terça-feira, 8 de setembro de 2015

A PSICOLOGIA PROFUNDA

T.E. Lawrence



"(...) porque uma época que foge da profundidade intelectual só com espanto pode tomar conhecimento de que possui uma psicologia das profundezas."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

A superficialidade intelectual deve ser, em qualquer tempo, a coisa mais bem distribuída entre os homens (a par do bom senso, claro). É ainda o princípio do menor esforço. E, nos primeiros tempos, é de crer que nem sequer dispuséssemos da energia necessária.

Musil pode querer dizer que, na nossa época, os homens são especialmente preguiçosos, talvez porque prefiram despender as suas forças 'excedentes' (do trabalho) nos dispositivos do prazer que a sociedade lhe oferece. O que seria quase um moralismo, incongruente da parte do mais lúcido dos homens.

A 'psicologia das profundezas', pela sua motivação principal, deveria ser um instinto, apenas mais complexo. Mas desde a 'interpretação dos sonhos' freudiana julgamos saber que as 'profundezas' são tão providas de sentido como a 'superfície', com uma hierarquia articulando os dois níveis, o que introduz uma espécie de 'fatum'. O herói aqui é Lawrence (da Arábia), que diz aos fatalistas que "nada está escrito".

Não deveria ser caso de espanto aprendermos que a nossa preguiça (que tem consequências) tem o preço da nossa liberdade. Mas vigilância e diligência só nos podem salvar da culpa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Lisboa

Franz Kafka


"Kafka sabia (temos o seu testemunho relativamente a esta percepção) que tornara uma letra do alfabeto romano só sua."
George Steiner

Nenhuma obra foi tão carregada de premonição, como a de Kafka. Assim, erguendo-se como um pórtico à entrada do século XX, não podia deixar de atingir com a sua sombra o sentido da tragédia que se seguiu. Houve outras ditaduras e outros regimes inumanos como os de Hitler e Staline. Mas estes estavam crismados pelo absurdo e pelo autofagismo burocrático, antes de serem de facto.

O paradoxo da civilização que engendra a barbárie mais monstruosa tinha o seu enquadramento na 'imaginação' de Kafka. Ao nomear a sua personagem principal (no 'Processo' e no 'Castelo') com o apelido K, a sua própria inicial, o escritor checo criou um símbolo de grande eficácia literária e política para designar a sociedade que acabara de perder Deus e que, num inesperado ricochete, estava em vias de perder a Razão, como a loucura de Nietzsche parecia significar. Não tem um conteúdo, é um 'molde' para 'compreender' a época. O texto de Kafka assemelha-se aos óculos de que fala Proust. O oculista pergunta-nos se, com eles postos, vemos melhor. E sim, tudo parece mais nítido. A sociedade 'totalitária', tendo ingerido a justiça e a tradição, dá grandes arrotos de não-sentido. Coube ao mais inverosímil dos heróis mostrar o absurdo.

A Justiça, no 'Processo', não é um ideal. É uma 'montagem' para manter o sistema da culpa. O 'acusado' K. morrerá "como um cão", sem conseguir saber qual é o seu crime. Mas isso é a ponta de um 'iceberg' chamado cumplicidade. E é o que  nos leva, passados 70 anos sobre os 'campos', a recusar a ideia do monstro nascido de um parto asséptico, anti-mefistofélico, em que, como Pilatos, não tivéssemos ensanguentado as mãos.

domingo, 6 de setembro de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

O VALOR DA ARTE

 

"A estética da produção ostenta a experiência do artista genial, que 'cria' valores: do seu ponto de vista, as apreciações de valor são ditadas por um "olhar que põe valores." Se, no entanto, o pensamento já não puder movimentar-se no elemento da verdade e, de um modo geral, das exigências da validade, então contradição e crítica perdem o sentido. 'Contradizer', dizer não, já só contém o significado de 'querer ser diferente'."

(Jürgen Habermas)


Na pintura, por exemplo, já estamos nesse ponto. Se o espectador vir a diferença é tudo o que importa. O único valor que se impõe não é intrínseco à obra de arte, nem 'criado' por nenhum artista genial. É o que é ditado pela lei da oferta e da procura (sabemos que a arte é, cada vez mais, um 'valor-refúgio').

