terça-feira, 5 de maio de 2015

(José Ames)

TOLERÂNCIA




"Sejamos, pois, tolerantes para os prazeres de outrém, a fim de que o sejam para os nossos."

(Plínio, o Jovem)

Aqui soa estranho que a palavra tolerância seja aplicada ao prazer dos outros. É, sem dúvida, um sinal de que o autor se refere a iguais, cidadãos romanos como ele. Porque em relação aos escravos e libertos de que tolerância se poderia tratar? No entanto, podiam suportar-se os caprichos de um animal doméstico.

Na sua esplêndida villa, é verdade, no período das saturnais, o 'dominus' retirava-se para longe do barulho e dos 'sinais exteriores' de uma libertação simbólica do jugo. Entregava-se ao estudo, geralmente meditando sobre um rolo de pergaminho, enquanto os domésticos se recriavam no 'mundo do avesso'.

Além disso, havia a lei e os outros costumes que regulavam o poder entre as classes. O abuso sem limites não garantia longa vida à instituição. Quando mais tarde os negreiros trataram a carga humana pior do que tratavam o gado, apressaram o fim do seu amaldiçoado negócio. O preconceito impedia-os de ver onde estava o seu verdadeiro interesse.

Hoje a ideia de tolerância vêmo-la, como sempre, nas questões de sexo, de raça, ou de religião, onde muitas vezes parece ter perdido a sua eficácia. A pobreza e a falta de futuro andam de mãos dadas com o fanatismo mais destruidor. E a tolerância não pode rimar com a fraqueza do juízo.

Em democracia, continua a existir o prazer que incomoda os outros, como o ruído das discotecas ou o fumo do tabaco. Mas a tolerância não pode entrar no cálculo dos prazeres.

segunda-feira, 4 de maio de 2015


S.João do Estoril

A NAVE DOS LOUCOS




"(...) a  ideia  que  Engels  retirou  de  Saint-Simon:  a  dominação  dos  homens  pelos homens  cede  lugar  à  administração  das  coisas."

(Jürgen Habermas)

Isso seria possível se a última das classes chegasse à dominação, pondo fim ao capitalismo e à milenar 'exploração do homem pelo homem'.

Foi essa ideia que levou Lenine a formular a célebre 'blague' sobre a cozinheira à frente do Estado.

Mas o que é que, desde o princípio, condiciona a 'administração das coisas'? Não teriam já os antigos Romanos a noção de que ao Estado competiria, em última análise, a administração da 'coisa pública'?

Pode entender-se até que o conceito saint-simoniano não terá sido mais do que uma tentativa de regresso à tradição. A ruptura ter-se-á dado com a introdução do Sujeito da história na filosofia hegeliana e, posteriormente,  com a elevação da ideia de classe social a esse estatuto.

Mas o Sujeito da história perde toda a pertinência se o separarmos daquele  sistema filosófico. Pelo contrário, o que a história subsequente tem mostrado é que parece cada vez mais utópica qualquer comparação entre a consciência e a responsabilidade individuais e qualquer entidade nacional ou internacional que possa reclamar-se daquelas qualidades.

A análise de Thomas Piketty não deixa dúvidas sobre isso. Não vai ninguém ao leme da nau capitalista. E, na Europa 'comunitária', por exemplo, assistimos à eterna parábola dos cegos que conduzem outros cegos.

A nave dos loucos não merece outro nome.

domingo, 3 de maio de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O FALSO PROFUNDO

 

"No seu segundo regresso, nomeado tenente-general e de novo tornado marquês, o senhor d'Aiglemont teve a ambição de chegar ao pariato, adoptou as máximas e a política do Conservador, envolveu-se de uma dissimulação que nada escondia, tornou-se grave, interrogador, de poucas palavras, e foi tomado por um homem profundo."

"La femme de trente ans" (Honoré de Balzac)

D'Aiglement, que serviu no exército napoleónico e depois aderiu à restauração dos Bourbons, acompanhando o rei no breve exílio de Gand, foi devidamente recompensado.

Como certa personagem de Eça, uma nulidade, passou por um homem profundo por nunca expressar um pensamento. Baudelaire dizia à mulher bela que se limitasse a sê-lo e que se calasse ("sois belle et tais-toi").

