sexta-feira, 10 de outubro de 2008


Matosinhos (José Ames)

AINDA NÃO


"Madadayo" (1993-Akira Kurosawa)


Notando uma nuvem de fumo ao entrar, o velho lembra aos seus alunos que é proibido fumar na sala, para logo a seguir se confessar culpado do mesmo vício que faz com que algumas vezes chegue atrasado.

O professor de alemão, com 60 anos, anuncia então que se se vai retirar para se dedicar à escrita.

Com esta anedota e a reacção dos jovens, percebemos por que o mestre se fez amado e durante anos a fio, de facto, até aos 77 anos, quando morre sonhando com um jogo da infância, recebeu a homenagem de um numeroso grupo de fiéis.

De todas as vezes, no seu discurso de aniversário, ele profere as palavras sacramentais: Madadayo (ainda não). Como no jogo das escondidas, ele responde que ainda não está pronto à morte que vem procurá-lo.

O prenúncio de que o jogo está a acabar é representado pelo episódio central do gato chamado Nora, por quem o velho se afeiçoa a ponto de ficar destroçado com o seu desaparecimento, para consternação de todos os amigos.

Essa fraqueza que se transforma em melancolia é como o vício do tabaco: revela a exposição à morte, pois nunca estamos suficientemente "escondidos".

Os antigos alunos sempre o consideraram de "oiro maciço", mas tirando uma alusão ao "Fausto", não sabemos o que é que eles aprenderam de alemão. Mas o mais importante talvez seja o espírito que pairava à sua volta e que fazia os outros sentirem-se em casa.

Esse espírito é difícil de definir, porque mais do que amizade era feito de admiração. E o mais estranho é que nem o amor assolapado a um gato a podia pôr em causa.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008


(José Ames)

O SALÃO DAS MULHERES



"Ela também tem consciência, estou certo disso, de que o salão é a única arte de representação da época burguesa que não serve o ego masculino ou a vaidade masculina e que não manipula as mulheres só para gratificação dos homens, como a ópera e o bailado. Os salões são dirigidos, geridos e moldados por mulheres, servem para evidenciar as mulheres e permitem-lhes controlar as coisas."

"Memórias de um economista" (Peter Drucker)


Os salões tiveram grande sucesso, sobretudo, em França. Proust descreve-os como um entomologista, com alfinetadas aqui e ali a esses aristocratas que sabiam conciliar a extrema amabilidade com o absoluto desprezo. Mas não há dúvida que é Madame e não Monsieur Verdurin que pontifica no seu salão.

Drucker compara esta "arte de representação" aos antigos mistérios eleusinos ou minóicos, quando as sacerdotisas "aparentemente fora do palco, controlavam as almas enquanto os vulgares homens dominavam corpos e espíritos."

Este podia ser até um exemplo feliz de como os sexos abordam a questão do poder. E é tentador encontrar nessa diferença o que distingue, por exemplo, a atenção no homem e na mulher. Pertence ao anedotário sexual a capacidade feminina de manter vários focos simultâneos da sua atenção, assim como ( e talvez exista uma ligação desconhecida entre estes dois fenómenos) a multiplicidade das suas zonas erógenas, as quais se encontrariam muito mais concentradas no homem.

Se aproximarmos estes tipos de atenção e esta erótica diferenciada das formas do poder, logo pensamos em como, no homem, são naturais a centralização e a especialização e à mulher o contrário disso, como o tipo de relações que se estabelecem no salão burguês ilustraria.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Granja (José Ames)

A MULHER-A-DIAS DE CASANOVA



"A estupidez, segundo ele, é pior que a maldade. Esta última pode ser punida e emendada, mas a estupidez, essa corta-nos as pernas e a respiração. É o que acontece com a mulher-a-dias que acaba de lhe deitar fora um capítulo inteiro do seu manuscrito porque viu papéis usados e riscanhados sobre a mesa. Não tocou no papel branco. E ele tem de fazer tudo de novo.

