quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A DAMA ENFERRUJADA

 

"Achava que se os apóstolos tivessem saído à rua a pedir consenso a gente nem teria sabido que houvera uma coisa chamada cristianismo."
(José Cutileiro sobre Margareth Thatcher)


Rupturas, há-as boas, que correspondem a uma nova forma de ver o mundo e que anunciam um novo consenso, e há-as más que levam a becos sem saída ou a catástrofes sociais e que nunca chegam a ser, realmente, consensuais.

A economia de casino saiu da fé de políticos como Reagan e Thachter em economistas como Friedman e filósofos como Hayek (o livro deste último, "The Constituition of Liberty", segundo o filme de Phyllida Lloyd, foi brandido aos seus ministros pela 'Dama de Ferro' como a bíblia do seu governo) que é de uma craveira incomparável com a do seu discípulo, Milton Friedman. A sua teoria da ordem espontânea está longe de ter sido refutada pela vaga de desregulação do capitalismo que nos levou à crise actual.

A teoria do filósofo austríaco declara que tal espécie de ordem resulta da acção humana, mas não do desígnio humano, o que significa que tanto os nossos erros, as nossas ilusões, ou os nossos hábitos e instintos como as opiniões 'certas', ou as doutrinas mais 'realistas' são artífices dessa ordem sem sujeito.

Os seus aplicados seguidores na política, fizeram de uma ideia complexa (tal como outros tinham feito com a tresleitura de Darwin) uma tosca alavanca para o pseudo-enriquecimento geral e para a blindagem do capitalismo contra qualquer 'desígnio', mesmo espontâneo, da política e do Estado.

Thatchter, sabe-se hoje, estava rotundamente enganada. A sua 'ruptura' em vez de imitar o cristianismo e de nos fazer a todos prosperar, semeou o desespero e a miséria.

 


 

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

HAJA CORAGEM!

Thomas Friedman

 

"Creio que a história registará que foi o capitalismo chinês que pôs fim ao socialismo europeu."

(Thomas Friedman)

Esta crença parecerá absurda à ortodoxia. Esta nunca reconhecerá que a Europa tivesse alguma vez sido 'socialista'. Pelo contrário, os novos costumes da China, que bastava mudarem de coordenadas geográficas para merecerem o epíteto de 'capitalistas', serão sempre 'socialistas'.

O nominalismo filosófico tem aqui um exemplo perfeitamente actualizado. A ideia é a única realidade, por isso os factos nunca a podem contradizer: "Mais do que nunca é preciso denunciar aqui, fiéis ao nosso nominalismo integral, o perigo da tentação idealista: o historiador deve ter cuidado em nunca sobrestimar a qualidade lógica das suas hipóteses, não mais (...) do que a dos seus conceitos."

(Marrou, "Connaissance historique", 1954; in Larousse)

Se deixarmos os 'nomes' de lado, devia ser evidente que o nível de vida europeu (um dos critérios deste sendo a protecção social e os direitos humanos) teria de sofrer com a entrada de países como a China na economia global.

Mas há ainda quem fale em coragem ou na falta dela a propósito das consequências daquele facto...

 

 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sem título

(Arouca)

 

ENVELHECEM AS IDEIAS?

Jürgen Habermas

"O 'sim' e o 'não' dos actores que agem de modo comunicacional é tão predeterminado pelos contextos linguísticos e tão influenciado pela retórica que as anomalias que se manifestam nas fases de esgotamento já só se apresentam como sintomas de uma vitalidade evanescente, como processos do envelhecimento, como processos análogos aos naturais e não como consequência de soluções erróneas de problemas e como respostas 'inválidas'."

("O Discurso Filosófico da Modernidade", Jürgen Habermas)

 

Será que a aparente 'fase de esgotamento' do partido comunista é hoje lida como um processo de envelhecimento, análogo ao da natureza? Contra essa leitura impõe-se, parece-me, por causa da história recente e do contexto internacional, a outra explicação dada por Habermas, a das consequências de 'soluções erróneas' e de 'respostas inválidas'.

Isto, todavia, acontece com a mesma premissa de um 'contexto linguístico' e de uma retórica. É que não podemos 'saltar sobre a nossa própria sombra'. Se não dispuséssemos de um 'aparelho' conceptual e discursivo tampouco haveria o 'sim e o não'.

A 'crítica' da caducidade das teorias políticas é francamente insuficiente quando se lida com categorias como a utopia e o ideal.

 

 

domingo, 7 de dezembro de 2014

(José Ames)

FÁBULAS SOBRE A FORÇA


David e Golias (1607-Caravaggio)



A passagem bíblica de David e Golias parece ainda traduzir, para muitos, o que se passa no Médio Oriente.

Não importa que a funda tenha dado lugar ao míssil de médio alcance. Porque não possuem um Estado e não têm tanques nem aviões, os que combatem Israel, no terreno e sangue contra sangue, atraem toda a simpatia dos que sempre escolhem o lado dos mais fracos.

Também os que apoiam ( ou manobram ) os mais fracos são vistos com bons olhos, porque o Golias tem do seu lado a maior potência do planeta.

Não estão nunca em causa os meios de que uns e outros se servem. Só aparentemente são ambos terroristas. Porque dum lado temos uma causa justa (o direito dos mais fracos) e do outro temos a força que não precisa de argumentos.

Dum lado há mártires, e até as crianças mortas são mobilizadas na frente mediática. Do outro há o castigo de Deus pela injustiça do forte.

O que me parece cada vez mais evidente é que este David, longe de estar desarmado ( a funda também é uma arma), tem as armas mais eficazes (para quê, de facto, comparar arsenais e a bomba atómica que uns têm e os outros não, se o que decide pode ser uma funda de política regional e meios bélicos mais adequados a uma guerra que começa por anular a distinção entre o civil e o militar e entre o político e o religioso?).

