sábado, 10 de junho de 2006


(José Ames)

O SEGREDO PERDIDO


"Diário de um pároco de aldeia" (1951-Robert Bresson)


Várias vezes se diz no "Diário de um pároco de aldeia" que ele é uma criança.

Por isso, as pessoas não o odeiam, apenas se defendem da sua pureza. Defendem-se do que as confronta com o significado das palavras e as suas próprias vidas.

Este retrato de Bresson-Bernanos é o dum verdadeiro padre num tempo de agonia (ele remonta a sua vocação até ao Horto das Oliveiras), consumido pela dúvida e pelas intermitências da fé. Incapaz até, muitas vezes, de se sentir à altura da oração e desconhecendo a astúcia de homens mais experimentados, como o seu mestre Torcy, que se socorre, nesses momentos, do hábito e da repetição (rabâchage).

Os seus paroquianos preferem considerá-lo um bêbedo e um homem sem maneiras a sofreram a revelação de si próprios. O seu testemunho (mas o que faz ele?) é o verdadeiro escândalo.

Até, aos olhos deles, é culpado da morte da condessa, depois desse cume do cinema que é o confronto entre o orgulho, que se sente sempre credor, e o amor que não pede nada e tudo tem. O "milagre das mãos vazias".

Diz-se que a verdade fala pela boca das crianças. Não, certamente, na acepção filosófica dum acordo entre as palavras e os factos. Mas do que se apresenta sem arte, nem dissimulação e pela generosidade nos desarma.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

O CÓDIGO DE DANTE


Dante Alighieri (1265/1321)


Estou a chegar ao fim da monumental tradução de "A Divina Comédia" por Vasco Graça Moura.

A proeza inibe-me sequer o esboço dum juízo lapidar.

Mas quando se lê a obra, sem a música da língua original, o anacronismo e a complicação são a verdadeira "selva escura".

O leitor deste Dante não pode ser o leitor de Homero ou de Proust. Deve perder a esperança numa velocidade normal de leitura, porque cada verso é um escolho que só se dobra depois duma senha e de constantes remissões.

A obra tem o seu universo, como outras, mas mais do que nenhuma requer uma iniciação que não é simplesmente literária.


Setúbal (José Ames)

CONFUSAMENTE CLARO


E. M. Cioran (1911/1995)

"É um erro querer facilitar a tarefa do leitor. Não vo-lo agradecerá. Prefere não compreender, patinhar, atolar-se, ele gosta de ser punido. Donde o prestígio dos autores confusos, donde a perenidade da mixórdia."

E. M. Cioran

De que maneira tornar claro o obscuro?

Não é por masoquismo que alguns rejeitam a facilidade e a divulgação à "Reader's Digest".

Mas, sem dúvida, que os autores verdadeiramente grandes são os que nos podem confundir através da sua simplicidade.

Duma maneira ou de outra, é preferível não compreender demasiado depressa.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

OS BENEFÍCIOS DO TABACO


Torii


Duas estudantes, de aspecto anémico, a pele de ambientes artificiais, fumam uma diante da outra, antes de se atirarem ao trabalho.

O cigarro está ali como o portal dum templo, através do qual o olhar se perde no vazio.

Depois desse mergulho no nada, reúnem-se as forças para a tortura do corpo.

Isto podia ser um prólogo aos "benefícios do tabaco"...

Mas tal como na conferência de Tchekov, o fumo é apenas um pretexto.


(José Ames)

LA SOLITUDE


Alexandria


"Comment vous défendez vous contre la solitude?" perguntou-lhe. Melissa voltou para ele um olhar repleto de toda a candura da experiência e respondeu suavemente: "Monsieur, je suis devenue la solitude même."

"The Alexandria Quartet" (Lawrence Durrell)


O caso de Melissa é o duma passagem com armas e bagagem para o "inimigo".

