segunda-feira, 15 de junho de 2015

O INSTINTO COMO VALOR



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"O mal não é um problema abstracto que é preciso resolver, mas um trágico confronto do qual temos de sair vencedores."
(Friedrich Nietzsche)

Não estou certo de que um problema 'abstracto' (por exemplo, os da física teórica?) não possa ser ocasião de uma tragédia, nestes tempos cibernéticos. Na imagem do grande cérebro que a 'rede' configura, extensão protésica segundo a ideia de McLuhan, a abstracção é imediatamente eficaz.

Por outro lado, não é a maior parte dos confrontos que ameaçam a vida uma questão pré-filosófica, de vida e de morte, e, até certo ponto independentes da moral? Poderia, assim, reduzir-se a essência do bem à luta darwiniana pela sobrevivência.

Não é só a 'metafísica' e a transcendência que caem na esfera dos problemas 'abstractos' e, portanto, tornados indiferentes à moral 'superior', é a natureza do 'herói da vontade' que é remetida para o instinto.

domingo, 14 de junho de 2015

Viena

PORTUGUESINHO



Guido Piovene, autor, nos anos cinquenta, de uma monumental 'Viagem a Itália', escreveu, a propósito de Florença: " É difícil produzir numa cidade onde muitos só falam para escutar e escutam para registar se os outros disseram alguma tolice."

Seria demasiado esperar que essa atitude correspondesse a uma espécie de polícia da inteligência, o que, de qualquer modo só por si teria reduzido a quase nada as conversas ociosas. De facto, atrevo-me a supor que isso terá mais a ver com a antiga tradição política de forçar o destino através do envenenamento. A cidade, justa ou injustamente, ganhou a fama da alta intriga e da arte do subentendido. Que deliciosa oportunidade, nessa atmosfera de suspeita mútua, armar uma bela ratoeira aos incontinentes!

No tempo das 'indulgências', é claro que se acreditava na salvação da alma. O dinheiro pago era a prova disso, mesmo se revelava a materialização do 'poder espiritual'. A corrupção da Igreja deve ter 'solto as línguas' e dado à malícia florentina o pasto mais apetecido.

A cidade da arte renascentista cala hoje os antigos vícios. Piovene descobriu, porém, o seu segredo, tornado simpática idiosincrasia.

É irresistível, neste ponto, comparar essa idiosincrasia com o nosso próprio vício de maldizer, sobretudo dirigido a nós próprios, enquanto povo. Não se pode imaginar por um segundo sequer que nos auto-depreciamos porque temos um alto conceito do que deveríamos ser. A preguiça talvez seja a mola real. Porque ser afirmativo nos obriga pelo menos ao esforço de sermos consequentes.

Quanto mais cómodo não é fazer como os bancos falidos: não dar crédito. Dizer em vez de português, portuguesinho.

sábado, 13 de junho de 2015


"Church" (José Ames)

A SIMULAÇÃO DA VIDA


Moisés e as Tábuas da Lei (G. Doré)



Não se deve procurar uma correspondência absoluta entre os episódios do "Decálogo", a série para a televisão do realizador polaco K. Kieslowski, e os Mandamentos.

Mas não há dúvida que a história daquele pai tão orgulhoso da sua inteligência e da precocidade do pequeno Pavel parece ajustar-se perfeitamente à proibição da idolatria.

Desde o cálculo da resistência do gelo no computador à verificação experimental, tudo traía uma confiança tão optimista nas certezas da ciência que a aparentavam muito com uma religião sem Deus.

O imponderável que provoca o afogamento da criança no lago pode ser interpretado de várias maneiras. Até como falta de informação...

Mas alguma vez saberemos tudo de tudo para culpar a ignorância?

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Brotas

A GRANDE FICÇÃO






"Temos de distinguir entre ficção e ideologia. Porque genericamente falando a ideologia é qualquer coisa que não está associada com a ciência, ou com a verdade, ou com o real, com a realidade. Mas como nós sabemos desde Lacan e antes dele, a própria verdade é uma estrutura de ficção. O processo da verdade é também o processo de uma nova ficção. E assim encontrar a grande ficção é a possibilidade de encontrar uma fé final, uma fé política."

(Alain Badiou, conferência no Birkbeck Institute for the Humanities, Londres, em 26/11/2005, transcrição de Robin Mackay)

Mas pode acreditar-se nos mitos? Jean-Pierre Vernant  fazia essa pergunta em relação aos Gregos. Teriam eles a fé dos 'fiéis'  do Cristianismo, por exemplo? A ironia de um Aristófanes ou a política de um Platão não são realmente representativos da atitude comum. Nesse tempo, levava-se tão a sério o culto dos deuses que Sócrates foi condenado à morte por querer introduzir 'novos deuses' (como a consciência no sentido moderno) na cidade.

Por outro lado, temos a opção do jornalista pela lenda contra os factos no filme de John Ford, 'O Homem que matou Liberty Valance'. 

A palavra 'narrativa' entrou recentemente no nosso vocabulário político. Talvez seja o sinal de que a crise política, o desencanto geral em relação à política e à democracia, tenham sobretudo a ver com a redução da política à ideologia, com o triunfo dos economistas e dos saldos de balanço.

Nesse sentido, a 'grande ficção' de que fala Badiou é outro nome para as ilusões 'eficientes' conotadas com a juventude dos homens e das nações. O filósofo, como o ancião, acabam por ter razão contra eles mesmos, porque o melhor que fizeram na vida não foi fruto de análise nem de dissecação.

