
Montemor-o-Novo (José Ames)

Gosto de “Ran”, o Rei Lear de Kurosawa. Mas gosto ainda mais da música (Toru Takemitsu). Do hieratismo daqueles sons teatrais, do silvo dos violinos, dos estalidos da percussão. E quando a orquestra irrompe e as cenas de batalha são o único contraponto ao doce desespero da melodia, parece que é tudo um sonho, o som e a fúria.
No cinema, já vi outras batalhas a quebrarem-se no silêncio. Mas esta música instala a distância dum mundo que se perde, no incompreensível e na impotência.
Como a arte migra com o olhar e a paisagem, se oiço esta música ao volante, já não me parece que um mundo acabou, mas que é a estrada que se transfigura em indefinida nostalgia.

"Em 'Risk: a Sociological Theory', Luhmann descreve a inevitável existência de um paradoxo cada vez que o observador nos dá conta do seu processo de decisão (decision-making). 'Cada observador, declara, usa a distinção para indicar um ou outro dos lados. Atravessar de um lado para o outro requer tempo, portanto, o observador é... incapaz de observar os dois lados simultaneamente'. Além disso, o observador é incapaz 'de observar a unidade da distinção enquanto faz uso dela, porque para isso teria que distinguir em relação à primeira distinção.'"
"Niklas Luhmann's Theory of Politics and Law" (Michael King e Chris Thornhill)
A conclusão é que a observação não se pode observar a si mesma, conforme diz Luhmann.
Consequências disto?
Estou a pensar no desenho de Escher da mão que desenha outra mão. Se a mão desenhada for todo o desenho possível da mão que desenha, temos uma imagem perfeita do observador de Luhmann.
O observador do desenho das duas mãos percebe a circularidade, mas tem, também, de fazer uma distinção entre o trabalho de Escher e, digamos, tudo o que já não é desenho, nem Escher.
Mas como nas matrioskas, esta inferência só pode ser tirada por um terceiro observador.
No sistema político, por exemplo, onde funciona o código do governo/oposição, segundo os termos deste sociólogo, o discurso de cada partido é o resultado da reflexão que faz sobre si próprio e sobre o seu ambiente (dentro dele, os outros partidos), "desenhando a própria mão".
Porque, como diz Luhmann, para qualquer partido, os outros partidos são "caixas negras" sobre as quais, apesar da ignorância fundamental, tem que desenvolver uma teoria, sobretudo, para consumo interno.

"O autor não partiu para esta tarefa na condição de erudito, não buscou orientação junto de teóricos da raça nem de sociólogos, mas, como esclarece a editora, "baseia-se na observação directa". É certamente uma observação muito despreocupada, mesmo ousada, mas ao mesmo tempo delicada, no sentido daquela expressão de Goethe que diz que "existe uma delicada empiria que se identifica intimamente com o objecto, e assim se transforma na autêntica teoria."
"Pequena História da Fotografia" (Walter Benjamin)
Benjamin refere-se a August Sander, autor de "O Rosto deste Tempo, Sessenta Fotografias de Alemães do Século XX")
Se tivermos em conta que se trata de fotografia, a "observação directa" não apresenta aqui as mesmas dificuldades do que, por exemplo, na literatura.
Mas o que me interessa nesta citação é a frase do poeta.
Porque a experiência que "se identifica intimamente com o objecto", se fosse possível, não obedeceria às condições de qualquer teoria.
Isso seria conceber uma ciência da intuição e, logo, incomunicável.
Não é dizer que a intuição não jogue um papel muito importante na descoberta científica, mas nesse estádio ainda não faz parte do mundo da comunicação nem de qualquer sistema, científico ou outro ( a não ser o psíquico).
"A Via perfeita não conhece nenhuma dificuldade,
a não ser que ela se recusa toda a preferência."
Tao-hsin
Simone Weil citava este poema e o pensamento Zen de que a afirmação e a negação correspondem a uma visão parcial, competindo ao homem justo apreender a unidade dos contrários, sem se fixar no bem e no mal.
Encontra-se aqui, talvez, uma das raízes do que, numa fase tardia do pensamento weiliano, se assemelha tanto com o quietismo e a passividade.
O seu próprio conceito de "attente" (hupomone, no sentido de paciência perseverante) é uma recusa de escolher, de dar um passo sem se sentir "chamada".
E essa é uma das mais surpreendentes viragens numa vida activa, feita de tomadas de posição, no campo sindical e político, e de testemunhos de compaixão por todas as formas de injustiça, por mais longínquas, no espaço ou no tempo.
Esta doutrina da unidade dos contrários foi, como se sabe, um dos pilares do hegelianismo "vulgar". E a síntese no movimento dialéctico é perfeitamente compatível com o fatalismo e a passividade.

