quinta-feira, 9 de julho de 2015

MEIA-NOITE, CINDERELA

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"Se Cristo não ressuscitou, então a nossa fé é vã."

(São Paulo)

Não se fala aqui de um facto (Paulo nem sequer podia ser testemunha; terá nascido na primeira década depois da morte de Jesus). Sem os registos historiográficos de tempos mais próximos de nós, a questão tornou-se indecidível, excepto para doutrinas como o 'materialismo histórico'.

Trata-se, pois, de uma espécie de dogma, sem a adesão ao qual, a própria fé no cristianismo é vã, como diz o mais célebre convertido da história. Na verdade, tudo na narrativa evangélica e na doutrina posterior da Igreja deixava de fazer sentido, caso Jesus, 'filho de Deus', não tivesse ressuscitado.

Qual é então a natureza do dogma religioso? Fui buscar a Chesterton (um convertido, apesar de não ter caído do cavalo), este delicioso exemplo: "Se Cinderela diz: 'Por que é que eu tenho de deixar o baile às doze?', a sua madrinha podia responder: 'Mas por que é que vais lá até às doze?'

Só quando o mundo perdeu a 'graça' (a magia diz o autor inglês) e cabe todo numa fórmula é que nos pode parecer 'natural' estar no baile até à meia-noite.

É esta a melhor defesa do dogma (ou da vontade, se quisermos). É só um começo que suspende a dúvida, neurótica ou metódica que nos impede de tomar uma direcção.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

(Tavira)

O RAPTO DE EUROPA PELOS AGIOTAS

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"Ulrich tinha-se simplesmente divertido com a ideia de que o amor, para nascer e para durar, não dependia de nada de essencial. Ama-se alguém a despeito de tudo ou por causa de nada; ou então é tudo imaginação, ou esta imaginação é um todo como o é este mundo, onde não há um pássaro que caia do telhado sem que Aquele que tudo vê o saiba."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

A razão não pode conceber que neste mundo onde 'tudo está ligado' exista um princípio independente que ignore o que é essencial a uma ideia do mundo. A alternativa é que o amor seja uma ilusão 'consistente', a ponto de criar um mundo independente das leis da Física e de todas as 'regularidades' com que o mundo real nos constrange e, ao mesmo tempo, sustenta.

O amor seria, então, uma das 'ilusões' (ou 'imaginações', como pensa Ulrich) que faria de nós humanos (e não apenas racionais).

Cabe aqui um comentário sobre o famoso referendo da Grécia que não pode ser julgado pela razão 'financeira'. Mesmo se admitirmos que é um caso da 'teoria dos jogos' ou uma perigoso jogo de 'poker', fica o mais importante por explicar.

Seria preciso, por exemplo, enquadrá-lo no mundo da 'imaginação consistente', em que a glória da Grécia Antiga e a ideia do berço da Democracia desempenhassem uma função essencial.

Já se disse que a Europa sem a Grécia está morta. Morreria conforme o mito no labirinto do Minotauro. Se o mito não criasse também o Herói.

terça-feira, 7 de julho de 2015

(José Ames)

O POVO SAGRADO



(Durante a representação de "La Muette de Portici" de Daniel Auber, no momento em que o célebre "Amour sacré de la patrie" era cantado, o público abandonou o teatro e juntou-se ao povo que protestava contra o 
governo holondês dirigindo o país à época. Mais tarde, a manifestação transformou-se em rixa geral, que deu lugar à Revolução belga de 1830.)

"(...) que um indivíduo ou uma classe podem estar errados e desertar a causa comum e o interesse geral, mas o povo necessariamente sincero, e verdadeiro, e incorrupto não se pode enganar; que há um direito de resistência a todos os governos que são falíveis, porque são parciais, mas nenhum contra o governo do povo pelo povo, porque não tem senhor nem juiz, e decide em última instância e sozinho."

"O Contrato Social" (Jean-Jacques Rousseau)

Esta ideia que fundamenta a democracia na própria razão, no contexto em que surgiu, era irresistível. A própria aristocracia, numa nação em que esta metafísica tinha já sido introduzida pelos filósofos e os enciclopedistas, sentiu o 'chão fugir-lhe debaixo dos pés'. Não podia defender os seus privilégios contra a deusa dos novos tempos. Os revolucionários tentarão um pouco mais tarde alargar o culto instituindo uma nova religião.

