terça-feira, 10 de março de 2015

O LOBO MAU

http://achampionsound.com



"O desejo não é mau senão na medida em que já não é estritamente corporal."

(Paul Ricoeur) 

Outra maneira de dizer que só o homem pode ser mau. Não podemos, contudo, negar que a nossa cultura associa a maldade a certos animais, cuja violência e aspecto terrível muitas vezes correspondem tão-só a tácticas de ataque ou de defesa instintivas. O lobo, entre nós, tem até o privilégio de ter a maldade associada ao nome (o lobo mau das histórias infantis).

O pensamento modifica o instinto para lá da sua 'necessidade', mas sem a forma natural, a 'maldade' exercer-se-ia no vácuo. Confrontando esta ideia com a tese socrática de que nenhum homem é verdadeiramente mau, compreende-se que a 'natureza' (de que o indivíduo não é responsável) forneça o primeiro impulso que pode ser mais ou menos forte e determinante se a 'filosofia' não o corrigir. 

Que os mais violentos usem conscientemente os seus impulsos com a mesma finalidade da táctica animal é uma experiência comum. Essa consciência na maior parte dos casos é mais técnica do que moral, ajudando a obter o efeito pretendido.

A verdade é que não sabemos onde acaba a influência do corpo no nosso desejo.

segunda-feira, 9 de março de 2015

(José Ames)

O SANTO GRAAL






"A ciência pensa como uma assembleia, como um tribunal ou uma igreja, e funciona como eles, de maneira que, na realidade, a história das ciências evolui, no pormenor como nas leis de conjunto, como uma repetição da história das religiões ou do direito."

(Michel Serres) 

A principal consequência desta situação é que a ciência não teria uma relação privilegiada com a verdade. A eficácia da sua 'visão do mundo' e das suas aplicações não é mais prova da verdade do que o são os dispositivos normativos das 'humanidades'. 

A própria cultura, nesse sentido, é 'verdadeira', por ser uma representação autêntica de uma comunidade.  O que pode a 'descoberta científica' acrescentar a uma cultura genuína é um novo meio de se reproduzir. As interacções sociais são os grandes produtores de 'problemas', a alguns dos quais só a ciência pode responder. O crescimento demográfico (ou o seu contrário), por exemplo, é um caso típico. A ciência pode estar aqui, em parte, na origem do problema (a melhoria das condições sanitárias, novos medicamentos, etc.) e, naturalmente, cabe-lhe ser parte da solução.

A aparente inutilidade de certas pesquisas científicas ou de certa especulação teórica não pode ser senão uma aparência, porque no fundo os verdadeiros  avanços e a as respostas mais procuradas acontecem muitas vezes 'lateralmente' a esses esforços, como se 'através das linhas tortas' uma espécie de providência estivesse sempre actuante.

A inevitabilidade, cada vez  mais notória, com que a ciência se transforma em poder devia-nos impedir de a confundir com a busca da verdade, ou de qualquer Santo Graal.


sexta-feira, 6 de março de 2015


A LETRA DA LEI


Moisés e as Tábuas da Lei (Rembrandt)



No oitavo episódio de "O Decálogo", o alfaiate de Praga que se recusa a falar do passado, mesmo com alguém que esteve disposto a ajudar durante a guerra, envelheceu pior do que a professora que nunca deixou de pensar na sorte da criança judia que, no último momento, se recusou a esconder, invocando a proibição de levantar falsos testemunhos.

A americana que vem ao encontro deste passado só se sente reconciliada, depois de conhecer a verdadeira razão, por detrás daquele pretexto religioso: a segurança do grupo clandestino de que ela e o marido faziam parte.

Mas a velha professora nem por isso se sente justificada. É por isso que está viva.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

O HOMEM DE DINHEIRO

Do filme de Robert Bresson

 

"De qualquer modo a indignação, mesmo justificada, continua a ser um movimento da alma demasiado suspeito para que um padre a ela se abandone. E sinto também que há sempre qualquer coisa na minha cólera quando me forçam a falar do rico - do verdadeiro rico, do rico em espírito - o único rico, tenha ele no bolso não mais do que um cêntimo - o homem de dinheiro, como eles lhe chamam...Um homem de dinheiro!"

