terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
OS CÉRBEROS
camphalfblood.wikia.com
"Quando esta crença se esgotou, para a qual não há justificações nem cobertura, a bancarrota não pode tardar; as idades e os impérios desabam como os negócios quando o seu crédito se esgotou."
"O Homem Sem Qualidades" ( Robert Musil)
Milhões de utilizadores do livre-arbítrio não fazem uma comunidade. Sem algumas crenças comuns (que estão longe de se confinarem às directamente religiosas, pois que, como diz Musil, até para apertarmos os botões do casaco, precisamos de acreditar que isso faz algum sentido), não existe sociedade.
O deus do crédito tem, pois, a mais vasta das jurisdições. O que é mais peculiar nos tempos que correm é que o cepticismo, o qual como filosofia é essencial ao progresso do pensamento, e, nesta qualidade, não pode minar a base das crenças mais comuns, se tornou numa espécie de antídoto para as "crendices" do liberalismo doutrinário.
Temos então órgãos internacionais (mas sobretudo amigos do dólar e do império declinante em que têm a sua sede) que se dedicam a semear e a amplificar o descrédito. Qualquer projecto de futuro é, assim, morto à nascença. As próprias ideias se retraem na paisagem desolada.
Os banqueiros que nos governam descobriram, com as agências de notação, o demónio que destrói a "galinha dos ovos de oiro". Se os bancos vivem do crédito, não lhes podemos augurar um grande futuro com o seu estratagema.
É claro que existe um lado ideológico pelo qual podemos ver os banqueiros como vítimas e que talvez seja o mais verdadeiro. A ideia de avaliar os riscos do investimento é tão racional como a de avaliar, por exemplo, por parte da empresa, o mérito dum trabalhador. O problema, neste caso, é que a avaliação é um dos parâmetros do desempenho. Quando funciona ( porque em muitas casos é um pro forma burocrático que, subjectivamente, justifica a "injustiça") pode "encorajar" aquele que, de qualquer modo não precisava de "estímulos" e desencorajar todos os que se sentem injustiçados.
É um dado adquirido, em todas as ciências, que o observador influi na observação. Podemos viver com erros científicos com esta origem, mas não podemos ter uma economia de mercado que não se defenda de "avaliadores" apostados em destruir o crédito.
domingo, 15 de janeiro de 2012
INSPIRAÇÃO
Edward Gibbon (1737/1794)
"Mas depressa se chegaria à conclusão de que a vã tentativa de misturar cores tão discordantes e de reconciliar tão inconsistentes qualidades, deveria produzir uma figura mais monstruosa do que humana, a menos que fosse vista na sua própria e distinta luz, pela cuidadosa separação dos diferentes períodos do reino de Constantino."
"The History of the Decline and Fall of the Roman Empire" (Edward Gibbon)
O carácter de Constantino, idolatrado pelos cristãos que chegaram ao ponto de fazer dele um santo, odiado pelo partido vencido que o julgava fraco e vicioso, indigno da grande tradição romana, não pode ser julgado, segundo Gibbon, pelo que o homem era, para uns e outros, num dado momento, mas recorrendo ao que foi a sua vida, a sua experiência e a evolução das suas ideias. É o esboço do que mais tarde se chamaria de processo histórico.
Gibbon diz ainda que um povo eufórico pelo orgulho duma vitória ou acabrunhado pelo infortúnio não está em condições de julgar da sua verdadeira situação. Assim, os Romanos caminhavam para o irremediável declínio no auge do seu domínio do mundo. A decisão do imperador de abraçar o cristianismo inaugurava o triunfo dum novo sistema com outros princípios e resultava na perda de crédito dos anteriores princípios.
Agora, desço em voo picado das alturas gibbonianas, para o "nariz" da Europa como lhe chamava Giscard D'Estaing que foi, um tempo, presidente da república francesa.
Não estamos nas melhores condições para julgar do nosso futuro, por melancolia de origem político-financeira. Nem queremos ouvir o conselho de Gibbon de que o "processo" é que dá a justa medida do que se passa.
