domingo, 8 de junho de 2014

SIMPLIFICAÇÃO


(Pablo Picasso)



"O expressionismo literário foi um último sobressalto da vontade de simplificação - uma revolta dos meios modernos de expressão contra a experiência moderna, contra a complexidade, a relatividade, o perspectivismo. Em contrapartida, tendo em conta a experiência de que as coisas têm um ar diferente sob perspectivas diferentes, a tendência cubista plástica parecia conforme à modernidade."


"Critique de la Raison Cynique" (Peter Sloterdijk)


A tentação para simplificar pode confundir-se com a impaciência, mas ao contrário desta tem a consistência duma doutrina, e as suas consequências parecem ser voluntárias, como resultado de decisões a frio.

Mas a história da ciência é a contínua negação dessa tendência, em direcção à complexidade.

Por outro lado, se não se simplificasse - também se chama a isso, às vezes, de pensamento redutor -, a política parava.

O expressionismo como vontade de simplificação, num período de vertiginosa complexidade, como foi a República de Weimar, nos anos 20, na Alemanha, é uma hipótese que vai contra a ideia do sibilismo da arte e faz dela um reflexo da política.

Por outro lado, é muito interessante, recusando, porém, a ideia de um progresso na arte (ou de um anti-progresso, neste caso), considerar que o aumento da complexidade teve alguma influência no cubismo.

sábado, 7 de junho de 2014

Sem título

Bombarral

 

BARDAMU, O CÍNICO

Ferdinand Céline (1894/1961)


"Ela trabalhava no eterno, a minha bela. É preciso acreditar em Claude Lorrain: os primeiros planos dum quadro são sempre repugnantes e a arte exige que se situe o interesse da obra nos longes, no inalcançável, lá onde se refugia a mentira, esse sonho apanhado em flagrante, e único amor dos homens."

"Voyage au bout de la nuit" (Ferdinand Céline)


Nas páginas desesperadas do seu romance, que nos mostra a fealdade da guerra como nenhum outro, não há lugar para a retórica dos grandes princípios, nem para as ilusões dum humanismo retardado.

Depois de, num abrir e fechar de olhos, ter sido capturado como um insecto pelo brilho duma parada na praça Clichy até às trincheiras lamacentas da Flandres, o trajecto de Bardamu foi o da aprendizagem do cinismo como manual de sobrevivência.

O entusiasmo mata, em tempo de loucura bélica e a credulidade é carne para canhão.

A metáfora de Claude Lorrain vale só para a rectaguarda, em que "a poesia heróica possui sem resistência aqueles que não vão para a guerra e melhor ainda esses a quem a guerra está em vias de enriquecer. É normal."(ibidem)

A mentira que se refugia no longínquo e no inalcançável em nada ajuda o homem acossado pela morte.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

NEUROSE REVELADORA


O célebre sofá de Freud




"É porque a vontade é impotente para operar a salvação que a noção de mundo laico é um absurdo."

(Simone Weil)


Talvez seja essa a marca do mundo sem transcendência que é o nosso: ninguém já pensa na sua salvação (esse é que seria o absurdo), mas em safar-se, em tirar o máximo da única vida que há.

Merecemos, por isso, este mundo laico em que o genésico e a vitalidade são os valores supremos, valores sem tensão e sem altura, porque são próprios do "animal sadio que procria" (Pessoa).

Mas a irracionalidade omnipresente no mesmo mundo e a religião como neurose obsessiva universal, na definição de Freud, estão aí para atestar da nossa impotência e da noção que não podemos deixar de ter duma sociedade "feliz", só porque esta é neurótica.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sem título

Aljustrel

 

AGITPROP

A.W. Schlegel (1767/1845)

 

"Tanto quanto a nossa independência, e até a continuação do nosso nome Alemão, estiverem tão seriamente ameaçadas, a nossa poesia talvez pudesse completamente entregar-se à eloquência."

(A.W. Schlegel, citado por E.Cassirer)

A liberdade fica segura apenas por esse advérbio imponderável, talvez. De que poesia está a falar o patriotismo de Schlegel? Temo que seja a do Quartel-General...

Claro que sempre surgirão poetas de ocasião para responder ao perigo que a todos ameaça. Não deixa de ser poesia 'encomendada'.

Em Dante, por exemplo, a causa do cristianismo está tão intricada nas formas da linguagem e nos sentimentos interpretados pelo poeta que a sua poesia não pode ser instrumentalizada. Só o que sai da forja da propaganda política, tornado irreconhecível, é que pode ser 'uma arma', como se disse da canção empenhada em Portugal.

O exemplo mais paradoxal, e que parece contrariar tudo isto é o caso do cineasta soviético Sergei Eisenstein. Algum do seu cinema parece propaganda que não hipoteca a liberdade artística. Mas há o impacto (que talvez seja eficaz, ou não; é ainda a tese de que a violência na televisão condiciona o comportamento, sobretudo, nos mais jovens) e o que fica depois dele.

Essa arte, que pretende meter-nos as imagens pelos olhos dentro para impedir qualquer distância crítica, é de facto prodigiosa em Eisenstein. Mas considero-a mais uma técnica (mesmo se é admirável) que uma verdadeira arte.

 

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

TABUADA E TOLERÂNCIA

Ramalho Ortigão

 

"(...) sem o cepticismo, progresso, mudança, civilização, tudo seria impossivel. Na física é ele o precursor necessário da ciência; na política o precursor da liberdade; na religião o precursor da tolerância."

