sábado, 7 de janeiro de 2006

O DR. SONNE NÃO BRILHA PARA TODOS


Robert Musil (1880/1942)


"Ele tratava cada auditor conforme o seu grau de sensibilidade, que conhecia bem. Não propunha nunca qualquer receita, embora conhecesse muitas. Era tão categórico como um juiz pronunciando o seu veredicto, mas sabia com um simples gesto excluir o seu interlocutor desse juízo. Mais do que de cuidado, era de ternura que seria preciso falar na ocorrência, e a mim espanta-me até ao dia de hoje essa mistura de ternura e de rigor inflexível."

"Histoire d'une vie"


O dr. Sonne é uma figura da Viena dos anos trinta que Canetti e um amigo elegeram como exemplo duma pessoa bondosa, depois de quase desesperarem para encontrar uma.

Era um homem que não dizia mais do que era preciso e que nunca se referia a problemas pessoais, os seus ou os dos outros. Podia discorrer, com igual pertinência e clareza, sobre qualquer assunto, pronunciando-se, no seu círculo, como um oráculo. Canetti comparava a sua conversação, e é o melhor elogio que lhe podia fazer, ao que então Robert Musil escrevia.

Como nunca falava de si não se podia saber que a sua pose um pouco rígida era consequência duma queda de cavalo que lhe afectara a coluna vertebral nem que, na juventude, havia sido um notável poeta da língua neo-hebraica. Evidentemente que o facto de ter distribuído a fortuna que herdara era também de quase todos desconhecido.

A sorte de encontrar um tal homem, que não dava nas vistas e permanecia silencioso num grupo mais alargado, foi de facto miraculosa.

Porque "O Homem sem Qualidades" está hoje ao alcance de qualquer leitor motivado para ler as suas quase duas mil páginas, mas um homem como o dr. Sonne (Sol) brilhou apenas para um cenáculo e extinguiu-se sem deixar resto, que eu saiba, fora das memórias de Elias Canetti.

O GUME AFIADO DO ERGO


Robespierre (1758/1794)


"Primeiro cidadão - As nossas mulheres e os nossos filhos reclamam pão, nós vamos alimentá-los com a carne aristocrática. Hey! Morte a quem não tiver o casaco roto!

Todos - Morte! Morte!

Robespierre - Em nome da lei!

Primeiro cidadão - A lei, o que é isso?

Robespierre - A vontade do povo.

Primeiro cidadão - Nós somos o povo e nós queremos que não haja lei, ergo, esta vontade é a lei, ergo em nome da lei não há mais lei, ergo à morte!"

"A morte de Danton" (Georg Büchner)


Esta peça, em que os Franceses do século XVIII citam, a todo o momento, os heróis de Tácito e de Tito Lívio, parece trazer um flagrante desmentido ao "mot" de Karl Marx sobre a história acontecer primeiro como tragédia e se repetir depois como farsa.

Os companheiros de Robespierre podem ter sonhado repetir as virtudes da república romana e seguir como modelo os Brutos e os Catões, mas não deixaram de viver a primeira grande tragédia dos tempos modernos.

O facto de ela se ter decidido por argumentos homicidas e em espaços fechados, desviados da sua primitiva função (o refeitório dos dominicanos que serviu de sede aos Jacobinos), aproxima-a ainda mais do teatro sangrento.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

AS DUAS FUNÇÕES DA BELEZA

"Ex nihilo" (www.doubtfulpalace.com)


"A alegria e a dor são dons igualmente preciosos; é necessário saborear uma e outra integralmente, cada uma na sua pureza, sem procurar misturá-las. Pela alegria, a beleza do mundo entra na nossa alma. Pela dor, entra-nos no corpo."

Simone Weil ("Espera de Deus")


Mais uma vez, o universo em Simone Weil não nos é estranho, não é um espaço insondável povoado de mundos e objectos com os quais nada temos a ver.

A acta de nascimento do homem não assinala o princípio de nada.

Não querer ver a nossa dimensão cósmica e o que ela implica na vida de cada um é um erro, mais aparentado com o da aparente destituição do antropocentrismo no reconhecimento de que descendemos do macaco, do que com a criação ex nihilo, descrita no Génesis.

