quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sem título

Belvedere (Viena)

 

O ESPELHO

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"Não se deve, pois, esperar que sejam precisamente as obras geniais a ter sobre ele este efeito: são mais as obras actuais, e entre elas, as que tocam o humor mais do que aquelas que o espírito claramente desenhou, da mesma maneira que prefere aos espelhos fiéis os que lhe lhe afinam o rosto ou lhe fazem os ombros mais largos..."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Como se vê, o autor identifica aqui, o génio artístico com a capacidade de retratar a realidade atribuída aos espelhos 'perfeitos', chamemos-lhes assim. Já Stendhal idealizava a tarefa do 'realismo' na literatura, comparando-a a um espelho que captasse as imagens da rua. Ingenuidade, sem dúvida, que o próprio Henri Bayle nunca aplicou nos seus romances, sendo um consumado politólogo do amor.

Musil está ainda mais longe de ser realista ou de ser fiel à realidade como um espelho. A sua grande obra podia classificar-se como um híbrido entre o aforismo filosófico e o fresco romanceado.

Mas é certo que as obras de arte 'actuais' respondem a uma 'inutilidade' (porque, em última análise, a obra de arte é auto-referente) do momento, e são 'consumidas' na hora. Parafraseando Proust, a arte empresta-nos óculos para ver melhor a nossa época, o que não é o mesmo que ver a 'realidade'.

O génio de obras do passado inclui esse 'ar de família' que a identifica com uma determinada época, mas é sobretudo a expressão de uma 'singularidade' humana que, na actualidade, é mascarada por factores alheios à arte, a começar pela existência de um mercado e de uma crítica a ele enfeudada.

 

 

 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Sem título

(josé Ames)

 

SECULARIZAÇÃO

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"Os livros de Copérnico e de Galileu permaneceram no índex até 1822. Três séculos de obstinação, é giro."

"Diários" (Albert Camus)

É a medida da aceleração do nosso tempo, este gritante desfasamento da Igreja. As ideias, de facto, podem viver um tempo incomensurável, que nenhum Matusalém pode alcançar. Nenhuma ciência de organização pode dar conta deste fenómeno. Muitos impérios ruiram, entretanto, mas nenhum se reclamava do 'poder espiritual' de que falou Comte. A classe sacerdotal do Antigo Egipto é o exemplo maior da 'intemporalidade' da religião, com o picante pormenor de ser também o modelo de todas as burocracias. Como se sabe, a burocracia tem o génio de se reproduzir a si mesma.

Mas, ao mesmo tempo, a Igreja não se quer fechada, e corre necessariamente os riscos de 'importar' o mundo moderno, e de cada geração começar por ser crítica do seu famigerado 'imobilismo'. Que se passará, então, quando a 'mensagem' da Igreja se tornar parte da concorrência geral entre os meios/mensagens gerados pela sociedade tecnológica?

Talvez isso nos ajude a perceber que o dito 'desfasamento' é também uma questão de autonomia e de sobrevivência. A Igreja, simplesmente, não pode 'coincidir' com o nosso tempo, sob pena de deitar a perder o projecto de um outro mundo...

 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Museu de História Natural (Viena)

SINISTRO

Krzysztof Kieslowski


Se ela conseguir retê-lo até às sete da manhã, naquela véspera de fim-de-ano, a sua vida impossível vai mudar para melhor.

Por isso inventa um marido suicida e arrasta o amante pelos hospitais da cidade à procura do corpo.

Esmagado pelo sentimento de culpa, ele segue-a, deixando a mulher desconfiada, com um pretexto. Incitado pelo desespero dela, desafia a morte com o pé no acelerador.
Ela confessa, por fim, que lhe mentiu durante toda a noite.

Às vezes, há ódio nas suas palavras. O amor nem sequer é uma recordação. Extinto como as coisas extintas. Parece um sinistro que tivesse deixado mutilados todos os intervenientes.

É o episódio nº 3 do "Decálogo".

sábado, 30 de maio de 2015

(José Ames)

A GLASNOST DOS GUICHETS

Joseph Kafka (1883/1924)


"O que eu lhe vou perguntar depende do resultado da nossa entrevista. Muitas coisas podem surgir durante a conversa, mas mais importante ainda é confrontar-me com ele. Você está a ver que eu não falei ainda com um verdadeiro funcionário. Isso parece ser muito mais difícil de conseguir do que eu julgava."

"O Castelo" (Franz Kafka)


Pensava nesta e nalgumas outras passagens do romance de Kafka, ao dirigir-me à repartição de Finanças da minha zona, por causa do IRS.

Mas a burocracia hoje evita mostrar-nos o seu pior ângulo. Há pessoas do outro lado do balcão, e o nosso caso não depende dum personagem inacessível, no qual apesar de tudo temos de depositar todas as nossas esperanças, à medida que vamos conhecendo os inúteis intermediários e as infinitas delongas.

A administração pura, simplificada e racionalizada, ao alcance duma simples cozinheira, preconizada por Lenine, superado um Estado obsoleto que já não seria o órgão de dominação duma classe sobre as outras, está em vias de se tornar um facto, graças à tecnologia, em muitas funções estatais.

