que traem a letra para tentarem permanecer fiéis ao espírito e aqueles que, traindo ao mesmo tempo a letra e o espírito, mostram bem que escolheram renegar-se, renegando o sentido mesmo da sua empresa."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


Mas é verdade que podemos redistribuir o que pertence à letra e o que pertence ao espírito.

Não há nenhum critério objectivo da traição, porque se pode sempre atribuir às palavras e aos actos o sentido duma fidelidade superior.

No limite, imaginemos o ser omnisciente que conhecesse o verdadeiro espírito duma parábola, para além daquilo de que o seu suposto autor seria consciente (é, outra vez, a insondabilidade da pergunta). Esse ser poderia inspirar actos que parecessem trair tanto o espírito como a letra, e, no entanto...

Judas como avatar de Cristo: - Vai, e faz o que tens de fazer.


(José Ames)

O SILÊNCIO DO PERGUNTADOR



"A resposta é a infidelidade da pergunta."

Maurice Blanchot


Até a pergunta que se repete a quem a não ouviu bem.

A lei do tempo faz-nos percorrer mundos entre um instante e outro, de tal modo que julgamos estar num lugar e já estamos noutro.

A pergunta nasce duma conjuntura "astronómica" que nunca mais se repete. Se quisermos subir à nascente, tudo nos desencaminha. Que milagre é então uma resposta que coincida com a pergunta!

A maior parte das vezes, as "naves" encontram-se num espaço forçado pela vontade: -Não era bem isso, mas está bem.

O pragmático, a esta altura, interrompe-nos, impaciente: - Vamos lá a ver, se eu fizer uma pergunta precisa, tenho o direito de esperar uma resposta concreta. Por que não haveria de ficar satisfeito? De que perguntas estamos a falar?

Não, evidentemente, das perguntas de um teste americano. Das outras, das que contêm já a resposta, mas como num cofre de que se perdeu a chave, das que querem perguntar outra coisa diferente da própria pergunta, das que não têm resposta...

Não é por acaso que Sócrates se refugiava nas perguntas.