domingo, 11 de janeiro de 2015

Sem título

(José Ames)

 

A DISCIPLINA PARTIDÁRIA

 


"No espaço de poucas semanas, a Assembleia Nacional tinha claramente frustrado Salazar pelo número de propostas de lei e avisos prévios introduzidos pelos deputados. Salazar encontrou-se com estes a 19 de Fevereiro para os admoestar e tornou pública a sua crítica através de uma entrevista a 'O Século'. Parte do problema, admitiu, era a falta de disciplina partidária entre os noventa deputados que agiam como indivíduos destituídos de um propósito comum."

"Salazar" (Filipe Ribeiro de Meneses)


Qualquer dos grandes partidos, hoje, acharia legítima, se fizesse abstracção da personagem, esta preocupação de Salazar. Daí que aqueles que defendem, num partido 'disciplinado', a redução do número de deputados por, realmente, não terem voz activa, tiram, razoavelmente, as consequências de tal modelo de organização parlamentar.

O chamado centralismo democrático do partido leninista, em comparação, não nos parece mais 'anti-democrático' (se não se tratar de uma ditadura de partido único). O que diferencia estes modelos é o grau de organização. Um oferece a imagem de uma participação, de alto a baixo, dos militantes que é, no fundo, a simples consagração das decisões da 'cúpula'. O partido 'disciplinado' da nossa democracia tem outro cerimonial, menos 'arquitectónico', mas não menos eficaz. A possibilidade da democracia está, evidentemente, no debate livre entre os partidos, uns mais 'organizados' do que outros, embora.

O que parece resultar desta apreciação é que a actual organização dos partidos não é especialmente democrática e o tipo de disciplina parlamentar que os caracteriza poderia adaptar-se à falta de liberdade política.

Resta saber se a própria ideia de partido (no sentido moderno), tendo em conta a sua origem e a sua história, consente que este tipo de organização contribua para o aprofundamento da democracia...


 

 

 

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sem título

 

(Cracóvia)

 

O SÓSIA

" No seu 'O Despertar dos Mágicos', Louis Pauwels e Jacques Bergier atribuem a esta profunda crença nas origens glaciais do cosmos a confiança, alimentada por Hitler, de que as suas tropas haveriam de se sair muito bem no gelo do território russo."

(Umberto Eco)

O 'carisma' (às vezes também se diz: o 'magnetismo') do líder nazi era alimentado por crenças como esta, porque um céptico ou, digamos mesmo, um indivíduo inteiramente racional não seduz, nem enfeitiça o espírito dos outros. Ora, essa crença pessoal pode ser até desconhecida dos que o apoiam com mais ou menos entusiasmo. Eles acreditam na força que o líder transmite, e ele pode recebê-la das crenças ou teorias mais inverosímeis a que a sua mente se agarra como uma trepadeira.

A partir daí, o 'íman' pode abraçar uma causa menos esotérica ou menos absurda que seja partilhada pelo grande número, potenciando a energia de um móbil primitivo e mais secreto. Seria, no caso de Hitler, o ódio aos judeus um móbil suficiente para explicar o seu 'carisma'?

O final de 'O Grande Ditador' (Chaplin, 1940) pode ser, assim, interpretado de outra maneira. O discurso do barbeiro-sósia parece uma fuga da realidade que corta o filme em duas partes. Esta cena é, aliás, um dos poucos fiascos do realizador que parece ter-se momentaneamente esquecido do cinema e da sua obra para nos atirar à cara um panfleto de política... sentimental (não é Eisenstein quem quer). Mas, voltando à 'fuga da realidade': e se o judeu do gueto não fosse apenas o sósia de Hynkel - o nome que Chaplin deu a Hitler nesta comédia-, mas o próprio ditador, livre do seu 'carisma', das suas crenças mais nefandas, desarmado, enfim.

Demasiado ingénuo?

 

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

O REBANHO

 

"indivíduos que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república".

