
(José Ames)

Na quinta-feira passada, pude assistir, em Serralves, à conferência de Peter Sloterdijk.
Depois de meia hora de espera, devido a problemas com a tradução simultânea (que continuaram a ditar o ritmo da sessão), o filósofo leu, para um anfiteatro repleto, as suas arriscadas conjecturas sobre o contemporâneo.
Muitas das ideias expostas fazem parte do seu livro "A Mobilização Infinita". Tirando as perguntas do moderador, não se levantaram, propriamente, quaisquer questões.
Mais do que a tirania do tempo (a somar aos atrasos), a originalidade do discurso deu à sessão o cunho de um espectáculo, com a palavra só de um dos lados da sala.
"Como, para a maioria das pessoas, é aborrecido ou avassalador lidar com o que é eminente, em regra não se chega à discussão, antes se fica pelas aversões ou pelas submissões." (Sloterdijk, "A Mobilização Infinita")
Vimos um alemão excêntrico atravessar o palco com as suas folhas e sentar-se no outro extremo, sem poder, nem com um ou outro apontamento humorístico, sacudir a aparente credulidade da sala.
E confesso que me chocou um pouco quando, respondendo à questão de saber se se considerava um pessimista, Peter Sloterdijk respondeu que não se podia dar a esse luxo.
Se compreendo que o verdadeiro pessimismo poderia levar ao fim de toda a tentativa de comunicação e que não haveria sequer lugar para o "pathos" da verdade ou da competência magistral, por outro lado, fica-se com a impressão de alguma inconsequência intelectual.

Um vício de cultura leva-nos a sondar os rins do selvagem que está na nossa cabeça. Nada apoia essa ideia de que o homem para eliminar ou se desfazer de uma tensão precisa de ajuda. O instinto é um traço de união abstracto que deixa sempre em aberto a questão da origem do prazer. É legítimo, então, supor que o animal se limita a interpretar sinais, que os dois sexos são verdadeiros símbolos.
Que todos os portadores de falo de uma tribo das Novas Hébridas sejam solicitados a apagar no órgão da viúva a marca do antigo senhorio é o que me faz pensar irresistivelmente num sistema de escrita. O corpo do outro sexo resume tudo aquilo que se quer dizer. Metáfora essencial, nele se apresenta o objecto anterior à poesia e à diferença no espaço. O sujeito no instante dessa divisão dentro de si mesmo ganha consciência do outro como sexo, carácter escritural presente ou ausente. O instrumental trabalha a superfície com a mesma figura obsessiva. O encontro platónico é extra-territorial. Passa-se na região do não escrito e da liberdade. Mas no comum dos casos, o prazer é o que há de mais inexplicável e de mais obscuro. A relação, o que há de mais utópico. No meio de isto tudo a ordem aparece e o pensamento. Da tatuagem e da magia se chega à ideia moral mais abstracta.
O amor carnal é um caso da infância sempre viva em cada um. E é preciso como que uma metamorfose, ligada por muitos laços às trocas afectivas e às compensações do sentimento, no animal mitológico que devora o corpo dos amantes. Também se vê, por outro lado, como o homem se encontra como criança, e a mulher, como mãe, sempre. No sexo nada é o que parece.

“L’action enchaînée” representa um dado momento do meu desejo. A primeira percepção foi um instante táctil fugitivo. Porque a fotografia reproduz a ilusão do volume. O peso, a implantação da figura, a massa das superfícies lisas e o modelado suave dos músculos solicitam-me profundamente. Detenho-me na vitrina da livraria de arte diante da forma negra que tão bem parece "matar" um ideal perdido.
Mais tarde compro o postal e analiso-o, atento à menor deslocação erótica. A decepção começa pela naturalidade do bronze. A pele só é possível num relance. Precisamente na confluência da anca firme e desenhada e da esfera umbilical, que se amachuca na depressão cavernosa, entre duas possantes colunas, o metal aparece. Há uma tensão entre o busto e a parte inferior nesta homenagem a Blanqui: certos ângulos contradizem a redondeza de baixo. Os ombros masculinos e o tórax trabalhado repelem um corte diametral. Por outro lado, falta elegância e nervo ao pedestal da estátua. Mas aí compraz-se o meu imaginário animal.
O espírito está presente no meio corpo rijo que se apoia na força cega das pernas. Que pés maravilhosos! Dir-se-ia que são ouvidos encostados à terra, sensíveis a todas as vibrações. Todas as estátuas têm o cabelo loiro. Esta não é excepção e isso contribui para envolver toda a forma numa circunferência de pele sem costura. Os olhos indefinidos abolem o rosto que desce todo até ao abdómen. Basta imaginar a luz duma pupila para derrubar o objecto fálico. Há na linha quebrada, mas ainda redonda e caprichosa, que significa a torção da anca, qualquer coisa da ruga do prepúcio. O peito é dividido por um sulco de atleta e os seios são escudos de amazona. Se se pensar que essas mulheres de guerra queimavam uma das glândulas mamárias para assentar a prótese metálica, descobre-se nesta metáfora uma preciosa riqueza. Neste busto não há nada que apalpar. Ele defende-se ostensivamente.
De resto, o nome da obra sugere prisão e vulnerabilidade. O mito da mulher passiva está todo nestas mãos ligadas atrás das costas. Que não podem desferir golpes; nem resistir sabe este corpo liso e manipulável que não seja pela contorção. E essa força dramática vê-se neste Maioll povoador de jardins imaginários, como um Renoir do bronze.
O movimento lateral, a recusa da cabeça são a negatividade feita corpo humano, sob a única forma que prolonga sem angústia, prejudicial à economia do prazer, o debate com o sexo exterior. Todo este gesto em que se apaga a consciência do outro e em que o próprio corpo se faz alto relevo da vontade de poder, concorre pela expressão dum sofrimento radicalmente não humano, fetichista como tem de ser, para o gozo do espectador.

