sexta-feira, 23 de abril de 2010

A FARSA


"A Cidade"


"No Königstädter Theater levam-se à cena farsas e, como é natural, junta-se aí um público muito diverso; aliás alguém que queira fazer um estudo patológico do riso na sua diversidade em função da condição social e do temperamento não devia perder a oportunidade que a representação de uma farsa oferece. O júbilo e as sonoras gargalhadas da galeria e do segundo balcão são algo de completamente diferente do aplauso do público cultivado e crítico; são um acompanhamento permanente sem o qual a farsa simplesmente não poderia ser representada."

"A Repetição" (Soren Kierkegaard)


Num dos mais recentes espectáculos do Teatro da Cornucópia, "A Cidade", com um arranjo de textos de Aristófanes, que teve lugar no S. Luís, pude aperceber-me duma outra situação. Ao público habitual da Cornucópia juntou-se o público do S. Luís, talvez menos "cultivado e crítico". O resultado foi que a farsa em cena não pôde beneficiar do acompanhamento que Kierkegaard considera indispensável. Perdidas num meio que lhes era estranho, ouviram-se algumas "sonoras gargalhadas" que não chegaram para salvar o produto tão pouco cornucopiano como o que se via no palco, qualquer que tenha sido o mérito do trabalho de Luís Miguel Cintra e dos actores.

Tem razão o filósofo no que diz quanto à farsa. Um público circunspecto e à espera das subtilezas da interpretação não compreende este tipo de teatro que exige a participação do público.

Mas, embora alguns tivessem ficado chocados, talvez que aquele "tom" estivesse mais próximo do teatro grego do que pensavam.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


Aldeia da Luz (José Ames)

O PRÍNCIPE


René Descartes (1596/1650)

"Nenhum desenvolvimento é mais interior e original que o deste homem, que é, no entanto, que é justamente por isso, modelo para todos e bem comum. Só é útil o que é inimitável, porque aí encontramos o modelo do espontâneo e o exemplo da salvação possível. Justamente porque Descartes nunca abdicou. Este lábio grosso pensa."

"Pédagogie enfantine" (Alain)


Em Descartes, temos um dos exemplos mais notáveis duma vontade soberana. De alguém que fez um sulco no universo por se manter fiel a um princípio. Alguém que, de acordo com o seu século, procurou tirar de todas as peripécias duma vida aventurosa um ganho de conhecimento sobre si mesmo e o mundo à sua volta.

Mas parece que o rumo da sua vida não foi ditado pela maturidade, como aconselhava Simone Weil, nem sequer pela razão, mas pela ideia dum grande destino, como o prova a importância que o filósofo dá às suas visões e conversões. Para além disso, Descartes passou por ser um católico devoto, mesmo se, para o gosto de Pascal, reservasse a Deus um lugar decorativo.

O que diz Alain é que este homem não se salvou em espírito, contra uma parte de si mesmo. Uma saúde pouco firme não o impediu de seguir a carreira militar, e o que teria sido uma desvantagem para o comum, serviu para esculpir o seu carácter. E nessa empresa de se salvar todo, com todas as suas virtudes e todos os seus defeitos, é verdade que já não encontramos vestígio da negação do corpo que é a ideia platónica e cristã. É ainda a lição do bom uso das paixões.

quarta-feira, 21 de abril de 2010


(José Ames)

SCARTARIS



"A luz eléctrica fazia esplendidamente brilhar os xistos, o calcário e o velho grés vermelho das paredes; poder-se-ia pensar que estivéssemos numa trincheira aberta do Devonshire, que deu o seu nome a este género de terrenos. Espécimes de mármores magníficos revestiam as muralhas, uns dum cinzento ágata com veios brancos caprichosamente desenhados, os outros de cor encarnada ou dum amarelo manchado de placas vermelhas, mais longe, amostras deste mármore griotte de cores sombrias, das quais o calcário ressaltava em nuances vivas."

