
Dressed (José Ames)




"Becket" (1964), o filme de Peter Glenville, baseado na peça de Jean Anouilh, "Becket, ou l'Honneur de Dieu", tem, talvez, a melhor representação do actor Peter O'Toole, o que é dizer muito.
É a história de uma amizade impossível de manter quando o rei, Henrique II e o arcebispo da Cantuária (Richard Burton) se defrontam na arena do poder.
Até ser nomeado pelo rei para o mais alto cargo da Igreja, no seu país, Becket, consciente da vida sem sentido que leva ao lado do seu real companheiro, diz que lhe será sempre fiel, enquanto puder improvisar a honra, dia a dia.
Mas o seu novo cargo fá-lo encontrar a verdadeira honra, e Becket, inspirado pelo que chama a honra de Deus, opõe-se ao monarca que protege um dos seus nobres acusado de assassínio.
Compreendemos por que, para Henrique, submeter-se à honra de Deus é, de facto, vergar-se ao poder da Igreja e por que para Becket continuar a ser fiel à amizade significa o mesmo em relação ao Estado.
Henrique acaba por ser o fautor do assassínio do seu rival. E, só depois de morto, Becket volta a ser amado.
O poder que separa os amigos não tem a conotação negativa do poder pessoal ou do poder abstracto.
De facto, ao invocarem um a Inglaterra e Deus o outro, deixam de se poder distinguir a paixão e a ideia política.

"Julgo que não tenho necessidade de defender o ponto de vista segundo o qual só a teoria pode ser considerada como uma ciência no sentido estrito. O conhecimento dos factos enquanto tais não é uma ciência, e não nos ajuda a controlar o curso dos acontecimentos ou a influir sobre ele."
"Essais" (Friedrich Hayek)
Os factos devem constituir os dados nas nossas fórmulas, a fim de se poderem fazer previsões acertadas.
Mas é fácil confundir o cúmulo de informação sobre os factos, que a moderna tecnologia põe rapidamente ao nosso dispor, com uma maior capacidade de prever o "curso dos acontecimentos" e de controlar os processos sociais, a exemplo do que é possível fazer com os fenómenos mecânicos mais simples.
Todos os que trabalharam numa grande empresa sabem que se pode viver inundado de dados inúteis, visualizados no ecrã ou impressos em estradas de papel, os quais, para terem alguma utilidade, devem ser reconvertidos e interpretados para fazerem algum sentido.
Por isso, nenhum responsável se desobrigará do dever de esclarecer, por exemplo, uma comissão de trabalhadores pela simples apresentação dos dados.
O problema é que a política exige a cada parte uma interpretação autónoma e, não estando esta ao alcance do amadorismo, normalmente os trabalhadores dispõem só duma interpretação suspeita.

Talvez a questão mais interessante levantada pelo filme de Robert Altman "M.A.S.H." (1970) seja a de saber se esta paródia pode ser, como defendem os seus panegiristas, um filme contra a guerra.
A vida neste hospital de campanha, durante a guerra da Coreia, é uma divertida intriga, graças sobretudo ao elemento sexual e ao informalismo dos diálogos e da representação.
Os feridos e os mortos não chegam a ter existência. Por muito que sangrem, fazem parte dos adereços, como os frascos de soro, as macas e as tendas.
É verdade que ferozmente se troça dos poucos militaristas do campo e que a justificação da guerra está de todo o ausente do discurso.
Parece que os americanos transportaram para o campo militar o seu modo de vida e uma partida de rugby ocupa mesmo uma parte desproporcionada do filme, como a sugerir que a guerra não é outra coisa do que aquela luta pela bola no meio da lama e dos encontrões.
Enfim, parece-me mais uma comédia que se aproveita de uma história de guerra, onde a vida reclama os seus direitos, quaisquer que sejam as dificuldades, do que um filme contra a guerra.
Se a guerra não interrompe a vida nem impede os americanos de jogar rugby, o que haverá nela de atroz?
