sexta-feira, 9 de maio de 2014
BARDAMU E AS PULGAS
quinta-feira, 8 de maio de 2014
AS CLAQUES
"Nas discussões, em geral não se dirigia aos seus oponentes, dirigia-se às testemunhas da discussão. O seu objectivo era, perante as testemunhas da discussão, ridicularizar, desacreditar o seu adversário."
(Vasily Grossman)
Grossman foi um jornalista soviético e um dos primeiros repórteres dos campos nazis. Judeu, a sua fé revolucionária não resistiu ao anti-semitismo de Estaline. Nesta passagem é revisitada a maior figura da Revolução: Vladimir Illich Lenine.
Ocorre-me pensar que o actual modelo de debate na televisão não permitiria uma táctica tão básica para ganhar uma discussão. Mas há outras, igualmente 'primárias', como a usada pelo candidato Passos Coelho no seu (não sei se) único confronto televisivo com o ex-primeiro-ministro. Abusou dos juízos 'ad hominem' para desacreditar o adversário, do género de dizer que conhecia todos os seus truques.
Mas por que não havemos de acreditar que Lenine, dado o seu pouco respeito pela democracia, não estava a tratar os seus oponentes como, segundo o próprio, eles 'mereciam'?
A igualdade é absolutamente necessária para haver uma discussão livre, e os argumentos de cada parte devem valer por si, sem dependerem do apoio de qualquer 'claque'. Mas no ambiente político da 'luta de classes' tudo é permitido, até as 'claques'.
Aqui, gostaria de chamar a atenção para o óbvio: os debates na televisão podem não recorrer às 'claques', mas estão longe de ter um carácter democrático (ou o mesmo tempo concedido a cada um seria a única medida da igualdade e a única condição para a 'inteligibilidade'). São em primeiro lugar espectáculo. Mas, é verdade, um espectáculo que muitas vezes funciona como legitimação da política.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
OS HUMORES SEM DONO
"Às vezes tenho a sensação de ser até uma pessoa forte, mas para os outros mostro sempre uma gentileza, um empenhamento e uma benevolência que me saem frequentemente sem eu dar por isso. Então tenho esta teoria: uma pessoa deve ter suficiente sentido social para não causar fastídio aos outros com os seus próprios humores. Mas não se trata, de facto, de humores. Reprimindo-me a mim mesma, eu torno a ser associal. No sentido que depois não estou para ninguém, por dias inteiros."
Etty Hillesum ("An Interrupted Life": The Diaries, 1941-1943")
A 'repressão' dos humores de que fala Etty é o que distingue, por exemplo, a vida familiar da vida em sociedade.
Numa célebre análise, Alain mostra como não conseguimos dar o melhor de nós mesmos, se nos é consentido, como se diz agora, ser 'transparentes'.
É por isso, diz o filósofo, que os pais não podem ser bons professores dos próprios filhos. É preciso alguma indiferença para não ceder à facilidade. Pelo contrário, em família, o 'feitio' de cada um é 'sinfónico'. É até uma quebra da 'sinceridade' qualquer distância em relação aos próprios sentimentos.
Pierre, em "Guerra e Paz", constantemente infringe as regras de convivência na sociedade de S. Petersburgo, onde príncipes e arquiduques se atêm a um rígido protocolo para matar qualquer ideia que pareça nova, e, logo, que inquiete o 'bom tom'. Bezuhov, com a sua ingenuidade, é um paquiderme no salão de Ana Pavlovna. André, que está longe de ser como o seu amigo, aborrece-se mortalmente em lugares como esse.
Voltando a essa apaixonante jovem holandesa, Etty, não é quando ela parece gentil e interessada para os outros que é menos ela própria, mesmo se a vontade não é de todo estranha a isso. E, certamente, quando 'não está para ninguém', também não está para si mesma.
terça-feira, 6 de maio de 2014
UM RECADO
"Le bourreau Sanson présentant au peuple la tête de Louis XVI, tel est le titre de ce tableau particulièrement réaliste, signé : Lemasle "témoin oculaire fecit". On pense qu'il s'agit du peintre Louis Nicolas lemasle (1788-1870), toutefois la mention témoin oculaire laisse rêveur car le peintre avait quatre ans lors de l'exécution du roi."