Não é o silêncio que acrescenta à inteligência ou à beleza. É a ilusão que é possível manter, até prova em contrário. Sabe-se como esse crédito é necessário aos jovens para poderem aprender. A humildade não obtém os mesmos resultados do que aquela ilusão. Quem ensina não se deve deixar desencorajar por uma resposta naturalmente inepta. E quanto maior for a esperança, menos ela importa, de facto.

Quanto à beleza, é verdade que a tolice a desfeia mais do que qualquer outra coisa. Como aquela cena, na "Serenata à chuva", quando se dá a passagem para o sonoro, em que a "diva' começa a falar com a sua própria voz, e não com aquela que o público sempre imaginou.

O tenente-general de Balzac teve ao menos a inteligência de reconhecer que era tolo e que convinha à sua ambição esconder esse defeito dos outros.

 

 

 

 

 

sábado, 2 de maio de 2015


Dublin 

A OUTRA RESSURREIÇÃO DE LÁZARO







Não matarás! O 5º episódio do "Decálogo" de K. Kieslowski. Lazar vai fazer vinte e um anos e é um jovem revoltado. Não sem causa, como Dean, percursor dum mundo em que os jovens iam nascer como grupo cultural autónomo, com as suas referências próprias, de penteado, de vestuário, etc. Haverá causas desproporcionadas em relação aos seu efeitos?

Lazar perdeu a sua irmã preferida, atropelada por um tractor. A sua raiva dirige-se contra tudo e contra todos e encontra apenas escape num crime hediondo.

No julgamento, conhece um jovem advogado, que é contra a pena capital. Vemos pelos olhos deste, não a violência passional dum indivíduo, mas a violência ritual e metódica, organizada pelo Estado, que acaba naquele tumulto obsceno do enforcamento.

Para mim é claro que a Lei de Talião não pode ser seguida pelo Estado. Que há desproporção, completa assimetria entre o indivíduo e o Estado. Também não o justifica completamente a função de proteger os outros cidadãos, isolando o criminoso, porque a prisão é igualmente destrutiva.

Num certo sentido, o criminoso pune-se a si próprio, excluíndo-se da comunidade e do pensamento comum ( e, como diria Simone Weil, nasce de novo com o castigo desejado).

Mas é preciso evitar a reincidência e proteger os outros, mesmo se a regeneração nalguns casos é possível. A verdade é que, faça o que fizer, o Estado não pode ser justo (é sempre violento de mais, abstracto de mais).

Aqui parece funcionar a fórmula liberal, de quanto menos Estado melhor.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

(José Ames)

O SEXO DOS ROBOTS


"EX-MACHINA"


"A paternidade artística é tão inteira quanto a paternidade física. Além disso, vale a pena assinalar que quando um poeta é realmente mórbido isso se deve normalmente a algum ponto fraco de racionalidade no seu cérebro. Poe, por exemplo, era realmente mórbido; não porque fosse poético, mas por ser especialmente analítico."

"Orthodoxy" (G.K. Chesterton)

Na sua polémica contra Sainte-Beuve, Proust moveu-se no outro sentido. A obra seria independente da personalidade do artista. Claro que existe um tipo de coerência, e de lógica interna que são 'independentes' da pessoa do autor. Não tira que a morbidez, como lhe chama GKF, na poesia de Poe, provenha  da sua idiosincrasia e seja uma característica importante do seu estilo.

Há dias, vi um filme de ficção científica bastante interessante: "Ex-Machina", de Alex Garland. O criador de uma mulher-robot chamada Ava explica ao visitante que vai tentar aplicar o teste de Touring à nova máquina (e ser ao mesmo tempo testado, sem saber, contudo, até que ponto) porque teve de introduzir a sexualidade na mulher artificial. Depois de declarar que, sem a sexualidade, no sentido lato, os primeiros humanos não teriam qualquer motivo para se aproximarem uns dos outros, serve-se do exemplo de Pollock, o pintor americano que tentou fazer do automatismo um estilo próprio. E, também aqui, o artista chegaria rapidamente ao impasse se não obedecesse a impulsos que nada têm a ver com a racionalidade. Que razão teria para iniciar o primeiro gesto que contrariasse o caos aparente do acaso?