Ainda assim, é preciso ter forças suficientes para negociar a mudança de campo, sem perder o amor próprio dos agentes duplos.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

O CULTO DO SOL


South Beach Bathers (John Sloan)

Já há uns tempos que se abriram as praias, porque o verão parece ter-se antecipado.

E, mais uma vez, a migração dos corpos, a sua especular exposição, o culto do sol, entre o pagão e o higiénico, surpreendem o observador "não-praticante".

É como uma conversão em massa, em que até o mais neurótico ou viciado no trabalho se abandona à epifania da luz.


"Arraiolos" (José Ames)

CIDADÃOS DO SEXO



A igualdade é um conceito político, fora do seu elemento quando aplicado aos sexos.

Com ela é arrastado o sistema dos direitos e a relação de forças.

A diferença e a complementaridade que são a alma da célula familiar estorvam ao espírito de competição que nela se acaba por instaurar.

A união biológica e social transforma-se em cidadania associada.

É isso que permite compreender que a diferença sexual tenha deixado de constituir um requisito.

terça-feira, 6 de junho de 2006

GUARDAR PARA O SER


"As tentações de Santo Antão" (Hyeronimous Bosch)


"A tarefa do pensador é ser sugestivo; a do santo é a de silenciar a sua descoberta."

Balthazar em "Justine" (Lawrence Durrell)


Ou seja, a razão precisa do acordo dos outros homens. Ao pensar, encontro-me numa assembleia, em que qualquer um pode tomar a palavra para me criticar ou fazer observar certas regras.

O sentimento místico já só diz respeito ao Eu, mas não no sentido egoísta ou narcisista ( porque em perda ).


"Bacanal" (José Ames)

O DÉFICE DA REPRESENTAÇÃO


Os salões da Assembleia de Bath


Vital Moreira vem a chamar a nossa atenção, no "Público", para "o défice democrático da sociedade civil".

Na sua opinião, "(...) existem muitas organizações sociais - associações e sociedades comerciais, cooperativas e mutualidades, sindicatos e associações empresariais e patronais, sociedades desportivas e ordens profissionais, etc. - que, pelo número dos seus associados e pelo seu carácter nacional, são dotadas de enorme poder económico e social. No entanto, a sua organização e o seu funcionamento deixam muito a desejar quanto ao respeito das regras democráticas." e pergunta se, dado o seu poder, não "deveriam replicar os princípios da democracia representativa, próprios do Estado e demais colectividades políticas?"

É um problema sério, que não se resolve, porém, com a "assembleia representativa permanente", à imagem do parlamento e que, nos sindicatos da UGT, tomou o nome de conselho geral.

Este, de facto, não pode aspirar à mesma dignidade da democracia directa, sendo, muitas vezes um contra-poder, quase tão minoritário quanto a direcção e sem mais legitimidade do que ela.

É verdade que a democracia directa não é praticável em grande número. Mesmo se recorrêssemos ao voto electrónico, teríamos mais uma espécie de referendo automático do que uma assembleia na tradição democrática.

Talvez que a democracia seja, de facto, utópica e se lhe preste um mau serviço ao tratar o esquema da representação não como um limitado sucedâneo, mas como a consumação dos seus princípios.

Dois órgãos soberanos minoritários (uma direcção e um conselho geral) não deveriam concorrer para uma organização bicéfala. Embora se justifique o controle e a fiscalização por órgãos especializados.

A uma assembleia só virtualmente universal, não deveria preferir-se um "ersatz" realmente minoritário.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

PECADO ORIGINAL



"No fim de contas, Justine não pode ser justificada, nem desculpada. Ela simplesmente e magnificamente é; temos que a aceitar, tal como ao pecado original."

"Justine" (Lawrence Durrell)


Bom, esta injunção podia aplicar-se ao maravilhoso ser de toda a gente. Todos temos a forma e o movimento que nos são próprios.

Mas, na verdade, a plena aceitação da magnitude do ser em cada um, talvez nos impedisse de viver em sociedade.

O erro humano e a justiça "terrena" são, pelo contrário, muito mais fecundos.