O próximo passo será determinar o coeficiente de dominação, socialmente sustentável.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Sem título

Casa do Raio, Braga

 

A LUA, NEM MENOS

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"O nosso tempo já não inclui nos êxtases do sentimento outra coisa que não seja o êxtase 'sentimental', e reduziu a embriaguez lunar a um desprezível excesso deste género. Ele não pressente que esse êxtase, a menos que seja uma perturbação mental incompreensível, só pode ser um fragmento de uma outra vida."

(conversa entre Ulrich e a sua irmã, in "O Homem sem Qualidades")

Este 'monólogo' sobre a lua expõe-se na claridade incestuosa de um subentendido. O incesto não é actual, nem realmente possível, mas condiciona toda a comunicação entre os dois. Está diante deles como a porta infernal inacessível aos geómetras.

A linguagem converte o êxtase lunar dos outros, numa vulgaridade de 'crooner'. Ulrich está ciente que lhe é vedado resvalar para o sentimentalismo 'romântico', mas não pode negar o fascínio, associado ao amor, provocado por essa luz emprestada.

Porque o céu nocturno, a face escondida do azul ou das nuvens, nos foi roubado pelo néon, e o êstase é quase um privilégio dos astrónomos.

O sentimentalismo mantém-nos na ignorância e justifica o orgulho nimbado da espécie.

 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

(José Ames)

VÉNUS E MARTE



"Vénus e Marte com Cupido" (Paolo Veronese)

"Não sejas demasiado bom com a tua mulher e não lhe confies todos os teus segredos."

(conselho de Agamémnon a Ulisses, na "Odisseia")

Assim, desde o princípio da civilização europeia, quando Hesíodo nos deu a conhecer Pandora (a origem inocente de todos os males) e muito antes do Cristianismo ter feito de Eva, na narrativa bíblica, uma espécie de aliada 'objectiva' (perdoem-me esta intrusão da política na história sagrada) da serpente, outra vez no papel de instrumento inocente, que a mulher é um ser misterioso que na verdade reina sobre a alegada potência do outro sexo, embora com 'armas' que não são verdadeiramente suas.

Parece evidente, na história, uma incompatibilidade feminina com 'as malhas que o império tece', a arte da estratégia não é o seu domínio, de resto, de que valem as 'artes militares' de previsão e antecipação se o resultado é invariavelmente outro que o desejado. Se não fosse a força do 'complexo militar-industrial' que distorce a democracia, reconhecer-se-ia que nessa arte não se faz melhor do que examinar as entranhas dos pássaros.

A conversa do rei dos Gregos com Ulisses é uma história entre militares. O guerreiro deve preservar o instinto de morte e relegar para o momento da vitória, o prémio das suas façanhas. É este desígnio que reclama a conversão da mulher num inimigo interior, de quem se desconfia, mas a quem se pede um crédito inesgotável de confiança, ou de 'respeito' inspirado no temor.

Na mitologia, as núpcias de Marte e de Vénus são o sinal da reconciliação, momento em que ambos se despem de armas e disfarces. Como sempre, o mito vai mais longe do que parece, e nada há de mais efémero do que essas núpcias.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Bragança

FORA DA RAZÃO NÃO HÁ PROBLEMÁTICA

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"Se bem que todos os acontecimentos que tocam os homens nasçam da imaginação, só os problemas racionais se revelam submetidos a uma organização suprapessoal; para tudo o resto nada ainda foi feito que mereça o nome de esforço comum, ou que ao menos revelasse o reconhecimento da sua urgente necessidade."

"L'Homme Sans Qualités" (Robert Musil)

A 'provocação' de Musil está neste exclusivo da imaginação, implicando que o racional não nos 'toca' verdadeiramente. Ao mesmo tempo, dizem-nos que somos 'animais racionais'...

Além disso, a frase é chocante quando pensamos, por exemplo, numa catástrofe humanitária, em que a nossa primeira reacção, se bem que possa estar longe de racional, ao ser associada à imaginação, parece desvalorizar a realidade dos factos.

Mas talvez o problema surja de uma ilusão que nos é muito cara, ilusão a que nas sociedades mais evoluídas se dá o nome de individualismo. À medida que o mundo se torna cada vez mais o habitat artificial feito à nossa imagem e semelhança, mais sofremos da ilusão de que nos criamos a nós próprios, graças ao poder demiúrgico da liberdade individual e do desenvolvimento tecnológico.

O que sugere a ideia musiliana é que essa 'criação' surge apesar de nós, movida por uma força tão impessoal ou tão indiferente ao sentimento de humanidade, como se, de facto, fôssemos instrumentalizados pela razão, em vez de se passar o contrário.

Um vislumbre dessa 'lógica' poderia ser, por exemplo, o poder da ciência e da tecnologia. Não temos a menor ideia do futuro que nos prepara essa racionalidade independente e agimos como se tivesse que ser assim para o bem de toda a humanidade.

A evolução dessa força é imanente, nasce da sua própria problemática, e a sua direcção parece não nos dizer respeito.



segunda-feira, 25 de maio de 2015

(José Ames)