sábado, 7 de fevereiro de 2015

FILATELISMO

Um Dobermann



Esta história faz parte do "Decálogo" (1989), de Krzysztof Kieslowski.

Jerzy e Artur encontram-se, depois de alguns anos, na morte do pai, de quem ignoravam ambos quase tudo. A começar pela sua colecção de selos, avaliada em 250 milhões de zlotys. Em vez de a venderem, os herdeiros barram o apartamento e protegem-no com um Dobermann.


Para obterem o selo côr-de-rosa que faltava numa série, aceitam trocá-lo por um rim de Jerzy. Mas quando este sai do hospital, sabe pelo irmão que o apartamento fora assaltado.

O filme acaba com os dois irmãos começando uma nova colecção. Se a ganância é condenada neste 10º mandamento e na história punida com a perda do rim e da herança, uma outra moralidade há que se pode extrair também e que não é menos eloquente.

Artur tem uma banda de "heavy metal" e o filme começa com uma torrente de frases acéfalas gritadas ao microfone. Pouco sabemos da vida do irmão mais velho, mas não há duvida de que o início da nova colecção é uma espécie de homenagem ao pai e talvez o começo da sabedoria para ambos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sem título

Alcochete

 

O POVO DE TOLSTOI

 

A condessa Tolstoi não compreendia a paixão do marido pelo povo. Ajudava-o na sua obra literária e recopiou sete vezes a "Guerra e Paz". Mas, tendo sido educada pela gente da nobreza, o povo russo não podia ser objecto de admiração e muito menos de culto. Causava-lhe até uma certa repugnância essa predilecção do marido. Suportava-a como suportava as suas arremetidas sexuais.

Não é nos seus mais célebres romances que esse culto é manifesto. A princesa Maria acolhe nas traseiras do palácio, às escondidas do pai, Nikolai Bolkonski, os peregrinos que cruzam o território, como gente do povo portadora de uma espécie de santidade, mas esse episódio não constitui mais do que um exemplo da piedade russa.

É na última fase da sua vida, que Tolstoi descobre o 'seu povo' e se torna doutrinário, chegando a ter uma grande influência internacional. Esse povo não é a totalidade dos habitantes da Rússia, nem o nosso 'povinho' (ou, às vezes, 'povão'), é a chamada 'alma russa', o depósito sagrado de uma espiritualidade 'sui generis' com vocação universal. Já o 'proletariado' marxista tem algo desse carácter sagrado.

E o povo da democracia, se não partilhasse desta genealogia, seria aparentado às 'massas', com o seu carácter ameaçador (Elias Canetti), ou à simples estatística.


 

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

OS QUADRADINHOS

Margareth Thatcher

 


Margareth Thatchter dizia que não era um político de compromissos, mas um político de convicções.

A ideia é forte e está de acordo com a fama de 'dureza' doutrinária. Mas nenhum piloto (para empregar o exemplo platónico) pode deixar de manobrar o leme num mar movediço. O compromisso é melhor garante da paz. Mesmo quando se é forçado como o ministro das finanças grego a ceder alguma coisa, um meio consentimento é sempre preferível à hostilização geral.

Thomas More era um homem de princípios ("a man for all seasons") e foi punido por Henrique VIII por não se vergar à vontade do soberano. O seu leme não se podia virar ao contrário. Sabemos pela série "Wolf Hall" que um Cromwell, de bom carácter, que não Oliver, o chefe dos "cabeças redondas", teve nele um dos seus mais consequentes inimigos. Há sempre uma contaminação dos princípios pelas convicções.

Mas um espírito 'convicto' é indispensável ao debate de ideias. Se todos fossem para esse debate na posição de irem aprender o que pensar, a que o observador 'isento' se julga obrigado, a política seria mais razoável do que os homens, o que está longe de ser o caso. Não, a política não é, nem pode ser razoável, e não é só por causa das paixões. Porque a rede com que quadriculamos o mundo tem uma geometria diferente dos acontecimentos.

