sexta-feira, 31 de julho de 2015

(Barreiro)

JÓNIA



"Bem as quebrámos as suas estátuas,
Bem as expulsámos dos seus templos,
Nem por isso os deuses morreram.
Ó terra da Jónia, é a ti que eles amam ainda,
De ti que se lembram as suas almas.
Quando se eleva sobre ti uma manhã de Agosto,
Um frémito das suas vidas penetra a tua atmosfera;
E, por vezes, vaporosa, uma silhueta de adolescente,
Passa atrás das tuas colinas."

Constantin Cavafis ("En attendant les barbares")


Em nenhum outro lugar da terra, a Natureza e o Homem pesam tão pouco.

Não importa a hera ou o pó sobre as ruínas e os subúrbios cinzentos que cercam o círculo mágico.

Há, por todo o lado, pegadas de heróis e semi-deuses, na sua falsa partida, cobrindo as nossas.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

(José Ames)

JOANA D'ARC


Joana D'Arc

"A mediocridade vingou-se bem: ela foi queimada, ela que era o Espírito e a Vontade, pela burocracia desse tempo. Por minha fé, é talvez a mais bela história humana."

Alain

Em que é preciso crer para não depreciar esta história sob uma categoria como a loucura? Mas nem os inimigos do seu país, os Ingleses, foram capazes disso, e foi preciso recorrer ao terror supersticioso.

O sentimento popular não se enganou que fez dela a incarnação da alma colectiva e da sua terra em perigo de vida. Devia ser necessária, nessas circunstâncias, a ideia espalhada da fraqueza do rei e da côrte para sugerir a fé inspirada e a missão irrecusável no espírito de uma pobre rapariga do campo. Conceber essa fraqueza e encontrar a fonte do heroísmo foi um mesmo pensamento.

Alain diz que foi a burocracia que teve a última palavra, depois da prisão de Jeanne pelo poder inimigo. O que se seguiu no celebérrimo processo foi o resultado da força triturante dos argumentos de uma escolástica desenvolvida ao longo de séculos para justificar o 'status quo' exercida sobre a palavra viva, mas cercada de todos os lados, impedida de comunicar com a origem de todo o seu 'entusiasmo'.

O cinema deixou-nos, com Dreyer, o melhor dos retratos em que a mística e a psicologia se debatem. Mas não podemos, talvez, nem sequer imaginar a solidão da prisioneira, que não tinha a sombra de um recurso 'individual', no sentido moderno.

O poder político e a burocracia religiosa decidiram pela fogueira, levados pela cegueira do curto-prazo. Não viram que a 'feiticeira' renasceria das cinzas e se tornaria um dos símbolos da França. Como diz Alain, esta é, talvez, a mais bela das histórias.

quarta-feira, 29 de julho de 2015


(Barreiro)

A LINGUAGEM


http://www.elishean.fr/wp-content/ 


"Muitas palavras, e precisamente as essenciais, estão na mesma situação: a linguagem está em geral gasta e esgotada, é um meio de comunicação indispensável mas sem domínio, que pode ser usado como aprouver a cada um, tão indiferente como um meio de transporte público."

(Martin Heidegger)

Esta é uma afirmação contra-intuitiva. Descobrimos há cerca de 200 anos que 'somos', também, a linguagem que usamos. Em vez de instrumento pronto a servir, conquistado aos deuses, os 'dentes de dragão' semeados por Cadmos, a linguagem parece algo inseparável do tempo e da articulação com o mundo e da sua criação.

Mas, como processo (essa palavra que atravessa toda a história dos últimos séculos e que assinala a entrada do tempo no conceito do ser) que era suposto diferenciar-se da natureza num 'para si' hegeliano, permanece um ideal apenas acessível a alguns filósofos. No essencial, a linguagem é uma dimensão inconsciente e tão indiferente aos 'utilizadores' como 'um meio de transporte público', de facto.

Deveremos sentir-nos frustrados (culpados?) por não sermos capazes de 'saltar sobre a própria sombra'?

Não tira que a ilusão de que podemos dar esse salto é estranhamente 'produtiva'. Mas talvez nos devêssemos interrogar sobre o destino que os nossos imensos erros sobre o que na realidade somos nos preparam.

terça-feira, 28 de julho de 2015

(José Ames)

A FÉ COMUM


Chesterton

"O devoto é inteiramente livre de criticar; o fanático pode, com segurança, ser céptico. O Amor não é cego; isso é a última coisa que é. O Amor está enlaçado; e quanto mais enlaçado, menos cego é."

"Orthodoxy" (G.K.Chesterton)

Todos conhecemos exemplos de mães que vêem todos os defeitos dos filhos e que apesar disso, ou por causa disso, lhes querem mais do que à própria vida. É porque, como diz GKC, a virtude é uma coisa e o valor é outra. Não são cegas para os defeitos ou os vícios, mas estão 'enlaçadas' com o ser que trouxeram ao mundo e, para elas, isso é algo tão precioso como o melhor de si mesmas.

O que vale a crítica do devoto, se não se 'auto-critica, na sua fé mesma? Sabemos que a auto-crítica de que, por exemplo, alguns revolucionários se reclamavam não era uma crítica que pudesse pôr em causa a fé revolucionária. Partia-se sempre dela, quer para criticar os adversários políticos, quer para se controlar o respeito das regras e a eficiência militante.

