terça-feira, 10 de junho de 2014

O DESTINO NAS PALAVRAS

Ruppert, o involuntário mentor dos assassinos diletantes, em "Corda" de Alfred Hitchcock (1948), não podendo negar as suas palavras, inspiradas na vulgarização do pensamento nietzscheano, sobre o direito dos fortes, que Brandon e o seu patético acólito transpuseram para a realidade, vê-se, primeiro, constrangido a alegar uma distorção do que ele teria querido dizer, mas acaba com o argumento irrespondível - que o desclassifica como mestre: havia qualquer coisa dentro de si que sempre o haveria de impedir de chegar até ao crime, coisa que manifestamente faltava aos seus alunos. Haverá uma lei da degradação pedagógica?

Assim, no final deste brilhante exercício de técnica cinematográfica, Hitchcock, como quem não quer a coisa, abre a discussão sobre a responsabilidade intelectual dos nossos entusiasmos.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Sem título

Lisboa

 

A VERDADE DO TEATRO

"A Inglesa e o Duque" (2001-Eric Rohmer)



A ideia de utilizar a pintura do século XVIII como cenário em que evoluem as personagens, neste magnífico Rohmer, pareceria, antes de ver o filme, uma aposta perdida.

Mas a harmonização conseguida entre as cores do guarda-roupa e o papel pintado dos interiores, o movimento da multidão e a fixidez dos quadros de Jean Baptiste Marot é perfeita.

Mesmo quando o trompe l'oeil é gritante, há como que um suplemento de autenticidade histórica nesta falência do ilusionismo.

E é preciso comparar este filme, por exemplo, com o perfeccionismo dum Visconti, para perceber que a terceira dimensão nos cenários obrigaria a um filme diferente, muito mais próximo do gosto moderno, mas à custa, precisamente, do sentimento de estranheza perante um mundo que já não é o nosso.

domingo, 8 de junho de 2014

(José Ames)

SIMPLIFICAÇÃO


(Pablo Picasso)



"O expressionismo literário foi um último sobressalto da vontade de simplificação - uma revolta dos meios modernos de expressão contra a experiência moderna, contra a complexidade, a relatividade, o perspectivismo. Em contrapartida, tendo em conta a experiência de que as coisas têm um ar diferente sob perspectivas diferentes, a tendência cubista plástica parecia conforme à modernidade."


"Critique de la Raison Cynique" (Peter Sloterdijk)


A tentação para simplificar pode confundir-se com a impaciência, mas ao contrário desta tem a consistência duma doutrina, e as suas consequências parecem ser voluntárias, como resultado de decisões a frio.

Mas a história da ciência é a contínua negação dessa tendência, em direcção à complexidade.

Por outro lado, se não se simplificasse - também se chama a isso, às vezes, de pensamento redutor -, a política parava.

O expressionismo como vontade de simplificação, num período de vertiginosa complexidade, como foi a República de Weimar, nos anos 20, na Alemanha, é uma hipótese que vai contra a ideia do sibilismo da arte e faz dela um reflexo da política.

Por outro lado, é muito interessante, recusando, porém, a ideia de um progresso na arte (ou de um anti-progresso, neste caso), considerar que o aumento da complexidade teve alguma influência no cubismo.

sábado, 7 de junho de 2014

Sem título

Bombarral

 

BARDAMU, O CÍNICO

Ferdinand Céline (1894/1961)


"Ela trabalhava no eterno, a minha bela. É preciso acreditar em Claude Lorrain: os primeiros planos dum quadro são sempre repugnantes e a arte exige que se situe o interesse da obra nos longes, no inalcançável, lá onde se refugia a mentira, esse sonho apanhado em flagrante, e único amor dos homens."

"Voyage au bout de la nuit" (Ferdinand Céline)


Nas páginas desesperadas do seu romance, que nos mostra a fealdade da guerra como nenhum outro, não há lugar para a retórica dos grandes princípios, nem para as ilusões dum humanismo retardado.

Depois de, num abrir e fechar de olhos, ter sido capturado como um insecto pelo brilho duma parada na praça Clichy até às trincheiras lamacentas da Flandres, o trajecto de Bardamu foi o da aprendizagem do cinismo como manual de sobrevivência.

O entusiasmo mata, em tempo de loucura bélica e a credulidade é carne para canhão.

A metáfora de Claude Lorrain vale só para a rectaguarda, em que "a poesia heróica possui sem resistência aqueles que não vão para a guerra e melhor ainda esses a quem a guerra está em vias de enriquecer. É normal."(ibidem)

A mentira que se refugia no longínquo e no inalcançável em nada ajuda o homem acossado pela morte.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

NEUROSE REVELADORA


O célebre sofá de Freud




"É porque a vontade é impotente para operar a salvação que a noção de mundo laico é um absurdo."

(Simone Weil)


Talvez seja essa a marca do mundo sem transcendência que é o nosso: ninguém já pensa na sua salvação (esse é que seria o absurdo), mas em safar-se, em tirar o máximo da única vida que há.