As pessoas serão más por serem estúpidas, ou estúpidas por serem más? Poderemos mudar três vezes de opinião sobre o assunto durante um dia (vendo bem, a mulher-a-dias de Casanova talvez fosse má, mais ainda do que ele supunha)."

"Casanova, o admirável" (Philippe Sollers)


A mulher-a-dias de Casanova teria hoje razão se tivéssemos passado um rascunho para o computador. Ela estava apenas desfasada do seu tempo. Teria ela imaginado que ele escrevia para pôr ordem nos seus pensamentos ou como quem desfia as contas dum rosário?

Ante a alternativa que Sollers nos propõe, ser-se mau por estupidez parece-me a mais conforme à tradição filosófica. Alain dizia que méchant é o que cai mal (mal échoir), logo que não é livre no momento em que perde o equilíbrio. Era também a opinião de Platão: ninguém é mau voluntariamente (com verdadeiro conhecimento).

Por outro lado, é uma verdade psicológica que a maldade, seja ela o que for, nos torna estúpidos, monomaníacos, apresentando-nos o mundo à medida da nossa paixão.

Casanova era capaz deste tipo de maldade. "Para se vingar de alguém, corta o braço de um morto e mete-o, de noite, entre os braços de alguém que está a dormir e que morre de medo." Estaria aqui a origem daquela cabeça de cavalo que se vê no primeiro "Godfather", o filme de Coppola?

terça-feira, 7 de outubro de 2008


Génova (José Ames)

DESONERAÇÃO


http://www.blog.speculist.com/archives/brain.jpeg


"É precisamente contra este peso da pessoa culta que se ergue a vaga de desoneração provinda dos novos media. (...) É verdade que o utente não pára de escolher - na medida em que, à sua maneira, tem de prestar justiça à qualidade cumulativa de acontecimentos cognitivos que se sucedem uns aos outros. No entanto, o que recolhe não são experiências, isto é, complexos de saber integrados sob forma pessoal, narrativa e conceptualmente ordenados: são endereços onde poderá dispor de agregados de saber mais ou menos formatados se, por uma razão ou por outra, quiser recorrer a eles."

"Palácio de Cristal" (Peter Sloterdijk)


Desonerar é também aliviar a carga da memória que na escola de outros tempos, dizia-se, era a principal função do saber. Decorar os nomes dos rios e dos seus afluentes ou das estações da linha de comboio ( a propósito, no filme de Kurosawa, "Madadayo", há um ex-aluno que homenageia o velho professor recitando o nome dos apeadeiros durante todo o convívio, como um autómato ), ou aprender a história dando relevo à narrativa e às personalidades era algo que permanecia gravado, mas sem ajudar à compreensão das coisas.

Foi esta ideia de que é melhor ensinar a pensar do que sobrecarregar a memória que motivou alguma vontade reformista.

Infelizmente, em vez de se ensinar a pensar, promoveu-se o uso de conceitos ideológicos "passe-partout" (como o de sistema e o de estrutura) que prepararam a entrega da inteligência às modernas ferramentas (as calculadoras e os "Magalhães").

Como diz Sloterdijk, não sabemos mais, nem compreendemos melhor, mas julgamos saber o endereço onde se pode saber, se um dia precisarmos.

O resultado é que o saber, de facto, não nos modifica, porque não está em nós. É um álibi que permite apenas considerarmo-nos mais avançados do que, por exemplo, o homem da Renascença.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


(José Ames)

A FÉ TÉCNICA



"O século dezoito foi testemunha do fim da retórica, i.e. do fim duma fé técnica na comunicação. (...) A manipulação consciente das formas era uma das possibilidades, outras fizeram uso da paradoxalização, da ironia e do cinismo. Por outras palavras, o erro comunicacional foi notado e depois adoptado como forma de comunicação. De maneira a evitá-lo, foi cometido deliberadamente. Deste modo uma pessoa tinha a garantia de não ser censurada por não saber o que estava a fazer ou por não apreender imediatamente os meios que tinha à disposição. Foi esta forma que tão bem se adaptou ao Iluminismo."

