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| Belvedere (Viena) |
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"Não se deve, pois, esperar que sejam precisamente as obras geniais a ter sobre ele este efeito: são mais as obras actuais, e entre elas, as que tocam o humor mais do que aquelas que o espírito claramente desenhou, da mesma maneira que prefere aos espelhos fiéis os que lhe lhe afinam o rosto ou lhe fazem os ombros mais largos..."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)
Como se vê, o autor identifica aqui, o génio artístico com a capacidade de retratar a realidade atribuída aos espelhos 'perfeitos', chamemos-lhes assim. Já Stendhal idealizava a tarefa do 'realismo' na literatura, comparando-a a um espelho que captasse as imagens da rua. Ingenuidade, sem dúvida, que o próprio Henri Bayle nunca aplicou nos seus romances, sendo um consumado politólogo do amor.
Musil está ainda mais longe de ser realista ou de ser fiel à realidade como um espelho. A sua grande obra podia classificar-se como um híbrido entre o aforismo filosófico e o fresco romanceado.
Mas é certo que as obras de arte 'actuais' respondem a uma 'inutilidade' (porque, em última análise, a obra de arte é auto-referente) do momento, e são 'consumidas' na hora. Parafraseando Proust, a arte empresta-nos óculos para ver melhor a nossa época, o que não é o mesmo que ver a 'realidade'.
O génio de obras do passado inclui esse 'ar de família' que a identifica com uma determinada época, mas é sobretudo a expressão de uma 'singularidade' humana que, na actualidade, é mascarada por factores alheios à arte, a começar pela existência de um mercado e de uma crítica a ele enfeudada.
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"Os livros de Copérnico e de Galileu permaneceram no índex até 1822. Três séculos de obstinação, é giro."
"Diários" (Albert Camus)
É a medida da aceleração do nosso tempo, este gritante desfasamento da Igreja. As ideias, de facto, podem viver um tempo incomensurável, que nenhum Matusalém pode alcançar. Nenhuma ciência de organização pode dar conta deste fenómeno. Muitos impérios ruiram, entretanto, mas nenhum se reclamava do 'poder espiritual' de que falou Comte. A classe sacerdotal do Antigo Egipto é o exemplo maior da 'intemporalidade' da religião, com o picante pormenor de ser também o modelo de todas as burocracias. Como se sabe, a burocracia tem o génio de se reproduzir a si mesma.
Mas, ao mesmo tempo, a Igreja não se quer fechada, e corre necessariamente os riscos de 'importar' o mundo moderno, e de cada geração começar por ser crítica do seu famigerado 'imobilismo'. Que se passará, então, quando a 'mensagem' da Igreja se tornar parte da concorrência geral entre os meios/mensagens gerados pela sociedade tecnológica?
Talvez isso nos ajude a perceber que o dito 'desfasamento' é também uma questão de autonomia e de sobrevivência. A Igreja, simplesmente, não pode 'coincidir' com o nosso tempo, sob pena de deitar a perder o projecto de um outro mundo...
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Krzysztof Kieslowski
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"O nosso tempo já não inclui nos êxtases do sentimento outra coisa que não seja o êxtase 'sentimental', e reduziu a embriaguez lunar a um desprezível excesso deste género. Ele não pressente que esse êxtase, a menos que seja uma perturbação mental incompreensível, só pode ser um fragmento de uma outra vida."
(conversa entre Ulrich e a sua irmã, in "O Homem sem Qualidades")
Este 'monólogo' sobre a lua expõe-se na claridade incestuosa de um subentendido. O incesto não é actual, nem realmente possível, mas condiciona toda a comunicação entre os dois. Está diante deles como a porta infernal inacessível aos geómetras.
A linguagem converte o êxtase lunar dos outros, numa vulgaridade de 'crooner'. Ulrich está ciente que lhe é vedado resvalar para o sentimentalismo 'romântico', mas não pode negar o fascínio, associado ao amor, provocado por essa luz emprestada.
Porque o céu nocturno, a face escondida do azul ou das nuvens, nos foi roubado pelo néon, e o êstase é quase um privilégio dos astrónomos.
O sentimentalismo mantém-nos na ignorância e justifica o orgulho nimbado da espécie.
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