quinta-feira, 12 de outubro de 2017
O JOGO DA BONECA
"O passado traz consigo um índex secreto (heimlichen Index) que o destina à redenção (Erlösung). (...) Existe um entendimento secreto (geheime Verabredung) entre as gerações passadas e a nossa. Na Terra, nós fomos esperados. A nós, como a cada geração precedente, foi acordada uma fraca força messiânica sobre a qual o passado faz valer uma pretensão (Anspruch). Esta pretensão, é justo não a negligenciar. Quem quer que professe o materialismo histórico sabe por que razões ( sabe alguma coisa sobre isso: Der historische Materialist weisz darum).
Walter Benjamin ("Illuminationen", citado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")
Se não existisse esse apelo do passado, se a herança não implicasse uma íntima vocação, poderíamos falar de uma verdadeira comunidade?
Derrida refere-se ao messiânico sem messianismo de Benjamin, a propósito do seu materialismo histórico, para relevar que, nesta medida, o "código marxista" era já de certo modo ultrapassado.
Com efeito, o conceito de dominante (em ideologia dominante, por exemplo) que se poderia reduzir ao truísmo da força ser sempre mais forte do que a fraqueza, é aqui posto em causa. O messiânico, mesmo sem um Messias, não é, pelo menos, da ordem da força.
A heterodoxia de Benjamin vai mais longe ainda quando compara "a lenda do autómato capaz de responder, numa partida de xadrez, a cada lance do seu parceiro e de se assegurar do êxito da partida." à sua réplica filosófica da "boneca chamada "materialismo histórico": "Ela pode audaciosamente desafiar quem quer que seja, se tomar ao seu serviço a Teologia, hoje, como se sabe, pequena e feia e que, ainda por cima, não ousa mostrar-se." (ibidem)
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
O TCHEKOV ESSENCIAL
"Peça inacabada para um piano mecânico" (1977-Nikita Mikhalkov)
Nikita Mikhalkov escolheu algumas personagens do teatro de Tchekov e fez um filme com essa temática: "Peça inacabada para um piano mecânico".
Sem o tempo, nem a economia das peças, não deixamos de reconhecer o tom genuíno, a atmosfera particular, o huis-clos techekoviano que o cineasta não abre mais do que o desejável, mesmo se grande parte do filme decorre em exteriores.
As figuras são nossas conhecidas: o médico que tem medo das estradas e é incapaz de sacrificar o mais estúpido dos prazeres, a ociosidade dos nobres que já não acreditam nos privilégios e por isso sentem a necessidade de constantemente recordarem a si próprios o seu "sangue azul" e a sua ilustração, fazendo gala de um darwinismo social, ou como o inútil do filho da casa que, embevecido pelo feminismo da consorte, se enternece com a ideia de doar os seus fraques aos mujiques.
O velho general dorme à frente de todos. A fé e o amor são traídos pelos melhores e os mais inteligentes, como Platanov. Este, numa cena que lembra o Murnau do "Nosferatu", depois de desmascarar a impotência do velho pretendente de Anna Petrovna, desliza pelo prado cacarejando um demoníaco falsete.
Julgando todo este grupo moralmente exausto, mas sentimentalmente refém, o credor de todos, filho de um operário, parece a demonstração da dialéctica hegeliana do senhor e do escravo.
Platonov é a consciência infeliz deste grupo que se entredevora, espantando o tédio com jogos de salão e foguetórios no rio. E o que mais impressiona é esse não arredar pé uns dos outros, por muito que se canibalizem. A solidariedade do grupo é-lhes mais cara do que a própria dignidade. Por isso, na cena final, todo o bando vem resgatar de braços abertos o rebelde Platonov que acaba de sofrer a última das humilhações com uma ridícula tentativa de suicídio.
Indiferente a este colectivo chilique, o rapazinho, sobrinho do darwinista, volta as costas ao sol da manhã e sonha, talvez, com um mundo sem raízes.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
OUTRAS MECÂNICAS
"É apenas com os progressos da civilização e da Razão que a subjectividade fortificada e a dominação consolidada reduzirão a festa a uma simples farsa. Os senhores introduzem a noção de gozo racional, como um tributo pago à natureza que não foi inteiramente domesticada; e tentam ao mesmo tempo neutralizar o gozo pelo seu uso e conservá-lo na forma superior da cultura; para aqueles que estão submetidos, eles tentam dosear esse gozo quando não os podem privar dele completamente. O prazer torna-se objecto de manipulação até que desapareça inteiramente nos divertimentos organizados. A evolução vai da festa às férias."
