quarta-feira, 8 de abril de 2015
BAIXEZA DE CÃO
terça-feira, 7 de abril de 2015
PRÍAMO
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"Ninguém viu entrar o grande Príamo."
"A Ilíada" (Homero, traduzido por Simone Weil)
O rei da cidade conquistada vem, junto de Aquiles, como um suplicante, resgatar o corpo do filho, Heitor. Nada de 'grande' transparece na sua figura que mais parece a de um velho pedinte.
Que melhor descrição da passagem do poder supremo ao da humanidade mais nua do que a invisibilidade? Ninguém viu entrar o antigo rei de Tróia.
O mais importante é precisamente o que não se vê. Proust dizia que a função do artista era dar-nos novos óculos para ver. A psicologia proustiana é uma maravilhosa 'prótese' que está mundos à frente da ciência oficial. Mas o mundo que nos é dado ver é o nosso mundo, apenas com outras cores ou outras formas. Esse mundo é o das pessoas, e é o mundo pessoal. Por isso, talvez não seja a realidade. Simone Weil, que encontra na epopeia grega a perfeita expressão do despojamento, vê também aí o que está para além da pessoa.
Príamo destituído já nada tem de 'supérfluo' e tudo o que é pessoal nele como que desapareceu. Sem dúvida, para dar lugar ao símbolo, mas principalmente para deixar aparecer o que Simone considerava o sagrado.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
ARJUNA
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"11. Porque, conforme os homens se inclinam perante mim, assim eu os honro. Todos os homens seguem a minha via, filho de Prithâ;
12. Mas aqueles que desejam o preço das suas obras sacrificam cá em baixo às divindades; e rapidamente, neste mundo mortal, obtêm o preço das suas obras.
13. Fui eu quem criou as quatro castas e reparti entre elas as qualidades e as funções. Sabe que elas são obra minha, vêm de mim, que não tenho função particular e que elas não mudam.
14. As obras não me conspurcam, porque não têm para mim qualquer fruto; e aqueles que me conhecem tal não ficam presos no laço das suas obras."
"Bhagavad-Gîtâ"
Na citação, Krishna incita o príncipe Arjuna a combater outros nobres da sua família, e a vencer a falta de 'motivação' e a repugnância em lutar contra pessoas que conhece bem e que lhe são próximas. Há um eco deste 'radicalismo' na figura de Jesus, quando prescreve aos seus discípulos o abandono de pai e mãe para o seguir. Krishna também quer que o seu "caminho" se sobreponha a todos os laços espirituais ou materiais.
O príncipe é exortado a ver os diferentes protagonistas da batalha como se estivessem empenhados numa 'função' prescrita, cada qual cumprindo o seu dever particular, sem se importar com os afectos (as paixões da tradição platónica) ou com as responsabilidades pessoais. Estas foram endossadas pela oitava incarnação de Vishnú: "Remete para mim todas as obras, pensa na Alma suprema; e, sem esperança, sem te preocupares contigo mesmo, combate e não estejas triste."
Esta paz, esta 'segurança' para aquele que se desprende de todos os laços para se deixar prender apenas pela palavra divina, pela "Via", eis um "êxtase" bem moderno, e tem um lado negro, se olharmos para os seus 'frutos' nas imagens mais violentas da televisão.
A justificação do regime de castas só por si deveria ter tornado a democracia como o mais perigoso dos cavalos de Tróia. Gandhi, realmente, inaugurou uma nova era, mas onde o "fruto das próprias obras" se procura mais do que nunca.
Toda a grande religião pode, aliás, decair e corromper-se como tudo o que é humano. Nalgumas atitudes de obediência cega às ditaduras militares ou às burocracias policiais podemos ver a caricatura do 'Dharma'.
domingo, 5 de abril de 2015
O SOL E A LUA
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| Epicuro |
"(...) o Sol, a Lua e as estrelas (por muitos seríissimos motivos) não podem ser nem maiores nem mais pequenos do que parecem aos nossos sentidos. Razão pela qual Epicuro julgava que o Sol teria um diâmetro de uns trinta centímetros."
