sábado, 5 de setembro de 2015

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Elvas

 

 

GULLIVER E O SR.VALDEMAR

A Revolução Cultural


O que mais choca na Revolução Cultural é a rapidez e a amplitude dessa completa inversão dos valores tradicionais.

No meio de eufóricos coladores de cartazes, munidos do imprescindível livrinho vermelho, contra tudo o que tivesse mais de vinte anos de idade, até um homem cabisbaixo, porque o dia lhe correu mal, corre o risco de ser apontado como reaccionário.

A China, esse gigante estendido e imóvel, à mercê dos liliputianos de dentro e de fora, mas sem nunca perder a alma, entrou de repente num frenesi gesticulatório que ceifou milhões de vidas, derrubou as colunas dos templos e as suas estátuas,  galvanizado pela personalidade do poder, como o morto no estranho caso do Sr. Valdemar de Edgar Allen Poe.

Talvez se tenha de ver na chamada Revolução Cultural o 'galvanismo' político em estado puro, como um estado zombie solto por um momento das grilhetas burocráticas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

(José Ames)

LEALDADE


G.K.Chesterton


"O mal do pessimista é, então, não que castigue deuses e homens, mas que não ame o que ele castiga - falta-lhe esta primária e sobrenatural lealdade às coisas."

"Orthodoxy" (G.K.Chesterton)

Não é comum falar em lealdade a propósito de um tema filosófico. A palavra quase já deixou de ser usada na vida prática e parece cada vez mais antiquada no exército, onde já esteve em vigor  uma hierarquia profana que se queria aparentada à fidelidade canina. Estará ainda em uso em certas amizades... Porque se preza uma espécie de liberdade abstracta no indivíduo que faz tábua rasa de coisas emaranhadas e confusas como raizes e lianas, o húmus dos afectos.

Chesterton diz, por outras palavras, que o pessimista se 'desafectou' do que, no fundo, é a sua vida. Pode ter razões mais do que fundamentadas para criticar certos homens e as suas acções, mas ele deixa-se contaminar por esse espírito negativo e espalha o veneno à sua volta. Põe-se na posição de exilado que não deve contas a nada nem a ninguém, julgando-se o princípio de si mesmo e lança a sua 'fatwa' sobre tudo em volta.

A lealdade era devida, no feudalismo, pelo cavaleiro ao seu senhor, e esse tempo passou. Mas, como dizia Simone Weil, há uma espécie de hierarquia que é uma das necessidades da alma e que corresponde também a uma obrigação (mas podíamos chamar-lhe lealdade) perante um princípio superior, perante a Origem (que não é, obviamente, um lugar, nem uma pessoa).

Mas a nossa ilusão mais querida é a de que fazemos tudo o que é possível para escapar ao antropocentrismo, como único princípio.

O pessimista é apenas o mais iludido de todos.



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Roma

MENTIRAS JORNALÍSTICAS

Mark Twain


Se não erro, foi Mark Twain que disse que "metade das mentiras que saem nos jornais nem sequer são verdade." E eu concordo que seja tudo 'mentira'. Mas não do tipo de mentira que se opõe à verdade. Preferia até chamar-lhe ficção. Porque, na realidade, nas condições do jornalismo, já é muito que consigam fazer sentido. Cada jornal tem a sua idiossincrasia, e se algum código ético lhes exige serem verdadeiros por princípio, pede mais do que aquilo que é razoável. Só lhes podemos pedir opiniões e coerência.

Os que deliberadamente distorcem os factos nem sequer se pode dizer que tenham uma opinião. Têm, no melhor, uma política, quase sempre desprezível. A remoção da figura de Trotsky das fotografias oficiais não foi uma opinião de Staline. Foi um acto político inspirado numa ideia com fundas raizes históricas: a de que é legítimo enganar o povo, para seu bem.

Voltando ao jornalismo. Deixando, obviamente de fora os jornais partidários ou enfeudados a interesses privados ou do estado, que tal como a publicidade, só enganam quem quer ser enganado, ficaria só a opinião livre e de modo nenhum a verdade (era já o entendimento de Pilatos).

E se a opinião for livre e sem pretensões à verdade, principalmente a de 'última instância' do tipo do 'juízo da História', então podemos, todos, procurar a verdade, movidos pela crença do que é verdadeiro.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

(José Ames)

STRELNIKOV


Strelnikov (Tom Courtney)

Segundo Habermas, a consciência vanguardista corresponde "à nostalgia de um presente imaculado, suspenso."

Como devemos interpretar esta dor (algos) aplicada à arte e à política? Não poderíamos dizer que o próprio conceito de revolução moderno remete para uma essa nostalgia?

O termo usado por Habermas de 'imaculado' temos de o ler num sentido religioso, como o do estado antes da Queda, antes do Pecado, antes da 'folha de parra' e da 'expulsão do Paraíso'. E esse presente suspenso não é outra coisa do que a Parusia encoberta.