O mito de Adão e Eva conserva, através da ideia de Deus, uma ligação indirecta ao universo, na imagem da Criação.

A teoria de Darwin, que é cientificamente irrefutável, enquanto faz parte duma polémica com o sentimento religioso, prova mais do que tem legitimidade para fazer. De facto, o elo com as outras espécies deveria antes levar-nos à condenação de todo o antropocentrismo.

Ninguém como SW nos faz sentir que somos filhos do universo, pressupondo uma relação diferente daquela que existe entre a parte e o todo.

Pela beleza, aderimos ao que a nossa inteligência não alcança e participamos daquilo de que parece que o corpo nos separa.

SILÊNCIO, ESCURIDÃO E NADA MAIS


"O silêncio" (1963-Ingmar Bergman)

Bergman diz que, para ele, "o cinema é antes de tudo teatro." Tudo é teatro desde a sexualidade às relações com Deus.

Nesta afirmação paradoxal (que Oliveira subscreveria) temos talvez a chave para a compreensão dum filme como "O silêncio".

Nos primeiros minutos a acção passa-se numa carruagem, com duas mulheres e uma criança. Não se ouve um som, nem de palavras, nem do comboio que desliza através dum país estrangeiro.

A mãe dorme, ressudando sensualidade, enquanto o rapazinho olha pela janela. A outra mulher parece sofrer e a certa altura tem uma hemoptise.

Com o aparecimento do som, vamos continuar no silêncio entre os seres. As duas irmãs, de temperamentos opostos, não têm nada a dizer uma à outra.

Penso entender aquela ideia assim: é quando convertemos a vida, o que dizemos e fazemos na realidade, em diálogos e cenas que tudo ganha um sentido. Recorremos a máscaras e a personagens, a um enredo e até a um palco ("life is a stage" já dizia Shakespeare) para compreender.

O que nos fica da torrente da vida sem a "encenação" que a nossa memória e a nossa sensibilidade, conscientemente ou não, constroem?

A verdade da vida não é o sentimento da vida, mas a história (a peça) que nos dá uma voz e um papel.

Aquelas personagens não "funcionam" e, assim, é o não-sentido que é objecto da encenação.

O filme é o desfecho da "Trilogia do Silêncio", formada ainda por " Através de um Espelho" e " Luz de Inverno", sobre o silêncio de Deus.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

O FLATO DA EUROPA


Charles de Gaulle (1890/1970)


"Por que não nos assumirmos como somos e vermos no fanático um irmão perdido, como o vemos no doente ou num terrorista? Não terão o místico e o agnóstico os mesmos neurónios e as mesmas angústias? Se nos é permitida a trivialidade: "Toda a gente crê, como toda a gente pensa, e mija. Mas podemos crer sem dar por isso, ao passo que não podemos mijar nas calças sem nos apercebermos."

"O Fogo Sagrado" (Régis Debray)


A teoria de Debray explica a fraqueza do ideal europeu pela falta de fé e de coesão.

Isso é assim porque a ideia de unidade é demasiado abstracta e não concorre com o particularismo das línguas e das culturas, que esse tem uma história de raízes arrancadas e conservadas.

O problema é saber se a transfusão de vida de que a Europa carece se pode alcançar pela via do alargamento e da abertura, como se em princípio, nada obstasse a que todo o planeta se tornasse europeu, através de conversões sucessivas ao cânone da nossa civilização judeo-greco-cristã.

Ou se o caminho a seguir deveria ser outro: o do recentramento e da delimitação de fronteiras da identidade. E se essa concentração se pode fazer sem ser por uma necessidade de segurança e debaixo das pulsões básicas do religioso.

A França, com de Gaulle, teve a intuição desse Outro da Europa, suficiente próximo, porque da mesma matriz, contra o qual, dentro dum contexto de paz, definir as diferenças fundamentais num modelo aglutinador: os E.U.A.

