segunda-feira, 8 de junho de 2009

O GOSTO DO MEL



"Onde o canto do ofício divino, diurno e nocturno, alternam com os trabalhos nos campos, onde os alimentos eram vegetais, e se dormia em cima da palha e das cinzas, e ninguém falava, desde o dia da tomada do hábito até ao dia da morte. Uma Trapa normal, no fundo, onde era necessário entre outras coisas, moderar as austeridades individuais para que os cenobitas não se inebriassem para lá da medida. 'É preciso ser testemunha para fazer uma ideia do contentamento, do júbilo de todos: nada prova melhor a felicidade desta vida do que aquilo que fizeram os trapistas para se reunirem de novo após a sua expulsão da França, e a quantidade de mosteiros que foram criados, até no Canadá.'"

(Chateaubriand, "Génie du Christianisme", citado por Cristina Campo)


Apesar de tudo, que estranho é este resultado da austeridade mais estrita e da negação continuada dos impulsos mais naturais, como o de comunicar com os outros através da palavra. Não é, naturalmente, a sociedade que é negada pelo voto de silêncio, porque no mosteiro preside o espírito da colmeia, e é de prever que o obstáculo levantado à fala seja compensado por grandes subtilezas na expressão dos gestos, do olhar, etc.

A Trapa não é um exemplo de que nos habituamos a tudo, mas de que, quaisquer que sejam os entraves (e em certa medida por causa deles), o prazer é essencial às nossas vidas qualquer que seja a forma de que se revista, ao ponto da regra prevenir contra os excessos da austeridade…

Como na célebre parábola oriental, até o homem que cai na rede do tigre estende a língua para recolher a gota de mel.

domingo, 7 de junho de 2009


(José Ames)

DETROIT NA UNIVERSIDADE


http://www.dealbreaker.com/images/


Don Tapscot (ver Edge), em "The impending demise of the university", detém-se nessa questão a que nenhuma sociedade moderna consegue escapar: a da função da universidade. Tal como a indústria automóvel americana é hoje um gigante atingido pela obsolescência, cujo símbolo é a cidade de Detroit, o articulista fala numa Detroit do ensino superior e na falta de mercado para a maioria das instituições, na crescente desactualização do que se aprende (o que se aprendeu há quatro anos é já obsoleto) e, enfim, nos incríveis recursos da Web que permitem a qualquer aluno assistir através do YouTube a uma lição magistral, o que tornaria supérflua a função do professor que se limita a "emitir" (broadcast), contando com a recepção passiva do aluno.

Ora, a ideia de que a existência duma fonte inesgotável e democrática de conhecimento, a que se poderia aliar um carácter lúdico da aprendizagem, é uma condição suficiente para a transmissão do conhecimento entre as gerações é uma ideia "romântica". Antes da Internet, as bibliotecas estavam à disposição de quem quisesse aprender, mas nunca se julgou que isso bastasse para a educação da maioria dos jovens. Há-de existir uma coisa chamada obrigação para nos levar até onde a nossa vontade desamparada não alcança.

É verdade, por outro lado, que sendo a nossa memória o que é e sendo iniludíveis a expansão do conhecimento e a permanente desactualização do saber, o que se aprende na universidade há-de ser cada vez mais uma aptidão para saber onde está aquilo que procuramos, o contexto de determinada descoberta científica ou a passagem dum romance que nos ajuda a compreender uma situação psicológica.

Um aluno que passou todas as provas universitárias, mesmo se lhe serve de pouco a matéria que aprendeu ou se esta já não é válida passados quatro anos, sabe orientar-se e actualizar-se melhor do que qualquer outro e adquiriu os hábitos necessários a uma vida profissional, coisa que a "actividade colectora" na Internet, sem quaiquer obrigações, não lhe pode dar.

Claro que a relação entre o professor e o aluno já não pode ser, simplesmente, a de emissor-receptor. Mas a conversação que o autor preconiza não é compatível com programas rígidos, audiências massivas e pessoas desmotivadas.