"Le journal d'un curé de campagne" (Georges Bernanos)

 

Por oposição, o pobre 'em espírito' merece o reino dos Céus. A separação entre o mundo de César e o mundo de Deus dá o verdadeiro sentido a ambas as fórmulas. Mas também se diz que é mais fácil a um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que a um rico entrar no reino dos Céus. É a lição do 'bom-senso' que se alia aqui ao materialismo mais rudimentar, que a 'riqueza' não é um simples estado de espírito...

O homem mais rico do mundo, Bill Gates, não seria um verdadeiro rico dado o seu interesse pela causa himanitária. É como se se servisse da sua posição no mundo de César para se comportar como um 'pobre em espírito' . Tem tudo o que o dinheiro lhe pode dar, mas isso não parece suficiente. Como devemos julgar, então, um 'verdadeiro rico' que, depois da sua morte, fizesse uma carreira de humanitário, através, por exemplo, de uma fundação?

O padre rural de Bernanos sabe que não lhe compete julgar e suspeita da sua indignação que já pressupõe um juízo. Mas como viver 'descarnado' e não sentir nas palavras e nos modos a arrogância do 'homem de dinheiro'?

 

 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Sem título

Elvas

 

CALÍGULA E A LÓGICA

 

"As coisas que têm de ser tidas por certas perdem a sua força quando surgem na forma de proclamações arbitrárias...Fazer erradamente com que certas matérias sejam legisláveis resulta apenas na limitação, se não na anulação completa, daquilo que se tenta salvaguardar."
(Henry Kissinger)


O desejo da precisão e do rigor tem o seu lugar nas ciências da natureza (enquanto lidarmos com as 'coisas próximas', porque quando especulamos sobre o universo esse desejo não pode ser satisfeito.) A crença é, nesse caso, mais 'humana' e, por isso, mais verdadeira. A fé nos chamados 'mundos paralelos', por exemplo, vale tanto como a fé nos modelos de certos economistas. A diferença é que a física teórica mais 'arrojada' não corre o risco das teorias económicas de ser posta à prova.


Claro que gostei de ver, no maravilhoso "Interstellar' de Cristopher Nolan, a 'materialização' em imagens da teoria dos 'mundos paralelos'. No filme, a questão da realidade desses mundos não se põe, como ninguém questiona a realidade do Cavalo de Tróia. Em toda a arte, basta que as coisas façam sentido.

Legislar sobre aquilo que desconhecemos como funciona, apenas pela vontade de poder, ou de 'esquadria' (porque a estética também nos leva a cometer erros), pode resultar, como diz Kissinger, em prejuízo do essencial.

Devemos ter sempre presente que qualquer sistema totalitário, por muito bárbaro que possa parecer, não deixa de ser uma construção racional. E a lógica também inspirava um célebre tirano que desejou ter todas as cabeças de Roma reduzidas a uma só, para as cortar de um só golpe.

 

 

terça-feira, 3 de março de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O CALIFADO

 

"As mundividências religioso-metafísicas das civilizações antigas são elas próprias já produto do iluminismo, 'demasiado racionais', portanto, para conseguir ainda contrapor o que quer que seja ao radicalizado iluminismo da modernidade."

(Jürgen Habermas)


Projectamos a nossa sombra (ou, neste caso, a luz da nossa lâmpada, já que se trata de iluminismo) sobre as religiões do passado. O 'califado' do Desh é um produto da nossa tecnologia e do nosso mundo fragmentado. Nessa medida, oferece-nos uma incrível imagem de nós próprios que, precisamos de 'denegar', com todas as nossas forças. Até quando esse 'cordão sanitário' poderá recuperar a nossa identidade perdida?


Uma ideia do século VIII? Veja-se a reacção do grupo à eliminação das contas do Twitter. O império que o EI pretende impor sobre o nosso Ocidente mental depende do poder e da velocidade de propagação das imagens. É na nossa imaginação (a começar pela ideia de ressurreição do califado, nova versão do 'creio porque é absurdo'), esse continente que Hitler soube explorar de um modo tão eficaz, que o Desh procura depositar os seus 'implantes', como se de uma técnica como as outras se tratasse.