Os princípios que inspiram o nosso procedimento devem sobrevoar essa rede sem se deixarem prender nos quadradinhos.

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sem título

 

Génova

 

A PELE DA SERPENTE

(Gustave Doré)


João Bénard da Costa, citando Agustina, dizia que na Eternidade se podia fazer tudo, menos o trivial.

Quando penso no último livro da trilogia de Dante, o "Paraíso", só posso concordar. Apenas tenho de acresentar que também não consigo imaginar que os planetas à volta do Sol façam algo de extraordinário. A concepção processional do Bem platónico que resulta da ideia de 'contemplação' não pode albergar surpresas, nem mudanças de ritmo. Nada de trivial, de facto, ali terá entrada. Mas o contrário disso, tampouco. A geometria está feita, ou 'revelada', e o espírito só tem de fazer uma translação sossegada, sem a sombra de um problema.

Para nós, modernos, esse estado paradisíaco não é em nada diferente da morte, depois de ultrapassada a crise que ela representa socialmente.

Bem alertava Alain para este carácter da poesia e das lendas populares que é verdadeiro para além da forma.

O carrossel celestial que tem no centro o espelho ofuscante do que somos, para além do 'registo civil', das idades e do nascimento e da morte parece inerte como a matéria nos parece à primeira vista.

Depois do Inferno e do Purgatório, os grandes pórticos desta peregrinação, a última parte é a da perfeita desmaterialização. Como quer a tradição da filosofia antiga, o corpo-prisão, depois de torturado e espremido é abandonado como a pele da serpente.


 

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

A SUFICIÊNCIA DA "ÉTICA PROTESTANTE"

 

Todos obedecemos a reflexos numa situação ambígua.

Já li opiniões contra e a favor do Syriza. Todas fundamentadas. Acusam-no de falta de princípios (a sua aliança com os 'Gregos Independentes'), de aventureirismo, ao jogar o futuro do país numa 'partida de poker'. E há os que incensam o partido de Tsipras por pensar 'fora da caixa' e, embora correndo alguns riscos, por 'cortar o nó górdio' numa situação aparentemente sem saída (os que dizem que a Grécia fez progressos com o programa da 'troika' também arriscam muito, mas só em palavras).

Ninguém podia esperar uma nova atitude, em relação ao problema europeu, por parte dos políticos comprometidos com o programa austeritário em curso.

Como diz Pacheco Pereira: "De há uns anos para cá, ou melhor desde que a Alemanha abriu a crise das dívidas soberanas, que é uma "construção" política artificial, escolhida, desejada e desencadeada, lançada às feras dos mercados, de natureza muito diferente da crise bancária suscitada pelos activos tóxicos e pela derrocada do Lehman Brothers, que a mudança parecia impossível." ('Público' de 31/1)

O melhor amigo desta austeridade germânica de vistas curtas, para além do trauma, sempre presente no povo alemão, causado pela hiper-inflação dos anos 20/30 do século vinte, é o bom-senso. Esse bom-senso encontra aliados nas próprias vítimas deste imperialismo neurótico que inspira a chancelarina. A culpa colectiva e individual é um mecanismo que se auto-alimenta, que está presente também sob a forma paradoxal da estupidez negacionista e irresponsável. Podemos estar certos de que esta crise, que já se diz ser a segunda maior do capitalismo, é também uma onda atrasada da segunda grande guerra e da força bárbara (que não fala grego).

O bom-senso, a coisa melhor distribuída entre os humanos (Descartes), diz-nos que devemos expiar os nossos erros e pagar as nossas dívidas. O requisitório contra a Grécia das últimas décadas é aqui esmagador.

Mas acontece que o capitalismo (tampouco quanto o Estado de Lenine) não parece funcionar de acordo com esta 'moralidade' taliónica. De resto, já os antigos donos de escravos sabiam que um escravo morto era sempre um prejuízo económico e que, se houvesse ao tempo um serviço de saúde como os que hoje podemos ter, seria do seu próprio interesse tratar os escravos doentes e mantê-los em boa saúde.

