sábado, 17 de maio de 2014

SOM E FÚRIA

"A inglesa e o Duque" (2001-Eric Rohmer)


Exprimirá o rosto de Grace Elliott (Lucy Russell) o sentimento daqueles que não podiam viver o drama da Revolução Francesa, como seus autores e criaturas, nessa torrente de que falava o Duque de Orléans que o conduzia, como se fosse a própria fatalidade?

É de crer que tudo contava nesse transe colectivo e que até a diferença linguística permitia à cidadã inglesa escapar ao efeito "mediático" (da multidão como medium), diríamos hoje, entorpecedor, da Revolução.

Pela primeira vez no cinema, uma voz bela e vibrante, se levanta, sem parecer reaccionária, contra a loucura e o crime que tantas vezes acompanham o nascimento das instituições.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sem título

 

Porto (José Ames)

 

A ILHA FORA DO MAPA




Deleuze diz que o "Robinson Crusoé", de Daniel Defoe, não é apenas uma história, mas, como muitos já observaram, é também o "instrumento duma pesquisa: pesquisa que parte da ilha deserta, e que pretende reconstituir as origens e a ordem rigorosa dos trabalhos e das conquistas que dela decorrem com o tempo. Mas é claro que a pesquisa está duas vezes falseada. Por um lado, a imagem pressupõe aquilo que pretende engendrar (cf. tudo o que Robinson retirou dos destroços). Por outro lado, o mundo reproduzido a partir desta origem é o equivalente do mundo real, quer dizer económico, ou do mundo tal como seria, tal como deveria ser se não houvesse a sexualidade."
"Logique du sens" (Gilles Deleuze)

Na verdade, o exemplo de outros "naufragados", isolados durante muito tempo dos outros homens, faz do herói de Defoe o mito por excelência do "self-made man".

A ausência do fantástico e da sexualidade decerto impedem que o mundo de Robinson seja "real". Porque não existe a rede humana para sustentar as coisas. E o próprio indivíduo tende a deixar de se identificar com a sua espécie e a ser representativo dela, para se perder nos "elementos".

O económico funde-se, pois, no natural.

quinta-feira, 15 de maio de 2014


"Devilish"(José Ames)

CALIGRAFIA SENTIMENTAL

"Viagem a Tóquio" (1953-Yasujirô Ozu)


Com o mais belo dos sorrisos, Noriko, a jovem viúva, admite que a vida é triste porque os filhos têm de seguir o seu caminho.

Conforma-se com a ganância da cunhada que, no próprio velório, reclama para si os melhores quimonos e se queixa do trabalho que a espera.

Mas o velho pai, na manhã mesma em que perdeu a esposa, saúda o amanhecer e confronta Noriko com o seu fatalismo.

Tudo se passa num sussurro de interiores, interrompido, de vez em quando, pelo cantochão das cigarras e as vistas sobre a linha férrea, os telhados e o rio.

Este é o meu Ozu preferido. Sempre que o vejo sinto que a humanidade é uma só, para lá das fronteiras e das religiões. Mas que pudor, que sublimação sentimental!

O irmão mais novo já não chega a tempo de encontrar a mãe com vida. Fica de braços caídos diante da irmã que o recebe e lhe dá a notícia, e nenhum conforto físico, nenhum abraço, nenhum toque.

Dir-se-ia que a caligrafia se tornou a ética dos sentimentos.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sem título

(José Ames)

 

FÉNIX

 

"Gide não se confronta consigo próprio, sucede a si mesmo."

(Jean Prévost)


O romancista do 'acto gratuito' não pertencia à linhagem de um Camus, por exemplo. Num mundo absurdo - e o mundo sem Deus pode ser declarado tal, segundo a lenda do Grande Inquisidor (Dostoiewski), o crime de Lafcadio, em "As caves do Vaticano", que empurrou para fora do comboio em andamento um desconhecido qualquer, não está justificado por nada e não faz qualquer sentido no mundo moral que herdámos do cristianismo. Todo o crime cairia, assim, sob a alçada da estética. Lafcadio não está longe de se considerar um artista, como o Brandon ("The Rope") de Hitchcock.

Temos todos obrigação de saber mais do que isso, porque o sentido decorre do mundo com os outros e há mais do que uma religião, mesmo sem clero, nem símbolos consagrados. O 'acto gratuito' não pode ser concebido 'sem pecado'.

A sentença de Prévost parece 'contaminada' com a 'imoralidade' das personagens de André Gide, estabelecendo uma passadeira fácil entre a obra e a vida do autor.

O escritor renasceria como a Fénix depois de cada 'experiência'. De queda em queda, sempre virginal e irresponsável. Gide poderia ser, então, o verdadeiro modelo das suas personagens. Ou, melhor, as suas personagens poderiam ser a fogueira dos seus 'renascimentos'.

 

 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Sem título

 

(Santarém)

 

O MAIOR MISTÉRIO


"A maior economia que se pode realizar na ordem do pensamento é a de aceitar a não-inteligibilidade do mundo - e de nos ocuparmos do homem."