Parece-nos, na segurança aparente do nosso mundo, que a ideia de ressuscitar o passado (sob a forma 'literal' escolhida pelos ideólogos do EI) nunca atravessaria as nossas mentes 'iluminadas'. Mas temos ainda tão próximo o exemplo de Auschwitz, em que se afundou um dos povos mais cultos da Europa, que é preciso pensar duas vezes.

O 'califado' é moderno porque é 'literal' e inteiramente abstracto. Uma adaptação aos tempos de hoje não teria qualquer credibilidade.

 

 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Sem título

 

Adare (Irlanda)

 

EXÍLIO

 

"Qual é a desgraça do exílio? "Uma desgraça muito grande", segundo Polynice: "Não ter liberdade de palavra (parrhēsía)." E a sua mãe Jocasta acrescenta:"É próprio de um servo não dizer o que pensa."


(Roberto Calasso)

 

Na origem da democracia, na sociedade ateniense, a palavra é a medida da liberdade no espaço público. Acredita-se que a 'verdade' e a boa política não são o monopólio de nenhum 'especialista' (contra o aristocrático Platão). Que o debate de uns com os outros e o do 'dois em um' (o do indivíduo consigo mesmo) são essenciais à causa comum.

Em contraste com isto, no espaço privado, o domínio de um sobre toda a sua 'casa', nela incluídos a família e os servos, é a norma. Nesta esfera, só o senhor tem o direito à palavra. O escravo, como diz Jocasta, deve guardar para si o que pensa, que não chega a ser palavra e se assemelha à contumácia e ao espírito reivindicativo.

Nestas condições se descreve o contrário da política, onde os iguais só têm um modo de chegar a acordo quanto a qualquer decisão que interesse à cidade. O livre debate, que rapidamente conduz às armas da retórica e da eloquência e ao predomínio da lógica forense.

No "Júlio César" shakespeareano já aparecem os 'homens magros' que conspiram e guardam para si o que realmente pensam. Aos sinais da próxima ditadura que Brutus e Cássio vêem em César, sucederá o cesarismo, de facto.

 

 

domingo, 1 de março de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

A RÊS NO MATADOURO

"A room with a view"

"Carlota, não sentes tu, também, que podíamos estar em Londres? Mal consigo acreditar que todas as outras coisas estejam mesmo ali fora. Suponho que é por uma pessoa estar tão cansada."


"A room with a view" (E.M. Forster)



Quem não sentiu ainda que a presença dos compatriotas, no estrangeiro, arruina o nosso quase ridículo desejo de evasão? No romance, a pensão Bartolini, em Florença, frequentada por ingleses, e ainda por cima quando falha a prometida vista para o Arno, parece às duas turistas a materialização da má-vontade da pátria em deixá-las partir, como resposta à frivolidade de viajar, em que ela parece ver uma ingratidão e uma inconsequência.

Mas o encanto 'pernicioso' de Itália far-se-á sentir logo na primeira escapada de Lucy, livre por um momento da vigilância do seu 'chaperon'. A jovem esquece o guia (o Baedeker) que antes lhe parecera indispensável, para, nas palavras de Forster, 'começar a ser feliz'.

Na continuação da história, perceberemos o sentido daquele 'pernicioso', porque, regressada ao seu país, a verdadeira Inglaterra, não a dos ingleses da pensão Bertolini, Lucy procederá conforme se espera dela, segundo todas as convenções, e o episódio florentino não será mais do que um 'erro', erro talvez demasiado amado para o espírito da sua casta, mas perfeitamente 'estanque' nesse parêntesis do passado.

Esta Itália é certamente um 'cliché' na educação inglesa do tempo. Representa o pequeno extravio, o assomo de liberdade e de loucura que afirmará a posterior adesão à regra. E o sentido é que o desvio fortalece a regra futura. Mesmo quando se reconhece o bem-fundado das obrigações, ninguém gosta de entrar nelas como a rês no matadouro.