Merecemos, por isso, este mundo laico em que o genésico e a vitalidade são os valores supremos, valores sem tensão e sem altura, porque são próprios do "animal sadio que procria" (Pessoa).

Mas a irracionalidade omnipresente no mesmo mundo e a religião como neurose obsessiva universal, na definição de Freud, estão aí para atestar da nossa impotência e da noção que não podemos deixar de ter duma sociedade "feliz", só porque esta é neurótica.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sem título

Aljustrel

 

AGITPROP

A.W. Schlegel (1767/1845)

 

"Tanto quanto a nossa independência, e até a continuação do nosso nome Alemão, estiverem tão seriamente ameaçadas, a nossa poesia talvez pudesse completamente entregar-se à eloquência."

(A.W. Schlegel, citado por E.Cassirer)

A liberdade fica segura apenas por esse advérbio imponderável, talvez. De que poesia está a falar o patriotismo de Schlegel? Temo que seja a do Quartel-General...

Claro que sempre surgirão poetas de ocasião para responder ao perigo que a todos ameaça. Não deixa de ser poesia 'encomendada'.

Em Dante, por exemplo, a causa do cristianismo está tão intricada nas formas da linguagem e nos sentimentos interpretados pelo poeta que a sua poesia não pode ser instrumentalizada. Só o que sai da forja da propaganda política, tornado irreconhecível, é que pode ser 'uma arma', como se disse da canção empenhada em Portugal.

O exemplo mais paradoxal, e que parece contrariar tudo isto é o caso do cineasta soviético Sergei Eisenstein. Algum do seu cinema parece propaganda que não hipoteca a liberdade artística. Mas há o impacto (que talvez seja eficaz, ou não; é ainda a tese de que a violência na televisão condiciona o comportamento, sobretudo, nos mais jovens) e o que fica depois dele.

Essa arte, que pretende meter-nos as imagens pelos olhos dentro para impedir qualquer distância crítica, é de facto prodigiosa em Eisenstein. Mas considero-a mais uma técnica (mesmo se é admirável) que uma verdadeira arte.

 

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

TABUADA E TOLERÂNCIA

Ramalho Ortigão

 

"(...) sem o cepticismo, progresso, mudança, civilização, tudo seria impossivel. Na física é ele o precursor necessário da ciência; na política o precursor da liberdade; na religião o precursor da tolerância."

Ramalho Ortigão ("As Farpas")

 

A tolerância, segundo Ramalho, seria uma virtude da religião. Como é possível antecipar assim o 'politicamente correcto'? Mas não nos devíamos admirar. O século XIX está sempre a surpreender-nos. Não é o que acontece agora com o livro de Piketty? Não havia ouvidos para ouvir, nem olhos para ver, mas essas ideias vêm da mesma sementeira. Só que o mundo mudou, mais consistentemente do que uma revolução o poderia fazer.

Em que se tornaram aqueles generosos princípios de ciência, liberdade e tolerância cantados pelo nosso 'forcado' (a pose da estátua sugere que o homem espera uma arremetida) do jardim da Cordoaria? A ciência deixou de ser o santuário das novas certezas. A liberdade passou a ser a melhor maneira de sermos vigiados e programados. Quanto à tolerância, parece uma justificação para a indiferença e deixou de ser uma atitude exclusiva da religião. Faz parte daquilo a que Gonçalo M. Tavares chama de 'Tabuada'. Na hora do desespero, já não rezamos, porque temos a tabuada e uma confiança, cada vez pior retribuída, na Técnica.

O título de um dos livros daquele autor sugere que já nos demos conta do que se passa: "Rezar na Era da Técnica".


 

 

 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Sem título

Amboise

 

SACIEDADE

 

"As belezas da arte redobram o efeito das belezas da natureza e previnem a saciedade, que é o grande defeito do prazer de ver paisagens."
Stendhal ("Promenades dans Rome")

Gostava de ficar horas esquecidas diante do mar, que me é mais acessível do que a tantos outros (vivo no Porto). Mas a 'saciedade' de que fala Stendhal chega depressa, se essa contemplação contar só com o sentido estético. A partir de um certo momento, toda a assistência que o espírito pode dar à natureza cessa porque pouco a pouco se confunde com ela.

O romantismo encheu a nossa imaginação de silhuetas recortadas no céu, no seu penedo sobre o mar, naturezas inquietas que sonhavam em partir num navio que os levasse para longe da vida de todos os dias. Mas era mais um solilóquio do que um espectáculo. A natureza põe-nos em sintonia com a corrente dos nossos pensamentos, mas não os nutre, no melhor dos casos, será um regime inspirador, o que, reconheça-se é uma ideia romântica.

Diante de um quadro procuramos um espírito que fale a nossa linguagem. E como poderemos saciar-nos se nunca temos a certeza de o ter alcançado, de ter entrevisto todos os segredos da obra? A arte coloca à nossa frente um objecto humano que não está confinado ao pensamento do seu criador. É esse o mistério que nos interpela, que nos revela a que ponto não nos compreendemos a nós próprios.

A Natureza está demasiado longe para ser um verdadeiro mistério. Só a Física está à nossa medida e nos permite ser insaciáveis...