terça-feira, 11 de agosto de 2015

O VÍCIO E A VIRTUDE


"Alegoria do vício e da virtude" (Andrea Mantegna)

"O mundo moderno não é mau: em alguns aspectos, o mundo moderno é até muito bom. Está cheio de virtudes selvagens e desperdiçadas. Quando um esquema religioso é abalado (como a Cristandade foi abalada pela Reforma), não são só os vícios que ficam à solta. Os vícios, na verdade ficam à solta, e vagueiam fazendo estragos. Mas as virtudes também se soltam; e as virtudes vagueiam mais bravamente, e fazem estragos mais terríveis."

"Orthodoxy" (G.K. Chesterton)


Um mundo exclusivamente virtuoso seria um mundo processional em volta de Deus, como se vê no 'Paraíso' de Dante. Só imaginar esse tédio sem fim confirma-me no amor do mundo, isto é, da vida. Porque a teoria dantesca sugere-nos a contemplação das almas por fim 'libertas' do fardo corporal que é, na realidade, a causa de sentirmos tédio e de estarmos vivos.

O que se passa no mundo é a prova provada que a virtude mais pura é também a mais perigosa. Robespierre, 'O incorruptível' ( alguns sonharão com alguém como ele que torne desnecessárias as operações Lava-Jato) e Saint-Just, o Anjo da Morte, foram, sem dúvida, virtuosos, mas marcaram a Revolução Francesa não-oficial de uma tal desumanidade que só a engrenagem assassina de Hitler e de Staline ultrapassariam. E os talibãs, os alqaedistas e o Daesh não são puros e virtuosos, sem os vícios ocidentais que juraram varrer da face da terra? Quando essas organizações se deixarem minar pela corrupção e o compromisso perderão o seu poder de atracção sobre tantos jovens, alguns dos quais são filhos das nossas elites.

Não há generosidade no vício, só egoísmo e fraqueza. Mas a virtude pode ser generosa, sobretudo nos jovens. Essa força faz toda a diferença entre os malefícios da exclusividade entre o vício e a virtude.

Apesar das aparências, a virtude é que é senhora do mundo. E o melhor do vício é a homenagem que lhe presta, desde sempre, porque por ele não poderia criar nada.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Sem título

 

(Burgos)

 

O CAMINHO DA PERFEIÇÃO

 

"Estas passagens traem a exasperação algo humorada do recluso, nervoso, fastidioso e hiper-sensível, amando o silêncio e a paz, mas compelido à companhia diária e de hora em hora com pessoas de um tipo menos contemplativo: alguns encontrando em gestos extravagantes e sem sentido um escape para a vitalidade suprimida; outros transbordando de uma terrível euforia quais 'raparigas aos risinhos e impostores dando-se importância' (japping jugglers); outros tão longe do repouso que 'nem podem estar de pé, nem sentados, nem ficar quietos, a não ser que abanem os pés ou estejam a fazer qualquer coisa com as mãos.'"

(Introdução de Evelyn Underhill a "The Cloud of Unknown")

A 'Nuvem do Desconhecido' foi publicada em 1400 por autor anónimo. Sabe-se que era um discípulo de Dinis o Aeropagita e que viveu em reclusão em algum convento austero, com outros monges.

Não esperávamos que esta experiência fosse vivida com um espírito crítico tão moderno, virado para as 'fraquezas humanas', presentes em qualquer comunidade. A descrição dos tiques de alguns monges parte de um sentimento de curiosidade entomológica e está desprovida de qualquer resquício de 'caridade cristã'.

Faz-me lembrar a caracterização da personagem do "Ferdydurke" de Gombrowicz, sempre instável e em conflito mecânico consigo mesma.

Percebe-se que o autor gostaria realmente de estar só, o que é a definição mesma de monaquismo. Mas nenhuma regra pode apagar um espírito crítico. Os trapistas que se impõem um silêncio sem compromissos, não podem deixar de falar por todas as fibras do seu corpo disciplinado para a mortificação. Freud ainda não tinha inventado o 'retorno do recalcado' que faria desse silêncio imposto a homens na força da vida uma violência com maus resultados.

Mas antes que aparecesse essa consciência, esses protestos do corpo foram outras tantas etapas no 'caminho da perfeição'.

 

 

 

domingo, 9 de agosto de 2015

Roma (Piazza Della Repubblica)

CONCLUSÕES E MEDIDAS A TOMAR


Flaubert


"A inépcia consiste em querer concluir."