"Voyage au centre de la terre" (Jules Verne)


Agora que o vulcanismo nos invadiu os céus e chumbou as asas aos aviões, é tempo de recordar Júlio Verne e um outro vulcão islandês, o Scartaris (ó viajante audaz!) por onde começou a única descida "conhecida" ao centro da terra.

Quem me dera voltar a experimentar o sortilégio dessas páginas que nenhuma adaptação cinematográfica conseguiu igualar!

Tudo escrito por um homem que, rapaz, quando foi açoitado pelo pai por ter tentado escapar numa aventura real, jurou que a partir daí viajaria "apenas em imaginação".

terça-feira, 20 de abril de 2010


Londres (José Ames)

MATURIDADE


Santa Maria degli Angeli (Assis)


"Eis por que a ideia de procurar o amor para ver o que é, para dar um pouco de animação a uma vida demasiado morna, etc., me parece perigosa e sobretudo pueril. Posso dizer-lhe que quando tinha a sua idade, e até mais tarde, e que me veio a tentação de procurar conhecer o amor, eu a afastei dizendo que valia mais para mim não arriscar comprometer toda a minha vida num sentido impossível de prever antes de ter atingido um grau de maturidade que me permitisse saber ao certo o que pedia em geral à vida, o que esperava dela. Não lhe dou isto como exemplo; cada vida desenrola-se segundo as suas próprias leis. Mas pode aí encontrar matéria para reflexão."

Carta a Simone Gilbert (Simone Weil)


A correspondente de Simone Weil teria então 17 anos e fora sua aluna no liceu do Puy.

Se cada vida segue a sua própria lei, o amor não se encontra, certamente, entre as coisas que dependem só do indivíduo. São as circunstâncias exteriores que confinam Simone a uma escolha entre procurar ou não o amor, conhecê-lo, dando à sua vida um novo curso irreversível ou esperar pela "maturidade". De qualquer modo, qualquer das escolhas teria um sentido impossível de prever.

O "destino" estava tão pouco nas suas mãos, que Simone se deixa surpreender pelo amor (sob uma das suas formas) em Santa Maria degli Angeli, e o problema de Deus, que antes, para ela, não tinha condições sequer para ser colocado deu lugar à fé.

segunda-feira, 19 de abril de 2010


(José Ames)

UM HOMEM DO CAMPO




"-'Não compreendo, não compreendo', disse.

-'O que é que não compreendes?' disse Oblonsky, sorrindo radiante como sempre e sacando dum cigarro. Estava à espera duma rápida explosão da parte de Levin.

-'Não compreendo o que é que tu fazes', disse Levin encolhendo os ombros. 'Como podes fazê-lo seriamente?'

-'Por que não?'

-'Porquê? porque não há nada nisso!'

-'Tu pensas assim, mas nós estamos sobrecarregados de trabalho.'

-'No papel. Mas é verdade que tens um dom para isso', acrescentou Levin."


"Anna Karenina" (Leo Tolstoi)


Levin, o camponês, não compreende a burocracia, em que parece levitar o seu cunhado, bem instalado numa repartição, os seus grandes ares, a importância duma rubrica, a dança dos funcionários e dos papéis. Enfim, ali não há nada que ele possa considerar uma coisa concreta, um bem sólido, algo que possa medir com as suas botas ou trabalhar com as mãos. E Oblonsky até concorda que ele é mais feliz, com os seus mais de seis mil acres no distrito de Karazinsky.

A imaterialidade da burocracia, que a casa tão bem com o poder, não desceu das nuvens como um deus ex-machina. No componente da peça que sai da cadeia de montagem, o aço de que é feito não o torna mais "concreto". É o sistema económico e a organização fabril, coisas transcendentes em relação ao elo humano que o produz, que lhe dão um sentido e o fazem perder o seu carácter de abstracção.

domingo, 18 de abril de 2010


Cáceres (José Ames)

RITUAIS


"Émile Durkheim (1858/1917) diz que os rituais oferecem aos membros uma representação do grupo, mostrando o grupo a si mesmo, numa forma concreta, dando-lhe um nome e um corpo. Os rituais, indirectamente, é a própria sociedade que honram, como fonte de todo o sentido. Sem o reconhecimento directo e a celebração dos laços entre as pessoas, estiolam-se os sentimentos de alegre solidariedade, e uma sociedade saudável desmorona-se."