Precisamos de grandes doses de passado histórico para nos reequilibrarmos. Na altura em que se vendem os dedos, depois dos anéis, não temos quase outros "tesouros na terra" além da nossa coragem. A inspiração para esta, como sabia Simone Weil, não pode estar no presente, que não se sabe o que é (o "voo do pássaro de Minerva" ainda não aconteceu) e muito menos no futuro que pode ser qualquer coisa.
sábado, 14 de janeiro de 2012
O ANIMAL IMPROVÁVEL
"Esta imagem antiga (da rede de Vénus) só deixa ver um aspecto do amor tal como o que se pode ter por uma bela escrava. Os antigos chamavam-lhe doença. É claro que as preocupações da família (trabalho, governo da casa, criação e educação) acalmam esta doença. Mas esta solução sem romanesco não agrada; não é suficiente; quando muito a pessoa resigna-se. E é o pouco de romance, no fundo, que suporta tudo o resto."
"La conscience morale" (Alain)
A natureza, o instinto, o desejo não chegam. Mesmo os mais refractários às coisas do espírito e que pretendem apenas desfrutar o que lhes coube em sorte precisam de pensar o amor acima do impulso mais básico.
Se o romanesco, como diz Alain, impede o amor de soçobrar em tudo que o nega, é porque a fealdade nos é insuportável. O homem, nem que o quisesse, não pode imitar o animal, porque o animal é puro. É o espírito que traz a contradição e a complexidade.
Podemos encontrar algo da inocência animal em personagens como o Woyzeck de Büchner ou o Moosbrugger de Musil, ambos, por sinal, assassinos que "julgam" a sociedade, mais do que esta os julga a eles.
Mas a violência no amor não é a marca dum desespero? E não se violenta ou se mata, muitas vezes, o que parece intangível e inconfundível com a "carne"? É, de facto, de outra fome que se trata. Fome que o animal nunca experimentará.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
A ORDEM
"A ordem por si só já é carismática."
(Rakhmiel Kogon, citado por Saul Bellow)
É natural que a ordem existente para quem almeje substituí-la por outra melhor, mais justa, ou simplesmente mais programática, tenda a fazer esquecer o significado da ordem em si.
O carisma que a ordem, nesse sentido, possui é o efeito imprevisível e incontrolável do facto da sociedade funcionar como um todo mais ou menos estabilizado e integrando, estruturalmente, as partes que o constituem.
É claro que todos os revolucionários que tiveram algum sucesso no seu empreendimento, com o desconjuntar da antiga sociedade, imediatamente procuraram lançar os desenhados alicerces da nova ordem.
Ao contrário da sociedade "natural" que é o resultado duma dialéctica histórica que nenhuma ideia inspira, a nova sociedade deve, "armada dos pés à cabeça", como Atena, sair da "coxa de Júpiter". A saúde de Lenine não resistiu e Prometeu deu lugar aos que impuseram a ordem a qualquer preço.
A violência do "parto" está na directa proporção do tempo necessário a que se verifique o efeito carismático da ordem.
Apesar do fracasso final da experiência, a sociedade soviética teve tempo de conhecer esse carisma. A "implosão" do sistema estava tanto nos seus genes, como a queda do império romano, isto é, não é matéria do conhecimento, mas da profecia.
Neste caso, é uma tentação usar do juízo retrospectivo. Mas quando é que temos todos os dados pertinentes para julgar o futuro?
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
TITÃS
Giulio Romano (Palazzo del Tè, Mantova)
"Este escritor célebre era com efeito demasiado inteligente para compreender em que perigosa situação o homem se meteu a partir do momento em que deixou de procurar a sua imagem no espelho dos riachos, para a procurar nos estilhaços cortantes da sua inteligência."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)
A Natureza já não é a mesma desde a invenção do microscópio. Não digo do telescópio porque não é a mesma coisa descobrir, no céu, que há mais estrelas e galáxias atrás das que vemos a olho nu, e descobrir que as coisas que nos circundam e o nosso próprio corpo têm infinitas aparências, das quais escolhemos a que convém à nossa dimensão.