Não há razão nenhuma, como pintura, para consideramos o quadro 'Os Girassóis' de Van Gogh (um dos mais caros do mundo) mais valioso do que a pintura de um desconhecido que não consegue vender os seus quadros. O valor de mercado é exterior a qualquer apreciação desse género. Deveria ser possível, no entanto, que o valor mercantil aumentasse com um comentário especializado, ou com o reconhecimento de uma autoria, mas nada disso pode valorizar a obra em si mesma.

Ao pôr fora do nosso alcance qualquer critério 'objectivo' (por exemplo, a 'fidelidade' a uma percepção comum do objecto pintado - que a fotografia inviabilizou), realmente, a pintura tornou-se imune ao juízo negativo e a diferença passou a ser o único critério válido. Com isto, o tempo aparece como um 'criador' de valor. Quem não sentiu já, por exemplo, que um filme igual a tantos outros umas décadas atrás, ganhou, entretanto, uma espécie de valor, graças à sua diferença e à sua raridade?

À medida que a arte do passado se aproxima do estatuto de um 'vestígio' monumental, mais impossível se torna apreciarmos o seu valor íntrinseco.

 

sábado, 5 de setembro de 2015

Untitled

Elvas

 

 

GULLIVER E O SR.VALDEMAR

A Revolução Cultural


O que mais choca na Revolução Cultural é a rapidez e a amplitude dessa completa inversão dos valores tradicionais.

No meio de eufóricos coladores de cartazes, munidos do imprescindível livrinho vermelho, contra tudo o que tivesse mais de vinte anos de idade, até um homem cabisbaixo, porque o dia lhe correu mal, corre o risco de ser apontado como reaccionário.

A China, esse gigante estendido e imóvel, à mercê dos liliputianos de dentro e de fora, mas sem nunca perder a alma, entrou de repente num frenesi gesticulatório que ceifou milhões de vidas, derrubou as colunas dos templos e as suas estátuas,  galvanizado pela personalidade do poder, como o morto no estranho caso do Sr. Valdemar de Edgar Allen Poe.

Talvez se tenha de ver na chamada Revolução Cultural o 'galvanismo' político em estado puro, como um estado zombie solto por um momento das grilhetas burocráticas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

(José Ames)

LEALDADE


G.K.Chesterton


"O mal do pessimista é, então, não que castigue deuses e homens, mas que não ame o que ele castiga - falta-lhe esta primária e sobrenatural lealdade às coisas."

"Orthodoxy" (G.K.Chesterton)

Não é comum falar em lealdade a propósito de um tema filosófico. A palavra quase já deixou de ser usada na vida prática e parece cada vez mais antiquada no exército, onde já esteve em vigor  uma hierarquia profana que se queria aparentada à fidelidade canina. Estará ainda em uso em certas amizades... Porque se preza uma espécie de liberdade abstracta no indivíduo que faz tábua rasa de coisas emaranhadas e confusas como raizes e lianas, o húmus dos afectos.

Chesterton diz, por outras palavras, que o pessimista se 'desafectou' do que, no fundo, é a sua vida. Pode ter razões mais do que fundamentadas para criticar certos homens e as suas acções, mas ele deixa-se contaminar por esse espírito negativo e espalha o veneno à sua volta. Põe-se na posição de exilado que não deve contas a nada nem a ninguém, julgando-se o princípio de si mesmo e lança a sua 'fatwa' sobre tudo em volta.

A lealdade era devida, no feudalismo, pelo cavaleiro ao seu senhor, e esse tempo passou. Mas, como dizia Simone Weil, há uma espécie de hierarquia que é uma das necessidades da alma e que corresponde também a uma obrigação (mas podíamos chamar-lhe lealdade) perante um princípio superior, perante a Origem (que não é, obviamente, um lugar, nem uma pessoa).

Mas a nossa ilusão mais querida é a de que fazemos tudo o que é possível para escapar ao antropocentrismo, como único princípio.

O pessimista é apenas o mais iludido de todos.