(Afonso Costa, 12/6/1913)

O voluntarismo como método revolucionário está todo nestas palavras do líder republicano. Com toda a boa fé se subscreve a doutrina que Salazar havia de praticar uns anos depois, a qual justifica o rebanho e o pastor. Mas não nos esqueçamos que é esta 'doutrina' que, igualmente, está por detrás do conceito de vanguarda da classe operária assumido pelo partido leninista. Aqui, é o atraso do próprio capitalismo na Rússia do princípio do século XX que, em certa medida, fundamenta o atraso da consciência das massas, atraso que devIa ser suprido pelo dínamo vanguardista.

Afonso Costa não se confrontou com uma situação revolucionária tão clara, nem tinha o propósito de levar às últimas consequências (as definidas pela 'história da luta de classes em França') o seu jacobinismo.

Ao argumentar que o povo português não estava 'preparado para a democracia' e que, portanto ele, o homem providencial, continuava necessário, Salazar na prática retomava o preconceito do partido republicano de que o voto de cidadãos só de nome, sem 'ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma' não tinha qualquer valor.

Em grande parte, por causa do alheamento popular, a nossa história nos últimos cem anos foi uma luta entre vanguardas e retaguardas. A história de uma elite desavinda que o grande 'rebanho' suportava como sempre suportou as inclemências do clima.

 

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Sem título

 

(Porto)

 

O TEMPO DOS PROCESSOS

Albert Camus

 

"Revolta: o fim da revolta sem Deus, é a filantropia. O fim da filantropia são os processos."

"Cahiers" (Albert Camus)

A revolta contra Deus é a história do Anjo Caído. Mas essa revolta é uma demonstração da superioridade do princípio contrário. Serve a exaltação do bem, como o simples nada seria incapaz de servir. Para que 'tudo se cumpra', Judas é necessário. O 'beijo da traição' podia ser o sinal da obediência completa, para além do bem e do mal.

A outra revolta é contra o homem, por amor dos homens. A 'espada' que em Cristo defende o sagrado dos 'vendilhões do templo' e de outros mixordeiros, aqui separa o reino abstracto das ideias do reino dos interesses. César não beneficia de nenhuma cláusula especial. Pelo contrário. E, não é preciso dizê-lo, esses interesses incluem a chamada 'super-estrutura' que inclui a 'lavandaria' do poder inimigo (como no dinheiro sujo).

Quando esta revolta se apropria, por sua vez, do poder, tem de defender a sua consistência ideológica da contaminação do passado e das revivescências da antiga ordem. Não o pode fazer simbolicamente, com um platonismo de ocasião, inspirando-se numa dualidade acima da política, mas 'legalmente', com os instrumentos do novo poder.

É a fase dos processos de que fala Camus. O poder 'arbitrário' é de facto apenas lógico. O seu rosto já não tem nada de filantrópico. Por isso se esconde por detrás da 'majestade' da lei tornada farsa.


 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Sem título

(José Ames)

 

MENS SANA IN CORPORE SANO

 

"- Não morra Vossa Mercê, meu Senhor, e siga o meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que pode fazer um homem nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem menos, sem ninguém o matar, nem outras mãos que o acabem a não ser as da melancolia."

(Sancho a Dom Quixote)


A definição moderna de melancolia é a de uma" afeção mental caracterizada por uma depressão, mais ou menos acentuada, um sentimento de incapacidade, um desgosto da existência, e, às vezes, por ideias delirantes de autoacusação, de indignidade, etc." (Dicionário da Porto Editora).

Os Gregos consideravam-na um dos quatro humores que regulam a saúde do nosso corpo e dão origem aos quatro temperamentos da medicina. A palavra quer dizer bilís negra que se acreditava ser gerada no baço. A saúde dependia da harmonia entre esses quatro humores. Enfim, uma teoria genuinamente materialista inspirada na ciência física emergente. Não se imaginam aqui poderes ocultos nem segredos insondáveis, manobrados por qualquer demónio. Como dizia Alain, se os Gregos estavam errados essa era a boa maneira de errar. A mais fecunda, graças ao método utilizado.

