quinta-feira, 15 de outubro de 2009


Águeda (José Ames)

TEASING


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"A ausência de conversação coerente deixava a conversa 'normal' confusa, deixava pouco claro o que poderia acontecer no contexto do grupo para além da provocação (teasing). Deixava a maior parte dos membros sem saber os factos básicos acerca uns dos outros – o que é que cada um fazia como modo de vida, se tinham alguma vez estado casados, a idade que tinham, os seus apelidos, por exemplo."

"Avoiding politics" (Nina Eliasoph)


O convívio destes grupos, em Buffalo, passa por certos rituais (bailes, lotarias, jogos) que lhes dão uma aparência de identidade. Mas quando as pessoas se encontram numa situação em que seria normal falarem sentem-se obrigadas a seguir um certo número de regras que previnem o envolvimento pessoal, a conversa séria e, bem entendido, a política. Eliasoph observou que aqueles que emitem verdadeiras opiniões são mal vistos e que um período mais longo se arrisca a ser considerado "alta cavalaria" (getting on a high horse).

Claro que isto é uma espécie de censura, mas auto-imposta pelo protocolo para preservar uma certa ideia de "bom ambiente" e de informalidade. Escusado será dizer que é uma censura muito mais eficaz do que aquela com que poderia sonhar um governo anti-democrático.

Nessas condições, a provocação, bem intencionada ou maliciosa, a troca do que chamamos "bocas" para rir são a única conversação possível, acompanhada pelo silêncio dos que desaprovam (por estar out of line) ou dos que nada têm a acrescentar.

Num filme que revi recentemente, "Amici Miei" (Mario Monicelli) encontrei esta vontade do grupo se divertir, de ser irresponsável, exponenciada até ao egoísmo desenfreado e ao desacato público. Parece que os americanos de Buffalo não chegam a esta fúria, aborrecendo-se na devida proporção.

Para terminar, se quisermos observar a conversação dos nossos próprios grupos, não chegaremos a resultados tão diferentes quanto isso. Na conversa tudo é pretexto e nada serve para outra coisa, desde o futebol à política. Mas talvez sejamos menos "teasers" por os grupos estarem menos desenraizados.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


(José Ames)

UMA VISITA AO LOUVRE



"Lembro-me como de uma coisa extraordinária – porque Proust só saía à noite – de Proust me vir buscar à rua de Anjou, numa manhã, com o fiacre de Albaret, para ir ver o S. Sebastião de Mantegna no Louvre. Tinha o ar duma lâmpada eléctrica que tivesse ficado acesa durante o dia (…). No Louvre as pessoas já não olhavam os quadros – olhavam-no a ele, estupefactas."

"Le Passé Défini" (Jean Cocteau)


O mundo da arte era o único mundo real para o Proust desse tempo (antes apenas vislumbrava essa realidade), o único que o faria alterar os hábitos nocturnos, ditados pelas necessidades da escrita. Escrita que era como a dor causada pela fome que fazia esquecer a outra dor, incurável, de Mylia, a personagem de "Jerusalém", de Gonçalo Tavares.

Mas por que levou o jovem Cocteau consigo nessa visita ao Louvre? Para poder partilhar a sua admiração pelo pintor paduano ou para pôr à prova uma teoria sobre esse quadro em especial? Em qualquer dos casos, estamos ainda no contexto da obra que se escreve.

A escultura está tão presente no quadro do Louvre que a Sebastião bem podiam faltar os braços como numa estátua antiga. Não se podia significar melhor que a arte é o próprio objecto da pintura.

terça-feira, 13 de outubro de 2009


Arouca (José Ames)

ABRAÇOS DESFEITOS


"Abraços desfeitos" (2009-Pedro Almodóvar)


Almodóvar é um virtuoso. É sim senhor. Mas "Abrazos rotos" deixa-me com a impressão que outros filmes seus já produziram em mim. Não sei se é a temática ou o tipo de personagens de que não gosto (um pouco contra a vontade), ou de todas aquelas peripécias. De tanta agilidade e "savoir-faire", esperava-se mais. Estou consciente de que não aduzi ainda nenhum indício de crítica e que me fico pelo mau travo. Talvez que este autor seja demasiado complacente com o seu trabalho. Com a mesma complacência da "família" que julga uma das cenas do filme reeditado dentro do filme, em que uma mulher fala exuberantemente do traficante que levou para a cama.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


(José Ames)

O DISCURSO DO MÉTODO



"O regresso ao irracional é, antes de mais nada, uma tentativa de preencher o vazio criado pela decadência da religião. Sob este grande acesso de irracionalidade encontra-se aquela nostalgia do absoluto, aquela fome de transcendente que observámos nas mitologias, nas metáforas totalizadoras da utopia marxista da libertação do homem, na visão freudiana do sono absoluto de Eros e Tanatos, na punitiva e a apocalíptica ciência do homem desenvolvida por Lévi-Strauss."

