quinta-feira, 17 de dezembro de 2015




Ericeira

FUTURO ANTERIOR

Frédéric Chopin (1810/1849)



"Os Estudos são ensaios para uma teoria da infância e, justamente por isso, uma preparação pianística para a morte, uma pesquisa em que o ouvido é o olhar da alma."

(Boris Pasternak sobre Chopin, citado por Cristina Campo)

É preciso acreditar que a infância não foi uma idade de oiro, para sempre perdida, na qual todos os nossos órgãos se afeiçoaram ao mundo e a que só é possível voltar regredindo, caindo na farsa da primeira idade que é o senil.

Não, é na maturidade dos Estudos, por exemplo que escutamos o jorrar da fonte, secreta, mas sempre presente.

E devíamos ir ao encontro da morte com a primeira inocência (porque, enfim, não há saber, nem experiência que possamos invocar), como o viajante que por momentos poisou a sua mochila e nela volta a pegar quando retoma a caminhada.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

(José Ames)

MULTICULTURALISMO OU ASSIMILAÇÃO?

www.athirdopinion.net
                      

"Que muitos dos refugiados sírios sejam profissionais e homens de negócio não escapou aos analistas e empregadores, e já algumas companhias dispõem de novos aprendizados direccionados aos refugiados. Os instintos humanitários de Merkel podem a longo prazo trazer benefícios materiais para o seu país, tanto quanto a Alemanha seja cautelosa em não alienar os cidadãos em perspectiva, exigindo-lhes em troca a assimilação como preço da cidadania."

Tariq Modood (The Guardian, 16/12/2015)

O multiculturalismo torna-se a prazo um regime de 'apartheid', ou uma 'reserva de índios' (não é essa a lição do judaísmo?), se não houver uma escalada demográfica dos refugiados e dos seus descendentes, caso em que assistiremos a uma nova versão do 'fim do império romano', sem bárbaros conquistadores, mas com os novos Átilas da rede global.

A falta de previsão dos líderes europeus é agora punida com o discurso triunfante da extrema direita. O chamado 'politicamente correcto' que assim expôs as nossas ideias fundamentais, através de um respeito supersticioso do Outro, cada vez mais confundido com as suas franjas fanatizadas, as únicas que têm voz no espaço mediático, levou-nos a esta situação de perigo iminente.

A palavra morta, soterrada nos índices estatísticos da nossa 'qualidade de vida', na nossa demografia extenuada, no nosso egoísmo,  é o verdadeiro destilador do 'politicamente correcto'.

O falhanço do 'multiculturalismo' reconhecido pela Alemanha, país com uma população em declínio e, portanto, numa situação mais perigosa, com os 'cucos' a ocupar em pouco tempo a maioria dos 'ninhos', deve ser reconhecido por todos neste tempo vertiginoso. No contexto da guerra mediática global, o paradigma medieval da convivência pacífica entre comunidades com cultos distintos e uma religião dominante tampouco pode ser retomado quanto o califado do Daesh.

E é outra vez um caso-limite para a democracia ocidental. Devem as civilizações morrer, ou apressar o seu fim, em nome de uma maioria?

Para falar só da Alemanha, que tem uma fraqueza, para lá das gerações mais próximas, que é o seu horroroso genocídio em nome de algo que nem merece o nome de utopia que a torna inelegível para a condução dos destinos europeus, incapacidade que se reflecte, num complexo de culpa e na relutância dos seus dirigentes em chefiar a Europa, o 'multiculturalismo' é, de facto, o caminho para o suicídio.

Estamos ainda a sofrer o impacto das ondas de choque da Guerra que ultrapassou todos os limites.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015


(Holanda)

A MAGIA DE UM FÓSFORO


Flesh and the Devil



Num filme mudo como "Flesh and the Devil" (1926-Clarence Brown), é a própria rudeza dos meios que força à imaginação, com momentos tão irreais como os rostos da Garbo e de Gilbert "iluminados" pelo fósforo que acende o cigarro, ou as cenas do regresso do exílio, em que a obsessão amorosa é sugerida pela imagem flutuante sobre as dunas do deserto e as ondas do oceano.

E embora estes processos sejam característicos de muitos outros filmes da época ( as lentes não eram tão luminosas, nem existia ainda a voz-off) e tenham conhecido até, possivelmente, a exaustão, o que experimentamos agora em pleno domínio técnico é a irredutível poesia do tempo.