De uma maneira ou de outra, é o que todos fazemos, mesmo no terreno da moral comum. A alternativa é o 'homem sem qualidades' (Musil), que é demasiado inteligente para escolher e decidir o que quer que seja. A fé a que chamo comum é o castelo interior que não lança pontes levadiças à primeira novidade. Só com uma ideia segura, ainda que não clara, se podem criticar as outras ideias.

Na mesma linha de pensamento, o fanático de uma ideia poderia ser céptico em relação a todo o pensamento. Mas aí não sigo o autor, porque não concebo o fanatismo sem zelo fanático. Alguém poderia guardar para si a única ideia que tem na cabeça? Não se deveria, pois, chamar cepticismo à sua atitude em relação aos outros e às coisas em geral.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

(Lisboa)

ARGOS, O NAVIO




"A obstinação estéril do cérebro"! Nenhuma fórmula poderia definir melhor Ulrich, o porta-voz de Musil. Toda a tragédia desta personagem está na sua enorme inteligência crítica. Mas para lá de um certo limite, tais dons interditam a aquisição de qualidades de conservação, daquelas que vos foram dadas. Uma qualidade é sempre uma escolha da alma acoplada a uma disposição do carácter. Ela induz um desequilíbrio da personalidade. Ulrich está na crista da neutralidade intransigente, demasiado inteligente para alguma vez escolher, demasiado lúcido para não equilibrar exactamente o pró e o contra. Ulrich é exactamente igual a zero."
(Jean-Pierre Maurel)

É a inteligência que abusa da situação que lhe foi dada, propondo-se ditar leis ao mundo por sua própria conta, como se fizesse jus àquela espécie de lei formulada por Simone Weil de que a força não pode deixar de explorar os seus limites, e só não vai até ao fim de si mesma, por 'milagre' ou manifestação da 'graça'?

Ou tendo perdido pelo caminho a 'divina proporção' que nos salvaguarda das 'obstinações do cérebro', só a inteligência nos pode ajudar a reconstituir a unidade perdida à custa de um desperdício humano como nunca se viu?

Não podemos regressar a nenhum passado 'ideal', a nenhuma bifurcação onde, sem que tivessemos consciência disso, se tenha decidido o nosso destino. O mito do homem novo poderá ter uma segunda oportunidade. Será feito das peças dispersas pela nossa errância, como outro Argus, mas sem a liga certa.

O 'homem igual a zero' escalpelizado por Musil é o homem que perdeu há muito tempo o segredo dessa liga.




domingo, 26 de julho de 2015

(José Ames)

NUMA GRANDE COLÓNIA

Greek colony of Olbia (Hyères)




"(...) É talvez tempo, como muitas pessoas pensam, de mandar chamar um Controlador para reestruturar o Estado."

(...) Eles querem saber até ao mais ínfimo detalhe e passam tudo a pente fino, metendo-se logo na cabeça fazer reformas radicais, e reclamando que as mesmas sejam aplicadas sem demora.

Além disso, têm tendência para impor sacrifícios.
Renunciai a esses territórios! O vosso poder está aí periclitante;
É o tipo mesmo de exploração que arruína as Colónias.
Renunciai a este rendimento aqui. E àquele outro que lhe está ligado, e a este terceiro também: a consequência impõe-se;
Decerto que são substanciais, mas que fazer?
Eles criam-vos responsabilidades nefastas.

E quanto mais avançam no seu inquérito, mais novas despesas encontram para eliminar;

Como se isso se pudesse fazer assim tão facilmente.

E quando, com a ajuda da sorte, tiverem acabado o seu trabalho e depois de tudo passado em revista e de tudo dissecado com cuidado, eles se tiverem ido embora, embolsando o seu justo salário, é que vamos ver o que vai ficar, depois de um tal rigor cirúrgico (...)"

"Numa grande colónia grega, 200 A.C." (Constantin Cavafis)

Tantos candidatos a cirurgiões da economia, mais de dois mil anos depois!

E quanto mais nos parecermos com uma colónia, mais facilmente nos imporão um controlador.

sábado, 25 de julho de 2015

(Roma)

PARADOXOS CONTEMPLATIVOS

Voltaire: Écrasez l' Infâme!

"Uma união nunca é contemplativa, ela é sempre, e pela sua própria natureza, organizadora num sentido absoluto. Ignora, sem dúvida, que o fundador da ordem dos Iluminados, que durante algum tempo se confundiu com a franco-maçonaria, era um antigo membro da Companhia de Jesus?"

"A Montanha mágica" (Thomas Mann)

O duelo de palavras entre o jesuíta e o mação prossegue, sempre renhido, como acontece sempre que o mesmo sangue corre nas veias.

Ao grito de "écrasez l'Infâme!" de Settembrini, respondem os sarcasmos de Naphta contra esse padre da razão progressista.

Mas não podemos estar senão de acordo com a teoria da união. As comunidades de monges na Idade Média tiveram um papel económico e cultural que sem a organização não existiria.

A contemplação deve ler-se aqui como uma estratégia da acção colectiva.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

(José Ames)