O escudeiro do 'Cavaleiro da Triste Figura', sendo ingénuo e pragmático, desconfiava que a melancolia tivesse artes do diabo para levar um homem a atentar contra a própria vida, e a sua exortação tem tudo de um esconjuro e de uma chamada à razão.

Dürer representou a 'Melancolia' numa célebre gravura que poderá ter inspirado Cervantes. Afinal, eram ainda tempos de Anjos e Demónios. A mulher que vemos naquela imagem, rodeada de instrumentos, está desalentada e num estado em que o 'demónio' que lhe faz companhia pode tripudiar à vontade.

A 'Depressão', hoje, pode ser combatida com a química e parece dispensar uma exortação à maneira de Sancho. Mas o 'materialismo' tem limites óbvios. O 'corpo são' independente não existe.

 

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Sem título

 

Porto

 

O DENTE ACAVALADO

Ghost Orchid

"Além disso - disse o professor -, não é sinal de distinção ser-se belo. Dentro de algum tempo, nada quer dizer ter-se um nariz grego e peitos que parecem modelados em malgas de marmelada. Tudo se pode refazer conforme os gostos. Mas vês aquele dente acavalado que morde a boca como um larva a sair da maçã? Aquilo sim, é que é engraçado e, como tu dirias, excitante."

"Ordens Menores" (Agustina Bessa-Luís)

 

O eugenismo é uma ideia infantil. Mas ideia terrível quando se alia ao poder absoluto. Por que razão não havemos de endireitar o que nos parece torto, se podemos? Mas aí é que 'a porca torce o rabo'. Podemos, na nossa esfera privada, se os outros nos deixarem, começando por aqueles de quem dependemos afectivamente. Ora, o poder absoluto cria o vazio à sua volta e nada parece resistir-lhe. Até que, depois da paranóia, o mundo se imponha. Mas podemos morrer crianças, apesar de todos os desmentidos da realidade.

Pelo caminho que as coisas levam, a profecia de Agustina, pela boca de Nathan, o sábio, tenderá, cada vez mais, a cumprir-se. Os modelos de juventude, ou de maturidade, serão seguidos, deixando para trás toda a 'autenticidade' (não digo naturalidade, porque há muito fomos expulsos do paraíso).

A pornografia é um exemplo desta perda de autenticidade. Toda a beleza que entra nesse artifício se converte a um denominador comum que é o gosto, 'alimentar', pretencioso duma estufa de orquídeas (como em "The big sleep", a obra-prima de Hawks).

 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

(José Ames)

A CAMISA DE NESSUS




Hannah Arendt costumava responder aos que se preocupavam com o seu excesso tabagístico e o seu ritmo de trabalho, que não ia começar a viver para a sua saúde.

É a recusa do "cadáver adiado que procria" do poema de Pessoa. A ideia de um plano ou de uma cadeia de montagem de que fazemos parte inconscientemente e que tem 'objectivos a cumprir', quer queiramos, quer não.

Mas, levando mais longe essa recusa, por que deveríamos viver para qualquer outra coisa? Arendt viveria para a filosofia e talvez achasse que para tirar maior partido  da sua inteligência precisava dum estimulante como o tabaco e de viver em permanente 'stress'. Pode ser. Mas nunca vamos directamente para o que nos destrói. Pelo caminho há o declive e a perfusão.  Ela que crismou a  'banalidade do mal', sabia que o hábito se nos cola à pele. É arriscado falar em escolhas.

Viver para a saúde é decerto diferente de viver com saúde. Mas Héracles, depois de vestir a camisa de Nessus, viu a sua carne incendiar-se e já não pôde arrancar a veste do corpo. Nessa altura, o herói resignou-se a morrer. Foi o seu último trabalho, o de desfazer-se do 'hábito'.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014