quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


(José Ames)

O QUE SÓ EU POSSO FAZER


La Varende, Jean de: Louis XIV

"Na relação com o outro que ele ainda não interpretou, esta presença para si mesmo é de imediato desfeita pelo outro. O sujeito, o famoso sujeito que repousa sobre si próprio, é derrubado por outrem, por uma exigência ou uma acusação sem palavra e à qual não posso responder por palavras, mas cuja responsabilidade não posso recusar. A posição do sujeito é já a sua deposição."

"Dieu, la Morte et le Temps" (Emmanuel Lévinas)


O Eu parece estar no começo e no fim de tudo, mas "pela história, pode saber o que era antes dele."

Como aquele monarca que julgava poder confundir-se com o Estado (mas estava, de facto, na mão de médicos, confessores e amantes), o Eu pode julgar-se livre mesmo antes de encontrar alguém.

Mas Lévinas diz que só podemos ser livres depois desse encontro, depois de termos de responder por nós. "A liberdade aqui será pensada como a possibilidade de fazer aquilo que ninguém poderá fazer em meu lugar".

A ligação com a necessidade (de sermos o que somos) é evidente. E a brincadeira, tão comum entre os homens, de não podermos ser substituídos em certas emergências vitais, só reforça essa ligação.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010


Parada do Rio (José Ames)

DADA



"Não mais pintores, literaturas, músicos, escultores, religiões, republicanos, realistas, imperialistas, anarquistas, bolcheviques, políticos, proletários, democratas, burgueses, aristocratas, exércitos, polícia, pátrias, enfim chega de todas estas imbecilidades. Mais nada, mais nada, nada, nada, nada, nada. Desta maneira, esperamos que a novidade, que será a mesma coisa que aquilo que não queremos, se imporá menos apodrecida, menos egoísta, menos mercantil, menos obtusa, menos imensamente grotesca. Vivam as concubinas e os concubistas. Todos os membros do movimento Dada são presidentes."

"1º Manifesto do Movimento Dada"


Entre 1916 e 1921 deu-se a crise Dada. A cacofonia tomou a palavra contra tudo e contra todos. A arte procurou escapar aos dogmas estéticos e aos hábitos em que se instalaram conceitos como o de beleza e de perfeição. Appolinaire proclama a busca da fealdade e Ribemont-Dessaignes o seu fraco pelo "barroco, o ridículo, o baixo, o grosseiro, o desequilibrado, o imprevisto ou o informe".

O valor que o espontâneo, o não-pensado adquirem no Dada explica todo o surrealismo que se lhe há-de seguir, com a ideia do inconsciente como lugar da criação.

Esta crise não tem importância senão como sinal dos tempos. Já se ouve o canto do cisne de Weimar e a futura traição dos intelectuais é anunciada pelo niilismo na arte.

O problema é que os sinais são sempre retrospectivos. Coisas tão distantes dos problemas reais como o dadaísmo ocupam hoje a intelligentzia e a classe política, mas pertence aos historiadores saber se a decadência já começou.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


(José Ames)

NAS NUVENS


"Nas nuvens" (2009-Jason Reitman)

Ryan Bingham (George Clooney) era a pessoa ideal para poupar aos Recursos Humanos das empresas o drama de dizer a alguém que está despedido. É que os anos de trabalho parecem sempre mais do que a simples contrapartida do salário, e as vítimas falam sempre em sacrifício e dedicação, dando quase nenhuma importância às razões "objectivas" de quem os despede.

Mas Bingham, que era um desenraizado (gostava de dizer que morava nas nuvens, com os aviões), identificava-se de tal modo com esse nomadismo aéreo que era com alguma superioridade, derivada da experiência, que anunciava a "boa nova" duma vida sem bagagem supérflua nem residência fixa, aos que constavam da "lista negra".

Tinha até o hábito de discursar, nas sessões de formação, com uma mochila ao lado para mostrar que todos nós carregamos demasiadas coisas ou nos deixamos prender por demasiados laços humanos, como se estivesse a pensar no exemplo de Gandhi que, no dia em que se partiu o espelho diante do qual fazia a barba, se considerou um pouco mais livre.

Em suma, o cinquentão que já não tem tempo para recomeçar, ou o chefe de família que deixa de poder pagar as prestações da casa e os estudos dos filhos devem considerar o desastre que lhes caiu em cima como uma nova oportunidade (talvez possam enfim começar a fazer aquilo que sempre gostariam de ter feito).

Estamos em tempos de grande mudança quando as virtudes do individualismo e do "roaming" das lendas do Oeste nos surgem sob o tom da crítica.

