sexta-feira, 8 de maio de 2015

O GOSTO DA MÚSICA

Rainer Maria Rilke


"As  obras  de  arte  são  de  uma  solidão  infinita, e  nada  as  toca  menos do que a crítica.  Apenas  o  amor  as  pode  alcançar  e  deter  e  julgar  equitativamente."

(Rainer Maria Rilke) 

A crítica seria assim uma rede que apanhasse nas suas malhas tanto a produção medíocre, quanto a mais sublime. Uma por ser patente a sua incompetência para alcançar o seu modelo, a outra porque ela, a crítica, é cega perante a autenticidade.

Mas vem-me à ideia um dito atribuído a um grande compositor do século XX, o qual teria afirmado que o gosto da  boa música não é 'natural' como é, por exemplo, gostar de pêras ou de maçãs.

Pondo de lado a questão de saber se a predilecção por certos frutos é espontânea e não depende da cultura, o que parece estar implícito neste juízo é de que o gosto por algo tão artificial como a música dita séria também tem  de ser aprendido, o que explica, até certo ponto, o afastamento do grande público em relação à música 'de vanguarda'.

Esse seria um fosso inultrapassável, se não fosse o caso daquela aprendizagem se fazer (ou ir fazendo) intuitivamente, no tempo. Bastando para isso que não declaremos à partida que tal artificialidade está acima das nossas possibilidades ou não merece sequer um esforço de 'acomodação'.

Passa-se aqui o mesmo que se passa na literatura, por exemplo. Ninguém consegue compreender Joyce se não decidir primeiro que vale o tempo necessário para o compreender. Alain dizia que o leitor impaciente gostaria de saltar as longas introduções de um romance de Balzac, como "Le lys dans la vallée". Mas essa espera não serve apenas para enquadrar e dar um fundo histórico às personagens. Corresponde também ao silêncio ou à aproximação gradual que, na música, antecede o tema e o movimento.

Tem todo sentido falar do amor a este propósito. Porque é o amor que abre o futuro com uma esperança ilimitada, sem nada cobrar ou querer que se passe recibo.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

(José Ames)

EMANAÇÕES DO CASTELO

Franz Kafka (1883/1924)

"Esta carta em nenhum sentido é uma carta oficial, mas apenas uma carta privada. Isso pode ser claramente visto na própria forma de tratamento: 'Meu caro Senhor'"
"O Castelo" (Franz Kafka)


No domínio burocrático, só o oficial tem validade e vencimento. Todas as direcções, todos os gabinetes e funcionários formam uma espécie de pensamento, fora do qual não há realidade.

Amália arrastou na sua desgraça toda a família, por dar mais valor à sua dignidade do que à palavra, mesmo injuriosa, dum alto funcionário.

E embora do Castelo não tivesse surgido qualquer retaliação, nem ali fosse sequer levantado um dedo, a população procedeu como se algo de sacrossanto tivesse sido infringido, com a rebelião de Amália, e, por medo, tornou-se o único carrasco dessa família. Que melhor exemplo da interiorização das leis?

O drama de K. é o resultado duma descoordenação de serviços, mas em todo o caso, ele nunca chegará a exercer a profissão. A sua infatigável busca pelo reconhecimento e reparação desse erro está condenada ao fracasso. A sua luta pelo direito cai na categoria burocrática do importuno.

quarta-feira, 6 de maio de 2015


Brotas

O OBJECTO COMPLEXO


Michael Polanyi

"(Michael) Polanyi argumentava que o método científico não é simplesmente uma questão de progredir da ignorância para a objectividade; como nas humanidades, é mais a de um movimento complexo do conhecimento explícito para o ímplicito."

"The case for God" (Karen Armstrong)

Por alguma razão não se fala aqui de verdade, mas de objectividade. De facto, o conhecimento inter-subjectivo só necessita de estar de acordo consigo mesmo para ser 'objectivo'. Esta característica só faz sentido para uma 'inter-subjectividade' implícita e não para o indivíduo abstracto.

Quando Descartes se sentou frente à lareira com o célebre pedacinho de cera, assumiu que podia ser independente de preconceitos e de opniões, prestigiadas ou não. Mas reconheceu que não poderia dispensar Deus para dar sentido às declarações da razão. Isto era, à partida, destituir a lógica de qualquer poder de revelação e de fundamentação científica.

A outra ideia de movimento complexo para o conhecimento implícito vai ao encontro de um fenómeno tão omnipresente como é o de crescermos em complexidade e da tarefa de nos organizarmos já não estar ao alcance do homem pré-tecnológico. Cada vez mais nos confrontamos com um 'Big Brother' nascido da nossa tecnologia e sem os estigmas do pesadelo orwelliano.

