sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

ERA UMA VEZ UM VALE DE LÁGRIMAS...


The diary of Etty

"Uma vez é um Hitler, uma outra Ivan o Terrível por exemplo, uma vez é a resignação, outra as guerras, a peste, os tremores de terra, a fome. Os instrumentos do sofrimento importam pouco, o que conta é o modo de carregar, de suportar, de assumir um sofrimento consubstancial à vida e de conservar intacto através das provações um pequeno pedaço da sua alma."

"Journal 1941/1943" (Etty Hillesum)


Os tempos eram terríveis e aquelas palavras estão repassadas desse espírito de aceitação estóico que Nietzsche tanto verberava, e que é o fundo da sabedoria cristã, a "religião dos escravos".

Em tempos aparentemente mais fáceis, quase ninguém aceita a consubstancialidade do sofrimento. Pelo contrário, espera-se da Ciência que um dia nos liberte dele e até da própria morte.

É por isso que o estado do mundo, em vias de se tornar caótico, só se pode explicar por um qualquer eixo do Mal ou pela diabólica influência de meia dúzia de manipuladores de cordelinhos.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

A CONSEQUÊNCIA DA PASTA


Stendhal


Na reunião secreta que prepara a missão, junto de um alto personagem na corte de Londres, de Sorel, o qual, graças a uma memória prodigiosa, poderá suprir a mais minuciosa das actas, o primeiro ministro, M. de Nerval, faz uma impolítica aparição.

"É preciso convir que há nele uma muita rara suficiência e insolência até em se apresentar aqui. Ele costumava aparecer antes de chegar ao ministério; mas a pasta muda tudo, submerge todos os interesses dum homem, ele deveria ter sentido isso."

"Le Rouge et le Noir" (Stendhal)

É o que os ingénuos não saberão nunca antecipar. É que o lugar muda o homem.

Poupar-se-iam o opróbrio da classe política e a costumeira indignação perante as promessas traídas, se conhecêssemos um pouco melhor a massa de que somos feitos.

Eu acredito que um candidato faça promessas de boa fé, mas já é um mau sinal que as faça.


(José Ames)

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

BASÍLICA


Roma

A primeira impressão ao entrar na igreja de S. Domingos (ao Rossio) é a de estarmos numa das muitas basílicas que em Roma são a prova de que nada resiste ao tempo.

Chega a ser comovente o espectáculo das colunas carcomidas contra o fundo liso das capelas que tem uma cor que sempre associo à cidade eterna: o fúchsia. A outra é o ocre velho, como o do palácio de "Conversation Piece".
O sacristão limpava carinhosamente, com um trapo, a cabeça da virgem iluminada. A igreja estava quase vazia, afundada no tempo do seu sinistro que me fez sentir em Roma.

Alguns soldados montavam guarda cá fora - disseram-me que a causa era um concerto de Natal (?). E eu quis ver nessa presença da força um dique humano protegendo a relíquia da cidade voraz.

domingo, 26 de novembro de 2006


(José Ames)

UMA VEZ, GUERRA E PAZ



No interior conhecem-se as grandes famílias: Bezuhov, Rostov, Bolkonski. Constelações com um brilho próprio.

Pierre, que é um bastardo, é em si um carácter colectivo. Um estilo. Nos Rostov, a ligeireza, a generosidade. Bolkonski, a honra, a nobreza, o pensamento. Os grandes espaços são teatro da guerra e da filosofia, ambas unidas no tema do destino e do mistério de Deus.

O firmamento interroga André caído em Austerlitz. Essa primeira morte, sagrada pelo comentário do próprio Napoleão e pelo desgosto da família, permite o regresso. Na noite de tempestade em que Lisa vai morrer do parto. Como se viesse, ele, trazer essa morte devida na sua pessoa. Ao cair nos braços de Maria, a irmã diz: - Que destino! – Como Pierre há-de resumir a tragédia de todos e reencontrar Natacha. A criança é uma mulher grave e amorosa. Essa frase volta: - fosse eu o mais belo e o mais inteligente dos homens, cairia a seus pés pedindo-lhe a sua mão…

O anjo cai no episódio de Kuraguine para elevar André, incapaz de perdoar. O orgulho dos Bolkonski é vencido pelo sofrimento. O velho príncipe chora abraçando André que regressa vivo de Austerlitz. Este, no leito de morte reconhece que não tem nada a perdoar a Natacha. Ama-a melhor. Ela tem tudo para sacrificar. Ele já nada.

A primeira confirmação muda os sentimentos de André. A irrequieta Rostov protesta-lhe um amor juvenil que ele vai sujeitar à prova do tempo. Só Pierre é incapaz de julgar. Senão inspirado, como na noite das fogueiras, quando um soldado francês lhe lembra a sua condição de prisioneiro. Quando o céu lhe comunica a sua força. Quando decide ser o libertador da Europa, esmagando a cabeça da águia imperial. Bezuhov é um cúmplice do estrangeiro. Na corte fala-se o francês do invasor. Napoleão é uma vítima do seu nome. Incapaz de alcançar a grandeza dos acontecimentos. Vencido pela paciência de Kutuzov. Uma cidade coberta de tesouros que valem tanto como areia. Uma capital de nada. O velho general mobilizou a natureza e o tempo. Tornou-se um verdadeiro aliado de Deus. O inverno persegue a retirada. O grande homem salva-se numa carruagem para Paris, abandonando à sua sorte o exército. Kutuzov teria feito toda a guerra sem homens. Mas a vaidade pedia vítimas. Um civil faz de Borodine um teatro divino. É Pierre, que ainda não compreende.

