sexta-feira, 17 de setembro de 2010


(José Ames)

O ESPÍRITO DORME NA FORMA


The nightmare (Johann Fussli)


O espírito dorme na forma. O formalismo pode, inclusive, virar-se contra a legalidade que o justifica, tornando as leis inviáveis. Uma greve de zelo, por exemplo, apoia-se nessa ambivalência da forma. O aparente paradoxo de se contrariar a lei a partir duma aplicação que não tenha em conta as circunstâncias, é apenas a expressão da fragilidade do real e dos esforços humanos para o manter na visibilidade.

O desprezo bolchevique pelas formas não era de modo nenhum absoluto, como se viu logo que o regime pôde assegurar o seu próprio formalismo. Dirigia-se apenas a uma legalidade na história e, por isso, ultrapassada. As chamadas liberdades burguesas revelaram-se, afinal, com mais vida do que pensaram os seus sistemáticos detractores. Mas a fé que a sustenta encontra-se em risco, desde que as alternativas sofreram a derrocada dos seus muros ou se embrenharam no fanatismo religioso.

A fé com mais de uma hora é já velha, diz Musil.

É um sinal, pois, de que o vácuo se instalou quando o formalismo fica entregue a si mesmo, e a jurisprudência não o revitaliza dum modo criativo.

Em muitos casos, vemos hoje que toda e qualquer irregularidade (no sentido do desvio do literal), mesmo que não tenha qualquer expressão no essencial do que é suposto ser protegido pelos artigos da lei, confere ao primeiro embalsamador de formas o direito de atentar contra o que é vivo nas sociedades e nas organizações.

Chegamos ao ponto, por isso, de reconhecermos que os danos da exactidão não se podem de modo nenhum comparar com os de qualquer entorse do formalismo.

Esta situação só se pode compreender, à luz do próximo passado e duma luta histórica entre Anjos e Demónios.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010


Toledo (José Ames)

O BOM NÃO PODE SER DESCRITO


Max Horkheimer (1895/1973)


"A proibição judaica de se representar Deus e a proibição de Kant de se ultrapassarem os limites da inteligibilidade do mundo ambos contêm o reconhecimento do absoluto cuja determinação é impossível. O mesmo é verdadeiro para a teoria crítica, até o ponto em que declara que o mau – primeiro na esfera social, mas também na esfera moral, que diz respeito ao ser humano individual, - pode ser descrito, o bom, no entanto, não."

"On Critical Theory" (Max Horkheimer, citado por Susan Neiman)


Não foi esse o erro das teologias profanas do século XX? A justiça na terra deixou de ser um ideal cuja perfeição impedia que fosse jamais alcançada para se tornar a categoria distintiva de um lugar e de um regime. Não há dúvida que o chamado "socialismo real" podia ser descrito – e foi-o desde o início, mas a desilusão não podia referir-se a um ideal que estava oficialmente encarnado e que já não existia noutro lugar. O resultado foi o regresso ao passado que o regime pretendia ter extirpado.

Mas como resolver a dificuldade em termos práticos? Deveremos desistir de estabelecer alguma justiça só porque os ideais não podem ter existência real?

O caso é que o ideal encarnado é uma contradição nos termos. O bom não é um estado de facto, mas qualquer coisa sempre em perigo ou sempre a atingir no futuro.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010


(José Ames)

O MUNDO DOS OBJECTOS


(Alain à l’Ecole normale supérieure)


"Percepcionar não é ser modificado desta ou daquela maneira, é conhecer um objecto como fonte única de sensações múltiplas; é conhecer qualquer coisa que o tocar, o olhar e qualquer outro dos nossos sentidos não podem sentir: a lei que une o que experimenta um dos nossos sentidos ao que outro experimenta ou experimentará. Não há para nós outro objecto a não ser essa lei. Aquilo a que chamamos coisa é realmente a representação de uma relação entre as nossas sensações e os nossos movimentos: conhecer um objecto é conhecer uma lei."

"L'idée de l'object" (Alain)


Quando acordo, espero encontrar-me no meu mundo, que é uma ordem das coisas. Um candeeiro que não estivesse preso a uma teia de objectos num espaço comum seria uma coisa muito estranha.

Às vezes, ao acordar, as sensações separadas, as cores ainda sem relação umas com as outras, dão-me a ideia do caos. Preciso de me situar no espaço, mas também no tempo. Se não souber dar conta do que fiz antes de me deitar ainda não é o mundo. Contudo, essa situação é vivida por muitos de nós, muitas vezes, quer na véspera tenhamos prestado a Baco a nossa homenagem, quer não.

Num mundo a que falta o tempo nem sequer as sensações são nossas e encalha o próprio "GPS" da razão.

Se pensarmos um pouco na complexidade da "navegação" no mundo dos objectos, parece-nos que as outras funções da razão são um miraculoso "supérfluo".

terça-feira, 14 de setembro de 2010


Bath (José Ames)

O SALTO DA FERA



"- 'Estás a dizer-me a verdade? Não fui, pois, mais idiota do que me posso capacitar? É verdade que não passei a vida agarrado a uma esperança vã, a uma ilusão completamente cega? Que não estive somente à espera de levar com a porta na cara?'

Ela voltou a abanar a cabeça. -'Seja qual for a situação, isso não é verdade. A realidade, seja ela qual for, é realidade. Ninguém fechou a porta. Continua aberta.' Disse May Bartram.

'- Então está para acontecer qualquer coisa?' Ela fez outra pausa sempre com os olhos frios e meigos fitos nele. '- Nunca é tarde de mais.'"