"Porque a emancipação em si não passava de uma formalidade, condição necessária mas muito insuficiente da liberdade. Era mais frequentemente um gesto simbólico do que um acontecimento que mudasse radicalmente a vida do escravo e as suas relações com o senhor. Assim, havia tendência para emancipar os velhos escravos à hora da morte, para se ter e lhes dar a consolação de uma morte de homens livres. (...) as libertações em massa de escravos, no séc.IV, sob a influência do cristianismo, tinham consequências éticas, mas não económicas."
"A sociedade romana" (Paul Veyne)
Hoje, na nossa sociedade, embora não exista, oficialmente, a escravatura, ainda são necessários os gestos simbólicos de emancipação. E, reveladoramente, em relação ao espectro desse poder, há muito tempo defunto, que foi o do pater familias sobre a mulher, os filhos e, precisamente, os escravos.
Sobre a sorte dos escravos, já Alain ironizava fazendo notar que se o interesse de qualquer comerciante é tratar o melhor possível a sua mercadoria, para que tenha um aspecto atraente e possa seduzir o seu cliente, por que não haveria o dono de escravos, que compreendesse os seus verdadeiros interesses, de se preocupar com a saúde, a educação e até a felicidade da sua "propriedade"?
Indo um pouco mais longe, por que não deveria ser dada ao escravo, apesar da precaridade da sua situação, a possibilidade de escolha ao nível do consumo e, dentro de certos limites constitucionais, até da política?
Por isso, e invertendo a fórmula de Paul Veyne, e sempre com ironia, podíamos dizer que a escravatura hoje só teria consequências éticas, mas não económicas.

O excelente programa de António Barreto, "Portugal - um retrato social", a passar na RTP1, é um momento da nossa consciência colectiva.
É preciso que a percepção que todos temos da mudança encontre nesse espelho que o sociólogo coloca diante de nós a sua nítida verificação, para percebermos até que ponto mudámos.
No episódio "Igualdade e Conflito", atinge-se o nervo daquilo a que temos de chamar, à falta de melhor, uma crise de identidade.
Quando vemos que o passado deixou de nos propor um modelo viável e que tudo tem de ser inventado e experimentado no próprio núcleo da sociedade, nas relações entre pais e filhos, então é porque já estamos muito "longe de terra".
O fenómeno mais impressionante nessa nova situação é, entre os jovens, a cultura da noite, misto de rito iniciático e laboratório da reestruturação social.
Nada é mais revelador do que a impotência desses progenitores que, numa tentativa de limitar os riscos, num oceano em que a droga e o álcool são como os recifes de Cila e de Caríbdis, vão esperar os filhos, de madrugada, à saída das discotecas.
Que não adianta moralizar, já concluíram todos esses pais.
O direito dos jovens de tomarem o destino nas suas mãos, mesmo antes de atingirem a maturidade psíquica e uma personalidade social, está aí para ficar, para o bem e para o mal.
Esse direito não foi decerto uma conquista, mas antes uma consequência necessária da liberdade e do maior poder económico das famílias.
E mesmo se é mais uma maldição do que uma benesse para muitos jovens, só pode significar que a adolescência vai acabar mais cedo e que a noção de responsabilidade ligada a certas condições físicas e psíquicas está em vias de passar a incluir o homem precoce.