Por outro lado, o Golias tem, cada vez mais, de contar apenas consigo próprio e, como na história, parece ter músculo a mais e agilidade a menos.
Mas a situação do espectador empático é insuportável.

Porque se persiste na culpa de Páris, o raptor de Helena, os Gregos têm a justiça pelo seu lado e talvez tenham o direito de destruir Tróia. Mas então por que é que os Troianos se defendem e atacam por sua vez, acrescentando mais ainda à sua culpa e espalhando dor e tragédia entre os Aqueus?

Quanto mais racional me parece atribuir as culpas à intriga dos deuses!

sábado, 6 de dezembro de 2014

(Porto)
5

AS REGRAS DO JOGO

Karl Marx (1818/1883)

Quando se procuram os responsáveis por uma situação de injustiça que nem todos os implicados sentem como tal, porque estão demasiado longe do drama ou porque se protegem com efabulações justificadoras, deparamo-nos com uma espécie de necessidade, como a que rege os fenómenos naturais, mas que, por se verificar nas relações humanas, ao mesmo tempo se parece muito com um jogo. Algo que se poderia abandonar a qualquer momento, mas cujas regras não dependem do indivíduo.

A melhor definição deste paradoxo, se não estivesse tão desvirtuada pela sua generalização, é a de sistema.

Tal como Marx o estabeleceu, o capitalismo funciona como um tal sistema, com as suas leis (ou regras do jogo), impondo-se aos vários protagonistas, independentemente da autonomia que cada um pense ser a sua e da importância que se atribua (como na fábula da mosca e da carruagem).

Mas a injustiça dum sistema é mecânica. É uma ofensa que não nos é dirigida pessoalmente. A verdadeira injustiça, a que nos atinge mortalmente tem um rosto.

Os sistemas têm uma particularidade notável. Tornam-se injustos e caducos logo que se descobre que não são necessários.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

(José Ames)

A FELICIDADE DOS MODELOS



adsoftheworld.com/media/print/the economist brain


Tem de haver alguma má-consciencia em todo o economista demasiado seguro do que vem anunciar à televisão.

Os economistas constroem modelos, que podem ser matematicamente irrepreensíveis, e que, apenas por isso, estão condenados ao fracasso.

A realidade que procura sondar o modelo não pode de facto ser antecipada.

O resultado depende, não da exactidão (que não é possível), mas da felicidade da profecia.

Por isso se diz, em defesa da economia, que ela é uma ciência social, com isso se pretendendo manter toda a sua dignidade, apesar da sua visível falência. Mas também, redobrando a parada, dizem outros que ela é uma super-ciência, pela sua crescente multidisciplinaridade.

Eu não vejo por que é que a "ciência que estuda os fenómenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar" (uma das definições do dicionário Houaiss) não deva ser simplesmente considerada uma arte.

Realmente é disso que precisamos para nos governarmos num oceano de incertezas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sem título

 

Atouguia da Baleia

 

A VERDADE

http://wondersinthedark.files.wordpress.com/2012/02/la-verite-12.jpg

 

"A verdade não é uma virtude, mas uma paixão. Daí que ela não seja nunca caridosa."

(Albert Camus)

O que é simbolizado no episódio do 'Génesis' sobre o fruto proibido. É a paixão (a curiosidade, princípio do conhecimento) que move Eva. Não podemos esperar que seja inteiramente racional, ou que a razão não se encontre ao seu serviço.

Hoje é natural pensar-se que a cornucópia de benefícios que decorrem do desenvolvimento da ciência justifica amplamente que nela depositemos as nossas esperanças. Mas a verdade é que nunca poderemos saber o que significou para a humanidade o outro prato da balança. De qualquer modo, continuamos a 'sofrer' o processo científico-tecnológico como uma força independente, quase incontrolável, que vai moldando as nossas sociedades, para o bem e para o mal.

A compaixão não está nas suas leis, nem na sua dinâmica. O homem que procura a 'verdade', ou que julga possuí-la é quase sempre implacável. Em grupo, isso leva a toda a espécie de fanatismo.

Por isso, a virtude só, porque procura o bem, ou a verdade moral, pode ser superior ao que é justo segundo a lei, ou verdadeiro, segundo os factos.

 

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

MATUSALÉM

http://4.bp.blogspot.com

 

"É preciso testemunhar por aquilo que dura contra o que parece durar."

(Georges Bernanos)

Mas que dever é esse de testemunhar? Num processo judicial, testemunho porque quero ajudar a Justiça, ou mais comummente, porque a isso sou obrigado.

Talvez não se possa entender esse desejo de realização da justiça, sem a tradição religiosa e a ideia de salvação. E não apenas a salvação individual, mas a de todos. O individualismo, porém, tornou esta cláusula dispensável. Certos 'místicos' foram tão longe no caminho do monólogo do 'dois em um' e do esquecimento do mundo que seria admissível que os outros nada pudessem beneficiar da sua experiência fora do mundo. Não foi assim porque o testemunho pessoal que deixaram foi interpretado pela Igreja no sentido edificante. Podemos imaginar quanto misticismo escapou a essa hermenêutica, por estar 'desenquadrado'.

A secularização relativizou enormemente aquele 'é preciso'. Invertendo a fórmula pessoana, podíamos dizer: viver é preciso, navegar não é preciso'.

Por que haveríamos de testemunhar do que é mais permanente, se vivemos sem transcendência e apenas valorizamos a vida por mais efémera que ela seja?

Mais importante do que 'testemunhar' é esquecer a impermanência. Por isso a morte é o grande 'desmancha-prazeres'. E as nossas esperanças viram-se agora para coisas como a bionanotecnologia que nos promete viver mais do que Matusalém.