terça-feira, 7 de dezembro de 2010

(José Ames)

RELIGIÕES DE RITO


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“Será preciso lembrar que uma religião não existe em si, mas na alma dos seus fiéis, que aquilo que existe nas almas é fatalmente individual e que a atitude de dois indivíduos não é a mesma? Que, além disso, as religiosidades de rito são religiosidades de festa, de alegria popular, e que não se deve olhá-las com olhos puritanos?” 


(Nilsson, “Geschichte der griechischen Religion”, citado por Paul Veyne)


Vem esta citação a propósito de, na época helenística e romana, a religião ser “umas vezes o móbil principal, noutras o pretexto” para as festas. E Veyne conclui que a “piedade consistirá, portanto, em passar um dia agradável em companhia dos seus convidados”.

Não se trata aqui duma religião de crença, como é o Cristianismo. No caso destes pagãos que só comem carne nos dias em que se honra o seu deus, não é fácil destrinçar o prazer da piedade.

Na nossa sociedade secularizada, os feriados religiosos já não precisam de qualquer pretexto, pois pertencem ao sistema dos “direitos adquiridos”, tal como, de resto, as efemérides patrióticas ou as datas de celebração do regime. Porque também a política pode ser uma religião de rito.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tavira (José Ames)

O MASSACRE DA TEORIA


Relatividade (M.C. Escher)



 
“A única liberdade possível é a do espírito que julga, e não há outra liberdade política a não ser essa. Daí a posição de Alain sobre a questão da educação cívica, a qual abrange a questão da finalidade da educação em geral. Esta posição resume-se em dois conceitos: obediência física e resistência intelectual. “Eu ensino a obediência”, e este ensino é necessário uma vez que o poder é necessário. Mas obedecer ao poder não obriga a respeitá-lo. O poder não deve ser amado, mas julgado permanentemente. Tal é a vocação do cidadão.”

Phillipe Foray (Alain et l'Éducation)


Como é que nos extraviámos tanto nos caminhos da educação? 

Para Alain, aquele que aprende o sentido destas duas palavras: é necessário, já sabe muito.

Mas a magia tem avançado muito na nossa sociedade. A última coisa que se aprende é o sentido da necessidade exterior ( a do mundo das coisas e a do mundo dos homens). Pelo contrário, ensinamos que tudo é gratuito e vivemos numa placenta de marketing que nos quer convencer ( e aos mais novos convence facilmente ) de que o mundo existe para adivinhar o nosso prazer. Assim prolongamos a infância e ensinamos a desobediência. 

Outra ideia de Alain: Vós dizeis que é preciso conhecer a criança para a instruir; mas não é verdade; eu diria antes que é preciso instruí-la para a conhecer.”

Realmente, o que está na base deste preconceito é uma teoria dos direitos, desligada da ética, e nisto se enquadra o direito de ter uma opinião, mesmo absurda, como se isso fizesse parte da dignidade pessoal. Tudo isto desaguou no pântano do “politicamente correcto”.

Outra coisa: o método, tão em voga, de aprender fazendo tem o inconveniente de não se poder aplicar à teoria, que é o nervo das grandes descobertas (como é que, fazendo, alguém chegaria a: E=mc2?). 

Mas a teoria, como tudo o que não diverte e apraz à primeira vista é um “massacre”, como disse um estudante de Física. É muito melhor aprender a Física como um jogo de computador.

domingo, 5 de dezembro de 2010

(José Ames)

DESPISTE SEGUNDO AS REGRAS

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“Dito de outro modo, a verdadeira questão seria: ‘existe rotina ou racionalização?’ Por um lado, um capital ou uma empresa lucrativa devem ser geridas como o faria um ‘bom chefe de família’ e a racionalidade proíbe que se tomem demasiados riscos, porque uma empresa quer antes de tudo conservar-se a si mesma. Por outro lado, gere-se mal um património quando se negligenciam as ocasiões de ganho e os investimentos: mesmo os escravos de que fala o Evangelho têm o dever de emprestar a juros as somas que o seu senhor lhes confiou na sua ausência. Um património bem gerido deve render como um capital e um capital bem gerido deve estar em tanta segurança quanto um património.”