A vanguarda na pintura, por exemplo, que a levou ao impasse do sentido (de novo, o filósofo de Düsseldorf): "Esta perspectiva floresceu com a modernidade estética, com essa tenaz desocultação forçada ao extremo na arte vanguardista de uma subjectividade descentrada liberta de todas as limitações da cognição e da actividade orientada para fins, de todos os imperativos do trabalho e da utilidade." seria, assim, uma tentativa de 'queimar etapas' e apressar um 'regresso de Cristo à terra' de outro tipo.

E, tal como desde o século XVIII, se viu no fenómeno da nostalgia entre os soldados, uma espécie de epidemia, um novo objecto da medicina, uma curiosa analogia se pode estabelecer com outra classe de nostálgicos do 'presente suspenso' que ficaram para a história como 'os revolucionários'. Como o Strelnikov do "Doutor Jivago", interpretado por Tom Courtenay, a sua paixão tem mais a ver com a pureza do que com a justiça.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Hamburgo

O RELÓGIO MECÂNICO





"Se o fragmento 133 de Píndaro ilustra bem o orfismo, então a alma daquele que dorme, vela; e a alma daquele que vela, dorme."

(Paul Ricoeur)


O fragmento citado diz: "Mas, quanto àqueles de quem Perséfona reclama a pena do seu antigo mal, no nono ano, mais uma vez ela restaurará as suas almas na superior luz do sol; e destes nascerão augustos monarcas, e homens ágeis em força e em sabedoria; e, por todo o tempo futuro, os homens lhes chamarão heróis sagrados."

Como a deusa, no seu forte simbolismo agrário, que teve de passar toda uma estação no mundo subterrâneo, antes de voltar a ver a luz do sol, depois da morte, a alma será julgada no Hades e deverá cumprir o ciclo das reencarnações, até ser libertada por Perséfona.

O período em que, segundo o orfismo, a alma permanece prisioneira do corpo, é um tempo de vigília sustentada pelo desejo da libertação. Porque quando, enfim, a alma deixa de errar pelo mundo e pode habitar as 'Ilhas dos Abençoados' ('Theoi Project'), supõe-se que também se libertou do desejo e por isso dorme.

É assim que acaba a trilogia de Dante: como um relógio mecânico de infinita contemplação.




segunda-feira, 31 de agosto de 2015

(José Ames)

ACTIVOS VS CONTEMPLATIVOS




"Um homem não pode ser inteiramente activo, se em parte não for contemplativo; e, também, inteiramente contemplativo, se em parte não for activo."

("The Cloud of the Unknown")

Esta é uma verdade que hoje parece incontestável, se a actividade for entendida como trabalho ou prática rotineira. Assim, diz-se de alguém que passou à reforma que já não pertence ao número dos activos. E a rotina alimentar com tudo o que ela involve, e as outras tarefas que pelo menos ao homem civilizado impendem, bastariam para fazer do puro contemplativo uma espécie de unicórnio.

Não é esse, naturalmente, o sentido que o autor anónimo da 'Nuvem do Desconhecido' atribui à palavra 'activo'. O que ele quer dizer é que não basta ao que se entrega à vida de monge (como ele se entregou) orar sem descanso para, porventura, conhecer algo de parecido com o êxtase, que acabaria por ser um fim em si próprio, não muito diferente da experiência alucinatória que nos nossos dias tantos procuram mediante um acto de compra e venda.

O nosso cartuxo aconselha, não certamente o empenhamento político que conhecemos, mas um movimento de amor que, ele só, como um activismo místico poderia 'conhecer' Deus. Este conhecer não seria passivamente fusional mas teria acesso ao que não pode ser pensado, assim se distinguindo o pensamento da 'verborreia' pseudo-filosófica.

Uma ideia em que a anti-filosofia de Wittgenstein se poderia filiar...


sábado, 29 de agosto de 2015

(Alcochete)

O JOGO DAS PARCAS

Cloto, Lachesis e e Atropos
(http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.indym)

Segundo o mito de Er, em Platão, a alma tem de beber a água do Letes, o rio do Esquecimento, para escolher o fardo com a sua nova vida, que é, afinal, a mesma, já que ela não pôde aprender com os erros.

E Beatriz, conduzindo Dante na passagem para o Paraíso, submete o poeta à mesma prova. O que tem duas consequências: que nem sequer a lembrança dos erros é compatível com a felicidade extática e a contemplação do Bem; mas também que o arrependimento e o perdão não chegam para garantir a "imobilidade" da alma.

Não é apenas o revisionismo histórico que abre uma nova causalidade com cada nova leitura do passado.

Mesmo sem futuro, a alma tem sempre que salvar-se do passado.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

(José Ames)