Albert Camus ("Carnets")

 

Trata-se de uma economia que roubaria o prazer da descoberta a todos os físicos, incluindo os maiores.

Mas Einstein diz, com razão, que o grande mistério do universo é ele ser compreensível. E talvez esteja só a confirmar o que disse o romancista...

Aparentemente, o homem, que surgiu há menos de um milhão de anos, vem aumentando, ao longo da sua 'breve' história, o conhecimento sobre o universo, com revoluções copernicianas pelo meio.

O mistério de que fala o autor da Teoria da Relatividade tem a ver com isto: como é que podemos compreender um 'processo' infinito, que realmente não podemos abarcar, e sobre o qual só podemos ter termos de comparação humanos?

Será mesmo incontestável que exista qualquer coisa como um progresso, ou 'sabemos' tanto como os Gregos sobre o essencial e apenas acrescentámos mais complexidade às nossas teorias?

Por outro lado, a economia referida não significa o fim da investigação e da descoberta. Mas em vez de endeusarmos a ciência, dar-lhe-íamos o único objecto em que é competente: o homem.

Continuamos, sem dúvida, a precisar de mitos cosmológicos. Estejamos ao menos à altura da mesma ironia que Platão dedicava aos deuses helénicos.

 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sem título

(José Ames)

 

BOIS SEM PALÁCIO

Louis-Ferdinand Céline


"(...) Na pequena sala de jantar ao lado, percebíamos o pai a andar de um lado para o outro. Não devia ter a sua atitude pronta ainda para a circunstância. Talvez esperasse que os acontecimentos se precisassem antes de ter de escolher uma postura. Permanecia numa espécie de limbo. Os seres vão de uma comédia para a outra. Entretanto, a peça não está montada, eles não discernem ainda os contornos, o seu papel propício, então permanecem ali, de braços bamboleantes, diante do acontecimento, os instintos virados como um guarda-chuva, sacudidos de incoerência, reduzidos a si mesmos, quer dizer, a nada. Bois sem palácio."

("Voyage au bout de la nuit")

 

Admirável, esta cena do pai que não sabe como reagir ao aborto mal sucedido da filha a esvair-se em sangue, enquanto a mulher se preocupa apenas com a vergonha de a levar ao hospital!

Eu sei que Céline foi um mau cidadão e que professou ideias abomináveis que o levaram ao exílio e à exclusão.

Mas penso que no fundo essas ideias eram uma precaução, o veneno que protegia o seu ódio à mentira dos homens.

domingo, 11 de maio de 2014

Sem título

Duíno

 

SANTOS DE TODOS OS TEMPOS

Stendhal (1783/1842)


Falando da pintura do Quattrocento, diz Stendhal ("Promenades dans Rome"): "Para compreender bem a maior parte dos quadros dos grandes mestres, é preciso imaginar a atmosfera moral no meio da qual viviam (...)"

"(...) Um velho chamava-se João Francisco Luís; pediu a Correggio para lhe fazer um quadro representando a Madona com o Salvador nos seus braços, ele queria em volta do trono de Maria S. João Batista, S. Francisco, que viveu tanto tempo depois dele, e S. Luís, rei de França. Que podiam dizer uns aos outros estes personagens que, na vida real, estiveram separados por tantos séculos?"

Como se o facto de transportar esses personagens para a tela, contemporâneos ou não, já não fosse em si uma liberdade da arte!

A perspectiva, por outro lado, torna verosímil o anacronismo, colocando os santos, com os seus atributos especiais, num mesmo espaço.

As figuras não comunicam entre si, mas cada uma, no seu nicho virtual, assegura ao autor da encomenda a sua intercessão na hora da morte.

"Seguindo em todos os seus detalhes os costumes e as crenças dos séculos XIII e XIV, ver-se-ia o porquê de várias coisas ridículas que se observam nos quadros dos grandes mestres.

A religião cristã permitiu então todas as paixões, todas as vinganças, e só exigia uma coisa: que se cresse nela." (ibidem)

sábado, 10 de maio de 2014

Sem título

(José Ames)

 

HALOS PARA TODOS OS GOSTOS

mcadams.posc.mu.edu/stjohn.htm

"A auréola dos santos é talvez a imitação dum efeito eléctrico, que algum noviço terá observado quando foi despertar antes do amanhecer, para as matinas, um venerável velho que dormia em roupas de lã."

"Promenades dans Rome" (Stendhal)

O espírito positivo de Stendhal leva-o a procurar, por detrás do milagre, o fenómeno físico.

Ele é filho da Revolução Francesa que depôs o pensamento teológico. Admira um homem como Napoleão, cujo exército espalhava as luzes da Razão na ponta das baionetas.

Mas claro que a origem da auréola dos santos, na pintura cristã, em nada destitui o símbolo da sua força expressiva.

É-me indiferente que "as súbitas frases que aos meus lábios vêm" tenham começado por um grito.