quarta-feira, 15 de outubro de 2008

OS DESPOJOS DO DIA


A história de Stevens (Anthony Hopkins), em "The Remains of the Day" (James Ivory, 1993), é a tragédia de um homem que por formação e pela função que exerce não pode exprimir os seus sentimentos.

Assaltam-nos os lugares-comuns sobre a frieza dos Ingleses em geral, e é por isso que na cena final da despedida vemos a frustração do antigo mordomo de Lord Darlington com os olhos da antiga governanta Miss Kenton (Emma Thomson) e os nossos preconceitos, apesar de, supostamente, a narração ser de Stevens. E é como se ele de facto julgasse a nossa incompreensão.

Mas para Stevens é apenas um destino que ele aceita sem se questionar se deveria ou poderia ser outro. E então a proverbial contenção expressiva parece-nos uma espécie de ascetismo, cada vez mais exótica num mundo que exige de todos que se exprimam, porque a "libertação" do que somos é uma espécie de última fronteira que nos separa da total visibilidade do poder.


Praia das Ilhas (José Ames)

O GRANDE TÁCTICO



"A minha artimanha foi bem sucedida porque não era estudada, porque não podia ser prevista. É o que acontece com o exército em geral, uma artimanha de guerra deve nascer, na cabeça de um capitão, da circunstância, do acaso e da experiência na pronta percepção das relações e das oposições dos homens e das coisas."

"Histoire de ma vie" (Giacomo Casanova, citado por Philippe Sollers)


Que vem fazer a arte da guerra nas memórias do grande sedutor? "À l'amour comme à la guerre?" Será porque o sedutor conquista, faz da posse o seu objectivo, mas o que ele quer, como o diabo, é a alma.

O catálogo de Dom Juan podia ser feito só de juras, se a honra estivesse sempre em alta. Mas o sedutor conhece melhor a sua presa e poderia fazer da célebre ária do "Rigoletto" sobre a volubilidade das mulheres a sua cartilha.

Mas voltando à linguagem militar, podíamos resumir assim a ideia de Casanova: o quartel-general (a ideia feita) é completamente inapta para fazer mudar a sorte no terreno. O bom general, como Bragation, em Tolstoi, sanciona sempre a manobra que o homem no terreno "vislumbra" ou se vê obrigado a executar.

Casanova também preferia deixar-se guiar pela intuição, o que ele chamava de "seguir Deus".

terça-feira, 14 de outubro de 2008


(José Ames)

A CIA E A TEORIA DOS JOGOS



"Destruir depois de ler" (Ethan e Joel Coen, 2008) ou de como a obsessão duma mulher por dar uma volta à sua vida sentimental, através duma cirurgia estética, se parece com a complexidade política nos envolvimentos da CIA, quando as personagens se entregam aos seus jogos de decepção e mistificação numa época em que nem o maniqueísmo político facilita as coisas.

O tom de comédia acaba muito naturalmente na violência extrema que é a imagem de marca dos Coen. E ficamos cientes de que a bagunçada final em que já ninguém tem a pretensão de compreender o que aconteceu e a veemência dos fucks praguejados é a medida da impotência de todos é a única coisa a que pode aspirar a "Intelligence". Talvez que a teoria dos jogos possa, afinal, explicar tanta ineficiência.

Nesse sentido, uma comédia como esta vai muito mais longe do que a crítica tradicional do poder da CIA ao denunciar o seu fundamental anacronismo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008


Gloucester (José Ames)

AUTORICTAS


A Autoridade consulta a Lei Escrita (Constantino Brumidi)


"A sua marca distintiva (da autoridade) é o inquestionado reconhecimento por aqueles que são chamados a obedecer; nem a coerção, nem a persuasão são necessárias (um pai pode perder a sua autoridade quer batendo no seu filho quer começando a discutir com ele, quer dizer, tanto comportando-se como um tirano quanto tratando-o como um igual)."