Mas também aqui, a verdade, no sentido religioso-filosófico, está ausente. Podemos atestar que o nosso conhecimento funciona ou não, mas já não podemos dizer se favorece ou não a 'verdade' do homem e do cosmos.

terça-feira, 5 de maio de 2015

(José Ames)

TOLERÂNCIA




"Sejamos, pois, tolerantes para os prazeres de outrém, a fim de que o sejam para os nossos."

(Plínio, o Jovem)

Aqui soa estranho que a palavra tolerância seja aplicada ao prazer dos outros. É, sem dúvida, um sinal de que o autor se refere a iguais, cidadãos romanos como ele. Porque em relação aos escravos e libertos de que tolerância se poderia tratar? No entanto, podiam suportar-se os caprichos de um animal doméstico.

Na sua esplêndida villa, é verdade, no período das saturnais, o 'dominus' retirava-se para longe do barulho e dos 'sinais exteriores' de uma libertação simbólica do jugo. Entregava-se ao estudo, geralmente meditando sobre um rolo de pergaminho, enquanto os domésticos se recriavam no 'mundo do avesso'.

Além disso, havia a lei e os outros costumes que regulavam o poder entre as classes. O abuso sem limites não garantia longa vida à instituição. Quando mais tarde os negreiros trataram a carga humana pior do que tratavam o gado, apressaram o fim do seu amaldiçoado negócio. O preconceito impedia-os de ver onde estava o seu verdadeiro interesse.

Hoje a ideia de tolerância vêmo-la, como sempre, nas questões de sexo, de raça, ou de religião, onde muitas vezes parece ter perdido a sua eficácia. A pobreza e a falta de futuro andam de mãos dadas com o fanatismo mais destruidor. E a tolerância não pode rimar com a fraqueza do juízo.

Em democracia, continua a existir o prazer que incomoda os outros, como o ruído das discotecas ou o fumo do tabaco. Mas a tolerância não pode entrar no cálculo dos prazeres.

segunda-feira, 4 de maio de 2015


S.João do Estoril

A NAVE DOS LOUCOS




"(...) a  ideia  que  Engels  retirou  de  Saint-Simon:  a  dominação  dos  homens  pelos homens  cede  lugar  à  administração  das  coisas."

(Jürgen Habermas)

Isso seria possível se a última das classes chegasse à dominação, pondo fim ao capitalismo e à milenar 'exploração do homem pelo homem'.

Foi essa ideia que levou Lenine a formular a célebre 'blague' sobre a cozinheira à frente do Estado.

Mas o que é que, desde o princípio, condiciona a 'administração das coisas'? Não teriam já os antigos Romanos a noção de que ao Estado competiria, em última análise, a administração da 'coisa pública'?

Pode entender-se até que o conceito saint-simoniano não terá sido mais do que uma tentativa de regresso à tradição. A ruptura ter-se-á dado com a introdução do Sujeito da história na filosofia hegeliana e, posteriormente,  com a elevação da ideia de classe social a esse estatuto.

Mas o Sujeito da história perde toda a pertinência se o separarmos daquele  sistema filosófico. Pelo contrário, o que a história subsequente tem mostrado é que parece cada vez mais utópica qualquer comparação entre a consciência e a responsabilidade individuais e qualquer entidade nacional ou internacional que possa reclamar-se daquelas qualidades.

A análise de Thomas Piketty não deixa dúvidas sobre isso. Não vai ninguém ao leme da nau capitalista. E, na Europa 'comunitária', por exemplo, assistimos à eterna parábola dos cegos que conduzem outros cegos.

A nave dos loucos não merece outro nome.

domingo, 3 de maio de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O FALSO PROFUNDO

 

"No seu segundo regresso, nomeado tenente-general e de novo tornado marquês, o senhor d'Aiglemont teve a ambição de chegar ao pariato, adoptou as máximas e a política do Conservador, envolveu-se de uma dissimulação que nada escondia, tornou-se grave, interrogador, de poucas palavras, e foi tomado por um homem profundo."

"La femme de trente ans" (Honoré de Balzac)

D'Aiglement, que serviu no exército napoleónico e depois aderiu à restauração dos Bourbons, acompanhando o rei no breve exílio de Gand, foi devidamente recompensado.

Como certa personagem de Eça, uma nulidade, passou por um homem profundo por nunca expressar um pensamento. Baudelaire dizia à mulher bela que se limitasse a sê-lo e que se calasse ("sois belle et tais-toi").