De facto, Pollock estaria na situação de Ulrich, 'o homem sem qualidades': extremamente inteligente e dotado de uma notável capacidade crítica, mas, como que paralisado e incapaz de fazer a mínima escolha (porque nenhuma opção o envolveria realmente).

quinta-feira, 30 de abril de 2015


(Afurada

O PANTEÃO

(Le Panthéon de Rome sur une gravure du XVIIe s.)

"Sem, no momento adequado e graças a certas circunstâncias históricas, uma burocracia eclesiástica e politicamente eficaz, dificilmente teríamos hoje quaisquer traços do cristianismo..."


" O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)



Um romance coral como este permite ao seu autor harmonizar o que, à primeira vista,  poderia parecer uma contradição entre o homem e a obra. Ou, por outras palavras, manter a tensão entre os dois pólos, quando ambos são verdadeiros.

O pensamento citado é expresso por Tuzzi, um conselheiro de Estado nos antípodas do nosso Acácio, que leva muito a sério o poder que exerce e o funda numa perspectiva histórica que não pode reunir o consenso. Tuzzi dirige-se a Ulrich, o 'homem sem qualidades', que o 'compreende', como 'compreenderia' quem pensasse o contrário.

A burocracia que teria 'transportado' o Cristianismo até aos nossos dias não corresponde inteiramente à imagem material de um vaso (como na 'Viagem ao centro da Terra', de Henry Levin, quando é expulso pelo Etna) ou de uma nave espacial. A razão disso é que (McLuhan dixit) o 'medium' é a mensagem.

Se a ideia cristã não tivesse sido salva fora do 'aparelho', o que provavelmente teríamos seria um império de um tipo especial (pois se reclamava do espírito), vencido pelo tempo e soterrado para sempre.

O verdadeiro guardião do templo tampouco terá sido o culto e os costumes tradicionais, pois sabemos bem de mais quanto é fácil mudarmos pelas novas ideias e técnicas e, até, pelos novos hábitos...

Pensando bem, a sobrevivência do Cristianismo na 'Era da Técnica' devía de facto maravilhar-nos e causar o mesmo espanto que em nós provoca o Panteão de Marcus Agripa, quase incólume, no centro de Roma, ou Santa Sofia, em Istambul.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

(José Ames)

RESISTIR




"É da América que deriva o dito de Lafayette que criou uma comoção ao tempo, que a resistência é o mais sagrado dos deveres."
(Lord Acton)

Um país sem raízes inspira uma velha nação europeia no momento em que os seus filósofos põem em causa a ordem antiga e uma nova classe vai substituindo no poder uma decrépita aristocracia.

Também a guerra da Independência americana não era uma revolta qualquer. Não havia um mundo antigo a que derrubar muralhas com a trombeta de Jericó. Só a potência colonizadora. E a embrionária divisão interna que iria levar à Guerra Civil.

Algumas abstracções filosóficas em França receberam do exemplo do outro lado do Atlântico como que a prova do seu realismo. As situações eram, contudo, muito diferentes. Em França, a Revolução não se pôde 'consolidar' porque encontrou a resistência dos antigos senhores, apesar  das defecções de muitos nobres  (como é o caso do próprio Lafayette) e, sobretudo, a fúria popular, na província, por causa do seu programa ateísta.

Só para um aristocrata 'progressista' (como se diria mais tarde), a resistência podia ser 'o mais sagrado dos deveres'. Para um povo educado pela Igreja Católica, isso não fazia sentido ('dai a César o que é de César'). Mas é preciso atender ao contexto da antiga colónia americana, resistir visa aqui um país estrangeiro. 

Mas a quem se deveria resistir na 'melée' tevolucionária? A Revolução esgotou-se no drama das assembleias que de populares passaram a depender de uma guarda pretoriana e de um poder frenético, em fuga para a frente. Foi à própria Revolução que se tornou um dever sagrado resistir, com o desfecho trágico do Terror.

terça-feira, 28 de abril de 2015