"On violence" (Hannah Arendt)


Este raciocínio é cristalino e parece poder servir de norma para definir o conceito de autoridade. Mas logo nos apercebemos de que há qualquer coisa na vida moderna que mina os próprios fundamentos desse fenómeno de "governo do homem pelo homem".

Compreendemos que o saber e o conhecimento, adquiridos pela experiência ou pelo estudo, estão na base desse fenómeno e que são sempre esotéricos quando a autoridade está em causa. Eles são uma espécie de monopólio sacerdotal que se impõe como um carisma, sem necessidade de violência nem de argumentação.

Mas não é por acaso que vivemos na chamada sociedade do conhecimento e talvez seja essa a marca da verdadeira democratização.

No exemplo do pai que argumenta com o filho (que o trata como igual, nas palavras de Arendt) é claro que nem a paternidade, nem a diferença de idades reivindicam qualquer privilégio.

Dá-se de barato que o saber e o conhecimento estão ao alcance de todos, mesmo dos que não atingiram ainda a "idade da razão". E a enciclopédia das enciclopédias, que se abre com um simples clique do rato, pode confundir qualquer adulto que discuta com uma criança. É que um está em frente ao outro, nessa situação, não como pessoa real ou ser político, mas apenas enquanto utilizador da tecnologia.

A informação disponível passa, então, a ocupar o lugar do saber e do conhecimento e a autoridade, sob todas as suas formas, declina na mesma medida.

sábado, 11 de outubro de 2008


(José Ames)

A FUGA DA BASTILHA


A tomada da Bastilha


"Que entendes tu, diz-me, por esse sentimento de gratidão com que julgas teres-me cativado [...] raciocina melhor, criatura mesquinha, que fazias tu quando me socorreste? Entre a possibilidade de seguires o teu caminho e a de vires em meu auxílio, escolheste a última como um movimento que o teu coração te inspirava [...] Entregavas-te, portanto, a um prazer? Por que diabo queres tu que eu seja obrigado a recompensar-te do prazer que a ti própria proporcionaste?"

"Infortunes de la Vertu" (Marquês de Sade, citado por P. Klossowski in "Sade, meu próximo"


O paradoxo do masoquismo está todo neste raciocínio.

Desde que acreditamos que se pode ter prazer no próprio sofrimento, isto é, quando a natureza e o bom senso parecem enganar-nos tão completamente, somos levados a estender a cínica inquisição à própria "Vida dos Santos".

Donde vem esta "liberdade" do juízo que ataca as mais veneráveis tradições? Sade compreendeu muito bem essa liberdade que resulta do acto de revolta contra Deus.

O homem que responde só perante si próprio corresponde à situação do homem que, em espírito, se libertou da Bastilha.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008


Matosinhos (José Ames)

AINDA NÃO


"Madadayo" (1993-Akira Kurosawa)


Notando uma nuvem de fumo ao entrar, o velho lembra aos seus alunos que é proibido fumar na sala, para logo a seguir se confessar culpado do mesmo vício que faz com que algumas vezes chegue atrasado.

O professor de alemão, com 60 anos, anuncia então que se se vai retirar para se dedicar à escrita.

Com esta anedota e a reacção dos jovens, percebemos por que o mestre se fez amado e durante anos a fio, de facto, até aos 77 anos, quando morre sonhando com um jogo da infância, recebeu a homenagem de um numeroso grupo de fiéis.

De todas as vezes, no seu discurso de aniversário, ele profere as palavras sacramentais: Madadayo (ainda não). Como no jogo das escondidas, ele responde que ainda não está pronto à morte que vem procurá-lo.

O prenúncio de que o jogo está a acabar é representado pelo episódio central do gato chamado Nora, por quem o velho se afeiçoa a ponto de ficar destroçado com o seu desaparecimento, para consternação de todos os amigos.

Essa fraqueza que se transforma em melancolia é como o vício do tabaco: revela a exposição à morte, pois nunca estamos suficientemente "escondidos".

