sexta-feira, 10 de setembro de 2010

SABEDORIA DE LAMPEDUSA




"Só uma 'mudança radical' (umwältzung, a expressão favorita de Hitler, que Martin Heidegger frequentemente citava) poderia 'rejuvenescer' a Alemanha e repor a sua liderança espiritual e política no mundo."

"Hannah Arendt e Martin Heidegger" (Elzbieta Ettinger)


Mudar as raízes da sociedade é uma tarefa prometeica, infinitamente mais complexa do que criar a vida a partir dos "quatro elementos". Corresponde, no fundo, à tradição dos alquimistas da pedra filosofal e da transformação dos metais em ouro, mas é ainda, talvez, mais ambiciosa.

Lenine exausto, deitado de costas no soalho do seu gabinete no Smolny, depois dos decretos que criavam o novo a partir do caos, deve ter tido a visão da montanha que sobre ele se abatia.

É a alquimia um sonho proletário ou um sonho burguês? A resposta está dada se pensarmos que o impaciente companheiro (como lhe chamava Alain) não pensa para além dos seus instrumentos e os seus problemas são verdadeiros problemas, isto é, de sobrevivência. Mas o burguês é facilmente presa dos monstros criados pela razão pura. Só ele pode pensar que são possíveis mudanças radicais.

A verdade é que mesmo o paradigma das revoluções, a Revolução Francesa, foi tudo menos uma mudança radical. Depois da paranóia do Directório, voltou a tirania, e depois desta os barões, os Turelure de Claudel ("L'Otage") e a sempiterna religião. A Revolução Francesa talvez seja mesmo um caso-limite do princípio de Lampedusa ("É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma"). Tudo depende da credulidade dos povos. Para alguns essa mudança superficial não pede menos do que a cabeça do rei.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010


(José Ames)

A ECONOMIA NO DIVÃ


A batalha de Little Big Horn


É mais do que natural exigir dos encartados arautos da desgraça que propõem os remédios mais drásticos para a nossa economia e os concomitantes sacrifícios (que lhes há-de ser difícil de imaginar ), é mais do que natural, dizia, exigir deles um sacrifício da mesma grandeza. Mas sabemos que isso não pode ser. Nem é certo que alguns deles tenham de sentir as dificuldades para chegarem às soluções mais adequadas. O privilégio de que gozam é, afinal, o mesmo do general que, sem estar no terreno, na paz do seu gabinete, sacrifica uma patrulha ou um batalhão para conseguir uma posição, com a aparente facilidade de quem, no xadrez, deixa "comer" os cavalos para se aproximar do xeque-mate. É claro que alguns generais passaram à história por terem sofrido o destino dos seus homens, como Custer, em Little Big Horn, mas foi uma derrota em toda a linha, como se sabe.

Não deixa, por isso, de ser um pouco demagógico dizer que uma pensão milionária impede um homem de pensar no âmbito da sua especialidade.

O problema está, não no facto de não sentirem pessoalmente a crise, mas no valor científico das suas previsões. De facto, a sua especialidade merece quase tanto crédito como a psicanálise. E sabe-se como o psicanalista acaba por colocar as palavras na boca do seu paciente e, em vez da cura, arrastá-lo para um processo caro e interminável.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Edinburgo (José Ames)

SOMBRAS NA CAVERNA


David Hume (1711/1776)


"Hume queria humilhar a razão demonstrando a miríade das suas fraquezas. É incapaz de estabelecer a mais simples das verdades. Só o hábito pode mostrar que os acontecimentos têm causas, ou que matar o próprio pai é um crime. As expectativas da razão sobre o mundo levam à desorientação e ao erro. Antecipando uma ordem no mundo que este não pode afectar, a razão impede-nos de ver o mundo tal como é e de actuar em conformidade. A razão é a bússola que continuamente nos guia (se é capaz de guiar de todo) na direcção errada."

"Evil in modern thought" (Susan Neiman)


Lembro-me de, em tempos mais heróicos, imaginar um centauro a dirigir a economia, provocando com a sua parte equídea toda a irracionalidade que é patente aos olhos de toda a gente.

Apesar de Aquiles ter sido educado por Chiron, um desses seres mitológicos, parecia-me que um centauro nunca seria um bom piloto.

Quanto mais racional não era a ideia de uma só vontade, bípede e esclarecida, exercendo em nome de todos esse controle!

Kant foi acordado do seu "sono dogmático" por este pacífico escocês chamado David Hume e acabou por, no essencial, lhe dar razão.

A razão ajuda-nos, decerto, a resolver problemas. Mas o que é um problema que nem sequer podemos formular? Fora das questões práticas, o que consideramos como dados do problema são simples sombras cavernícolas.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


(José Ames)

FELICIDADE ESTÁTICA


DrMegaVolt


Não há liberdade que se poupe como os víveres. A falta de uso enferruja-a como à faca e à espada. Não é quando não nos sentimos coagidos que somos livres. No sono, abandonamo-nos.

Diz Levinas que a liberdade consiste em saber que a liberdade está em perigo.

Mas que vela é essa que uma brisa apaga?