A evangelização de Bingham chega ao fim quando a sua própria empresa decide dar o "salto tecnológico", das entrevistas pessoais para o despedimento através da "Webcam", e o pregador sem bagagem se transforma em mais um burocrata.

domingo, 31 de janeiro de 2010


Luines (José Ames)

O PODER DOS INSTRUMENTOS



A luneta de Galileu


"Gostaria de pensar que com uma luneta maior eu seria mais sábio; todavia não é tão simples; à medida que um instrumento é mais poderoso, é preciso pensar mais para tirar alguma coisa dele. O microscópio confunde o ignorante, em nada o instrui."

"Vigiles de l'esprit" (Alain)


Diante de qualquer computador pessoal, somos menos instruídos do que confundidos. Para fazer com ele aquilo de que precisamos, não temos de pensar mais à medida em que eles se tornam mais potentes. É o contrário que acontece, com os ambientes amigáveis e os ícones que podemos tocar ou abrir com um clique, em vez de escrever a instrução como se fazia nos primeiros sistemas operativos.

É verdade que um grupo de pessoas tem de pensar esses maravilhosos instrumentos, pelo menos enquanto não inventarmos as máquinas que se desenvolvam a elas mesmas. Mas a imensa maioria serve-se dos computadores como se fossem obra de um Demiurgo.

Contudo, diferentemente dos que nos antecederam, não precisamos dum Darwin para nos explicar como evoluíram as espécies.

Sabemos muito bem que antes do computador apareceu a máquina de calcular e que os gigantes da informática podem nascer numa garagem.

sábado, 30 de janeiro de 2010


(José Ames)

A OBSESSÃO PELO DÉFICE


http://blog.lsinsight.org/uploaded_images/Obsession


Parece legítimo alguém se preocupar com o facto de dever dinheiro e das suas despesas ultrapassarem o seu rendimento. Mas se transpusermos a situação para um governo, tudo muda porque aí entramos na economia ou na economia política que, como se sabe, não são ciências exactas e, nesse domínio, os milagres passam a ser possíveis.

Claro que há uma grande diferença entre ter de responder por uma política e criticar essa política sem ter de responder por nada. No primeiro caso, a situação financeira e a economia são sempre um teste à capacidade de governar e por isso são algo de real. No segundo, apesar da crítica ser o oxigénio da democracia, são, na maior parte dos casos, palavras armadas que produzem tão-só o facto político.

É por isso que a preocupação pode dar lugar ao conceito de obsessão pelo défice. Note-se que a obsessão é do foro psiquiátrico e já não são precisas soluções alternativas porque o objecto da preocupação desapareceu e, em vez dele, como por milagre, temos apenas o sujeito doente.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


Beja (José Ames)

A OBJECTIVIDADE DAS EMOÇÕES


Ludwig Van Beethoven (1770/1827)

"De acordo com a minha teoria objectivista (que não nega a auto-expressão mas acentua a sua completa trivialidade), a função realmente interessante das emoções do compositor não é que devam ser expressas, mas que podem ser usadas para testar o sucesso ou a adequação, ou o impacto da obra (objectivos). O compositor pode usar-se a si mesmo como uma espécie de corpo experimental, e pode modificar e reescrever a sua composição (como Beethoven muitas vezes fez) quando está insatisfeito com a sua própria reacção; ou pode descartá-la por completo."

"Unended Quest" (Karl Popper)


A questão parece-me tão óbvia que nem consigo imaginar alguém que escrevesse alguma coisa de jeito sem a "provar" no seu foro interior. Por maioria de razão, numa arte como a música, em que se trata menos de julgar do que sentir e "ver o efeito".

Mas alguém, como se diz que era Mozart, que fosse capaz de ter toda a música na cabeça poderia, além disso, apreciá-la visualmente, pela inteligência da sua construção.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


(José Ames)

A PAPINHA ESCOLAR



"E a directora expõe-me um critério que me impressiona. A indolência nos estudos não vem da sua dificuldade, como crêem os demais, mas da razão contrária. Os meninos e os jovens deparam-se em vez disso com estudos demasiado fáceis e que eles superaram há muito tempo, pelo menos na matéria do seu agrado; daqui a atonia mental. É preciso dar maior crédito à precocidade e à capacidade do homem. Este princípio é tão justo e tão sufragado pela experiência que quero oferecê-lo por minha vez ao leitor."

"Viaggio in Italia" (Guido Piovene)


Este é um passo dos apontamentos da viagem por Itália de Piovene, no princípio dos anos cinquenta. Aqui trata-se da escola Montessori criada pela indústria Falck em Sesto S. Giovanni, na Lombardia.

O que vemos é que, mesmo antes da televisão e dos jogos electrónicos, o ensino "mastigado", com a alça baixa, já fazia os seus estragos.

Hoje, um outro inimigo dum ensino à medida do homem são as estatísticas. Podemos suportar o crescimento real da iliteracia, mas não uma opinião desfavorável quando, no estrangeiro, nos tiram um retrato de grupo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Estremoz (José Ames)