O OLHAR MÍTICO


Anna Mahler (1904/1988)


Canetti teve uma paixoneta por Anna, a filha de Mahler, e podemos pensar que a causa disso estava nos olhos dela:

"Eu acabava de penetrar na estufa que lhe servia de atelier, quando ela se voltou de repente e me fixou bem no rosto. Eu não estava já afastado e fiquei impressionado por esse olhar. A partir desse segundo, os seus olhos não me largaram mais. Não fui apanhado de improviso, porque tive tempo para me aproximar, mas de qualquer modo foi uma surpresa: uma inexauribilidade para a qual não estava preparado. Ela residia nesses dois olhos; tudo o que se via nela para além deles era ilusão" ("Histoire d'une vie").

Depois de ter suscitado, por algum tempo, igual fervor, o nosso autor recebeu de Ana uma carta lacónica e definitiva: "Creio, M., que não estou enamorada de ti."

E tudo acabou ali, como se apagado o desejo desses olhos, nada mais restasse.

Talvez por isso parecesse, em Alma Mahler, que só o resto era ilusão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

O CAMINHO DA NINFA


"Lolita" (1962-Stanley Kubrick)


Quando, na "Lolita" de Kubrick, a mãe Haze, tendo-se fechado à chave, lê o maldoso diário de Humbert Humbert, este, do outro lado da porta, para "deitar água na fervura", diz que aquilo não é para ser tomado à letra e que a literatura é mesmo assim.

No que, até certo ponto tinha razão, visto que as pessoas e a vida real são sempre pretexto na literatura, perdendo o corpo e a substância, como as sombras a que se dirige Ulisses nos Infernos.

Esta é uma traição sem a qual não se poderia escrever e que é maior do que a da tradução.

Tirando isso, HH era um hipócrita que não tinha a desculpa da literatura, e o seu diário era apenas o espaço de que precisava para o corpo a corpo sufocante no caminho da ninfa.

RETRATAÇÃO DE UM LOUCO



O episódio da cova de Montesinos é a ponta duma meada que, se puxada, transformaria o romance dum louco que se toma por um cavaleiro andante, no de uma espécie de revolucionário que se serve da loucura para ver o mundo todo torto e a exigir a força do seu braço.

Com efeito, Cervantes, sem se comprometer nessa interpretação que endossa a Cide Hamete Benengeli, o pseudo historiador de quem retoma a narração, sobre os fabulosos eventos de que D. Quixote teria sido testemunha no fundo daquela caverna, diz: "Tu leitor que és prudente, julga conforme te parecer, que eu não devo nem posso mais, posto que se tem por certo que na altura da sua morte dizem que se retratou dela e disse que a tinha inventado, por lhe parecer que convinha e quadrava bem com as aventuras que tinha lido nas suas histórias."

E foi a única vez em que D. Quixote se revelou inconsequente.

O NOVO MUNDO AMOROSO


"Breve encontro" (1945-David Lean)


Em "Breve encontro", de David Lean, admiro, entre outras coisas, a cena na carruagem com a amiga tagarela, cuja matraca deixa de se ouvir para dar lugar ao solilóquio da mulher que se confronta com a paixão e que precisa de ficar só. Depois a outra voz ressurge, numa boca do tamanho do ecrã, e é como se pela boca morresse a inteligência.

E gosto do artifício da narração: esta mulher que, ao contrário de Ana Karenine, não se atira à linha do comboio, imagina contar a um marido bondoso e compreensivo e que a ama (em tudo o oposto do sr. Karenine) aquilo que nem dali a um milhão de anos lhe poderá contar.

Não há tragédia, como em Tolstoi, o que não estaria bem com o 2º concerto de Rachmaninov.

Apenas a melancolia do novo mundo amoroso.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

A FÉ DE EISENHOWER


Dwight Eisenhower (1890/1969)


"A nossa forma de governo, dizia o presidente Eisenhower que era um espírito prático, não faz sentido se não se fundamentar numa fé profunda - e não me interessa qual."

"O fogo sagrado" (Régis Debray)


Se a religiosidade está por detrás de todas as ligações de grupo, quer este aparente a forma laica quer a clerical, a religião propiciaria o eixo meta (vertical) de integração na humanidade e no cosmos, reclame-se ela duma verdade revelada, ou, por exemplo, da ideia do Progresso (*).