(Gustave Flaubert)


As conclusões são precisamente a parte mais importante de uma reunião política. Elas, e as 'medidas a tomar', sobretudo, entre a velha esquerda, são uma espécie de 'démarrage' indispensável para se distinguir da justamente desprezada 'conversa de café'. No "Homem Chamado Sexta-feira", Chesterton põe o 'Cérebro' dos anarquistas a discutir, a concluir e a distribuir tarefas num restaurante frequentado e usando a linguagem sem qualquer rebuço. Falar abertamente da bomba era, para 'Sunday', a melhor protecção.

Uma verdadeira conversa 'filosófica', pelo contrário, não procura um desfecho que remeta cada um ao seu lugar, numa qualquer relação de forças, seja ela de ordem intelectual.

Donde a inépcia filosófica seja uma das condições da prática política. Porque aqui se conclui e decide permanentemente, tomando os meios pelos fins e julgando todos os outros, políticos e não-políticos, sob categorias como 'adversário', 'apoiante', 'indeciso a convencer, e, fazendo surgir entidades estatísticas e abstractas, apoiadas em coisas como médias e sondagens para justificar a 'praxis' do seu partido ou a do seu governo.

É ainda do grande autor da 'Bovary' esta outra citação: "Um homem que julga outro é um espectáculo que me faria morrer de riso, se não me condoesse."

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

(José Ames)

GLASNOST




"O seu médico observa que ele (Mao) nem sequer lavava os órgãos digitais: 'Eu limpo-me no corpo das mulheres.'"

"Femmes de Dictateurs" (Diane Ducret)

Eis o último estádio da divinização ou 'culto da personalidade'. O objecto deste culto, coerentemente, pode considerar ambrósia (o alimento dos deuses) todas as suas excreções.

Os erros monumentais de Mao Tse Tung vêm desse parapeito que fizeram para ele e donde julga ver mais do que todos os seus súbditos juntos. Apesar disso, estou certo de que a História o julgará com os olhos vesgos da grande política. Como certos bancos, o líder que apaixonou, nos anos setenta, a 'inteligentsia' europeia, é demasiado grande para 'falir', isto é, para ser mostrado como realmente foi.

É possível 'engolir' uma mentira deste tamanho? É, porque a história de Mao passou à qualidade mitológica que é um chapéu para as mais diferentes cabeças.

E, afinal de contas, talvez seja essa a maneira menos traumática de o enterrar e esquecer, continuando a servir os superiores interesses do 'estado proletário'.

Compreende-se que o grande terror seja o de uma nova 'Glasnost' idealizada por um ingénuo maior do que o outro.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Cuenca


A ATADURA



https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/09/Pieter_Lastman_-_The_Angel_of_the_Lord_Preventing_Abraham_from_Sacrificing_his_Son_Isaac_-_WGA12483.jpg 

"Os Hebreus não falam de sacrifício neste caso, mas de 'akedà', atadura. 

(Erri De Lucca, "Nocciolo d'oliva")


O 'sacrifício' do filho, Isaac, pedido por Deus a Abraão, repugna à sensibilidade moderna, mas já foi um costume arcaico. Na Bíblia há menção de um sacrifício humano, e o próprio Cristianismo assenta num sacrifício tornado simbólico. É provável que a prática dos Romanos, entre outros povos, de 'oferecerem' certos animais aos deuses, seja um vestígio de antigos rituais envolvendo vítimas humanas.

Mas o caso é que o ritual do Monte Moriah, segundo os Hebreus, era, na verdade uma 'atadura', que podia significar uma astúcia do patriarca 'visionário' (teria sido numa visão que Abraão recebeu a ordem de Jeová). Aqui conoto a corda que amarra Isaac com o laço com que Abraão pretendeu ligar Jeová à sua nação. A responsabilidade (noção demasiado humana, hélas) por um crime inaugural seria uma espécie de seguro de vida para a descendência israelita.

Só que no momento em que se preparava para afundar a faca nas entranhas da vítima pré-disposta, o velho lobrigou um carneiro nos arbustos e a ideia da substituição veio-lhe à cabeça como um raio salvador. O anjo não encontrou nada para dizer e Jeová não se fez ouvir. A visão do sacrifício foi anulada pela visão da substituição de Isaac pelo animal.

Jeová não caiu no laço, mas a 'atadura' ficou.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

(José Ames)

MINOTAURO


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"É evidente, como Schlomo Pines mostrou com clareza, que para um grego o conceito de liberdade define um status e uma condição social e não, como para os modernos, algo que possa referir-se à experiência e à vontade de um sujeito."

