terça-feira, 6 de maio de 2008

A NOITE PRÓSPERA DAS ILUSÕES


Emil Cioran (1911/1995)


"Se o homem inventa novas físicas, não é tanto para chegar a uma explicação válida da natureza do que para escapar ao aborrecimento do universo compreendido, habitual, vulgarmente irredutível ao qual ele atribui arbitrariamente tantas dimensões quanto os adjectivos que projecta sobre uma coisa inerte que estamos cansados de ver e de suportar como ela era vista e suportada pela estupidez dos nossos antepassados ou antecessores."

"Précis de décomposition" (Emil Cioran)


Para Cioran, o "segredo da vitalidade", a saúde do espírito estão nesta aventura contra o tédio, a que a lucidez fatalmente retiraria todo o sentido.

Mas podemos também acreditar que a lucidez é querer a aventura em vez do tédio e da morte.

A razão que se volta contra si mesma fica paralisada, deixa de servir, mas a vida continua, e é ela que tem os segredos da razão.

Noutro passo, Cioran repõe a justiça:

"as minhas verdades são os sofismas do meu entusiasmo ou da minha tristeza."


(José Ames)

CHAMAS INTERMITENTES


Ulisses e Hermes no Hades


"Então julguei lembrar-me de que um pouco depois da sua morte, a minha avó me tinha dito soluçando, com o ar humilde duma velha criada despedida, como uma estrangeira: "Vais permitir-me ver-te algumas vezes de qualquer modo, não me deixes muitos anos sem me visitar. Pensa que foste o meu neto e que as avós não esquecem."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Como este sonho retrata bem a situação dos mortos perante aqueles que os amaram em vida!

Eles são como os suplicantes da tragédia antiga, as sombras convocadas por Ulisses no Hades, junto da poça de sangue.

A sua existência bruxuleante depende da chama acesa no coração dos vivos.

Quanto mais verdadeira é esta humildade, esta tristeza da serviçal que perdeu todos os direitos, e que mesmo se andou connosco ao colo sabe o preço dum pensamento dedicado ao que já não é, e como depende tão inteiramente, nessa breve aparição, do amor, da boa vontade, desviados do mundo actual, do que o fantasma em armas que vem exigir a vingança ao príncipe da Dinamarca!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A FRAQUEZA DO PRAGMATISMO


Jules Henri Poincaré (1854-1912)


"A linha recta não existe; eu traço-a porque quero; e pura porque a quero pura. Traçá-la é até uma fraqueza. A recta é tão bela entre duas estrelas! Só o espírito a mantém. Assim são os nossos melhores pensamentos."

"Histoire de mes pensées" (Alain)


Poincaré é citado nesta passagem por ter dito que o pragmatismo deveria ser considerado como uma falta de coragem.

A geometria com que medimos o mundo não está nele, mas em nós, ou melhor no encontro dos dois.

Se abandonámos a primeira ideia da órbita planetária, seguindo nisso Kepler, é verdade que a elipse está em nós, mas não chegaríamos a ela se não passássemos a considerar os outros objectos do sistema.

Mas a frase de Poincaré talvez não se deva aplicar à política, dados os erros monumentais a que nos expõe normalmente a doutrina, coisa de que os que "navegam à vista" parecem precaver-se.

O político pragmático, que sabe "meter as ideias na gaveta" encontra uma fácil justificação no facto da política ser sempre imprevisível e a nossa ignorância sobre o futuro mais do que certa.

Enquanto que o pragmatismo não leva a qualquer descoberta no campo da ciência, pois que só podemos por à prova teorias que não podemos induzir da experiência, é óbvio que a realidade política é muito diferente, por envolver pessoas e vidas, o que torna a experimentação, eticamente pelo menos, não permissível.

Mas é onde a política impõe escolhas que as ideias encontram o seu lugar.

O pragmatismo revela a sua verdadeira face (a falta de coragem de que falava Poincaré), quando, nesse momento de liberdade, recua perante as pressões do momento, por falta duma ideia motivadora.

domingo, 4 de maio de 2008

OS NOVOS CÍRCULOS


Dante no Exílio. Anónimo. Arquivo Iconográfico S. A., Itália.
Imagem pertencente à Corbis Image Collections


"Ser fiel à Resistência hoje quer dizer também não renunciar a lutar pela Itália unida, vermelha e socialista: unida, contra o secessionismo de Bossi que quereria reportar a Itália à divisão em estadozecos de há um século e meio atrás. Vermelha, contra a negra terceira república que se pretende abater sobre o País. E socialista, que era também o ideal dos "partigiani" comunistas e que há-de voltar sempre a inspirar novas gerações de opositores do capitalismo."