Talvez nenhum outro 'romancista' na história da literatura tenha conseguido uma tal proeza.

A razão metafísica começava o seu longo reinado que levou os homens às 'utopias reais' do século XX.

Comte dizia que a humanidade conhecia três estados: o teológico, o metafísico e o positivista. A realidade só não lhe deu razão na medida em que esses 'estados' são menos históricos do que psicológicos, e não acabaram no positivismo. Deus não desapareceu com o estado teológico nem a Razão abstracta com a Revolução. As nossas ideias, na forma como surgem e se transformam sofrem o tipo de evolução comtiana.

Rousseau inventou o povo 'sincero', 'verdadeiro' e 'incorrupto', fonte da soberania necessariamente 'iluminada'.
Temos obrigação de saber, depois da experiência histórica e da cada vez mais sofisticada 'manipulação das massas' que esse 'Sujeito' não pode ter aquelas qualidades nem outras nenhumas, simplesmente porque é uma ideia abstracta. Abstracta, mas insubstituível para a própria democracia. E a democracia, de facto, talvez seja o pior dos regimes, "excepto todos os outros"...

Talvez seja por isso que a hipocrisia, na versão etimológica,  a que se refere à arte de 'representação', acabe por ser um dever de ofício. É preciso fazer como se.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sem título

 

Cacela Velha

 

O DESEJO DE SABER AINDA EXISTE?

 

"Atenção aos jovens, conhecendo a sua fome e o que podem digerir, é a essência da arte (de ensinar)."

(Allan Bloom)

Plutarco, e as suas 'Vidas Paralelas' de gregos e romanos ilustres, foi o modelo de certas elites europeias que encontraram nos feitos dos grandes homens da antiguidade inspiração para as suas vidas. Estavam os mestres, então, numa posição inexpugnável que reflectia a mais determinante ainda 'autoridade' dos pais.

Procurar-se-ia, então, nos alunos, o seu desejo ardente e as limitações desse desejo? Parece que esse conhecimento, segundo Bloom, é essencial. Na verdade, só um feliz acaso permitiria 'penetrar' esse pressuposto desejo num ser em formação e aberto a todas as influências. Daí que o 'instinto' de imitação seja quase sempre o único a 'decidir'.

A ideia de Bloom é filha de um 'pré-politicamente correcto' que pressupõe o transplante de uma noção política, a igualdade democrática, para uma realidade completamente diferente, em que se parte de uma desigualdade no conhecimento e da função de trazer uma solução para esse problema que incumbe ao professor.

Mas claro que, entretanto, a internet mudou as regras do jogo, ao criar uma nova espécie de aluno: o daquele que não reconhece que não sabe, só porque toda a informação cabe na mão que segura o telemóvel.

 

sábado, 4 de julho de 2015

(José Ames)



SEGUNDA NATUREZA

Stendhal (1783/1842)


Um paradoxo de Naphta, o jesuíta de "A Montanha mágica":
"O erro da literatura consiste em crer que só o espírito torna correcto. É antes o contrário que é verdadeiro. Não há correcção a não ser onde não há espírito."

É verdade que só se atinge a perfeição de maneiras, da cortesia, quando isso se tornou uma segunda natureza.

O pecado do "self-conscious" é prestar atenção ao que não devia reclamar nenhuma, sendo pura forma.

Stendhal dizia que nessas circunstâncias, o pensamento ofende.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Trieste

A DECADÊNCIA






"É difícil, creio, encontrar uma classe dirigente tão podre, tão snobe, sem fé nem lei. As armadilhas que os romanos estendiam uns aos outros, as rixas que desencadeavam, os massacres, são tão numerosos quanto inimagináveis. A corrupção, os subornos alcançaram uma dimensão fantástica no decurso dos séculos. Se fordes um senador, fareis espiar o vosso rival, denunciá-lo-eis ao imperador ou fá-lo-eis envenenar ou assassinar. Existe uma carta de um administrador romano à sua mulher, que lhe escreve cinicamente: "Querida, querida, estou de volta, em breve estarei nos teus braços, tendo roubado metade dos administrados."

(Entrevista de Paul Veyne à Télérama de 7/5/2003)

O imperialismo dos Americanos é, para Veyne, uma verborreia, quando comparado com o dos Romanos. Também esse império foi um fenómeno de centralização e de organização, sempre à frente de qualquer competidor. Mas nenhuma moral, nenhuma religião o limitava. Tudo isso fora investido no imperador. Os seus caprichos tinham o carácter das catástrofes naturais.