"Love as passion" (Niklas Luhmann)


Como diz Luhmann, há sentido que se perde quando certas palavras são proferidas. O dito e o não-dito, na relação com outra pessoa, podem ter valores desiguais, servirem a uma e serem prejudiciais à outra.

A incomunicabilidade pode estar no âmago da intimidade. A corrente passa, e é a verbalização que provoca o curto-circuito.

Na era da publicidade e das comunicações de massa, por outro lado, a diferença entre a verdade e a mentira tornou-se uma espécie de jogo semântico. Ninguém toma a mensagem da publicidade a sério (excepto os publicitários) e este reflexo contaminou igualmente a política.

Tal como no século dezoito, entrar no jogo é evidenciar que sabemos o que as palavras valem. Depois da perda da fé nas palavras, verificou-se, naquele século, um regresso à natureza, com o amor romântico,

E é isso que nós já não podemos fazer. Nem no amor podemos já considerar a sexualidade como natureza.

domingo, 5 de outubro de 2008


Alcácer do Sal (José Ames)

O ADMIRÁVEL


Philippe Sollers


"Escrevem-se maus romances sinistros, anda-se à volta, sem entrar, em torno do castelo interior. Existe agora uma caricatura do erotismo, tão pesada e ridícula como a da censura. Existe toda uma má literatura que floresce num mercado controlado por patetas, tendo como princípio fazer crer que toda a gente é dotada para a sexualidade, como para a pintura ou para a música."

"Casanova, o admirável" (Philippe Sollers)


Mas, enfim, M. Sollers, quando a bitola é o prazer, não há maior artista do que o próprio, ninguém que melhor conheça o seu instrumento!

A fraqueza dos discursos sobre um homem como Casanova tem origem na pretensão moralista ou na ignorância da sua arte (por só fazer sentido para nós a "miséria sexual" de hoje).

Mas toda a gente é dotada para o prazer, mesmo os masoquistas. Donde, a sexualidade, aqui, seja muito mais do que o prazer. Sollers não vai mais longe. Repare-se como a palavra amor não se pode aplicar aqui, nem sequer o nome de Eros. Há, de facto, um discurso obrigatório sobre o erotismo, que é o da pornografia. Ele é tão asséptico e insignificante como a personagem cinematográfica de Casanova.

Não a de Fellini, apesar de o cineasta achar o personagem desinteressante, não o reduziu à figura dum atleta do sexo. Entrevemos o que o seu sonho tem de destrutivo e como só podia ter futuro na literatura.

sábado, 4 de outubro de 2008


(José Ames)

ETNICAMENTE CORRECTO


Henry Morton Stanley


"No período de poucos anos, o jornalista e explorador de África Henry Morton Stanley celebrou, por conta do rei Leopoldo II da Bélgica, pelo menos quatrocentos "tratados" com chefes africanos que estes interpretaram na maior parte dos casos como acordos de amizade, ao passo que os Europeus viram neles tratados de submissão e contratos de exploração."

"Palácio de Cristal" (Peter Sloterdijk)



A desigualdade nessas relações entre a nação desenvolvida e o reino tribal não era evidente para ambos os lados. À ilusão por parte de uns correspondia o cinismo dos outros.

Isso, mesmo se esta é uma leitura moralista, era sempre preferível à nua relação de forças.

Mas o ponto é: em que pé se deveriam, se poderiam estabelecer tais relações?

O "respeito" etnológico levaria simplesmente à abstinência de quaisquer contactos. A qualquer coisa de tão imponderável como, em relação a nós, se fosse o caso duma extrema precaução nos avanços da tripulação dos ovnis.

A panela de ferro nunca deveria encontrar a panela de barro.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008


Bath (José Ames)