Na verdade, a imagem no espelho já não era simples. Porque sem o social e o "outro" não haveria imagem. Mas podíamos reconhecer-nos como parte de um todo que existia fora de nós e independentemente de nós. A dificuldade que apresenta esta independência era resolvida, por exemplo, com o mito da criação "à imagem" de Deus.
Mas agora, à procura da nossa identidade, lançamos sondas para o céu e para dentro de nós, com os "estilhaços cortantes da nossa inteligência".
A tarefa é, de facto, titânica (embora nos devamos lembrar que foram os deuses que venceram os titãs).
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
DESTINOS
Raul Ruiz mostrou-nos, em "Os Mistérios de Lisboa", como pode ser interessante um universo inactual e quase inabitável para um espírito moderno, como o de Camilo. E consegue-o fora da escrita e do estilo sumptuoso do escritor, com uma arte que alia a gravidade do conteúdo à exuberância formal (pensamos no famoso travelling de "Vertigo", na cena do baile, ou no leito sobrevoado de "American Beauty", sem sentirmos que sejam exercícios gratuitos. As invenções são imparáveis como a do deslisamento dos futuros amantes, quando Álvaro encontra Silvina).
Devido a uma certa tradição teatral, só recentemente o "natural" chegou à fala dos nossos actores de cinema (coisa que ainda se vê em Oliveira). Este chileno cosmopolita consegue a proeza de expurgar toda a declamação da linguagem dos actores. O cinema pode dar-nos tanto o sussurro como a palavra gritada. Não precisa das técnicas teatrais para se fazer ouvir.
Como em quase todos os romances de Camilo, neste filme, há vidas desencontradas e revelações extraordinárias. O monge que guarda a caveira da mulher amada é afinal o pai do padre que, disfarçado de cigano, salvou a vida de Pedro, o narrador.
O anacronismo destas histórias esconde, no entanto, a questão quase metafísica do homem que não sabe quem é por nada saber dos seus ascendentes. Camilo responde a esta questão com a ideia duma herança amaldiçoada e com a repetição do destino.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
ABRACADABRA
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| (Francisco Goya) |
"Os economistas vêem as coisas com demasiada simplicidade", escreveu Keynes, "em tempos conturbados contam-nos que depois da tempestade vem a bonança. Mas numa situação como esta não ajuda muito apontar para uma tendência a longo prazo - a longo prazo, estaremos todos mortos".
(John M. Keynes, citado por Reinhard Blomert)
Uma tendência económica a longo prazo é algo impossível de prever, como 'a contrario' o demonstraram tanto as profecias de Marx como os cálculos de Alan Greenspan, o homem da Reserva Federal.
Ficam as tendências a curto e a médio prazo, as quais, sem nenhuma certeza, podem ser objecto de leituras contraditórias: "já se vê a luz ao fundo do túnel", ou "temos ainda para décadas".
Se alguém estivesse seguro duma tendência não precisava de errar. Quero crer que poucos são os que mentem neste caso. Não sabem, muito simplesmente. Por isso resta-lhes a fé numa doutrina, na pura sorte, ou na intervenção do Espírito Santo. Era pelo menos o que pensava J.K. Galbraith: "Tal como é convencionalmente ensinada, a economia é em parte um sistema de fé, cujo propósito não é tanto revelar a verdade, mas mais fortalecer a confiança dos que dela comungam nos dispositivos sociais estabelecidos. (ver João Rodrigues in "Ladrões de Bicicletas" de 8/1/2012)
Tanta informação e ciência, tanta tecnologia e sofisticação não nos conseguiram tirar desta ignorância e desta obscuridade. Mas claro que se pode sempre construir “máquinas paranóicas” a funcionar ao lado da realidade, ou de costas voltadas para ela. O sistema financeiro e o da dívida pública e privada é uma dessas máquinas. Funciona se funcionar só para alguns, até se transformar num problema político.
É isso que, parafraseando um dito célebre, faz com que os novos feiticeiros quando se cruzam na cidade não possam conter um sorriso cúmplice.
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