Quem pode devolver-nos o estado de graça senão um novo mito criador?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

(José Ames)

O CASTELO INACESSÍVEL



Volto a embrenhar-me com Kafka no labirinto do sem-sentido.

A absoluta originalidade deste autor terá as suas raízes de que não sei o suficiente para afirmar sequer uma influência. Às vezes, dir-se-ia que se socorre da "técnica" do sonho, descrevendo situações absurdas que, afinal, estão apenas deslocadas em relação à nossa experiência.

A psicologia das personagens nunca está ao serviço do drama, mas da ironia e duma estratégia de desorientação do leitor, o qual, a cada momento, tem de se reposicionar para não perder de vista o seu mundo, que é o único mundo, por detrás da estranheza.

Compreende-se por que razão Kafka se ria tanto ao ler aos amigos aquilo que escrevia...

No "Castelo", o poder torna-se romanceável pela primeira vez. E até a figura gemelar dos assistentes que são testemunhas indesejáveis de todos os momentos de K. parecem menos reais do que representar uma hipóstase política alojada num canto do nosso cérebro.

Ou então, é a narrativa da doença psíquica, a paranóia, por exemplo. A realidade é tratada como uma conspiração contra a personagem. Toda a gente, na aldeia, se ocupa, duma maneira ou de outra, do pobre K.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sem título

Belvedere (Viena)

 

O ESPELHO

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"Não se deve, pois, esperar que sejam precisamente as obras geniais a ter sobre ele este efeito: são mais as obras actuais, e entre elas, as que tocam o humor mais do que aquelas que o espírito claramente desenhou, da mesma maneira que prefere aos espelhos fiéis os que lhe lhe afinam o rosto ou lhe fazem os ombros mais largos..."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Como se vê, o autor identifica aqui, o génio artístico com a capacidade de retratar a realidade atribuída aos espelhos 'perfeitos', chamemos-lhes assim. Já Stendhal idealizava a tarefa do 'realismo' na literatura, comparando-a a um espelho que captasse as imagens da rua. Ingenuidade, sem dúvida, que o próprio Henri Bayle nunca aplicou nos seus romances, sendo um consumado politólogo do amor.

Musil está ainda mais longe de ser realista ou de ser fiel à realidade como um espelho. A sua grande obra podia classificar-se como um híbrido entre o aforismo filosófico e o fresco romanceado.

Mas é certo que as obras de arte 'actuais' respondem a uma 'inutilidade' (porque, em última análise, a obra de arte é auto-referente) do momento, e são 'consumidas' na hora. Parafraseando Proust, a arte empresta-nos óculos para ver melhor a nossa época, o que não é o mesmo que ver a 'realidade'.

O génio de obras do passado inclui esse 'ar de família' que a identifica com uma determinada época, mas é sobretudo a expressão de uma 'singularidade' humana que, na actualidade, é mascarada por factores alheios à arte, a começar pela existência de um mercado e de uma crítica a ele enfeudada.

 

 

 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Sem título

(josé Ames)

 

SECULARIZAÇÃO

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"Os livros de Copérnico e de Galileu permaneceram no índex até 1822. Três séculos de obstinação, é giro."

"Diários" (Albert Camus)

É a medida da aceleração do nosso tempo, este gritante desfasamento da Igreja. As ideias, de facto, podem viver um tempo incomensurável, que nenhum Matusalém pode alcançar. Nenhuma ciência de organização pode dar conta deste fenómeno. Muitos impérios ruiram, entretanto, mas nenhum se reclamava do 'poder espiritual' de que falou Comte. A classe sacerdotal do Antigo Egipto é o exemplo maior da 'intemporalidade' da religião, com o picante pormenor de ser também o modelo de todas as burocracias. Como se sabe, a burocracia tem o génio de se reproduzir a si mesma.

Mas, ao mesmo tempo, a Igreja não se quer fechada, e corre necessariamente os riscos de 'importar' o mundo moderno, e de cada geração começar por ser crítica do seu famigerado 'imobilismo'. Que se passará, então, quando a 'mensagem' da Igreja se tornar parte da concorrência geral entre os meios/mensagens gerados pela sociedade tecnológica?

Talvez isso nos ajude a perceber que o dito 'desfasamento' é também uma questão de autonomia e de sobrevivência. A Igreja, simplesmente, não pode 'coincidir' com o nosso tempo, sob pena de deitar a perder o projecto de um outro mundo...

 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Museu de História Natural (Viena)

SINISTRO

Krzysztof Kieslowski


Se ela conseguir retê-lo até às sete da manhã, naquela véspera de fim-de-ano, a sua vida impossível vai mudar para melhor.

Por isso inventa um marido suicida e arrasta o amante pelos hospitais da cidade à procura do corpo.

Esmagado pelo sentimento de culpa, ele segue-a, deixando a mulher desconfiada, com um pretexto. Incitado pelo desespero dela, desafia a morte com o pé no acelerador.
Ela confessa, por fim, que lhe mentiu durante toda a noite.

Às vezes, há ódio nas suas palavras. O amor nem sequer é uma recordação. Extinto como as coisas extintas. Parece um sinistro que tivesse deixado mutilados todos os intervenientes.

É o episódio nº 3 do "Decálogo".