"La dialectique de la Raison" (Max Horkheimer e Theodor Adorno)
Este terreno é por de mais escorregadio. Que podemos saber da experiência subjectiva do primitivo? Por outro lado, parece ignorar-se a dependência do prazer em relação ao interdito e à disciplina. A organização não devia ser, à partida, contrária ao prazer. Mas sabe-se que Sade, guiando-se apenas pela razão, chegou ao sexo mecânico.
O conceito de dominação que perpassa nestas linhas confere ao poder uma falsa omnisciência. Não é de admirar que depois da mais-valia, o explorador se interesse pela própria vitalidade, numa economia já libidinal.
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
A ÓPTICA DO AMOR
Jesus e Madalena (Catedral de Chartres)
"É por isso que as mulheres um pouco difíceis, que não se possuem de imediato, das quais nem se sabe logo se algum dia poderão ser possuídas, são as únicas interessantes. Porque conhecê-las, aproximarmo-nos delas, conquistá-las, é fazer variar de forma, de grandeza, de relevo a imagem humana, é uma lição de relativismo na apreciação de um corpo, de uma mulher, bela quando se volta a percepcionar, quando retoma a elegância da silhueta no cenário da vida. As mulheres que se conhecem primeiro através da proxeneta não interessam, porque permanecem invariáveis."
"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)
Há aqui alguma perversão "voyeuse", que reduz o amor à imaginação. O corpo visto como um caleidoscópio imerge no mundo físico da óptica que transvasa da relação amorosa. E, singularmente, o que falta aqui, o aspecto moral do amor, surge como preconceito sob a forma da invariância, a propósito das mulheres fáceis.
Mas não é a figura cristã da Madalena ( não das madalenas de Combrai) o próprio desmentido da invariância?
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
O PARTIDO DO AMOR
"(...) se me tivessem perguntado em que é que - no decurso dessa tagarelice interminável, em que calava a Albertine a única coisa em que pensava - se baseava a minha hipótese optimista a respeito de possíveis complacências, eu teria talvez respondido que esta hipótese era devida (enquanto os traços esquecidos da voz de Albertine redesenhavam para mim o contorno da sua personalidade) à aparição de certas palavras que não faziam parte do seu vocabulário, pelo menos na acepção que ela agora lhes dava."
"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)
Há, claro, todo um preconceito nesta apreciação da jovem amiga que o visita em Paris, e perante a qual se encontra numa situação simétrica àquela em que tinha experimentado uma resistência (então, era ela que estava deitada), mas também perante o poder de uma presença fisicamente decepcionante, a ponto de, para guardar alguma coisa da imagem que o simples nome evocava, desejar, por momentos, fechar os olhos. Com efeito, pressupunha que essa mudança de vocabulário não era espontânea no meio social de Albertine. Isso sugeria-lhe como que uma perda de inocência propícia ao "partido do amor", como diria Stendhal. "'Selecção'(com o significado de elegante), mesmo para o golfe, pareceu-me tão incompatível com a família Simonet, como o seria, acompanhada do adjectivo 'natural', com um texto anterior de vários séculos aos trabalhos de Darwin."
Depois, o efeito de sugestão numa imaginação literária como a de Marcel de uma frase como: "C'est à mon sens, ce qui pouvait arriver de mieux...J'estime que c'est la meilleure solution, la solution élégante.", no que ela promete de uma evolução misteriosa, num sentido indefinido, mas tão cativante pela novidade que, contrariando o desejo manifestado várias vezes pela sua amiga de se despedir, a essas palavras a atraiu a si e a fez sentar de novo na beira do leito.
E Marcel, que não amava ainda essa "rosa à beira-mar", de pétalas tão defeituosas, como não podia ter deixado de se aperceber pela proximidade, começava, enfim, a vislumbrar o princípio completamente independente do físico que explica a paixão amorosa.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
CONIVÊNCIA
Martin Heidegger (1889/1976)
"É isso que confere a sua força sugestiva ao desejo de recomeçar com ela (a metafísica) desde o princípio, de questionar radicalmente, de esgaravatar a aparência com a qual a cultura fracassada recobre a sua culpabilidade e a verdade. Mas desde que esta pretensa demolição consentiu em pôr-se à procura de uma camada profunda, intacta, é que ela verdadeiramente se ligou à cultura que ela se vangloria de demolir. Enquanto os fascistas tonitruavam contra o bolchevismo cultural destruidor, Heidegger tornava a destruição respeitável como dispositivo para penetrar o ser. A crítica da cultura e a barbárie não vão sem uma certa conivência."