"Já não há nobres, meu caro amigo, meta isso na cabeça. Eu conheci dois ou três, no tempo da minha juventude. Eram personagens ridículos, mas extraordinariamente caracterizados. Faziam-me pensar nesses carvalhos de vinte centímetros que os japoneses cultivam em vasinhos. Os vasinhos são os nossos usos, os nossos costumes. Não há família que possa resistir à lenta usura da avareza quando a lei é igual para todos, e a opinião juíza e senhora. Os nobres de hoje são burgueses envergonhados."
"Journal d'un curé de campagne" (Georges Bernanos)
O cónego de Motte-Beuvron é o autor deste discurso dirigido ao jovem pároco.
O castelão é seu sobrinho, por isso sabe do que fala, quando compara a nobreza daquele tempo aos "bonsai".
Os costumes estariam na origem dessa drástica redução social de algumas classes. Costumes que, em França, devem talvez mais à guilhotina do que à tesoura do podador.
Mas sabemos que noutros lugares não foi assim e, sobretudo, que hoje os costumes mudam tão depressa que só há classes-bonsai, miniaturas no Parque da Revolução.

"Se a pergunta "Por que é que as regras da lógica são aplicáveis à realidade?" pretende erradamente significar "Por que é que as regras da lógica se adequam às coisas e aos factos do nosso mundo?", então a resposta será que a pergunta parte do falso princípio de que elas se podem adequar, e se adequam efectivamente, a esses factos, quando não é, na verdade, possível predicar das regras da lógica que elas são "adequadas aos factos do mundo" ou "inadequadas aos factos do mundo". Não é possível fazer essa predicação, do mesmo modo que não seria possível fazê-la em relação ao Código da Estrada ou às regras do xadrez."
"Conjecturas e Refutações" (Karl Popper)
O que não quer dizer que as regras do Código da Estrada, por exemplo, sejam arbitrárias, visto que têm de ter em conta tanto a psico-fisiologia do condutor quanto alguns aspectos do mundo físico e do ambiente artificial.
Este realismo mínimo não é o mesmo, claro, que uma descrição do mundo.
Poderíamos, como morcegos numa caverna (desculpem-me a variação platonizante), aprender a evitar os choques com as paredes e com os outros quirópteros, sem com isso estarmos mais perto de descrever a caverna e ainda menos a sua envolvência.
Por isso, a lógica é absolutamente verdadeira consigo mesma e passível de um progresso ininterrupto no sentido da complexidade e da sua coerência interna.
Mas a única informação que através dela podemos ter da realidade é exploratória, como se aprendêssemos a voar entre as estalactites mais finas.

"Todo aquele que assume uma responsabilidade política acabará sempre por chegar a uma ocasião em que dirá como Hamlet:
"O tempo saiu dos gonzos: Que maldição
que me deu ter por missão reordená-lo!"
Reordenar o tampo significa renovar o mundo, e é uma coisa que podemos fazer, porque todos nós aparecemos, numa época ou noutra, como recém-chegados a um mundo que já lá estava antes de nós e aí continuará a estar depois de nos irmos, depois de termos deixado o seu encargo aos que nos sucederem."
"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)
Que maravilhosa síntese a do poeta!
Os velhos tempos estarão sempre fora dos gonzos para quem chega, mas para que sintamos alguma responsabilidade em remediar essa situação que vem de trás, é preciso que actue alguma espécie de "astúcia da Razão".
O prazer, a ilusão, a utopia têm de atravessar-se no caminho de modo a que, uma vez "à pega" com a realidade, só possamos lamentar a sorte e a "maldição" que, através da sedução, nos obrigaram a ter "filhos não desejados".

Steiner narra-nos a sua visita a casa de Lukacs, em Budapeste: "(...) quando tive de o deixar, vieram-me as lágrimas aos olhos; ele estava sob residência vigiada enquanto que eu ia voltar à segurança ou ao conforto de Princeton ou de outro lado qualquer. Devo ter dito qualquer coisa, e o desprezo que li no seu rosto era esmagador. "Você não compreendeu nada do que estivemos a falar. Neste sofá, dentro de vinte minutos, vai sentar-se Kadar." O ditador que o tinha colocado com residência vigiada. "É meu aluno. Trabalhamos frase a frase a Fenomenologia de Hegel. Você não compreende." De facto, eu não tinha compreendido. Este episódio bastou para me reeducar quanto ao bizarro mundo bizantino da intelectualidade marxista, da mistura de crueldade e de sério na qual operava."
"Entretien avec Ronald A. Sharp" (George Steiner)
Esta crueldade séria, nas palavras de Steiner. Séria quer dizer aqui necessária, sem sentimentalismo, que não se deixa inflectir por nenhuma espécie de romantismo, fosse ele o do herói, visto que o intelectual, neste caso, se desdobra no Sujeito hegeliano, presidindo ao desenrolar da lei histórica e no ente individual, cuja maior glória é compreender essa necessidade, mesmo quando nela desempenhe o papel de vítima.
É este o tema do célebre romance de Arthur Koestler, "O Zero e o Infinito" ("Darkness at noon").