Este modelo tem a vantagem de integrar o homem todo, também no que tem de colectivo e de irracional, sem ser apenas uma ficção moralista.

Alguns leitores de "Deus: um itinerário" criticaram Debray por não ter em conta a sua experiência profunda, ao falar de Deus como um mediólogo.

É claro que nenhuma teoria pode dar conta da intimidade duma consciência.

Mas para mim o que fica desta leitura apaixonante é a pergunta: qual é a diferença entre a justificação de Deus pela forma do homem e o problema da verdade de Deus?

A religião pode ser a especificidade humana dum instinto gregário de comunhão, existente sob outra forma no mundo animal. Mas um instinto pensado já não é um instinto.

Debray pode ter escrito a obra que a época pedia. Porque este é um tempo crepuscular, em que chegam ao fim as grandes ilusões que nasceram com a Revolução Francesa e o progresso da Ciência.

Mas não há aqui nenhuma nova fé, nenhuma nova esperança ( e não é possível construir nada sem elas).

Apenas o olhar seco de lucidez de que fala Torga para definir a velhice (com o choro sem razão).

(*) "Nenhuma outra ideia, das que se referem à ordem dos factos naturais, se aproxima mais da família das ideias religiosas do que a ideia de progresso nem é mais adequada para se tornar o princípio duma espécie de fé religiosa para aqueles que não têm mais nenhuma. Como a fé religiosa, também ela possui a virtude de revelar as almas e os caracteres. A ideia do progresso indefinido é a ideia duma perfeição suprema, de uma lei que domina todas as leis particulares, de um fim eminente para o qual todos os seres devem convergir na sua existência passageira. É, portanto, no fundo, a ideia do divino (...)

Cournot

ESTRIDÊNCIAS

Em Serralves, visitei a Casa, tão e vazia e luminosa, com as suas vistas para os jardins e os seus ornamentos "art nouveau".

E em todo esse espaço uma exposição doente de pós-modernidade.

Numa das salas, a artista escreveu alguns textos sobre o hábito que uma imagem comentava.

Esses objectos híbridos reclamavam mais atenção ( ou uma atenção de outro tipo ) do que o visitante vinha preparado para lhe conceder. Com efeito, sem ler os textos, aliás interessantes, os quadros (?) perdiam todo o significado.

Acredito que a maioria saia do edifício com um juízo sumário.

Sabemos que a arte moderna está de costas voltadas para a sensibilidade do público e que segue o seu próprio impulso, sem contas a prestar, como deve ser.

Mas não seria possível fazer daquela Casa o outro pólo do museu de arte contemporânea, com uma colecção permanente digna daquela arquitectura?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

ENCONTROS DIFERIDOS


Platão e Aristóteles

"Entre as coisas mais importantes que em nós amadurecem, estão os encontros diferidos. Podem dizer respeito a seres ou a lugares, livros ou quadros."

"Histoire d'une vie" (Elias Canetti)


Não me lembro de ter vindo a conhecer alguém cujo encontro tenha falhado uma primeira vez. Sucedeu-me antes o contrário. Começar por nos conhecermos muito bem, para depois divergirmos e mais tarde reatarmos, doutra maneira, como se a primeira experiência tivesse sido entre outras pessoas.

Mas em relação aos livros, tenho algo que se ajusta perfeitamente à ideia de encontro diferido.

Entre os muitos livros que cheguei a comprar nos alfarrabistas da cidade, tinha os "Éléments de philosophie", de Alain, na colecção Idées da Gallimard, obra que provavelmente nunca teria lido se não fosse uma biografia sobre Simone Weil e o meu entusiasmo por este grande espírito.

Há, pois, independentemente do potencial valor que tenham para nós certas obras, um problema de contacto, o qual, como o de dois amantes que se desconhecem era resolvido nalgumas comédias, pela figura da alcoviteira.

No caso de Alain, era natural que o interesse pelo discípulo se estendesse ao mestre.