“Le pain et le cirque” (Paul Veyne)


Pode ser que a passagem do Evangelho sobre os deveres dos escravos, a quem o senhor entregou um capital, não seja o melhor exemplo de moral, porque se encontra assim justificada  a pior usura e até os excessos  de alguns “investidores” na presente crise mundial. Afinal eles talvez estivessem apenas embriagados pela velocidade de multiplicação dos simulacros da riqueza, talvez tivessem corrido demasiados riscos (mas “quem não arrisca não petisca”) porque o próprio sucesso imediato fazia prova. E quem pode exigir a esses jovens esqualos da bolsa (e outros não tão jovens quanto isso), encantados com o seu poder, como o “aprendiz de feiticeiro”, a maturidade e a sabedoria da experiência?

É claro que há uma grande diferença em relação à parábola: os escravos não se tornaram multimilionários com o capital confiado pelo patrão. Mas estamos certos de que, mesmo se os seus mandatários tivessem fintado a lei, o patrão os repreenderia pela “multiplicação do seu capital”? Isso só aconteceria se em vez de multiplicar, ele desmultiplicasse...

Vejamos o que diz Kaldor (“Essays in Economic Stability and Growth”), citado por Veyne: “Na minha opinião, o desenvolvimento económico acelerado dos dois últimos séculos só se pode explicar por uma mudança das atitudes humanas diante do risco e do lucro (...)”

Então o quê? Aceleração a mais ou falta de ética?


sábado, 4 de dezembro de 2010

Lisboa (José Ames)

OS INTRANSIGENTES

Jules Guesde (1845-1922)



“Nunca até agora a verdade se agarrou ao braço dum intransigente”

“Assim falou Zaratustra” (Friedrich Nietzsche)


Nem, aliás, ao braço dum conciliador ou dum possibilista.

Jules Guesde, por exemplo, chefe dos “Intransigentes” opunha-se a qualquer compromisso com o “capital”, como se isso fosse possível, a não ser reduzindo a vida social e económica à caricatura dum sistema. Mas estes homens, com blanquistas e possibilistas, estiveram na origem do partido socialista francês. Porque o erro, chamemos-lhe assim, faz parte do processo de adaptação da humanidade, tal como as “verduras” das mocidade.

Nem o grande Jaurès andava de braço dado com a verdade. Se não fosse o radicalismo de homens como Guesde, a tradição seria outra.

A verdade no sentido histórico é a verdade dos factos e não nos autoriza a fazer silogismos sobre o presente ou o  futuro. E o que é a verdade no debate entre o compromisso e a intransigência? Quando muito só a posteriori é que podemos sabê-lo. Porque às vezes o compromisso salva, outras, é o intransigente que vê a sua ideia triunfar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

(José Ames)

VESPASIANISMO

Vespasiano (9-79 d.C.)


“A ideia de que as obras públicas davam trabalho à plebe era familiar aos Antigos.”


“Le pain et le cirque” (Paul Veyne)


Veyne, citando Suetónio, diz que Vespasiano recusou utilizar máquinas para colocar as colunas do Capitólio, porque queria que a ‘pobre gente’ pudesse ganhar a sua vida (plebiculam pascere). Também, segundo Plutarco, os monumentos da Acrópole teriam sido mandados construir por Péricles ‘para fazer prosperar todo o tipo de indústrias.’”

O mesmo Estado que se permitia abastecer de trigo a baixo preço ou gratuitamente a plebe da capital (ou parte dela, a partir de Júlio César) adoptava uma política mais racional, no conceito moderno, ao criar trabalho em vez de prestar assistência.

No caso de Péricles, o Estado optou pelo embelezamento da cidade, cujos vestígios ainda hoje podemos admirar, mas que, na altura, certamente, não era o investimento prioritário, do ponto de vista “social” moderno.