"Nostalgia do Absoluto" (George Steiner)


Ter a resposta para todas as perguntas é a grande diferença da religião em relação à ciência, ao ateísmo, ou a qualquer ideologia.

No fundo, talvez todos desejemos uma "feliz" integração não só no meio mais próximo, mas no próprio universo. E isso é o que não está ao alcance do homem-problema, dotado do órgão mais eficaz para se adaptar e encontrar soluções, mas sempre aquém da paz interior (mesmo a fé em Deus deve ser vivificada pela dúvida).

Por isso, sonhamos com uma teoria que explique tudo, mesmo os seus próprios fracassos. E para não sermos acusados de obtusa ideologia, preferimos chamar a essa teoria: método. Mas é sempre o discurso do dito.

domingo, 11 de outubro de 2009


Viseu (José Ames)

PURITANISMO


Puritanos


"Os voluntários não dizem apenas 'Eu preocupo-me, mas acho-me impotente em relação a esse assunto'. Em vez disso, tentam estrenuamente dizer-se a si mesmos que simplesmente não se preocupam com assuntos que se sentem impotentes para controlar. Paradoxalmente, eles queriam acreditar que as pessoas são interesseiras (self-interested), precisamente porque estavam a tentar convencer-se e aos filhos que o mundo é bom, moral e que faz sentido."

"Avoiding Politics" (Nina Eliasoph)


É a teoria da mão invisível, modelo portátil. Tudo acaba em bem porque o mundo não pode funcionar melhor do que quando cada um trata da sua vida. Mas os desmentidos da realidade devem colocar problemas de consciência mesmo aos mais empedernidos.

Este pudor em reconhecer, em público, a mais pequena nuance de idealismo e de boa-vontade não paroquial, o horror de assumir posições políticas que possam dar a ideia que não existem motivos puramente pessoais nesse envolvimento, não é, como o fenómeno do apoliticismo europeu, um resultado da discussão estéril e da desilusão dos eleitores. Deve-se ver aí uma manifestação do individualismo triunfante e um genuíno espírito de independência com conhecidas raízes na história americana.

E não é sem virtude, nem sem algum realismo, que se evitam as situações de falso poder e de falso protagonismo que tanto alimentam o nosso imaginário político.

Toda essa relutância quanto à política que demonstram os voluntários de Eliasoph redunda, porém, numa irremediável separação das máquinas partidárias em relação aos problemas reais.

sábado, 10 de outubro de 2009


(José Ames)

JERUSALÉM


Gonçalo M. Tavares

Há um contexto germânico no romance de Gonçalo Tavares que se situa algures no pesadelo do século XX. Não são só os nomes, que nada têm a ver connosco, também as "qualidades" de algumas personagens (nada se parece tanto com os nossos vícios como as nossas virtudes), o estilo de vida no hospício e depois na prisão em que Mylia cumpre a sua pena-destino. E é, evidentemente, o título que cita o salmo (137, 5-6) "Se eu te esquecer, Jerusalém, que seque a minha mão direita. Que a língua se me cole ao céu da boca, se deixar de pensar em ti, se não te preferir, Jerusalém, a todas as outras alegrias.". A cidade celeste é como a parte visível de um díptico, a outra é o Holocausto, que parece estar no fim (ou no princípio?) destas trajectórias mecânicas. O crime inexpiável é o do esquecimento. Numa das citações daquele salmo, Mylia refere-se ao hospício Rosenberg, onde foi "normalizada" e submetida a uma esterilização que correu mal. É essa violência que é pecado esquecer: "Se eu me esquecer de ti, George Rosenberg, que seque a minha mão direita". O livro é ainda mais negro por conhecermos a história dos campos. Essa esperança última, essa derradeira dignidade não encontrou ali também o aniquilamento?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Serra da Boa Viagem (José Ames)

ALQUIMIA



Niels Bohr (1885/1962)


"O gráfico é capaz do contínuo de que a palavra é incapaz; ele tem sobre ela a vantagem da evidência e da precisão. É ela, sem dúvida, que lhe ordena de existir, que lhe dá um sentido, que o interpreta; mas já não é por ela que o acto de possessão mental é consumado."

"La méthode de Léonard de Vinci" (Paul Valéry)


Popper criticava a interpretação de Bohr da teoria quântica e a sua tese da complementaridade entre onda e partícula, porque, dizia, "Bohr, parecia, pensava a compreensão em termos de figuras e modelos – em termos de uma espécie de visualização"("Unended Quest"). E nós não temos de "ver" a microfísica para compreender uma regularidade estatística.

Mas há uma passagem crucial da "evidência" e "precisão" do gráfico para esta nova modalidade de compreensão. Para além de se perder a evidência, passamos a ler (ou a interpretar) o que sai de uma espécie de caixa fechada, a cujo interior não temos acesso.

Ora, isto aproxima muito esta física, com a qual temos uma relação cada vez mais distante e indirecta com… a alquimia. A diferença é que esta não teve nunca um sucesso objectivo (embora pudesse ter alimentado as esperanças de alguns homens de génio durante séculos).

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


(José Ames)