Ramalho Ortigão ("As Farpas")

 

A tolerância, segundo Ramalho, seria uma virtude da religião. Como é possível antecipar assim o 'politicamente correcto'? Mas não nos devíamos admirar. O século XIX está sempre a surpreender-nos. Não é o que acontece agora com o livro de Piketty? Não havia ouvidos para ouvir, nem olhos para ver, mas essas ideias vêm da mesma sementeira. Só que o mundo mudou, mais consistentemente do que uma revolução o poderia fazer.

Em que se tornaram aqueles generosos princípios de ciência, liberdade e tolerância cantados pelo nosso 'forcado' (a pose da estátua sugere que o homem espera uma arremetida) do jardim da Cordoaria? A ciência deixou de ser o santuário das novas certezas. A liberdade passou a ser a melhor maneira de sermos vigiados e programados. Quanto à tolerância, parece uma justificação para a indiferença e deixou de ser uma atitude exclusiva da religião. Faz parte daquilo a que Gonçalo M. Tavares chama de 'Tabuada'. Na hora do desespero, já não rezamos, porque temos a tabuada e uma confiança, cada vez pior retribuída, na Técnica.

O título de um dos livros daquele autor sugere que já nos demos conta do que se passa: "Rezar na Era da Técnica".


 

 

 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Sem título

Amboise

 

SACIEDADE

 

"As belezas da arte redobram o efeito das belezas da natureza e previnem a saciedade, que é o grande defeito do prazer de ver paisagens."
Stendhal ("Promenades dans Rome")

Gostava de ficar horas esquecidas diante do mar, que me é mais acessível do que a tantos outros (vivo no Porto). Mas a 'saciedade' de que fala Stendhal chega depressa, se essa contemplação contar só com o sentido estético. A partir de um certo momento, toda a assistência que o espírito pode dar à natureza cessa porque pouco a pouco se confunde com ela.

O romantismo encheu a nossa imaginação de silhuetas recortadas no céu, no seu penedo sobre o mar, naturezas inquietas que sonhavam em partir num navio que os levasse para longe da vida de todos os dias. Mas era mais um solilóquio do que um espectáculo. A natureza põe-nos em sintonia com a corrente dos nossos pensamentos, mas não os nutre, no melhor dos casos, será um regime inspirador, o que, reconheça-se é uma ideia romântica.

Diante de um quadro procuramos um espírito que fale a nossa linguagem. E como poderemos saciar-nos se nunca temos a certeza de o ter alcançado, de ter entrevisto todos os segredos da obra? A arte coloca à nossa frente um objecto humano que não está confinado ao pensamento do seu criador. É esse o mistério que nos interpela, que nos revela a que ponto não nos compreendemos a nós próprios.

A Natureza está demasiado longe para ser um verdadeiro mistério. Só a Física está à nossa medida e nos permite ser insaciáveis...

 

 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

AS ARTES DO CAFÉ

Igreja de Santo Inácio, em Roma

 

"Exercícios espirituais de Santo Inácio para prevenir a sonolência na oração."


(entrada do 'Carnet III' de Albert Camus)


O café, por exemplo, não faria o mesmo efeito. O corpo, como 'prisão da alma', mesmo sem a presença do 'Maligno' (se não quisermos complicar as coisas), está aqui bem ilustrado.

Platão, o supremo teórico da 'prisão da alma' não teve necessidade da hipótese satânica. São as grandes fomes do corpo e as paixões da alma que, para ele, nos desviam do Bem. Daí, o aforismo socrático de que 'ninguém é mau voluntariamente'. Que o mesmo é dizer que o Mal não existe. Nem como princípio metafísico oposto ao Bem. As especulações sobre o Mal fazem parte da 'paixão', isto é, daquilo que 'sofremos'.

Não é assim que Loyola pode ver as coisas. Ele escreve os seus exercícios para um mundo bipolar. E as armas contam. O exercício espiritual não visa só afastar a sonolência. Inácio quer fazê-lo com as próprias forças (ou artes) do espírito, sem procurar mais uma dependência.

O café, se o santo o conhecesse na sua época, seria uma bebida do Diabo.

 

 

domingo, 1 de junho de 2014

Sem título

 

Bolonha

 

ATITUDES DE VIDA

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"O optimismo é sempre voluntário. O pessimismo, pelo contrário, é a inclinação."
(Alain)

Podem dizer-me que uma boa saúde e uma cornucópia de sorte adiam por muito tempo, ou talvez sempre, o 'plano inclinado'. Mas, para alguns, como Sólon, só no final da vida, se pode dizer de alguém que teve, ou não, uma existência feliz.

Mas a vontade decide, num sentido ou noutro ( porque há-de haver um momento em que nos 'deixamos ir', mesmo no optimismo que, talvez na maioria dos casos, signifique um 'não querer ver'),

O optimismo de Alain é, evidentemente, outra coisa. É uma filosofia e uma higiene. E foi esta última característica que irritou tanto os seus contemporâneos. Embora ele se tenha inspirado nos maiores, como Descartes (do 'Tratado das Paixões') e Spinoza, pareceu a esses críticos que era honrar por de mais o 'homem-máquina'. Uma solução prática para a anxiedade ou para o desespero seria sempre em prejuízo da 'alma'.

Mas se o optimismo é melhor tanto para o corpo como para o espírito, como flosofia de vida, porquê não reservar o pensamento oposto para a estética, em vez de diminuirmos o nosso ser, como diria o filósofo que poderia ter nascido português?