(Giorgio Agamben, "La Potenza del Pensiero")

Assim posta a questão, claríssimamente, a liberdade, tal como a entendemos, é uma coisa moderna e não aparece na origem da nossa civilização. O paradoxo de uma sociedade de homens livres, cuja base económica é constituída por escravos, cessa de nos confundir e tal sociedade torna-se muito mais próxima de nós.

Algumas abstracções importantes interpuseram-se entre o escravo que, entretanto, mudou de nome e a quem foram atribuídos 'direitos' (que correspondem a outras tantas 'qualidades' funcionais no sistema de produção) e o antigo senhor que agora pode ser uma sociedade anónima ou um especulador bolsista. Tudo isto já foi dito pelo profeta de Tiers.

Não é por acaso que o Cristianismo é, por vezes, chamado de religião dos escravos. É com a lei moral judaico-cristã que a liberdade se torna uma experiência do sujeito que culmina no pensamento romântico do indivíduo 'cósmico'. No mundo da justiça religiosa, todos os homens são iguais, apesar do poder de cada um ser tão desigual como sempre foi, no terreno de César. Espártaco foi o proto-João Baptista malogrado por confundir o Céu e a Terra.

No nosso tempo, não existem, de facto, homens livres no sentido do grego antigo, só porque não chegam a constituir uma sociedade e nem sequer uma classe. O poder que possuem, quando não é capital acumulado ou golpe especulativo, é sobretudo funcional, o que os coloca do lado das forças naturais e mecânicas, do lado do Minotauro.

Que mais impressiona no exemplo da 'União Europeia'?: a falta de liberdade dos seus líderes. O discernimento se existe, não é o deles.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

(Génova)

DISTOPIA



"Um dos jogos de DVD 'Gothic' começa com a sabedoria: 'Cada Evento é precedido pela Profecia. Mas sem o Herói, não há Evento.' Qualquer pessoa pode facilmente traduzir esta obscura sabedoria em termos marxistas: 'Os contornos gerais de cada acontecimento revolucionário pode ser previsto por teóricos sociais; contudo, este acontecimento só pode ter efectivamente lugar se houver um sujeito revolucionário".

(Slavoj Zizek)

Por outras palavras, não é a ocasião que faz o herói. A situação pode estar 'madura', profetizada e teoricamente 'certificada, mas nada acontece. O 'sujeito revolucionário' escapa a todos os GPS, é imprevisível e elusivo como Proteus que não se sabe nunca como se nos apresentará.

Mas o mais desconcertante é que isso não invalida a profecia nem a representação do evento. Lembremo-nos como o "fim dos tempos' e o 'julgamento final' foi indefinidamente adiado na história do Cristianismo. A certo ponto, a 'espera' do acontecimento dispensa a contagem do tempo e transita para o simbólico.

A Profecia e o Evento tornam-se independentes do curso do mundo. E o Herói, o seu aparecimento e a sua missão, podem cumprir-se no eterno adiamento. De certo modo, a Profecia cumpriu-se, o Herói chegou e o Evento já teve lugar, pois que a nossa vida se transformou graças a essa lenda. Por que é que um não-Evento que mudou sentimentos e maneiras de pensar não há-de ser 'real'?

Os que insistem no sentido literal só podem testemunhar o fracasso dos ideais. O pior dos mundos é a utopia 'realizada'.



domingo, 2 de agosto de 2015

(José Ames)

ENTRE A BOFETADA E O CILÍCIO

Santa Isabel da Hungria


"Era uma crítica perfeitamente absurda considerar o castigo corporal como particularmente humilhante. Santa Isabel tinha sido flagelada até ao sangue pelo seu confessor, Conrad de Marbourg; segundo a lenda, "a sua alma exaltara-se até ao terceiro coro"; e ela própria havia vergastado uma pobre velha que tinha demasiado sono para se confessar."

São as trevas associadas à Idade Média que parecem soltar-se destas palavras de Naphta, o jesuíta de "A Montanha mágica" (Thomas Mann).

Por muito que o Romantismo tenha reabilitado essa época, a ideia da mortificação do corpo continua a repugnar à nossa razão, quase tanto como o dualismo do corpo e do espírito.

Mas que os mações, por exemplo, se apliquem ainda o cilício, o que de resto banalizam, comparando-o à tortura que se infligem alguns atletas desportivos, não significa forçosamente uma excepção. A politização do corpo, essa, sabemos que é a regra.