Os antigos alunos sempre o consideraram de "oiro maciço", mas tirando uma alusão ao "Fausto", não sabemos o que é que eles aprenderam de alemão. Mas o mais importante talvez seja o espírito que pairava à sua volta e que fazia os outros sentirem-se em casa.

Esse espírito é difícil de definir, porque mais do que amizade era feito de admiração. E o mais estranho é que nem o amor assolapado a um gato a podia pôr em causa.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008


(José Ames)

O SALÃO DAS MULHERES



"Ela também tem consciência, estou certo disso, de que o salão é a única arte de representação da época burguesa que não serve o ego masculino ou a vaidade masculina e que não manipula as mulheres só para gratificação dos homens, como a ópera e o bailado. Os salões são dirigidos, geridos e moldados por mulheres, servem para evidenciar as mulheres e permitem-lhes controlar as coisas."

"Memórias de um economista" (Peter Drucker)


Os salões tiveram grande sucesso, sobretudo, em França. Proust descreve-os como um entomologista, com alfinetadas aqui e ali a esses aristocratas que sabiam conciliar a extrema amabilidade com o absoluto desprezo. Mas não há dúvida que é Madame e não Monsieur Verdurin que pontifica no seu salão.

Drucker compara esta "arte de representação" aos antigos mistérios eleusinos ou minóicos, quando as sacerdotisas "aparentemente fora do palco, controlavam as almas enquanto os vulgares homens dominavam corpos e espíritos."

Este podia ser até um exemplo feliz de como os sexos abordam a questão do poder. E é tentador encontrar nessa diferença o que distingue, por exemplo, a atenção no homem e na mulher. Pertence ao anedotário sexual a capacidade feminina de manter vários focos simultâneos da sua atenção, assim como ( e talvez exista uma ligação desconhecida entre estes dois fenómenos) a multiplicidade das suas zonas erógenas, as quais se encontrariam muito mais concentradas no homem.

Se aproximarmos estes tipos de atenção e esta erótica diferenciada das formas do poder, logo pensamos em como, no homem, são naturais a centralização e a especialização e à mulher o contrário disso, como o tipo de relações que se estabelecem no salão burguês ilustraria.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Granja (José Ames)

A MULHER-A-DIAS DE CASANOVA



"A estupidez, segundo ele, é pior que a maldade. Esta última pode ser punida e emendada, mas a estupidez, essa corta-nos as pernas e a respiração. É o que acontece com a mulher-a-dias que acaba de lhe deitar fora um capítulo inteiro do seu manuscrito porque viu papéis usados e riscanhados sobre a mesa. Não tocou no papel branco. E ele tem de fazer tudo de novo.

As pessoas serão más por serem estúpidas, ou estúpidas por serem más? Poderemos mudar três vezes de opinião sobre o assunto durante um dia (vendo bem, a mulher-a-dias de Casanova talvez fosse má, mais ainda do que ele supunha)."

"Casanova, o admirável" (Philippe Sollers)


A mulher-a-dias de Casanova teria hoje razão se tivéssemos passado um rascunho para o computador. Ela estava apenas desfasada do seu tempo. Teria ela imaginado que ele escrevia para pôr ordem nos seus pensamentos ou como quem desfia as contas dum rosário?

Ante a alternativa que Sollers nos propõe, ser-se mau por estupidez parece-me a mais conforme à tradição filosófica. Alain dizia que méchant é o que cai mal (mal échoir), logo que não é livre no momento em que perde o equilíbrio. Era também a opinião de Platão: ninguém é mau voluntariamente (com verdadeiro conhecimento).

Por outro lado, é uma verdade psicológica que a maldade, seja ela o que for, nos torna estúpidos, monomaníacos, apresentando-nos o mundo à medida da nossa paixão.

Casanova era capaz deste tipo de maldade. "Para se vingar de alguém, corta o braço de um morto e mete-o, de noite, entre os braços de alguém que está a dormir e que morre de medo." Estaria aqui a origem daquela cabeça de cavalo que se vê no primeiro "Godfather", o filme de Coppola?