No filme de Bondarchuk, o pescoço de Natacha reflecte o incêndio de Moscovo. Como a reverberação da dor no tracto das palavras inúteis. É sem dúvida casual que essa parte do corpo dê o sinal da catástrofe. Mas ocorre-me toda a significância dessa superfície em que Eros e a morte se encontram. Lugar de corte: da vida e da palavra. É uma interpretação fetichista naturalmente alheia à obra. Pelo contrário, a cena do balcão em que a noite é comentada por Natacha e Sónia para o ouvido irónico de André é um símbolo genuíno. É dessa forma que se deseja ouvir uma confissão de amor ou a revelação do ser amado. Nessa espécie de altar celeste celebrado pela lua, é o monólogo mais puro que se intercepta. Sem intermediários.

A montagem paralela ”avant la lettre” tem um significado especial na morte real de André. A personagem é como que suspensa enquanto os diversos cursos do romance se precipitam. A granada espoletada pelo autor explode num tempo fora da acção. Em off, como se diz no cinema.

E agora um efeito completamente alheio ao livro e ao filme: no momento em que a jovem percebe que o moribundo da sala contígua é o príncipe, e caminha como uma visão branca em direcção ao leito, acendem-se as luzes. Intervalo. Ninguém se lembraria de interromper aí a leitura. Os capítulos são como os molhes da costa. Mesmo que não haja farol, as pessoas sentem a necessidade de os percorrer até ao fim. Agora o projeccionista interveio separando os noivos no tempo real.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006


Porto (José Ames)

O LUXO VITAL




A forma humana perde-se no sono e no orgasmo. Mas um exige abandono total e o outro actividade. Em muitos aspectos, a excitação sexual é uma prova de atletismo que acaba no chão. E o céu levantado pelas multidões dos estádios.

Não é preciso pensar no célebre veneziano nem na pintura que dele fez Fellini para ver que cada homem tende a levar à desmesura aquilo que é o maior luxo que a natureza lhe concedeu. Esse excesso tem como modelo a máquina e não a harmonia do helenismo. Porém, é uma máquina que se destrambelha e pulveriza por fim na falta duma verdadeira função. E o prazer está todo nessa destruição das formas. Se eu quero, o meu corpo corre até ao limite. Aí, a sensação agradável sucede ao esforço. Mas se é o perigo que me faz correr, a ideia de repousar é o maior perigo. E a ideia do limite das forças. Estou em crer que quem, pela vontade se venceu várias vezes no curso dum grande e violento esforço, atinge uma espécie de imaterialidade e de transfiguração do prazer. O mundo deixa de ser um obstáculo e o sono está próximo, que afasta de divagações perigosas. Quer dizer que o próprio regime do corpo se apodera da vontade, quando começou por lhe obedecer.

Acontece com o sexo o que se passa com o poder em geral. A qualidade distintiva daquele órgão é a sua falta de economia. Ele é a criação do espaço e da rareza. Os encontros de acaso tornaram-nos prolixos. Somos uma espécie, contudo, que pensa a sua existência, e o pensamento do sexo multiplica. A capacidade de se dar prazer, independentemente da necessidade de reprodução, teria como inevitável consequência o desperdício e a morte, se não se fizessem sentir as leis do sistema nutritivo e não fosse imperiosa a acção. Só se mata de prazer quem viola o ritmo natural da vida e se dispõe a vivê-la num momento de intensidade terrível. De resto, a potência sexual é função da saúde física e mental, e deprecia-se com o uso infrene. E é como uma lei secreta das sociedades humanas que quando não há razões para adiar nenhum prazer, nem observar a lei do sacrifício sexual, só dos bárbaros pode vir a salvação. O bárbaro não se aborrece porque lhe falta tudo. Até a sua incompreensão da decadência é virtude e força.

É um milagre que o homem não vá até ao fim do seu poder. Não é assim que se experimenta tudo? Mas os homens precisam doutra filosofia. Felizmente o poder absoluto é quase uma utopia, perante um escravo como Epicteto.

Ao levantarem-se os tabus sobre a sexualidade, a sabedoria descobre que o homem não é livre. Que não existe senão pela lei moral. Mas é verdade que o sono nos reconcilia todas as noites com o animal misterioso.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

RETÓRICA CONTRA RETÓRICA




Albert Hirschman é citado hoje num artigo de EPC no "Público".

Este sociólogo tem o mérito de introduzir alguma racionalidade no incipiente debate político que sucedeu ao colapso soviético.