Não está adquirido que se consiga sempre passar a herança, porque a morte das culturas está-lhes nos genes. Por isso, esse é talvez o nosso maior desafio.

sábado, 6 de junho de 2009


Porto (José Ames)

O MITO DE ROBINSON



"A experiência é o resultado da exploração activa pelo organismo, da busca de regularidades ou invariantes. Não existe tal coisa como a percepção excepto no contexto de interesses e expectativas, e daqui de regularidades ou 'leis'"

"The Unended Quest" (Karl Popper)


É por isso que a redução do social no indivíduo, pela doença ou o envelhecimento, por exemplo, restringindo na mesma medida os seus interesses e expectativas leva à atrofia da percepção.

Mas Robinson Crosue não é apenas o símbolo duma concepção romântica do indivíduo que, mesmo privado de todos os laços sociais, encontra dentro de si os recursos necessários a uma vida humana. Tal como o prisioneiro político ou religioso que se alimenta da sua própria fé, a personagem de Defoe concentra-se na aspiração do regresso ao convívio humano (ou em provar qualquer coisa ao resto dos homens).

Mas esse interesse exclusivo não deixará de o modificar, fazendo de Robinson uma outra espécie de selvagem.

sexta-feira, 5 de junho de 2009


(José Ames)

A PROPAGANDA


http://www.meupapeldeparedegratis.com.br


"A eficiência deste tipo de propaganda demonstra uma das principais características das massas modernas. Elas não acreditam em nada visível, na realidade da sua própria experiência; não confiam nos seus olhos e ouvidos mas só na sua imaginação, que pode ser estimulada por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e consistente em si mesma. O que convence as massas não são factos; nem mesmo factos inventados, mas apenas a consistência do sistema de que presumivelmente fazem parte. A repetição, algo sobrestimada por causa da crença comum na inferior capacidade das massas de apreender e recordar, é importante somente porque as convence da consistência com o tempo."

"Totalitarianism" (Hannah Arendt)


Ao não serem facilmente convencidas pelos factos, as massas modernas fazem prova de alguma sofisticação , chamemos-lhe assim, porque é verdade que o que conta, em política, é a interpretação dos factos e não o acontecimento em si.

Por outro lado, se não parecem crédulas quanto à aparência, vemo-las precipitarem-se na primeira explicação plausível que revelaria a "verdade" por detrás da aparência. Parece assim que a credulidade foi substituída por um preconceito não menos enganador, o de que não se deve tomar as coisas pelo seu valor facial e que é preciso procurar a causa secreta do que aparece. Porém, na falta de um critério objectivo, essa inquirição aproxima-se muito da misantropia e, por exemplo, na economia, a chave de leitura tende a ser a ganância e em política a ambição e o interesse pessoal.

A transformação do judeu no inimigo interno, pelos nazis, era apoiada num preconceito ancestral, mas tornou-se numa realidade política e social apenas com a repetição da propaganda que levou a imaginação das massas à paranoia.

Suponho, contudo, que seria de esperar, perante o resultado da sua "epistemologia", um regresso das massas à credulidade natural e a aceitarem as provas testemunhas pelos seus olhos e ouvidos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009


Mértola (José Ames)

REALPOLITIK

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"Nos 'Apophetegmata Patrum' afirma-se que o demónio é incapaz de conhecer os nossos pensamentos porque é duma natureza diferente da nossa, mas pode adivinhá-los observando os movimentos do nosso corpo."

"Notas sobre a Liturgia" (Cristina Campo)


Nesta doutrina quase cartesiana sobre as paixões, o diabo não é o inimigo interno da alma, não é o pensamento que atravessa o espírito e nos faz cair no mal. Presume-se que se o corpo for perfeitamente controlado não poderão existir maus pensamentos. Tudo isto é, além do mais, muito jesuítico.

O espírito jesuítico não espera grande coisa da vontade de purificação e não confia inteiramente na fé. Como numa espécie de realpolitik, procura obter a obediência do corpo, a cerviz baixa, a postura física apropriada que arrastarão a obediência do espírito.