"A Fera na Selva" (Henry James)


O que John Marcher quer de May é precisamente essa porta entreaberta, uma fidelidade que não lhe exija nada em contrapartida. E o jeito de May não podia ser mais passivo. Sem sombra de dúvida, ela amou-o ao ponto de ser para ele essa presença sem corpo.

A sua morte, não tão súbita que não se fizesse anunciar por inúmeros sinais que ele não via, deixou-o na situação que ele mais receava: a de se sentir traído e da sua história não ter passado, afinal, de uma banalidade.

O que ele mais inveja, na cena final do cemitério, ao viúvo da campa do lado, era a espécie de fome que o seu rosto expressava. Esse homem não escondia a sua dor.

John Marcher viu "a Selva da sua vida e viu a Fera; e percebeu, talvez pelo movimento do ar, que se erguia vasta e horrenda formando o salto para terminar com ele. Escureceram-se-lhe os olhos – estava próxima; e naquela alucinação, voltou-se instintivamente para lhe fugir e atirou-se para cima da campa de cara para a terra."

Quando May dizia que a realidade é sempre a realidade, incluía também o egoísmo de Marcher?

A moral do conto implica que se May o amou, tal como ele era, conheceu de facto o real. Enquanto ele, utilizando-a para a sua rêverie, não saía de si próprio e, logo…

segunda-feira, 13 de setembro de 2010


(José Ames)

NÃO HÁ OBJECTOS INDEPENDENTES


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"A confusão no problema da 'objectividade' era o de supor que pudessem existir respostas sem questões e resultados independentes dum ser que questiona."

(Hannah Arendt)


Também as chamadas leis objectivas da física, por exemplo, são respostas a problemas e não se compreendem fora das questões colocadas.

A história da ciência é a história dos seus problemas. Um novo tipo de resposta leva à revisão de uma série de perguntas e vice-versa, mas decerto não faz sentido uma descrição do mundo válida para qualquer X em qualquer lugar do universo. Isso impede que as leis até agora descobertas sejam mais do que "antropocêntricas".

Se um "contacto imediato" for possível, a nossa esperança é que matemática seja, de facto, a linguagem universal. Mas pode ser também que a qualidade de próximo ou distante não tenha qualquer relevância e um contacto não corresponda a um "encontro", sendo para nós a coisa desde sempre mais familiar, que nos cerca e submerge para lá das nossas metáforas e de todas as barreiras da linguagem.

domingo, 12 de setembro de 2010


S. Petersburgo (José Ames)

COISA MENTAL


Friedrich Nietzsche (1844/1900)


"A doutrina de Nietzsche do eterno retorno destina-se a salvar a própria alma. O eterno retorno é 'apenas uma experiência do pensamento', tal como é às vezes sugerido, se chamarmos ao Céu e ao Inferno também experiências do pensamento. Para o cristão, a vida é justificada à luz do Além-Mundo. Todos os acontecimentos na narrativa desta vida ganham o seu sentido através do final: levam eles ao Céu ou ao Inferno? A facilidade com que a Providência se tornou progresso serviu a Nietzsche de aviso. As concepções teológicas condicionam a nossa experiência."

"Evil in Modern Thought" (Susan Neiman)


Ao admitir que a ideia do Eterno Retorno é coisa mental, sugerindo que não é o real que aqui está em causa, mas a vontade de coincidir com a própria vida, Nietzsche parece ter-se libertado ao mesmo tempo da razão e das concepções teológicas. Porque é a razão pura que é teológica e isso explica que as teodiceias "materialistas" possam ter sucedido à teodiceia religiosa.

O conceito de totalidade é uma necessidade da razão. As razões "locais" apoiam-se sempre numa abstracção a que não está nas nossas faculdades dar alguma espécie de corpo.

O controle do terror primitivo ( e infantil), a aceitar a ideia de Freud, está na origem de todas as construções para além da experiência.

sábado, 11 de setembro de 2010


(José Ames)

A VISTA DE DELFT





Tenho diante de mim uma reprodução do quadro de Veronese, "Vénus e Adónis", cujo original se encontra no Museu do Prado. Tem o tamanho de um postal. Posso examiná-lo com a minúcia que quiser e sem ter de suportar o peso do corpo sobre as pernas que já percorreram uma longa avenida e atravessaram várias salas até chegar à tela de 212 × 191 cm do pintor de Verona, que mostra um jovem adormecido no regaço de uma beleza loira e um pouco estrábica como convinha.

Sei, no entanto, de quem faça uma grande viagem para ver o que se encontra reproduzido com altíssima qualidade (e sem o reflexo dos vidros ou uma iluminação inadequada) em muitos álbuns de arte.

O que é que me traria, pois, de especial uma nova visita ao Prado para ver este quadro?

Digamos que não veria só com os olhos e a fadiga de o procurar só por si encareceria o seu valor. Essa experiência faria parte de um contexto ao mesmo tempo físico e estético (para além de outras dimensões evidentes) que tornariam a contemplação de um álbum em algo de abstracto e de repetitivo (quantos quadros não posso "visitar" com um simples voltar de páginas?).

Em Proust, o célebre Bergotte, já velho e doente, arrisca sair de casa para ver uma exposição de Vermeer em exibição no Louvre. A descoberta daquela pincelada amarela na "Vista de Delft" leva-o a uma grave reflexão sobre o seu destino de artista e a imprudência de ter deixado o leito, o esforço e as emoções apressam a sua morte.

Se Bergotte dispusesse das nossas reproduções nem sequer haveria matéria romanesca.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010


Pula (José Ames)