Alguém disse que uma sociedade de ladrões é obrigada a uma certa justiça entre os seus membros para poder durar. Os imperadores ultrapassaram muitas vezes essa justiça de ladrão e pagaram com a vida pelos seus excessos. Calígula que, enquanto menor, acompanhou o exército em campanha e foi alcunhado pelos soldados de 'Sandalinhas', tornado imperador e atingido de demência, teve de ser eliminado pelos 'verdadeiros romanos'.

O assassinato do filho de Germanicus não desviou o império da sua ruína, pois tudo continuou dependente da 'justiça' do príncipe e do equilíbrio social, com a paz nas fronteiras e nas colónias cada vez mais ameaçada.

O exemplo destes costumes antigos devia-nos levar a olhar os nossos com mais realismo. Mas a sociedade dos ladrões continuou a existir e a dominar, apesar de termos sido civilizados pelo Cristianismo e pelas Humanidades.

Pelo seu lado, a justiça de ladrão é torpedeada todos os dias pelos Calígulas da finança. Maus tempos para o 'Império'.




quinta-feira, 2 de julho de 2015

Sem título

(José Ames)

 

CLAIRE E A PARCERIA

"Acontecia algumas vezes que um diálogo em que ambos só falavam dos seus sentimentos os fizesse esquecer de os ter."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Trata-se do diálogo entre Ulrich e a sua irmã Ágata. A atenção do sujeito sobre si próprio só pode inibir a espontaneidade. É o paradoxo do observador que não pode 'saltar sobre a sua própria sombra'. À força de se analisarem colocam uma barreira no auto-conhecimento, e o subentendido incestuoso torna-se uma linguagem inesgotável e assimptótica.

O último episódio da 3a. temporada de "House of Cards" parece uma demonstração desta ideia. A parceria para o assalto ao poder do casal Underwood mantém um diálogo 'focado', em prejuízo de qualquer vida pessoal por parte de Francis ou de Claire. A autenticidade dos sentimentos não é posta em causa até que um escritor é contratado para fazer uma biografia destinada à campanha do presidente. Mas o material é um tal desafio para um autor em esperança ('en espoir', como dizia Stendhal), que o escritor abandona a encomenda para apresentar o verdadeiro retrato de uma 'parceria' diabólica.

Registe-se que a defesa de Claire para a separação (depois de se ter visto ao espelho, no livro em preparação) é ainda uma reivindicação de poder. Parece uma fraqueza do argumento, mas é realmente lógica. Condiz com o seu 'desaparecimento' como pessoa no maquiavelismo do casal.

 

 

 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Afurada

PARA ALÉM DA ADULAÇÃO



(L'école des femmes)


"(...) estranho século aliás, em que, ao contrário dos tempos épicos, só era permitido descobrir a miséria do homem no amor, enquanto que os efeitos da força na guerra e na política tinham de estar sempre envoltos em glória."

(Simone Weil, a propósito de "L'École des femmes"(Molière) e de "Phèdre" (Racine) 


Mas o rei, Luís o Grande, 'protector das artes' e a quem foram dedicadas tantas obras-primas do teatro do século XVII, o rei que se iludia (ou talvez não; não era ele beato de Deus e mais ainda do seu médico?) com a célebre metáfora do sol, representando o seu papel central e vivificador num reino pacificado graças à sua prudência e à submissão dos frondistas, compreenderia outro drama que não fosse o dos jogos galantes?

Era tão grande a cegueira de Luís XIV que, fora dos jogos florais da corte, e da mumificação do rei sob os protocolos que inventava como um Petrónio da decadência romana, se escavava cada vez mais o fosso entre a aristocracia e o povo.

Talvez Molière e Racine tenham sobrevivido à ideologia 'pastoral' e à adulação servil, por terem, sobretudo, sido fiéis a uma ideia da arte que era nada menos do que a de ultrapassarem os clássicos no seu terreno. Mas a supremacia do teatro grego, por exemplo, apresentava-se aos seus olhos despida do contexto político e social. Os autores do século, dito de Luís XIV (Voltaire), tinham um modelo de arte pura, com um sistema 'imunológico' a toda a prova: dois milénios de admiração.