(Gassendi no sec. XVII ainda a discute; Umberto Eco)
Podia-se, nesse tempo, e continua a poder-se viver no meio de contradicões lógicas, só porque não nos interessam realmente. Já na época de Epicuro se sabia que as coisas não são, efectivamente, como nos aparecem no horizonte. Ninguém estava à espera que o castelo ao longe mantivesse a mesma aparência se nos aproximássemos. Como diz Eco, o tamanho do sol e da lua era indiferente para a questão da salvação da alma. Esse tema de que dependiam multidões inteiras era mais do domínio da imaginação. E a imaginação gosta de histórias e de fábulas.
O século XX é o melhor repositório dos movimentos de massa que podem ser desencadeados pela manipulação da imaginação. Hitler chegou a mostrar os 'cordelinhos', que estão muito longe de se cingirem às palavras. Os sons guturais da sua voz agarraram a maioria da população alemã pelo baixo ventre.
Nos nossos dias, é impossível encontrar uma lógica comum aos fenómenos da economia e da tecnologia (para só referir estes). São tantas as vozes contraditórias entre si, que o melhor, para quem não quer 'mergulhar de cabeça' numa dessas escolas, é esperar que tudo, no fim faça sentido, como nos parece que não pode deixar de suceder. Claro que esse 'sentido', ou essa lógica não têm nada a ver com as previsões da charlatanice que é consubstancial à chamada ciência económica. Marx, que foi grande, incorreu na mesma fatalidade.
Para voltar ao 'erro' de Epicuro, é possível que alguns consigam pensar fora do mundo de fábula da economia e encontrem até uma lógica que mais ninguém vê. Eu já me muni duma lanterna.
sábado, 4 de abril de 2015
ENTRE MORTOS E VIVOS
sexta-feira, 3 de abril de 2015
INGÉNUOS & CÉPTICOS
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| http://www.thebluecoat.org.uk/files/images/creatives/VOID_1_MED.jpg |
"Quer dizer, as eleições têm cada vez menos efeito prático, porque a parte 'eficiente', funcional da constituição vem sendo de um modo seguro recolocada noutro lugar."
(Katz and Mair, 1995: 22) in "Ruling the void", de Peter Mair
Qualquer pessoa de senso compreende que 'a coisa pública' não deve ser governada por 'campanhas' e discursos sedutores. A complexidade do que está em causa obriga, logo à partida, que a por vezes odiada 'continuidade' seja melhor do que um 'salto no escuro'. É verdade que o desespero força-nos, mais frequentemente do que seria desejável, a dar esse salto.
Daí que, em teoria, seja razoável salvaguardar o núcleo do 'sistema', deixando as 'margens' para consumo da ideologia do 'pane et circenses'.
Vezes de mais, assistimos a políticos que não conseguem dissimular as contradições (com o discurso da campanha) logo no primeiro dia em que se sentam na 'cadeira do poder' e 'tomam consciência' das exigências do dito sistema.
Ora, esta tendência para a complexificação com o inevitável recurso a técnicos especializados no funcionamento e na auto-justificação do sistema, como diria Luhman, cresce com uma evidência que começa a pôr em causa o consenso político.
A democracia já não pode esconder pelo menos a sua semi-nudez. Esse 'semi' é o campo de actuação do populismo político. Teremos que assistir a outro falhanço histórico destes 'pescadores de águas turvas' para reencontrar uma democracia sem mentiras?
A ideia churchiliana tem o mérito de ter admitido a dificuldade essencial (que as eleições não podem 'assaltar a citadela'). E, apesar de se basear numa 'história da carochinha' já contada por Platão, a democracia continua a ser 'o menos mau dos regimes' conhecidos até agora.
No fundo, a democracia (o poder do povo) é utópica e cada vez mais. É o que justifica ingénuos e cépticos.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
DERSOU OUZALA
"Dersou Ouzala" (1975-Akira Kurosawa)
O velho “gold” não sabe a idade, mas julga ter vivido muito tempo. Não é esta a maneira menos alienada de viver? O caçador que fala com o fogo e o tigre não conta os anos, nem precisa de víveres ou de dinheiro. Caçar martas é a sua vida e isso dá algum dinheiro para tabaco ou munições. A sua sabedoria não tem nada de selvagem. É um fruto da solidão e da experiência. Sabes o que é o sol, tu? pergunta-lhe o soldado trocista: - toda a gente sabe o que é o sol. Porquê, tu não sabes? Se nunca vistes o sol, olha para ele!