"Avoiding Politics" (Nina Eliasoph)


Quase só pensamos nos rituais na sua acepção negativa, como algo que se repete por obrigação, perfunctoriamente. Mas há um tempo de maturação que transforma as novas formas de expressão colectiva, de real comunhão, em armações que só os interesses parecem alimentar.

É o que sucede com as datas simbólicas. Não precisamos de pensar nos jovens que "não estiveram" no 25 de Abril, para quem a efeméride significa quase só um dia sem aulas.

O ritual é a única coisa que ainda consegue erguer uma espécie de monumento, à medida que os que viveram esses momentos mais exaltantes formam cada vez menos uma comunidade.

No caso do ensaio de Eliasoph, ela diz que a adesão daqueles americanos às quermesses e aos bailes de província, quase todos financiados pelo comércio local ou pela indústria do entretenimento, é enganadora quanto ao seu espírito. As pessoas, de facto, aderem mais a uma prática do que a uma teoria (os rituais, inclusive, "tornam confortável a ausência de conversação") e simulam uma comunidade que, na realidade, não existe.

sábado, 17 de abril de 2010


(José Ames)

O OBSERVADOR CONTAGIADO


Soren Kierkegaard


"Em geral todas as emoções humanas profundas desarmam no homem o observador que nele possa haver. Querer observar só acontece quando em vez de tais emoções se encontra um vazio ou quando alguma coquetaria as encobre. Testemunhando-se o acto de um homem que reza com toda a sua alma, quem poderia ser inumano ao ponto de ficar a observá-lo friamente, quem não se sentiria antes invadido por uma emanação do fervor desse indivíduo posto em oração?"

"A Repetição" (Soren Kierkegaard)


Há um tipo de repetição que não faz observadores nem provoca empatia. Os que trabalham num hospital público sabem o que isso é. Nem que quisessem, não poderiam emocionar-se e manterem-se úteis ao mesmo tempo.

É, por exemplo, o espectador normal da televisão um observador ou há qualquer coisa no espectáculo que frustra o carácter activo da observação?

O homem de que fala Kierkegaard que, sem precaução, se deixaria "invadir" pelo exemplo da religiosidade dum outro é difícil de encontrar num meio que considera a religião uma questão de escolha pessoal.

Mas é necessário qualquer coisa de parecido com a caridade cristã para que a observação – palavra aqui mal aplicada – não se transforme num juízo.

sexta-feira, 16 de abril de 2010


Pico (José Ames)

BATER PALMAS COM UMA MÃO


"Os mistérios da fé podem ter e tiveram o uso que a dialéctica marxista teve para Lenine (nos dois casos, trata-se de eliminar a contradição como critério lógico do erro), subjugar totalmente os espíritos pela hábil manipulação do anátema. Os eleitos, a quem repugnam tanto a revolta como o servilismo do espírito, fazem deles koans para a contemplação. Mas o seu segredo está noutro lado. É que há duas razões.(…)"

"La connaissance surnaturelle" (Simone Weil)


Não foi Simone que inventou a razão plural. Basta lembrarmo-nos de Kant e das suas duas razões. E como haveríamos, hoje, de chamar ao "coração" de Pascal, com as suas razões que a razão desconhece?

Para a nossa filósofa, a contradição não é, sempre, uma manifestação do erro, pode ser outra coisa, como um impasse. Ela admite, por isso, uma razão natural (a geométrica, "terrestre") e a sobrenatural (a da plataforma no Universo?), que pode pensar os contrários. Mas já os eleatas achavam que conceitos como o movimento e a mudança envolvem contradição…

Um célebre koan atribuído a Ekaku pergunta: "Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?" Podemos conceber a medição do som duma das mãos que batem palmas, mas a ideia não é essa, é o som duma mão que não tem outra contra a qual bater.

Ou isto é absurdo ou só tem sentido fora da física que conhecemos.