
"Camafeu" (José Ames)

No segundo episódio do "Decálogo", de K. Kieslowski, uma mulher enfrenta o dilema de abortar do único filho que pode ter, mas que não é do marido, se este sobreviver a um estado comatoso ou, no caso contrário, ser mãe e seguir o outro homem.
Ao intimar o médico a dar-lhe a certeza que ele não pode ter, pergunta se compreende que possa amar os dois homens.
O velho esquiva a resposta, mas, para salvar o bebé, acaba por jurar (contra a deontologia profissional), que o marido não tem qualquer hipótese.
No final, o morto regressa à vida e, agradecendo ao médico, comunica-lhe que vai ser finalmente pai.
Não sabemos se já sabe a verdade, ou se ela lhe será revelada um dia.
Mas nada parece, de facto, mais importante do que a nova vida.

Um taxista, em Dublin, ao saber que sou português, comenta que não me devo sentir muito feliz (foi no dia seguinte ao "penalty" de Zidane).
Puxando por ele, consegui a sua opinião sobre os nossos jogadores, que proferiu com uma gargalhada, logo seguida dum pedido de desculpas:
- No matter! They'll always make a living as divers!"

Sandcove (José Ames)
A Irlanda não tem a nossa velocidade automóvel. As principais estradas atravessam cidades ( ontem, demorei uma hora numa exasperante procissão, sob chuva, pelo centro de Ennis), como as nossas há uns anos.
Outra coisa é a informação. Nunca vi tanto ciber-café com tantos jovens se acotovelando.
Depois de reestruturarem o aparelho produtivo, utilizando os fundos europeus nessa dolorosa transição, vão poder agora virar-se para as auto-estradas.
Entretanto, parecem ter resolvido o problema do desemprego, através do crescimento económico, e o seu salário mínimo é já de 1.326,00 € (2005).
A nossa escolha foi outra. Preferimos criar condições à espera da iniciativa e dos sacrifícios voluntários.
Sendo o turismo, em princípio, o grande beneficiário das melhores estradas, é irónico que a Irlanda, justamente, apresente o seu fraco desenvolvimento nesse domínio como um atractivo turístico...


"Não existe um outro mundo. Nem sequer este existe. O que há então?
O sorriso interior que em nós suscita a inexistência patente de um e de outro."
E. M. Cioran ("Ébauches de vertige")
Ah! como eram fáceis os tempos em que se podia dizer que a melhor prova da existência dum pudim era comê-lo!
Agora a sério. Posso aceitar que nada existe (assim como podemos dizer que Deus não existe, sem com isso negarmos a relevância, para os homens, da questão), dum ponto de vista cósmico.
Só conhecemos o nosso mundo, mas podemos pensar que ele é realmente nada no meio do que o ultrapassa.
O sorriso interior não é a favor nem contra este destino. É um arco-íris sobre a gesticulação humana.

Lynch é um mestre da imaginação.
O som e os silêncios são nele mais importantes do que noutro que eu conheça.
Transformam a "wonderland" do cinema num lugar sinistro a que uma Alice de província (Betty) traz um optimismo alucinado.
O rendez-vous nocturno com a personagem do "cowboy", inverosímil e ridiculamente anacrónica, mas tanto mais perturbante, constitui um momento sobrenatural de cinema.
Mesmo aí, o besouro da lâmpada a fundir-se, junto da caveira do deserto, é o que mais nos impressiona.

"La Luna" (1979 - Bernardo Bertolucci)
O que nos leva a ser tão indulgentes com este filme, que acaba tão bem, é a ideia da psicanálise. Já foi um lugar-comum interpretar o conflito básico da família em termos de função sexual e luta entre o princípio do prazer e o da realidade. É só aborrecido que este mito moderno não seja tratado como poesia.
Há no filme uma demonstração desnecessária. Uma boneca russa dentro de outra. Esta viagem à procura do nome do pai – da herança, do território, do modelo que se ergue sobre o barro materno – corresponde a um tema literário ou à psicologia natural? O adolescente injecta-se de heroína porque não lhe importa a vida. A mãe como pessoa não lhe interessa. Verdi deixa-o indiferente, apesar de ser como um pai para Catarina. Não podemos deixar de pensar na actual crise da família que é uma crise da palavra do pai.
A televisão apareceu como um politeísmo usurpador na casa familiar. Deu às crianças um simulacro do poder mágico sobre o mundo que era exclusivo do adulto. E a fonte da linguagem social e dos modelos de identificação passou a ser outra. Ninguém viveria um momento sequer com a peste dentro de casa, se pudesse correr com ela. Mas todas as barreiras foram vencidas. Não dispomos de nenhuma arma contra uma inclinação tão natural.
Os estupefacientes, os jovens cansados de viver, os adultos que regressam à infantilidade, sinais dos tempos. Mas há quem insista em ver no fenómeno de decadência espiritual apenas o conflito de gerações. Bertolucci dá ao filme uma conclusão que em linguagem política se podia chamar de reaccionária.
Mas não esqueçamos que é um italiano, e que, ao tempo do filme, os jovens no seu país resolviam o complexo de Édipo pelas armas.