(Extraído do Editorial de "Il Bolscevico" (nº 16/2008), órgão do Partito Marxista-Leninista Italiano)


Esta linguagem vive ainda hoje, em tempos de pós-moderno, entre alguns grupúsculos que pelo menos aprenderam, com os grandes partidos, a criar um cenário musical, no caso o hard rock, para embalar a sua mensagem.

Nenhum sinal de realismo na avaliação do passado. É tudo interpretação, desde os ideais da Resistência à inspiração da juventude no futuro.

Para que é precisa a História? E já agora, para que é preciso o Mundo?

A capacidade autofágica deste pensamento torna-o muito semelhante, descontado o génio literário, ao Paraíso dantesco. A História é uma máquina que funciona sozinha, restando aos crentes, cuja agitação equivale ao perfeito imobilismo, contemplar o seu movimento na Beatitude.


Lisboa (José Ames)

O PARAÍSO


"Trouble in Paradise" (1932-Ernst Lubitsch)

"Mas que seríamos nós então se não fôssemos contingentes e mortais? Nada, certamente: uma Inconsciência eterna, infinitamente perfeita, não existindo para si nem para ninguém. Ah! como seria bom ser assim completamente sem problemas, nem sequer ter de gozar essa indestrutível Ausência... Idealizo? Não, vejamos: tentem formular qualquer outra hipótese!"

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


O paraíso não tem problemas por definição, e Lubitsch fez um filme em que um especialista na subtilização de jóias nos grandes hotéis encontra a riqueza e o amor na pessoa duma bela herdeira. Infelizmente, esta não consegue abstrair-se do medo da polícia que sempre lhe ensombraria o romance.

A perfeição, de facto, não é para nós, humanos. Não saberíamos o que fazer com ela, e tudo aquilo que dá sentido à vida e à acção se tornaria miseravelmente supérfluo.

Por isso, a ideia da eterna contemplação do Bem e dos círculos processionais de anjos ao som da música das esferas imaginada pelo autor da Divina Comédia é a dum estado sem morte nem vida, e que tampouco é o pensamento porque lhe falta todo o objecto.

E assim este Paraíso (que já não é o da inocência de Adão e Eva) revela-nos não a plenitude do espírito, mas o seu completo vazio.

sábado, 3 de maio de 2008


(José Ames)

ARMAGEDÃO EM LILIPUT


http://www.print.duncans.tv


Em 1950, Bertrand Russell podia escrever o seguinte sobre o futuro da humanidade:

"Antes do fim deste século, a menos que algo inteiramente imprevisto ocorra, uma das três possibilidades seguintes se terá realizado:

I - O fim da vida humana - talvez de toda a vida no nosso planeta.

II - A volta à barbárie após uma diminuição catastrófica da população do globo.


III - Uma unificação do mundo sob um único governo que possua o monopólio das principais armas de guerra."

"Ensaios Impopulares"


Entrado o novo milénio, nenhuma destas profecias se cumpriu, evidentemente, mas não podemos dizer que não estejam no nosso horizonte.

Russell escrevia sob a influência de dois acontecimentos marcantes do século passado: o totalitarismo e a bomba atómica. Uma conjuntura do máximo da força com o mínimo da razão.

O que ele não podia prever, por exemplo, a queda da URSS, não teria tido uma relevância de maior para a sua visão pessimista.

Mas o desenvolvimento da técnica prejudicou em muito o seu argumento a favor dum governo mundial, como meio de controlar a violência.

Porque as armas tornaram-se mais destrutivas, independentemente do seu tamanho. E até os liliputianos podiam trazer à terra o Armagedão.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O ENGATE PUBLICITÁRIO


http://c4.agora.eu.org/local/cache-vignettes/L500xH439/publicite.jpg


"Eis o paradoxo: a publicidade, que é estigmatizada por todos os quadrantes como instrumento de doutrinação, de matraqueamento ideológico, não se atribui os meios necessários a esse inculcar de doutrina. Nas suas formas avançadas, humorísticas, a publicidade não diz nada, diverte-se consigo própria: a verdadeira publicidade troça da publicidade, do sentido como do não-sentido, esvazia a dimensão da verdade, e é aí que está a sua força."

"A Era do Vazio" (Gilles Lipovetsky)


Se a publicidade fizesse como o aparelho de propaganda dos partidos, para quem a questão do sentido é imperativa e a verdade não pode ser problemática, não atingiria os seus objectivos.

Se a publicidade vende, é porque atravessa as nossas defesas ideológicas à procura da libido e do pré-racional.

Não nos infantiliza necessariamente, a não ser nas suas formas inferiores. Ela prostitui-se e torna venal tudo o que toca, no seu desígnio, felizmente quase sempre falhado, de se tornar cúmplice do nosso segredo.