O filme começa mostrando o desprezo e a incredulidade dos russos “civilizados” perante aquela criatura, que saindo da noite se vem sentar, como se nada fosse, perto da fogueira e, tranquilamente, prepara o seu cachimbo. Só o capitão o estuda, meio comovido. Mas eles vão de surpresa em surpresa, vencidos pela subtileza do batedor da taiga. Compreendem pouco a pouco que são, naquele meio inóspito, frágeis e ignorantes como crianças. Dersou prefere atirar no fio para aproveitar a garrafa: - onde é que se encontra uma na taiga? E o exercício de pontaria consolida duma vez por todas a superioridade do guia. Até aí a selva parece um enigma que só ele entende. As suas deduções causam espanto: - como é que sabes que a casa deve estar próxima? – o homem tirou a casca da árvore para fazer o telhado. – Como sabes que é um velho? – porque apagou as pegadas. E os velhos marcam os calcanhares. Os jovens andam na ponta dos pés.
Agora revela-se exímio numa especialidade militar. Esta espécie de Sherlock Holmes siberiano é ainda ingénuo e bom. Conserta a casa abandonada e pede ao capitão para ali se deixar com a lenha que ele pôs a seco, arroz, fósforos e sal. Para quem precisar disso, embrenhado na montanha.
Vemos um velho chinês abúlico sentado à porta da cabana. O capitão, à noite, quer convidá-lo para junto do fogo. O guia responde: - não o perturbemos. Esta noite ele pensou muito na sua casa e no seu jardim. E, com efeito, no dia seguinte o chinês exilado naquele ermo desde que o irmão lhe roubou a noiva, regressa ao seu país.
Compreendemos que a bondade faz parte das evidências de Dersou Ouzala, como o sol e a lua, o vento e a água. É a velhice que é má, que o torna presa da imaginação, a ponto de ter medo do amba. Ao disparar sobre o tigre, é o fim que se avizinha. A selva deixa de ser amiga e coloquiante. Torna-se rabugento, perde a visão. Implora ao capitão que o leve para a cidade. Mas a casa é incompreensível para Dersou. Passa o tempo a olhar a lareira.Chegado aqui, vejo que tentei desenrolar a história dum filme que não se pode contar. Que dizer da cena no lago gelado, com o sol fugindo e Dersou gritando ao companheiro exausto para trabalhar depressa? Quando este acorda, salvo do sono mortal, dentro daquele igloo improvisado, compreende que o seu tripé de topógrafo serviu ao maravilhoso “gold” para lhe arranjar um tecto.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
MARECHALAS E MARECHAIS
"Retratos septuagenários do século de Luís XV, estas mulheres são quase sempre acariciantes, como se amassem ainda, menos piedosas do que devotas, e menos devotas do que parecem; exalando sempre o pó à marechala, contando bem, conversando melhor, e rindo mais de uma recordação do que de um gracejo. A actualidade desagrada-lhes."
"La femme de trente ans" (Balzac)
O retrato é o da condessa Listomère-Landon. Se nos conseguirmos desprender do fascínio das páginas tão celebradas de "La Comédie Humaine" (distanciação, chamava-lhe Brecht), veremos que o século de Luís XV, ou o século do próprio Balzac nos são congeniais. A psicologia parece não ter avançado grande coisa em relação aos traços balzaquianos. É verdade que não era um homem de ciência, mas os seus retratos vão mais longe do que os tratados que conhecemos.
Alguém que tenha deixado a juventude e o protagonismo social para trás, só pode viver a actualidade como um corpo enterrado na areia e só com a cabeça de fora.
Todas as nossas ideias nascem da nossa forma, primeiro quando ela é maravilhosamente plástica, como na infância e na adolescência. Depois, sempre que a sua 'armadura' é colhida de surpresa e abre as portas ao Cavalo de Tróia da experiência.
É esse tempo de invenção e de força criadora que nos agrada recordar. O único que tem verdadeira graça aos nossos olhos quando o corpo se retira. As mulheres do século de Luís XV somos todos nós, mesmo sem cosmética marechaliana.
O que não compreendemos ainda bem, talvez, é como tantos 'marechais' e 'marechalas' parecem tirar tão bom partido do seu desagrado com a actualidade, o qual é, naturalmente, ambíguo...














