terça-feira, 8 de setembro de 2009


(José Ames)

LEONARDO


A mansão de Leonardo da Vinci em Amboise


"Normalmente, a arquitectura é desconhecida. A opinião que se tem acerca dela varia do décor de teatro ao prédio de apartamentos. Peço para que se faça a relação com a noção da Cidade para apreciar a sua generalidade, e que se faça o favor, para conhecer o seu encanto complexo, de lembrar a infinidade dos seus aspectos; a imobilidade de um edifício é a excepção; o prazer é deslocar-se até ele se mover e gozar todas as combinações que proporcionam os seus membros, que variam: a coluna roda, as profundidades derivam, as galerias deslizam, mil visões se evadem do monumento, mil acordes."

"Introduction à la méthode de Léonard de Vinci"


A metáfora da arquitectura é utilizada por Valéry para nos sugerir o método que é o objecto do seu ensaio.

Quando se pensa em termos arquitecturais, a maior dificuldade é imaginar todas as perspectivas que se oferecem quer a partir do interior e de cada uma das partes do edifício, quer do exterior, conforme a distância, o ângulo e os acidentes do terreno e a paisagem. Para ficarmos pelo nível das sensações, as miríades de efeitos da luz, a cada hora do dia, de reverberações do som, de odores, etc.

Mas, além disso, "o edifício arquitectural interpreta o espaço e conduz a hipóteses sobre a sua natureza, duma maneira muito particular, porque ele é ao mesmo tempo um equilíbrio de materiais em relação à gravitação, um conjunto estático visível e, em cada um dos seus materiais, um outro equilíbrio, molecular e mal conhecido."

Pensar segundo este método, envolve um tipo de previsão geométrica, muito diferente da extrapolação ou da analogia. Leonardo tinha, segundo o poeta, a capacidade de pensar a ideia do monumento na sua forma de ocupar o espaço e de imaginar as perspectivas e as sensações de que cada uma das suas partes seria a ocasião e o contexto.

Valéry diz também que se pode adivinhar dos manuscritos, dos muitos projectos de igrejas de Leonardo, o que poderia ser uma S. Pedro-de-Roma com a sua assinatura.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Santiago de Compostela (José Ames)

THAT UNCERTAIN LIBERTY


Kant and Friends at Table, Painting by Emil Doerstling


"Porque desde que reflictamos sobre um acto que foi empreendido na convicção de que somos um agente livre, o mesmo parece cair sob o domínio de duas espécies de causalidades, de um lado a causalidade da motivação interna, e do outro do princípio causal que rege o mundo exterior."

"La crise de la culture" (Hannah Arendt)


Arendt diz que a solução de Kant, "opondo o imperativo da vontade à compreensão da razão", "faz pouco para eliminar a dificuldade maior, a mais perigosa, a saber que o próprio pensamento, tanto sob a sua forma teórica como pré-teórica, faz desaparecer a liberdade – sem contar com o facto que deveria parecer estranho de a faculdade da vontade cuja actividade essencial consiste em comandar seja o refúgio da liberdade."

A coerência do pensamento consigo próprio não deveria ser considerada contrária à liberdade. Hannah Arendt não está a pensar em pulsões ou ditames do inconsciente ao falar em motivação interna, e é certo que tudo deveria ser explicado, em última análise, pelo estado do universo, mesmo o acto aparentemente mais criativo.

A liberdade como contrário da necessidade é um absurdo da dialéctica, não tem qualquer aplicação na moral ou na política. Num mundo em que tanto a natureza quanto a moral se regem por leis, não há lugar para esse tipo de liberdade que, na realidade, seria uma escravidão sem futuro, ao ferir-se constantemente contra os "ângulos" do mundo. Mesmo o "savoir-vivre" de Epicteto que nos reserva uma pequena parcela do mundo para dispormos segundo o nosso prazer cai, bem entendido, sob a alçada de algumas regras que mantêm o perigo à distância.

Kant, ao eleger a vontade moral como essência da liberdade, reconheceu a impossibilidade de compreendermos o real contexto dos nossos pensamentos e actos, apostando na concordância universal dos espíritos como sendo próxima da necessidade que tudo rege.

domingo, 6 de setembro de 2009


(José Ames)

O REINO DAS MÁQUINAS


"Alphaville" (1965-Jean-Luc Godard)


"As unidades da vida são naturalmente auto-reprodutoras. Mas o nosso reino das máquinas tem a ver menos com reprodução do que com produção. Enquanto muito permanece por explicar acerca das variações nos poderes de auto-reprodução dentro de cada espécie viva, sabemos ainda menos sobre a genética da máquina. Sabemos muito mais sobre a origem das espécies do que sobre a origem do tipo de máquinas. Apesar das espécies poderem apresentar a selecção natural e a sobrevivência do mais apto, a sobrevivência da máquina pode não ser, de modo algum, governada por tal regra."

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


As espécies na natureza têm de adaptar-se ao seu ambiente e, como diz Boorstin, as máquinas precisam de criá-lo. Mas, mesmo sem máquinas, a adaptação é também uma modificação do ambiente. É por isso que nos extraviamos quando tentamos imaginar o futuro, não menos no mundo natural quanto no mundo das máquinas.

De qualquer modo, as expectativas darwinianas, como lhes chama este autor, predominam em todas as previsões e não apenas nas de índole marxista, como se o principal fosse a reprodução em vez da produção do ambiente.