Não é o silêncio que acrescenta à inteligência ou à beleza. É a ilusão que é possível manter, até prova em contrário. Sabe-se como esse crédito é necessário aos jovens para poderem aprender. A humildade não obtém os mesmos resultados do que aquela ilusão. Quem ensina não se deve deixar desencorajar por uma resposta naturalmente inepta. E quanto maior for a esperança, menos ela importa, de facto.

Quanto à beleza, é verdade que a tolice a desfeia mais do que qualquer outra coisa. Como aquela cena, na "Serenata à chuva", quando se dá a passagem para o sonoro, em que a "diva' começa a falar com a sua própria voz, e não com aquela que o público sempre imaginou.

O tenente-general de Balzac teve ao menos a inteligência de reconhecer que era tolo e que convinha à sua ambição esconder esse defeito dos outros.

 

 

 

 

 

sábado, 2 de maio de 2015


Dublin 

A OUTRA RESSURREIÇÃO DE LÁZARO







Não matarás! O 5º episódio do "Decálogo" de K. Kieslowski. Lazar vai fazer vinte e um anos e é um jovem revoltado. Não sem causa, como Dean, percursor dum mundo em que os jovens iam nascer como grupo cultural autónomo, com as suas referências próprias, de penteado, de vestuário, etc. Haverá causas desproporcionadas em relação aos seu efeitos?

Lazar perdeu a sua irmã preferida, atropelada por um tractor. A sua raiva dirige-se contra tudo e contra todos e encontra apenas escape num crime hediondo.

No julgamento, conhece um jovem advogado, que é contra a pena capital. Vemos pelos olhos deste, não a violência passional dum indivíduo, mas a violência ritual e metódica, organizada pelo Estado, que acaba naquele tumulto obsceno do enforcamento.

Para mim é claro que a Lei de Talião não pode ser seguida pelo Estado. Que há desproporção, completa assimetria entre o indivíduo e o Estado. Também não o justifica completamente a função de proteger os outros cidadãos, isolando o criminoso, porque a prisão é igualmente destrutiva.

Num certo sentido, o criminoso pune-se a si próprio, excluíndo-se da comunidade e do pensamento comum ( e, como diria Simone Weil, nasce de novo com o castigo desejado).

Mas é preciso evitar a reincidência e proteger os outros, mesmo se a regeneração nalguns casos é possível. A verdade é que, faça o que fizer, o Estado não pode ser justo (é sempre violento de mais, abstracto de mais).

Aqui parece funcionar a fórmula liberal, de quanto menos Estado melhor.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

(José Ames)

O SEXO DOS ROBOTS


"EX-MACHINA"


"A paternidade artística é tão inteira quanto a paternidade física. Além disso, vale a pena assinalar que quando um poeta é realmente mórbido isso se deve normalmente a algum ponto fraco de racionalidade no seu cérebro. Poe, por exemplo, era realmente mórbido; não porque fosse poético, mas por ser especialmente analítico."

"Orthodoxy" (G.K. Chesterton)

Na sua polémica contra Sainte-Beuve, Proust moveu-se no outro sentido. A obra seria independente da personalidade do artista. Claro que existe um tipo de coerência, e de lógica interna que são 'independentes' da pessoa do autor. Não tira que a morbidez, como lhe chama GKF, na poesia de Poe, provenha  da sua idiosincrasia e seja uma característica importante do seu estilo.

Há dias, vi um filme de ficção científica bastante interessante: "Ex-Machina", de Alex Garland. O criador de uma mulher-robot chamada Ava explica ao visitante que vai tentar aplicar o teste de Touring à nova máquina (e ser ao mesmo tempo testado, sem saber, contudo, até que ponto) porque teve de introduzir a sexualidade na mulher artificial. Depois de declarar que, sem a sexualidade, no sentido lato, os primeiros humanos não teriam qualquer motivo para se aproximarem uns dos outros, serve-se do exemplo de Pollock, o pintor americano que tentou fazer do automatismo um estilo próprio. E, também aqui, o artista chegaria rapidamente ao impasse se não obedecesse a impulsos que nada têm a ver com a racionalidade. Que razão teria para iniciar o primeiro gesto que contrariasse o caos aparente do acaso?

De facto, Pollock estaria na situação de Ulrich, 'o homem sem qualidades': extremamente inteligente e dotado de uma notável capacidade crítica, mas, como que paralisado e incapaz de fazer a mínima escolha (porque nenhuma opção o envolveria realmente).