Serão os 'fundos abutres' e os 'donos do casino financeiro, que dispõe tão soberanamente das nossas 'condições de existência', mais estúpidos do que os donos de escravos do tempo antigo ou do que os senhores das plantações do sul dos EUA de antes da guerra civil?

Infelizmente essa estupidez é bem real, porque a matéria com que lidam é cada vez mais abstracta e sem parentesco com a experiência do homem comum.

Porque os problemas de hoje nos pedem respostas contra-intuitivas e aparentemente contra o bom-senso é que o caso do Syriza não se 'arruma' facilmente. Para já, libertou a esperança e recusa a escravatura e a suficiência da 'ética protestante'.

 

 

 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Alcochete

RECALCAMENTO

Sigimund Freud

Quando uma pessoa que conhecemos diz que se esqueceu de alguma coisa de muito importante para ela, quando encontra a única pessoa que lhe pode resolver o assunto, hoje não dizemos que ela nos está a esconder algo ou a mentir.

Compreendemos, graças a uma ideia freudiana que passou a ser uma das nossas ferramentas de interpretação habituais, que se pode ser sincero não só contra os próprios interesses, mas contra a própria memória.

Essa ideia é a ideia de recalcamento.
E foi uma grande machadada na integridade do Sujeito cartesiano.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

(José Ames)

OS ÚLTIMOS CARTUCHOS




Em "Viver" (1952-Akira Kurosawa), o Sr. Watanabe, funcionário do município, aborreceu-se mortalmente durante trinta anos, atrás duma secretária. Sacrificando-se pelo filho, não se voltou a casar depois da morte da sua mulher.

Tinha ficado mais seco do que a nêspera do Mário Henrique Leiria, e no escritório era conhecido pela "Múmia".

Quando descobriu que tinha um cancro no estômago e apenas seis meses para viver , achou que toda essa vida passada a pôr carimbos na repartição fora um enorme e irremediável desperdício.

E durante uns quantos dias (e noites) entregou-se a uma orgia de prazeres, em que ele era quem menos se divertia.

Inspirado por uma antiga subordinada, resolveu então atacar a sério um dos problemas da comunidade, razão de ser oficial do seu departamento de apoio ao cidadão.

E foi ver uma burocracia que existia só para si própria, correr atarantada atrás do seu chefe, que contra toda a "boa prática" importunava, como a viúva do Evangelho, todos esses pequenos poderes de bloqueio.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sem título

 

Matosinhos

 

A MENTIRA CERTIFICADA

http://www.history.ac.uk/makinghistory/journals/images/gallery/PastandPresent.jpg

" Dominada pelos modelos marxistas e dos 'Annales', durante muito tempo a historiografia portuguesa remeteu a biografia - e a história política - para um pequeno nicho."

("Salazar", Filipe Ribeiro de Meneses)

Quando é a Razão que 'escreve' a história, o individual e o particular não explicam nada. Por muito que se preze a 'acção' do herói, ele não faz mais do que está escrito. Foi contra essa ideia de fatalismo (a coberto da vontade de inverter a 'situação de facto') que, no filme de Lean, Lawrence 'prova' que 'nada está escrito. Na verdade, tratava-se de uma demonstração temporária, até o mesmo homem que o inglês salvara de morrer no deserto cair, finalmente, sob o cutelo da letra...

Mas o prazer de penetrar a ambiguidade do acontecimento histórico através de uma 'chave' (neste caso, idealista, porque é isso, no fundo, o materialismo dialéctico que Hegel teria apresentado 'de cabeça para baixo') acaba rapidamente na repetição 'ad infinitum' e na irrelevância histórica da pura abstracção.

Regressámos, pois, à história 'ideológica', em última análise, a do poder e a dos vencedores, também a dos vivos, em relação a todas as vítimas. Com isto, nada ficou mais claro (não há ciência histórica), mas deixou-se de propagar uma mentira 'certificada'.