Mas tive esse livro nas mãos e passei por ele, como se passa por um desconhecido que talvez gostássemos de conhecer, para o que falta, porém, o motivo e a ocasião.

ÁTOMOS E CÓCEGAS

"Os homens tiram tanto prazer de se coçarem como de fazerem amor."

Demócrito


Ou o coçar-se é mais do que uma reincidência num hábito pouco saudável, mas que nos dá muito prazer, ou é o fazer amor que está muito inflacionado pela literatura (ou pelo cinema).

Eu diria que é uma "blague" do filósofo do atomismo. O mundo reduz-se ao jogo dos átomos e o amor entre os homens à cócega.

A DIABOLIZAÇÃO DA ECONOMIA


"O testamento do dr. Mabuse" (1933-Fritz Lang)


Da prisão, Mabuse tece as malhas do fim do mundo. Escreve, compulsivamente, como se obedecesse a um ditado do próprio Satã, o plano das acções que levarão o caos e o terror à Alemanha e ao mundo. A sua presença virtual dirige as equipas de sabotagem das infra-estruturas, que obedecem como os futuros autómatos do Reich às ordens superiores.

Mabuse é outro nome da Inflação, a qual, com o mesmo "idealismo" (os bandidos inquietavam-se com o facto do patrão não querer nada para si próprio), mina as bases da sociedade de cuja ruína, sairá uma humanidade renovada, desta vez sob o signo do Mal.

Lang não podia adivinhar de que modo os seus filmes sobre o banditismo e o mal na sociedade eram premonitórios. Mas tinha diante dos seus olhos, o "ovo da serpente". A sua criatura Mabuse concentra em si toda a vontade de destruição duma sociedade à deriva. E essa função estava pronta para ser assumida, esse trono sangrento já tinha o seu ocupante designado.

domingo, 1 de janeiro de 2006

LENDO HABERMAS












Jurgen Habermas

Necessariamente, a água deve deixar aquele desenho na areia e a garrafa de plástico lançada à praia seguiu esse trajecto e deve rolar com água nivelada dentro até bater no rochedo. É fácil falar das leis, mas esta natureza sou eu. Todos os sinais que serviram a esta descrição duma cena marinha e tudo o que a análise das relações sujeito-objecto podia razoavelmente concluir apenas explicam o que eu já sei: só posso conhecer a separação. A ciência e a percepção instituem-me como elemento distinto do mundo. O domínio dos factos caracteriza-se pela sua capacidade de se mudar em linguagem. Mas a soma de todos os pontos de vista e de todas as formas de expressão que se podem tirar da facticidade não fundam nenhuma espécie de conhecimento, nem nenhuma realidade transcendental. O que é próprio do saber acumulado e da história do sujeito ocidental é a divisão do ser em pensamento e matéria. É para mim evidente que o real da ciência é a relação e a forma humana, e que o objecto último ou a causa primária só são acessíveis à experiência mística e religiosa que passam, significativamente, pela “morte” do sujeito da consciência. A ciência alimenta-se de si mesma. Morder a própria cauda não é apenas distintivo da “maldade” reptiliana. É também a forma de crescimento das civilizações técnicas. A nossa potência multiplica-se com o desenvolvimento e a complexificação da nossa rede mental e dos seus prolongamentos tecnológicos. Cada novo instrumento, cada nova teoria parecem colocar a humanidade à beira dum limiar que resolve o problema de Deus, que é o problema do conhecimento. Mas nessa questão não há, nem pode haver, verdadeiro progresso. A filosofia repete-se e é sempre nova. Platão é tão actual como outrora, apenas nos tornamos um pedaço mais vaidosos, mais vencidos por um estendal de falsas provas. As realizações tecnológicas impõem-nos o seu pensamento que é cada vez menos humano.

Com a mesma temeridade com que nos lançamos à conquista do espaço, uma espécie de western metafísico, fazemos uma verdadeira especulação imobiliária com o real. Transformamos a realidade num produtor de saber tecnológico, ou vice-versa, sem nos darmos conta que a mediação nos veda infalivelmente a experiência do real.