terça-feira, 24 de janeiro de 2012
A PERSPECTIVA
![]() |
| mylifeasafocusgroup.com |
"Bem entendido, não há um único especialista hoje que faça depender as suas controvérsias das da teologia e da filosofia, mas sob a forma de perspectivas, quer dizer, vazias como o espaço e, não obstante, como ele encaixando os objectos, essas duas rivais na corrida às últimas verdades em todo o lado se imiscuem na óptica dos especialistas."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)
É natural, afinal de contas, que Musil recorra à óptica para dar uma ideia da "visão do mundo" que até o mais gongórico dos especialistas precisa de ter para "explicar" como o objecto da sua ciência se enquadra no mundo que o rodeia.
Ora, esse mundo, ou antes, essa perspectiva, visto que não temos meio de o fixar na sua "integralidade", enfrenta os mesmos problemas que estão na origem da metafísica e do filosofar. Nesse aspecto, Einstein não está mais avançado do que Newton, como Descartes o não estava em relação a Platão.
Temos agora uma perspectiva mais adequada à percepção dum mundo mais complexo. Mas não se pode considerar o aumento da complexidade ou uma maior percepção dela como um verdadeiro progresso, senão relativamente à eficácia da nossa integração no mundo.
Mas não é certo que em determinadas épocas não tenhamos atingido, nesse estado, um menor grau de imperfeição.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
A ARISTOCRACIA EXANGUE
"'Ora este sujeito!', pareciam dizer uns aos outros. 'No fundo, não sofre de nada. Mal tem o direito de estar aqui. Nem sequer tem cavernas...' Tal era o espírito que reinava no sanatório; era aristocrático à sua maneira e Hans Castorp inclinava-se diante dele, por um inato respeito à lei e à ordem, fosse qual fosse a sua natureza.»
"A Montanha Mágica" (Thomas Mann)
Neste exemplo, vemos como não é necessária qualquer vantagem material, ou de ordem física ou intelectual, para se ter um sentimento de superioridade.
Aqui a "aristocracia" é um produto da organização do sanatório de Davos, tal como é descrito no romance, e, infalivelmente, esse sentimento se desvaneceria no indivíduo isolado, que é o que acontece, por exemplo, num hospital com as relações de doente para doente. Quanto ao pessoal e aos médicos, nem mesmo nessa Davos mítica, seria concebível que o doente concebesse outra coisa que uma espécie de temor sagrado.
Esta aristocracia da doença só funcionava em relação aos que não estavam mesmo mal e, por assim dizer, já condenados. Embora se possa objectar que o sentimento da morte não é o mais propício a segregar ideias de desigualdade, não é absurda a ideia de que os próprios cuidados que esse estado inspira devem, até certo ponto, ser "merecidos" com a iminência da morte.
Transposto para a política, isto parece-se muito com o direito que "as duras provas" e o heroísmo passado subjectivamente conferem a alguns homens que chegam ao poder para imporem uma espécie de resgate do seu passado. E esse é um escolho inevitável para uma democracia sem parto natural.
domingo, 22 de janeiro de 2012
A FRAQUEZA DE PIERRE
"(...) 'além disso,' pensou, 'todas essas 'palavras de honra' são coisa convencional, sem significado definido, especialmente se uma pessoa considerar que amanhã pode estar morta ou que alguma coisa de tão extraordinário poderá acontecer que a honra ou a desonra serão tudo o mesmo.' Pierre, era muitas vezes indulgente com reflexões deste género que anulavam todas as suas decisões e intenções. E foi a casa de Kuragin."
"Guerra e Paz" (Leão Tolstoi)
Tolstoi considera a personagem ( sem dúvida com alguns traços dele próprio, em relação, por exemplo, ao seus instintos "genesíacos") como uma pessoa fraca. Mas é Pierre que procurará, em vão, um ideal na loja maçónica e que vai conceber o plano de assassinar Napoleão.
A promessa feita ao príncipe André era pouco mais de uma palavra para quem tinha uma tão pobre ideia de si próprio para opor à força dos seus maus hábitos.
Não tinha, como Dolohov, apesar deste ser pobre, a paixão do orgulho a imprimir-lhe uma direcção. A virtude não se planta no ar, e o que Pierre fizera de si era terreno mais propício a deixar-se conduzir por uma vontade mais forte e a cair na armadilha do seu casamento com a mais fútil das mulheres do seu meio.
Por este exemplo se vê que há paixões úteis (ou tornadas úteis, como diria o Descartes do "Tratado"). E a fraqueza desta personagem resulta de, até ali, ter feito tudo o que queria (regressara, havia pouco, do estrangeiro) e de ter as anémicas paixões de quem nunca encontrou resistência.
sábado, 21 de janeiro de 2012
RESPONSABILIDADE
jamesnava.com
"Decidir-se por tomar a responsabilidade por alguma porção do mundo na ausência dum fundamento metafísico convincente é parte do que significa crescer nele."
(Susan Neiman)
Nenhum "fundamento metafísico" seria suficiente, de facto, para motivar uma tal decisão. É o estar já no mundo, com uma identidade, que nos obriga à coerência.
Tomar, nesse sentido, a responsabilidade, é não trair o sistema de crenças de que fazemos parte.
Para alguém que já está assim motivado, a metafísica daria, certamente, asas para voar mais alto. De resto, é o que acontece com a religião pensada.
A religião "natural" é apenas outro nome para aquele sistema de crenças. Por isso é que o antropomorfismo é a religião natural.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL
"Passante do futuro, sabe que nós vivemos aqui como sub-homens, mas orgulhosos ainda assim por edificarmos um mundo que não conhecerá jamais o inferno da prisão."