O egoísmo, o ateísmo dependem intimamente daquilo de que se separam. A distância é um caminho iluminado em que a solidão aparece e desaparece.

Estas palmeiras de plástico, o enxame que tomou conta da marginal e que se acotovela numa felicidade estática (como há uma electricidade estática), deixando o mar, porque o céu está coberto, como um palco às escuras, lembram-me que ainda hoje não tinha sentido o gosto da liberdade.

sábado, 4 de setembro de 2010


Alcobaça (José Ames)

UTOPIAS DE SEGURANÇA


"A Washington tragedy"



Timothy Garten Ash, num artigo intitulado “As lições de Londres”, diz que estes atentados não são actos de guerra (seria um erro considerar esta capacidade mortífera do bombista suicida com qualquer tipo de guerra), mas, de facto, crimes e que temos de nos habituar a deparar com eles ao virar da esquina (até porque menos liberdades e mais segurança não nos poriam ao abrigo deste novo tipo de ameaça).

É mais uma precariedade a juntar a outras. Ao fim do emprego para toda a vida, soma-se agora o fim do Estado como garante eficaz da segurança.

Não é que viver alguma vez tenha deixado de ser perigoso (há, por exemplo, as doenças que matam silenciosamente e a poluição que nos prepara searas de sofrimento), mas tínhamos esquecido, embalados na miragem de segurança em que nos tinham adormecido as instituições de protecção, as companhias de seguros e o ambiente eufórico da publicidade, em que tanta gente parece preocupada, maternalmente, com o nosso mais pequeno desejo, que a tragédia, longe de ser apenas um género literário em que primou a Antiga Grécia, é a realidade duma vida votada à morte.

E são os fanáticos duma religião que nos despertam deste outro sonho mediático.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010


(José Ames)

OBSCURANTISMOS


René Descartes


Um método permite-nos ganhar eficácia e só é superior a outro na medida em que for mais praticável. De qualquer modo, é sempre tentador ver nele um critério da verdade.

A ciência moderna começou, segundo alguns, pelo “Discurso do Método”. E Descartes ao abanar a árvore dos conhecimentos adquiridos e ao deitar por terra os frutos da escolástica e da filosofia de Aristóteles quis recomeçar tudo de raiz.

Esse esforço permitiu, de facto, a refundação do saber, sob a égide duma matematização universal, e catapultou o pensamento científico para os píncaros em que hoje se encontra.

Um análogo empreendimento de crítica sistemática e de revisão profunda parece tão impossível hoje, frente ao labirinto da especialização das ciências, cuja validação se encontra, por outro lado, tão solidamente afirmada pelo sucesso das suas aplicações técnicas que logo seria confundido com um desígnio obscurantista.

E se o desafio vem do interior do campo científico (Einstein), toda uma idade deverá passar para se tirarem as conclusões filosóficas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


Leça da Palmeira (José Ames)

GERTRUD E A PUREZA


"Gertrud" filme de Carl Dreyer



Gertrud é a história dum amor intransigente. Uma mulher que não quer nada menos do que o amor, que sabe, no entanto, trazer sempre infelicidade e dor. Que não crê nos protestos dum antigo amante, realmente com medo da solidão, nem dum marido porque, na verdade, o trabalho estava acima de tudo o mais para ele.

No fim do seu percurso, que acaba numa espécie de eremitério, depois de ter abandonado o marido no momento do seu triunfo (chegara a ministro) e o objecto indigno dum novo amor, percebemos que esta paixão é feita quase só de orgulho e duma pureza de alma que de facto dispensa os outros, menos o seu deus.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010


(José Ames)

A ESTRANHEZA FAMILIAR


Manuscrito medieval das obras de Terêncio



Haverá assuntos estéticos e outros inestéticos?

A pergunta é-me suscitada pela seguinte apreciação de Goethe sobre Guido Reni (1575/1642):

“No momento em que a sensibilidade divina de Guido, o seu pincel, que só devia ter pintado o que de mais perfeito existe, nos atraem, logo gostaríamos de desviar os olhos dos assuntos e motivos detestavelmente estúpidos, para os quais não há neste mundo impropérios que cheguem. E isto repete-se: é só anatomia, cadafalsos, esfoladouros, só sofrimentos do herói, nada de acção, de interesse vivo, só coisas para preencher as expectativas fantasiosas do público.” (Viagem a Itália)

Hoje, pelo contrário, parece que nada está fora do alcance da arte, a começar pelo mais comezinho dos objectos, transfigurado pela sua simples exposição decontextualizada, a acabar no que mais repele os sentidos (com uma ideia percursora no verso de Shakespeare (Macbeth): “O horrível é belo, o belo é horrivel"), ou os deixa completamente inanes (por exemplo: “Branca de Neve” de João César Monteiro).

A arte que terá começado por exprimir um sentimento religioso e, na era mercantil, constituiu sempre uma reserva do espírito e da subjectividade, aproxima-se, talvez, dum limiar em que deixa de fazer sentido uma frase como: “nada do que é humano me é estranho”(Terêncio). Porque, de facto, o que não é humano começa a ser-nos, cada vez, mais familiar.