Furadouro (José Ames)

DEUS NO QUADRANTE


George Berkeley (1685-1753)


"Dear Sir,

Your astonishment's odd;
I am always in the Quad .
And
that's why the tree
Will continue to be,
Since observed by

Yours faithfully

God"


O problema de saber se a árvore existe, quando nenhum homem está por perto ou sabe sequer da sua existência, fica resolvido por estes versos berkelianos de Ronald Knox.

A ideia da árvore, diz Hume, é nossa e nada prova que qualquer coisa como uma árvore exista fora das nossas impressões.

O mundo dos objectos, por definição, reclama um sujeito. Mas como não podemos negar que o mundo continua a existir, mesmo quando não é "objecto", Deus tira-nos dessa dificuldade.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

BIG EM RELAÇÃO A QUÊ?


http://www.negotiationlawblog.com


"Do Todo podemos apenas dizer que é, mas enquanto Todo nada pode ser para nós: nada de determinado, nem isto nem aquilo, e ainda menos a soma de todos istos e aquilos, porque não existe perspectiva possível sobre a totalidade das perspectivas possíveis."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


A dificuldade parece, às vezes, ter sido contornada pela ciência, que reconstrói o Génesis, a seu modo, e, como é preciso, o mais materialmente possível. E a verdade é que não é o sentido que falta, por exemplo, à teoria do Big Bang.

A seguir descobre-se que é preciso ampliar muitas vezes a fotografia e imaginar outros universos possíveis e questionar se este Bang terá sido realmente Big. É, à nossa maneira, uma nova desptolomeização.

Por isso, o Todo, o quer que isso possa ser, foge-nos incessantemente. Mas não podemos passar sem a ideia. Era como se, tendo as parcelas, devêssemos renunciar à soma.


(José Ames)

UMA FEIRA DO LIVRO


http://www.ccel.org/pix/books.jpeg


A feira do livro é um lugar comum. Sirvo-me dele numa conversação difícil com um habitante da televisão. Mas ele não faltou ao encontro. Uma vez por ano, a cultura assume a forma tipográfica. A julgar as profecias e as estatísticas não valia a pena levantar os stands. É remar contra a maré. Empresas como o “Círculo de Leitores” já não apostam na brochura. Dirigem-se ao tacto e ao sentido da decoração. Não digo que uma capa atraente e modular não convide à leitura e ao prazer de abrir e de folhear. Mas estas moscas não se caçam assim. A principal função do livro-móvel é preencher um espaço no interior burguês. No fundo, é indiferente que em vez das páginas escritas se guarde aí o whisky.

A colecção é outro método de desviar o livro da leitura e de fazer subir as vendas. Os comerciantes pensam como bons linguistas que não se pode dizer que se tem uma coisa que não está completa. Que significam as receitas de culinária, opiparamente fotografadas, que se mandam encadernar periodicamente? É impossível que sejam todas úteis. Obter os números que faltam é um desporto, fechar a série é um acto moral. Não é honesto constituir-se proprietário do que está para além das posses de cada um. Esta dificuldade raramente é económica. O comprador está à mercê da vontade de prolongar um monólogo que a casa editora converteu em obrigação. A cultura ou a cozinha é uma questão de títulos, como se a biblioteca se acrescentasse ao nome próprio. O coleccionador é um burguês gentil-homem que se dispensou de começar sequer a imitação. E assim ele reage como um homem do nosso tempo, livre do encargo da cultura, graças à sobre-humana tarefa enciclopédica.

Como não se pode ler tudo e menos ainda assimilar, o melhor é transformar o escrito em segurança – estou rodeado de obras-primas e de sumas científicas – e num espaço de jogo: posso escolher ao acaso e fazer bingo. De resto, nunca é uma leitura determinada apenas pelo que se lê. O que é impossível ler pela profusão e pela falta de tempo é sentido, pelo leitor que tem à mão esses títulos, como uma extensão do seu poder caprichoso. A única maneira de gozar todo o campo do escrito, sem sentir os limites materiais evidentes da leitura, é fazer como a borboleta. As técnicas de venda e os novos media criaram o leitor superficial, sem vontade nem meios para colher dos livros a formação do espírito. Se não fosse a escola, a atenção seria uma coisa rara. Porque é preciso escolher e seguir um caminho.

Não se sabe ler senão relendo, e é sempre a mesma coisa que se lê. A abundância do livro rouba-nos a atenção. É possível que a televisão faça o leitor impaciente e sem ponto de vista moral. Quando era adolescente queria comprar tudo. Agora passeio os olhos pelos escaparates e não vejo nada do que quero. A feira quer vender e consegue. O que à partida estaria condenado ao malogro é um relativo sucesso. A tradição e o mito da cultura ou do móvel culto criam o acontecimento. Mas ler não é fácil. Ainda que a política e a profissão exijam um certo tipo de leitura. Mas quem volta a ler o que já leu?