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Roma

MENTIRAS JORNALÍSTICAS

Mark Twain


Se não erro, foi Mark Twain que disse que "metade das mentiras que saem nos jornais nem sequer são verdade." E eu concordo que seja tudo 'mentira'. Mas não do tipo de mentira que se opõe à verdade. Preferia até chamar-lhe ficção. Porque, na realidade, nas condições do jornalismo, já é muito que consigam fazer sentido. Cada jornal tem a sua idiossincrasia, e se algum código ético lhes exige serem verdadeiros por princípio, pede mais do que aquilo que é razoável. Só lhes podemos pedir opiniões e coerência.

Os que deliberadamente distorcem os factos nem sequer se pode dizer que tenham uma opinião. Têm, no melhor, uma política, quase sempre desprezível. A remoção da figura de Trotsky das fotografias oficiais não foi uma opinião de Staline. Foi um acto político inspirado numa ideia com fundas raizes históricas: a de que é legítimo enganar o povo, para seu bem.

Voltando ao jornalismo. Deixando, obviamente de fora os jornais partidários ou enfeudados a interesses privados ou do estado, que tal como a publicidade, só enganam quem quer ser enganado, ficaria só a opinião livre e de modo nenhum a verdade (era já o entendimento de Pilatos).

E se a opinião for livre e sem pretensões à verdade, principalmente a de 'última instância' do tipo do 'juízo da História', então podemos, todos, procurar a verdade, movidos pela crença do que é verdadeiro.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

(José Ames)

STRELNIKOV


Strelnikov (Tom Courtney)

Segundo Habermas, a consciência vanguardista corresponde "à nostalgia de um presente imaculado, suspenso."

Como devemos interpretar esta dor (algos) aplicada à arte e à política? Não poderíamos dizer que o próprio conceito de revolução moderno remete para uma essa nostalgia?

O termo usado por Habermas de 'imaculado' temos de o ler num sentido religioso, como o do estado antes da Queda, antes do Pecado, antes da 'folha de parra' e da 'expulsão do Paraíso'. E esse presente suspenso não é outra coisa do que a Parusia encoberta.

A vanguarda na pintura, por exemplo, que a levou ao impasse do sentido (de novo, o filósofo de Düsseldorf): "Esta perspectiva floresceu com a modernidade estética, com essa tenaz desocultação forçada ao extremo na arte vanguardista de uma subjectividade descentrada liberta de todas as limitações da cognição e da actividade orientada para fins, de todos os imperativos do trabalho e da utilidade." seria, assim, uma tentativa de 'queimar etapas' e apressar um 'regresso de Cristo à terra' de outro tipo.

E, tal como desde o século XVIII, se viu no fenómeno da nostalgia entre os soldados, uma espécie de epidemia, um novo objecto da medicina, uma curiosa analogia se pode estabelecer com outra classe de nostálgicos do 'presente suspenso' que ficaram para a história como 'os revolucionários'. Como o Strelnikov do "Doutor Jivago", interpretado por Tom Courtenay, a sua paixão tem mais a ver com a pureza do que com a justiça.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Hamburgo

O RELÓGIO MECÂNICO





"Se o fragmento 133 de Píndaro ilustra bem o orfismo, então a alma daquele que dorme, vela; e a alma daquele que vela, dorme."

(Paul Ricoeur)


O fragmento citado diz: "Mas, quanto àqueles de quem Perséfona reclama a pena do seu antigo mal, no nono ano, mais uma vez ela restaurará as suas almas na superior luz do sol; e destes nascerão augustos monarcas, e homens ágeis em força e em sabedoria; e, por todo o tempo futuro, os homens lhes chamarão heróis sagrados."

Como a deusa, no seu forte simbolismo agrário, que teve de passar toda uma estação no mundo subterrâneo, antes de voltar a ver a luz do sol, depois da morte, a alma será julgada no Hades e deverá cumprir o ciclo das reencarnações, até ser libertada por Perséfona.

O período em que, segundo o orfismo, a alma permanece prisioneira do corpo, é um tempo de vigília sustentada pelo desejo da libertação. Porque quando, enfim, a alma deixa de errar pelo mundo e pode habitar as 'Ilhas dos Abençoados' ('Theoi Project'), supõe-se que também se libertou do desejo e por isso dorme.

É assim que acaba a trilogia de Dante: como um relógio mecânico de infinita contemplação.