Como as antigas peças de cerâmica, tantas vezes copiadas, e que trazidas à luz do dia adquirem o valor da raridade e a beleza dos símbolos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

(José Ames)

MARQUISES





"A parte, só pelo facto de ser uma parte, é mais do que ela só, porque exprime a sua relação com todo o resto. Se se reflectir no desenvolvimento das ciências exactas e nos andaimes da construção abstracta, descobrir-se-á que elas insinuam nas suas sínteses sucessivas um carácter crescente de idealidade subjectiva."
"L'action" (Maurice Blondel)

E quanto mais impressionante é esse edifício e mais distante no tempo da construção dos seus alicerces, maior é a ilusão de que nele conseguimos encerrar toda a realidade.

No trabalho de acrescentar piso sobre piso, perdeu-se a proporção e o próprio estilo. Parte-se cada vez mais da última camada de "concreto" para uma nova "marquise".

domingo, 13 de dezembro de 2015

(Setúbal)

O SALÃO DE MALLARMÉ

André Gide (1869/1951)


Em "Si le grain ne meurt", André Gide conta-nos como eram as famosas quartas-feiras à noite de Mallarmé:

"Em casa de Mallarmé, reuniam-se quase exclusivamente poetas; algumas vezes pintores (penso em Gauguin e Whistler). Descrevi noutro lado esta pequena assoalhada da rua de Roma, ao mesmo tempo salão e sala de jantar; a nossa época tornou-se demasiado ruidosa para que hoje se possa imaginar facilmente a atmosfera calma e quase religiosa deste lugar. Decerto que Mallarmé preparava as suas conversas que não diferiam muito das suas "divagações" mais escritas; mas ele falava com uma tal arte e num tom tão pouco doutrinal que parecia que tinha acabado de inventar no momento cada nova proposição, a qual ele não afirmava tanto como parecia vo-la submeter quase interrogativamente, de indicador levantado, e o ar de dizer: "Não se poderia dizer também?... talvez..." e fazendo quase sempre seguir a sua frase de um: "não é assim?", com o que mais influenciava, sem dúvida, alguns espíritos. Algumas vezes uma anedota cortava a "divagação", algum dito de espírito que ele reproduzia na perfeição, atormentado por essa preocupação de elegância e de preciosismo, que levou a sua arte a afastar-se tão deliberadamente da vida."

Pensar que hoje um documentário sobre o poeta, na televisão, nos pode parecer mais instrutivo que frequentá-lo.
Por causa da ideia de que um pensamento se pode resumir em algumas imagens mais o seu comentário. De que o corpo só produz "ruído".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

(José Ames)

TAPEÇARIA

(Cristina Campo (1923/1977))


"A um tapete de maravilhosa complicação, do qual o tecelão não mostra senão o avesso - nodoso, confuso - tem sido por muitos poetas, por muitos sábios, assimilado o destino. Só do outro lado da vida - ou por instantes de visão - é dado ao homem intuir o outro lado, precisamente: o inconcebível desígnio do qual foi linha e nó, um castanho ou verde a condizer com outro castanho ou verde, fragmento de figura, parte pelo todo."
"Os Imperdoáveis" (Cristina Campo)


E não é verdade que nos nós e na confusão do avesso há uma perfeita correspondência com a ordem e a beleza da frente do tapete?

Não temos a chave da leitura, mas temos no caos aparente da paisagem nodosa matéria e coerência para uma outra ordem, segundo as leis da mente, essa.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Sanfins

A CURA PELO TEMPO


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"That time is no healer: the patient is no longer here."

"Four Quartets" (T.S. Eliot)

O tempo não cura: o paciente deixou de estar aqui. Por contra-intuitivo que pareça, podemos colocar a verdade sobre os pés (e não sobre a cabeça, como disse sobre Hegel o seu mais célebre aluno).

O que sofre a sua vida, pode deixar de ser paciente, no tempo, 'curar-se' no tempo ou pelo tempo. Num certo sentido deixou de 'estar aqui'. É outro homem. A morte não é a única solução do problema.

Que situação poderia ser essa em que faltássemos ao tempo? O tempo seria então a forma do trágico. Não, o tempo morre connosco. Tudo o resto é mecânica e relojoaria.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

(José Ames)