Esta mensagem, entre muitas, foi gravada na rocha, em 1949, por um dos prisioneiros que escavaram uma montanha perto do lago Baikal (Jean Marabini).
Esses homens viviam já o futuro utópico que lhes aliviava as penas presentes. Viam a luz ao fundo do túnel. Essa esperança forneceu-lhes "o quarto de hora de heroísmo" necessária aos objectivos da produção. Mas o cinismo é retrospectivo, de quem sabe o que se seguiu e como acabou a experiência revolucionária, e não era decerto partilhado pelos "olheiros" da obra, nem pelo capataz-mor, no Kremlin.
É ainda o mesmo espírito dos chamados Processos de Moscovo que levou os acusados a confessarem uma culpa "objectiva". Num primeiro grau, sabiam que estavam inocentes, mas num segundo grau, condenava-os um silogismo da doutrina.
Este é um exemplo do poder impressionante das ideias. E são certas ideias que traçam o nosso destino e o duma Europa prisioneira de dois ou três dogmas.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
ALMAS MORTAS
"Ele tinha uma propriedade independente, de cerca de mil almas, para calcular segundo o velho estilo. A sua esplêndida herdade ficava nos arredores da nossa pequena cidade e confinava os terrenos do nosso famoso mosteiro, com o qual Pyotr Alexandrovitch começou um interminável processo judicial, quase logo que chegou à sua propriedade, e que se relacionava com os direitos de pescar no rio ou de cortar lenha nos bosques, não sei exactamente o quê."
"Os irmãos Karamazov"
(Dostoiewski)
Medir a propriedade rural pelo número de servos (almas) era a regra, na Rússia imperial, antes da reforma de 1861 que aboliu a servidão. Os proprietários pagavam, nessa base, os seus impostos, mas devido à desactualização do censo, eram tributados muitas vezes por servos que já tinham morrido. Gogol imaginou uma personagem, Chichikov, que se propôs desembaraçar esses proprietários duma base tributária fictícia, em troca dum valor simbólico. Mas o que parecia ser do interesse dos proprietários encontrou dificuldades inesperadas. Esse é o tema do romance "Almas mortas". Chichikov não era benemérito. A sua ideia era enriquecer graças ao crédito que lhe grangeariam as almas que tinha comprado aqui e ali. O boato de que eram almas mortas esvaziou a sua quimera.
A história é muito adequada a ilustrar o que se passou com a crise do "sub-prime" e os esquemas Ponzi que nos levaram à presente situação.
O problema com o crédito é que precisa que a ilusão se mantenha ao abrigo das "bocas do mundo".
A história é muito adequada a ilustrar o que se passou com a crise do "sub-prime" e os esquemas Ponzi que nos levaram à presente situação.
O problema com o crédito é que precisa que a ilusão se mantenha ao abrigo das "bocas do mundo".
Podemos aplicar ao crédito o que diz Musil sobre o "grande homem integral" e a beleza: é que nem um nem a outra suportam o menor desmentido, "tal como não se pode furar um balão sem dano".
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
PROMISCUIDADE
"Era, como ele tinha pensado, um quarto de arrumações.
Velhos formulários inutilizáveis, tinteiros de pedra vazios jaziam espalhados pelo chão atrás da entrada. Mas no quarto em si, com o aspecto dum armário, estavam três homens, agachados sob o tecto baixo. Uma vela fixada numa prateleira iluminava-os. '- O que é que vocês estão a fazer aqui?", perguntou K., calmamente, mas zangado e sem pensar."
"O Processo" (Joseph Kafka)
K. saía tarde do escritório, nesse dia, quando daquelas bandas ouviu alguém suspirar. Eram aqueles três homens à espera de castigo por parte do juiz de instrução, por causa da queixa apresentada por K.
A promiscuidade da situação é hilariante e Kafka foi o primeiro a rir. Mas a lógica do "Processo" não tem nada a ver com o raciocínio normal de qualquer um de nós. Tem mais a ver com a sintaxe dos nossos sonhos ou com a dos contos infantis.
Assim, não temos nenhum critério para distinguir onde se encontra K. " realmente", se aquela promiscuidade é a maneira usual das coisas se misturarem quando sonhamos, ou se as cenas se passam fora da cabeça da personagem.
Tudo começa por um enigma, como o da esfinge de Tebas, para acabar na tragédia, como no final incompleto deste romance, ou com a precipitação da esfinge e o desenrolar do destino de Édipo.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
AUTORIDADE
"A palavra "auctoritas" deriva do verbo "augere", "aumentar", e o que a autoridade ou aqueles que comandam aumentam constantemente é a fundação.
(Hannah Arendt)
A democracia previne-se desse aumento "automático" da autoridade com eleições livres e a liberdade de expressão, e essa é uma das causas por que os valores da fundação (no caso de Roma, como diz Arendt, a expressão "ab urbe condita" designa a origem do poder patrício) perderam quase toda a importância.
Como não se pode prescindir de toda a autoridade, o "banho lustral" do voto popular abastece desse carisma as principais funções do Estado.
Onde a autoridade tradicional perdeu o crédito, mas mais na escola do que na família, porque nesta actua, naturalmente, o princípio da fundação (é por isso que um pai ausente não tem autoridade), não há eleições nem palavra que lhe valham. Musil lembra o facto de que "é muito mais tranquilizador simplesmente procurar as leis (ou a tradição) do que o próprio as ter de criar, como é o caso da moral e da jurisprudência."
A crise da cultura que vivemos é o sinal desta nova insegurança.
Subscrever:
Mensagens (Atom)