Nunca é demais lembrar que a retórica faz parte da política, e que desde a Antiguidade Clássica se sabe que as questões de forma são decisivas na persuasão dos homens.

AH define uma retórica reaccionária, através de três teses:

a da futilidade (nada mudará, se não mudarem as estruturas), a da perversidade ( as melhores intenções podem ter efeitos indesejados) e a do risco (uma reforma mais radical prejudicará uma anterior reforma, conquistada com muito esforço) e compara-a com a retórica do partido contrário, encontrando entre as duas muita coisa em comum.

Mas porque há uma verdade, ou meia verdade naquela retórica, os amigos do progresso terão de ter em conta os seus argumentos e, se possível, antecipá-los e aprofundá-los.

Com efeito, a tese da futilidade é o argumento utilizado por aqueles que se opõem a todas as reformas, com a desculpa do que o que é preciso é uma Revolução. É o eterno adiamento da luta pela justiça, lapidarmente resumido por Alain: "Os Direitos do Homem suspendem o direito até que termine a guerra pelo direito. Assim, todos estão de acordo, e a discussão académica condu-los a discutir tão-só as nuances."

Por outro lado, negar todo e qualquer efeito perverso é presumir que os homens dominam o conhecimento de todas as consequências dos seus actos, o que está longe de ser verdade. Mas Hirschman cita Racine, para nos precaver contra o vício oposto, de tudo querer prever:

"Tant de prudence entraîne trop de soin. Je ne sais point prévoir les malheurs de si loin." (Andromaque)

A outra ideia depende, como é óbvio, da real importância das medidas em curso e de existir uma verdadeira incompatibilidade.

Em distinguir, pois, a falácia por detrás da razão aparente é que está a arte do polemista.


S. Marcos (José Ames)

IRREALIDADE


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"(...) contemplando tudo isto, dizia, com que gozo de intuição me subia aos lábios da consciência este grito de redenção: mas nada disto é real!"

"O Livro do Desassossego" (Fernando Pessoa)

O poeta refere-se ao espectáculo das ruas e das janelas iluminadas num passeio nocturno.

É quando os sentidos entram numa espécie de abstinência e o mundo como que se esconde do olhar, deixando apenas o perfil das coisas e a memória da luz, que melhor vivemos esse instante em que a realidade dum começo de tudo pode ser criada.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

ZERO VALORES


http://www.markstivers.com/cartoons/Cartoons%202003/
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De que valores fala Eduardo Prado Coelho no seu artigo de hoje, no "Público", em polémica com Mário Pinto?

Receio bem que esteja a sujeitar as palavras a mais uma desvalorização. Se tudo é valor, não há valores.

A versão (sobre o aborto) de MP seria "extremamente discutível e sem qualquer apoio científico".

Quero crer que sim. Mas desde quando a crença num valor, que não existe entre as coisas, nem pode ser medido, tem de ser validado pela ciência?

Estamos a falar do sentido da vida, da acção e da moral, e não de simples factos.

Talvez que a pergunta que espoletou (e não, como se costuma dizer, despoletou) esta profissão de fé relativista, e que é: "Queremos mesmo valores?" não tenha sequer sentido, porque significa perguntar a um homem sem fé se quer ou não tê-la.

Nem todos os imperativos categóricos do mundo permitirão criar um valor, visto que só (mas não é nada de somenos) poderão ser úteis e dar lugar a leis razoáveis.

E, ao contrário do que diz EPC, julgo que a ausência de valores, longe de ser um valor, é própria das almas mortas.

terça-feira, 21 de novembro de 2006


"Demi-rêve" (José Ames)

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

AS OSCILAÇÕES DE HEITOR


Hector dissuaded from battle
engraving by James Fitler (dates unknown), 1795
after painting by Thomas Kirk (1765–1797)


"Este castigo dum rigor geométrico, que pune automaticamente o abuso da força, foi o primeiro objecto da meditação dos Gregos.

(...) Talvez seja esta noção grega que subsiste, sob o nome de karma, em países do Oriente impregnados de budismo; mas o Ocidente perdeu-a e já nem sequer tem, em nenhuma das suas línguas, palavra que a exprima; as ideias de limite, de medida, de equilíbrio, que deveriam determinar a condução da vida, já só têm um uso servil na técnica."

"A Ilíada, ou o poema da Força" (Simone Weil) in " A Fonte Grega" (Livros Cotovia)


A palavra e a meditação sobre ela nas tragédias nunca impediram o abuso da força.

O mesmo homem pode, num momento sentir todo o peso do destino, como Heitor, no exemplo de Simone, e, no outro, embriagado pelo sucesso, ultrapassar os limites da prudência.

E se é verdade que a sabedoria do passado não se perdeu completamente, porque existe ainda nos livros, a multidão perdeu o contacto com ela.

Hoje, graças aos triunfos da Ciência, dir-se-ia que a ideia que prevalece nas massas é que, pelo menos para a espécie, não há limites e que a noção de força e a do seu abuso nem sequer fazem sentido para o Homem.


Alfama (José Ames)