"No esquema de Luhmann todas as auto-descrições da sociedade são baseadas no paradoxo e na tautologia - a não observabilidade do observador desse observador-em-operação. Consequentemente, o problema para os sistemas sociais não é evitar o paradoxo ou a tautologia mas interromper a reflexão auto-referencial com o fim de evitar puras tautologias e paradoxos e sugerir auto-descrições societais com significado."
"Niklas Luhmann's Theory of Politics and Law" (Michael King e Chris Thornhill)
Este novelo de abstracções é afinal luminoso. E podemos, graças a uma transposição de conceitos, encontrar-lhe mesmo uma filiação marxista.
A auto-descrição é, evidentemente, a ideologia com que os sistemas cobrem a sua "nudez".
O paradoxo do observador sempre esteve no cerne de toda a descrição do mundo. É sempre de um ponto de vista que ela é feita, ponto de vista que, por razões de poder, tem pretensões à "ubiquidade".
Por fim, as grandes palavras, como se sabe, a retórica de uma maneira geral, sugerem que os problemas não são ditados pela nossa forma de os vermos, pela ideologia, mas que são os problemas reais da sociedade. A bem da Nação, mais uma vez.
A cláusula de actualização que Marx parecia desejar para o seu próprio pensamento, foi ignorada pelos diversos marxismos, especialmente quando se tornaram na ideologia oficial. Essa cláusula implica que o "método" não se torne o ponto cego da analise das "situações concretas".
O paradoxo de Luhmann tem, pois, toda a pertinência, mas não tem solução.
Sempre cada sistema tomará a palavra como se não fosse ele próprio a determinar o código da sua verdade.

"(...) uma declaração de amor, para ser absolutamente convincente, exigia sempre uma segunda declaração. No século dezassete, esta tinha sido a "declaração do seu nascimento"; era preciso dizer ou provar que o amante era um príncipe ou um pretendente do mesmo nível da dama. No século dezanove isso foi substituído pela declaração da intenção de se casar."
"Love as Passion" (Niklas Luhmann)
A ideologia do amor, ou a sua semântica, como Luhmann prefere chamar-lhe, tem, assim, vindo a separar-se da estratificação social.
No nosso tempo, nem uma segunda declaração se torna necessária. O problema é que, reduzido a uma única declaração, o amor depende da sua capacidade de exprimir, de forma convincente, a sua sinceridade, e isso é cada vez mais problemático, porque nem o próprio tem sobre isso um critério seguro. Não se trata apenas de ser sincero no momento, mas ao longo duma relação complexa. "Deveria a outra pessoa engatar-se à nossa temperatura, como um termómetro?"
É por isso que essa prova é confiada à sexualidade, que substitui a intensidade das emoções à sua transparência.

"A exclusão da sexualidade presumivelmente implicava também uma relação escondida com o sistema social estratificado. A absorção sem reservas da atracção sexual pelo código do amor teria deixado aberta a porta à promiscuidade de todas as classes. A Marquesa de M. enfatizava nas suas cartas que não precisava de se apoiar na sua virtude para se defender dos admiradores burgueses; sendo o bom gosto tudo o que era requerido em tais casos."
"Love as Passion" (Niklas Luhmann)
Não é esse o drama de Lady Chatterley, no romance de D.H. Lawrence?
A partir do momento em que a ideia da virtude é objecto de exame, dentro da tendência para a "individualidade reflexiva", o bom gosto não é suficiente para evitar a "promiscuidade".
Para Lady Chatterley, o bom gosto era até suspeito porque se encontrava no caminho do amor romântico e da consciência social.
Esta demarcação social pelo gosto, longe de ter passado à clandestinidade, nos nossos dias, foi indexado ao dinheiro e ao consumo de prestígio, pelo que tem um futuro muito promissor, mesmo se quase deixou de funcionar no campo sexual.

“Alguns dias na vida de Oblamov” (1979-Nikita Mikhalkov) traça-nos um quadro melancólico da vida de um preguiçoso, dotado do melhor coração do mundo. Das primeiras cenas, em que somos levados com demasiada facilidade ao desprezo dum modo quase vegetativo de viver, entramos na verdadeira intimidade deste personagem terno e inteligente que se transfigura ao contacto da amizade e do amor.
O amigo Soltz, em tudo tão oposto no temperamento e no carácter a Oblamov consegue despertar o eterno dorminhoco, mostrá-lo nos salões, levá-lo a passear e a viver. Oblamov, que não gosta de música, fica trespassado pela “casta diva” cantada por Olga, a brilhante descoberta do seu amigo. O romance que esta mulher sabe fazer viver por inspiração de Soltz nunca se saberia o que representava finalmente para ela, se não fosse a cena das lágrimas desastradamente presenciada. Oblamov compreende que o amigo arriscara o seu amor por amizade e que não tem o direito de se mostrar ferido por Olga contar com zelo de discípula ao alemão os progressos no amor do preguiçoso.
Entre os dois homens há uma corrente forte que os liga à infância comum e aos sentimentos populares. E aquele que triunfa na vida segundo a opinião, o que viaja e conquista os corações femininos não é o mais feliz dos dois. Há uma sabedoria acima do tempo – é delicioso o diálogo sobre a política que trava com o hóspede incondicional, espécie de testemunha amorosa do oculto na lentidão de Oblamov – nesta figura do romance de Gondartchevsky. E o que mais impressiona é o quanto todos precisavam da sua presença e da sua simplicidade para encontrar um clima de felicidade. O espectador caminha desta forma, do leito amarrotado e informe para o céu de Platão.
A infância num país que vive ao ritmo das estações e conhece os prazeres do sono e do convívio moroso mas fiel, onde se vê o dono da casa beijar o servo que contou uma história. Nada se passa, mas tudo cresce e morre, tudo se renova sem vã agitação. A sesta feliz de amos e criados é todo um olhar sobre a política e a paixão do dinheiro e do poder. Oblamov não casa com Olga, mas foi o único que soube viver o verdadeiro amor e despertá-lo num coração cheio de literatura.