E impõe-se a pergunta: qual é a lei que preside à criação de novas máquinas? É óbvio que não podemos guiar-nos pelo modelo biológico, pois não se trata duma genética, parecendo-se mais com a arte poética…

sábado, 5 de setembro de 2009


Vendôme (José Ames)

O JUÍZO DO CARDEAL



Cardeal de Retz (1613-1679)

Um homem é um mistério até para si mesmo. Mas não há quem não tenha que julgar um carácter, nem que seja provisoriamente e com o benefício da dúvida, para poder agir.

O efeito persistente destes juízos provisórios dos outros sobre o próprio ajudam a formar a máscara social (estruturando-a, sem a determinar, como li algures a propósito dos géneros).

E os mais activos e ambiciosos são talvez os que formam os juízos políticos mais penetrantes (para os seus interesses), tendo que agir depressa e sem erros.

Não sei se o retrato do papa Alexandre VII (Chigi) feito por Retz em duas pinceladas é ou não verdadeiro. Mas que um homem que se vangloriava de ter usado para escrever a mesma pena durante dois anos ou de ter consumido doutra vez oito dias do pontificado a tentar descobrir a origem da palavra mosca, não podia compreender os altos voos do ex-Coadjutor de Paris.

E os factos deram razão a este, sempre segundo o seu ponto de vista.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


(José Ames)

O MÉTODO DE LEONARDO


Paul Valéry (1871/1945)

"Um artista moderno deve perder os dois terços do seu tempo a tentar ver o que é visível e, sobretudo, a não ver o que é invisível. Os filósofos expiam por de mais a falta de se terem exercitado ao contrário."

"Introduction à la méthode de Léonard de Vinci" (Paul Valéry)


Mas poderíamos ver o visível sem o histórico desvio pelo invisível, senão depois de termos construído os mundos do sentido?

Os mitos religiosos vão directamente ao invisível e só assim foi possível ordenar o visível.

Mais importante do que isso, o que nos é dado ver não tem nenhum sentido sem o que não se vê.

Por isso, uma artista "moderno", isto é, não inocente em relação a esta questão, só pode criar como quem raspa um palimpsesto.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009


Amsterdam (José Ames)

CORRECÇÃO



"Deficiente ou 'de outro modo dotado' tornou-se o requerido eufemismo para palavras outrora familiares – cego, surdo, mudo – e o completamente tabu 'aleijado'. O claramente descritivo 'homossexual' foi expulso pelo 'gay' (usado com este sentido pela primeira vez por volta de 1935), que agora perdeu a sua maravilhosa acepção poética, apoiado pelo recentemente cunhado e polémico 'homófobo'. Nos Estados Unidos já não temos 'idosos' ou 'de idade avançada', mas apenas cidadãos seniores. Poderá surpreender alguns amigos no estrangeiro saber que, nos Estados Unidos, já não temos cidadãos 'ignorantes', mas apenas 'culturalmente desmunidos' ou 'menos favorecidos'. Nem há mais pobres, mas apenas 'sem abrigo'."

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


Boorstin ainda não emprega a expressão "politicamente correcto" que hoje define esta mentalidade.

Podemos perguntar-nos se ela é o resultado natural do aprofundamento democrático e do respeito pela diferença e pelas minorias, ou se é um desvirtuamento da capacidade de lidar com a realidade atribuível à idiossincrasia americana.

Na verdade, estamos, pelo menos desde Platão, familiarizados com um dos vícios mais impenitentes da democracia e que nenhuma experiência, até agora vivida, logrou evitar: a demagogia. Para agradar ao "Grande Animal" de que fala o filósofo, os políticos não costumam usar de subtileza, nem pôr a verdade à frente dos resultados esperados. Como dizia um político na última campanha eleitoral, falar verdade não chega, são precisos os votos (revelando-se a demagogia aqui na pretensão de falar verdade).

Quanto ao politicamente correcto, não se pode ignorar a omnipresente cultura do apoliticismo na sociedade americana.

É o desprestígio das ideias e o anti-intelectualismo que alimentam este espírito de tolerância beata que, de facto, não respeita as verdadeiras diferenças e apenas foge à realidade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


(José Ames)

PRAGMATISMO



"A nova corrente da filosofia lógica, resultante do pragmatismo, apresenta uma assustadora afinidade com a transformação totalitária dos elementos pragmáticos característicos de todas as ideologias, configurando uma lógica que rompe todos os laços tanto com a realidade como com a experiência. Evidentemente, o totalitarismo procede mais cruamente e, por isso, também, para o nosso mal, com mais eficácia."

"Compreensão e Política" (Hannah Arendt)


Como diz Hanna Arendt, a coerência não pode ser o critério da verdade, porque esta "deve sempre revelar qualquer coisa, ao passo que a coerência é apenas um modo de conjugar enunciados, não possuindo enquanto tal o poder de revelar."

Deveria, contudo, distinguir-se o pragmatismo enquanto teoria e prática política que se aproxima, de facto, de um ideário que "apenas reconhece a lei de um movimento da História ou da Natureza", embora sem uma concepção prévia de uma tal lei, numa espécie de misticismo da acção pela acção, de outro, que seria uma prática inspirada pela tradição, pelos valores distintivos de uma cultura que, na aparente falta de uma ideologia teríamos, talvez erradamente, de denominar também de pragmatismo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009


Cáceres (José Ames)