"Dialectique négative" (Theodor Adorno)
Talvez essa afinidade secreta entre o que parece mais elevado (a crítica em nome do Ser ou da Verdade) e o mais vil, a barbárie que, às vezes, é só o que parece radicalmente diferente, como o eram todos os não-Gregos, explique a vertigem de Heidegger, a sua estranha fascinação por um poder que justamente pretendia criar o novo, a partir de supostas raízes.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
A IMPORTÂNCIA DO CABELO
"O pobre homem, pesado e mole, não conseguia, nesta noite suprema da monarquia, estar de pé até ao fim; dormira uma hora, e acabara de levantar-se. Via-se pelo penteado, liso e desfrisado de um lado. Foi então que se pôde avaliar o perigo dessas modas pérfidas na Revolução. Quem pode estar certo, em tais crises, de ter à mão o valete cabeleireiro?...Assim estava ele, e assim os ineptos o deixaram descer, mostrando-o e passeando-o. Para cúmulo do mau augúrio, estava de roxo, cor que é o luto dos reis; era, aqui, o luto da realeza."
"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)
Nas horas que precedem o 10 de Agosto de 1792 que iniciou o compasso trágico da Revolução e ditou a sorte do rei, este não estava à altura dos acontecimentos.
Mais uma vez, a importância do detalhe, do minúsculo na grande história. É ainda a tese de Pascal e do "nariz de Cleópatra". Este desfrisado da cabeleira de Luís XVI, a balofa figura que ganhava coragem só na religião. Michelet diz, noutro passo: "A conversa tomava uma feição desagradável; toda a gente estava emocionada, excepto talvez o rei, que acabava de deixar o seu confessor, tendo posto a consciência em ordem e não se preocupando muito com o que poderia acontecer."
A fatalidade está na cabeça dos homens apenas. A importância de cada gesto, que nos parece de antemão poder ser delimitada, atribuindo-se a este a força e àquele a pusilanimidade, só seria definitiva se os homens nunca se excedessem e se não fossem, de bom ou de mau grado, arrastados pela onda que cavalgam ou que os submerge.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
A ACTUALIDADE DOS ESPECTROS
Karl Marx (1818/1883)
"Os homens fazem a sua própria história (ihre eigene Geschichte), mas não a fazem espontaneamente (aus freien Stücken), nem nas condições escolhidas por eles só, mas antes nas condições que encontram, aquelas que lhes foram dadas e transmitidas (überlieferten Umständen). A tradição de todas as gerações mortas (aller toten Geschlechter) pesa (lastet) com uma carga muito pesada sobre o cérebro dos vivos [Marx diz:"lastet wie ein Alp", quer dizer "pesa à maneira de um fantasma", um dos seres espectrais que dão pesadelos (...)]. E mesmo quando parecem ocupados a se transformarem, a eles e às coisas, a criar alguma coisa de completamente novo (noch nicht Dagewesenes zu schaffen), é precisamente nessas épocas de crise revolucionária que eles evocam [conjuram, precisamente, beschwören] temerosamente os espíritos do passado ( beschwören sie ängstlich die Geister der Vergangenheit zu ihrem Dienste herauf ), que eles lhes pedem emprestados (entlehnen) os seus nomes, as suas palavras de ordem (Schlachtparole), os seus trajes, para aparecer na nova cena da história sob esse disfarce respeitável e com a linguagem emprestada (mit dieser erborgten Sprache),"
"Le dix-huit Brumaire de Louis Bonaparte" (Karl Marx, comentado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")
Este dístico, apesar da ruína que atingiu o resto do edifício, tem ainda hoje um ar lavado e actual. E, reflectindo a verdade de uma continuidade entre o passado e o presente (não só sob o aspecto material, mas da própria subjectividade) parece infirmar o próprio conceito de Revolução, o qual, a partir da Revolução Francesa, ganhou o sentido de uma tabula rasa sobre o passado. Mas é o próprio Marx, noutro passo, que reivindica para as revoluções do futuro (depois do século XIX) a libertação dos "espíritos do passado" e do recurso a uma linguagem emprestada, consequentemente, de resto, com a nova fé no materialismo histórico.
Depois havia aquela curiosa necessidade de uma máscara respeitável, como se vigorasse a velha tradição platónica de, em política, não se poder prescindir dos mitos, nem transpor o fosso entre a elite dos que sabem para onde vão e a massa anónima que deve ser "levada", como um animal susceptível de movimentos bruscos e perigosos.
Claro que Marx não se refere naquele trecho a uma hipocrisia implícita dos agentes, mas à sua falta de liberdade. Se tanto a vanguarda quanto a massa pudessem assumir plenamente o que são, com nomes que nunca se viram e um discurso nunca antes ouvido, é provável que ninguém se entendesse.
E talvez que a necessidade de todos os actores falarem a mesma linguagem seja o princípio do descaminho.
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