O exemplo de Vespasiano parece ainda mais anti-moderno, pois o imperador, não se podendo guiar pela nossa ideia de progresso, não pensava cometer qualquer irracionalidade económica, ao empregar mão-de-obra “desnecessariamente”. Mas é verdade que certas ideologias do nosso tempo levam, muitas vezes, o Estado a políticas vespasiânicas de “pleno emprego”.



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Santiago de Compostela (José Ames)

SUBTIL CONTRA O SISTEMA

Torre Eiffel e a École Militaire (http://www.rentmyhomeinparis.com)


“O inspector-geral mostrou um rosto descontente. Quando apanhou o professor longe dos olhares: ‘Meu caro,’ disse-lhe ele, ‘você insiste demasiado sobre isso de que somos ‘burros velhos’ a que no entanto é preciso obedecer! E isso vai directamente contra a sua conclusão. Porque, se é melhor acreditar que o comando não se engana, por que supõe você mesmo que ele se engana?’ ‘Mas’, disse o outro, ‘justamente eu explico por que não se deve dizer que ele se engana, nem mesmo dizê-lo a si mesmo.’ ‘Por que então,’ diz o inspector-geral, ‘por que dizer que não se deve dizer? Pratique você mesmo a sua moral, e prove, pela história das guerras, que o nosso Estado-Maior tem sempre razão. E não diga que isso não é fácil de provar: porque a ideia mesma é prejudicial, sendo contrária ao espírito de execução.’ Foi assim que o curso de moral foi substituído por um curso de estratégia e que o tenente-coronel Subtil foi despachado para as forjas e arsenais.”

“Le citoyen contre les pouvoirs” (Alain)



Pode dizer-se que o tenente-coronel que ensinava na escola militar tinha demasiados escrúpulos (estava num curso de moral, imagine-se!) para defender a obediência cega, tal como as guerras o exigem ( eu conheci um outro coronel que dizia que a maior virtude do soldado era a fidelidade canina). Mas Subtil  quer fazer justiça à capacidade de pensar dos seus homens, assim como que a pretender dourar a obediência forçada por um consentimento da razão. Alain diz que Subtil é mais um jansenista perdido no exército.

A verdade é que a lógica militar é o contrário da liberdade do espírito e impõe-se tanto à “belle âme” como o mais rotundo beócio.

Por isso, não há mal maior e mesmo a prepotência dum chefe ou da direcção duma empresa é moderada  em comparação. 

Existirá alguma preparação “democrática” para a guerra? Não é o que se vê nos filmes americanos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

(José Ames)

TEIMAR EM VIVER

Bento Spinoza (1632/1677)


“Uma empresa capitalista tem por função fazer lucros ou alargar o seu campo de acção, mas ela é também uma pessoa, que participa na tendência de se actualizar que pertence a todos os seres vivos; ela fará mecenato de empresa, a despeito da racionalidade económica.”

“Le Pain et le Cirque” (Paul Veyne)


Veyne faz ainda uma citação muito interessante de “Hérésies économiques” de Joan Robinson:

“Uma firma é de tal maneira uma pessoa que ela procura mais perpetuar-se no seu ser do que fazer lucros. Se não, as firmas menos prósperas deveriam, em nome da racionalidade económica, cessar toda a actividade e colocar todos os seus fundos na aquisição de firmas mais prósperas.”

Não é preciso apontar o exemplo do Estado que, como se sabe, tem uma lógica própria (que se tende a confundir com a “burocracia”) e as suas necessidades orgânicas independentes da função para que foi “criado”. A funcionalidade  de uma empresa também não pode deixar de ser afectada pela necessidade em que se encontram todos os seres, no dizer de Spinoza, de perseverarem no seu ser.

Não sei o que terá levado Veyne a considerar a então ponte Salazar como exemplo de mecenato de Estado disfuncional. Neste caso, o futuro não lhe deu razão. Mas não faltam os verdadeiros “elefantes brancos”, como uma grande parte dos estádios de futebol, certas auto-estradas ou o TGV para Espanha.

domingo, 28 de novembro de 2010

Elvas: Forte da Graça (José Ames)