Quando algumas empresas mandam os seus quadros para uma "acção de formação" no retiro dumas termas ou dum convento beneditino, fazem-no segundo a mesma doutrina. Do retiro sairá, pelo menos, um espírito de grupo que dará à empresa uma imagem mais favorável de si mesma.

quarta-feira, 3 de junho de 2009


(José Ames)

TECNOLOGIA PARCELAR

John Stuart Mill (1806/1873)


"'Há dois tipos de investigação sociológica, escreveu ele (John Stuart Mill): 'no primeiro tipo a questão proposta é, por exemplo, qual será o efeito… de introduzir o sufrágio universal no estado em que a sociedade se encontra actualmente? Mas também há um segundo tipo de investigação… Neste caso… a questão não é qual será o efeito de uma determinada causa num certo estado da sociedade, mas quais são as causas que produzem… estados da sociedade em geral'."

In "A Pobreza do Historicismo" (Karl Popper)


O método historicista presume tudo, as causas quanto os efeitos, porque parte dum modelo "completo". É a situação inversa do homem presa dum destino que não conhece, num mundo governado pelos deuses, pela Providência ou pelo Acaso. O modelo funciona, na medida em que permite atribuir um sentido aos acontecimentos e nos livra do absurdo, porque, afinal, existem leis que explicam o que se passa.

O problema não é tanto o desacordo entre a teoria e os factos, visto que o modelo pode incluir uma cláusula de reintrepretação que fecha de facto o sistema na sua auto-referência, e não chegará verdadeiramente a ser posto em causa, a História, em princípio, não tendo fim (ou o seu fim podendo ser adiado indefinidamente), o problema está mais na clausura intelectual que fecha o caminho a um outro método revolucionário e nos efeitos catrastróficos de jogarmos tudo naquilo que não sabemos nem podemos controlar.

Ao primeiro método descrito por Mill, chama Popper de tecnologia parcelar. De facto, embora presumindo o conhecimento da causa ou de parte dela procura manter o controle na mudança, limitando o seu âmbito.


terça-feira, 2 de junho de 2009


Milão 2006 (José Ames)

VARIEDADE E REDUNDÂNCIA


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"Se se compara o sistema político e o sistema económico sob o ângulo da centralização, é na relação entre o Estado e os bancos que é preciso procurar o paralelismo. E isso permanece válido para muitos aspectos particulares da teoria dos media generalizados simbolicamente. (Por analogia com o sistema bancário, Talcott Parsons falou por exemplo de ‘crédito político’ e de ‘confiança politíca’ e mostrou que existiam nos dois casos problemas de inflação e de deflação.)”

“Politique et Compléxité” (Niklas Luhmann)



Vimos ainda recentemente que o “jogo dos seixos e da areia” teve o desenlaçe esperado. A organização mais rígida (o Estado) pôde impor-se durante a crise económica, “como as pessoas rígidas o fazem frente a pessoas tolerantes no meio da discussão cortês.”

As últimas décadas, de doutrinação liberal, a favor da flexibilidade e da adaptação ao mercado tornaram-se em pouco mais do que um discurso piedoso que não permite alcançar nenhuma saída.

Luhmann adverte, a este propósito, contra a falácia de se opor a centralização do sistema político à descentralização da economia, a qual esconde, na realidade, uma oposição a “todas as tentativas visando planificar a economia de maneira centralizada a seguir à expropriação dos meios de produção”.

Mas está visto que a burocracia ( a redundância no sistema) não é exclusivo do aparelho de estado (pode encontrar-se, por exemplo, na organização bancária) e que é tão necessária quanto o princípio oposto ( a variedade).


segunda-feira, 1 de junho de 2009


(José Ames)

LEMBRAR PELOS DEDOS



“Now this, O monks, is noble truth that leads to the cessation of pain: this is the noble Eightfold Way: namely, right views, right intention, right speech, right action, right living, right effort, right mindfulness, right concentration.”

Aforismo atribuído a Buda.


Porquê oito vias e não sete, que é o número bíblico?

Por acaso, oito é o símbolo matemático do infinito posto na vertical. O que fica é a justiça, ou a justeza do que fazemos.

Bem entendido, que é a doutrina que dá sentido ao justo.

A numeração (as oito vias) é também uma mnemónica. Mao Tse Tung serviu-se dessa tradição nas suas palavras de ordem.

Como explicar esta predilecção pela aparente simplificação dum elenco numerado? Podia sugerir-se a relação com a burocracia e a grande massa para instruir. Mas não foi assim que os mujiques da Rússia foram instruídos. Nessa altura foram mais eficazes as fórmulas (os sovietes mais a electrificação, por exemplo).