(http://tnhistoiredocuments.tableau-noir.net/pages/mort_de_louis_xvi.html)
Nos seus 'Carnets', Camus cita as palavras do cidadão que tem à sua guarda o condenado Louis XVI: "Eu não estou aqui para vos fazer recados, estou aqui para vos conduzir ao cadafalso." O rei, ainda com a cabeça, tinha-lhe pedido para entregar uma carta à sua mulher.
A inumanidade da resposta está talvez à altura dos 'crimes' atribuídos ao monarca. A ideia da Revolução tinha concentrado na sua quase patética figura todos os ressentimentos da nação, como o símbolo da desigualdade e do poder arbitrário, mas, como não podia deixar de ser, na onda, foi também o culpado de todas as injustiças da vida.
Foi assim no dia em que, entre nós, caiu o regime salazarista. De repente, as esperanças mais loucas, mas merecidas, se tornaram possíveis. Pois não foi uma ditadura que, para fazer jus ao nome, se apoiou numa ignóbil polícia de Estado? E quanto mais completa a condenação desse regime mais inocentes e descomprometidos com o passado saímos todos da longa provação
Pelo seu lado, o cidadão, consciente da sua esmagadora responsabilidade, não podia permitir-se qualquer distância em relação ao fervor revolucionário. Ele tinha à sua guarda o nó de todos os problemas, dificilmente um homem. Glosando o tom trágico da 'Mensagem', atrás do cidadão estava um poder maior, o poder de todo um povo, ou a ideia terrivelmente séria do que passava por isso.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
A CONFERÊNCIA
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domingo, 4 de maio de 2014
A TATUAGEM DO DRAGÃO
"(...) A segunda parte da nossa resposta é que quando a nossa economia for desenvolvida, continuaremos a não nos considerar uma superpotência e não nos juntaremos às fileiras das superpotências."
(Mao em conversa com Henry Kissinger)
O "Mare nostrum", aplicado pelos antigos romanos ao Mediterrâneo, no tempo do seu império, é uma reivindicação relativamente modesta se comparada com a expressão "Tudo o que Existe Debaixo do Céu" com que os chineses do antigo império designavam a sua nação. O domínio romano sobre o grande 'mar interior' podemos considerá-lo um facto histórico, embora não no sentido do controlo absoluto. Enquanto que a dimensão da China dos Qing era uma espécie de dogma, que assentava na primazia dos chineses e no desprezo por todos os outros povos.
Até aqui não saímos da psicologia vulgar dos poderes 'enclausurados' na sua mitologia. O que é admirável é que toda a prepotência que vai de par com esse exagero nacionalista seja, mesmo assim, convertível numa linguagem e numa etiqueta que exteriormente parecem cultivar uma psicologia da modéstia ilimitada e uma subtileza tão subliminar que se pode pensar que sejam um paradoxal motivo de orgulho (inaparente, é claro).
O irrealismo que levou aos grandes desastres da política do 'líder supremo' e as suas loucas declarações fazem parte dum sistema de pensamento que o marxismo não conseguiu penetrar, e, pelo contrário, desse 'choque cultural' foi a ideologia comunista que saiu 'travestida'.
De resto, querem maior 'quimera' ideológica do que o sistema que está a sair da modernização do país?
sexta-feira, 2 de maio de 2014
IDOLATRIA
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| Clemente de Alexandria |
quinta-feira, 1 de maio de 2014
BOAS PRÁTICAS
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| Cardinal de Retz |
"Esta aventura, que já não tinha muito a ver com as boas disposições da corte em relação à paz, (...) junto à aparição de um arauto, que parecia saído de uma máquina, na altura certa, marcava visivelmente um propósito formado. Todo o Parlamento o via, como o resto da gente; mas todo este Parlamento era feito para não ver na prática, porque estava tão acostumado, pelas regras da justiça ordinária, a ater-se às formalidades, que nas extraordinárias nunca as pode destrinçar da substância."
Cardeal de Retz ("Mémoirs")
O Parlamento via que estava a ser enganado pela corte, mas na prática, deixou-se cegar pelo formalismo usual, como se o protocolo dispusesse da sua vontade. É o princípio da greve de zelo, mas, neste caso, sofrido.
O abuso da providência cautelar é um exemplo da nossa 'justiça', a qual, por favorecer os poderosos e os habilidosos com os meios para isso, só pode ter o nome que Marx lhe deu: justiça de classe.
A corte de França, durante as lutas da Fronda, no século XVII, não precisava de 'torcer' a justiça nem de amordaçar os parlamentares de Paris. Bastava-lhe um mínimo de arte política para que os seus inimigos, 'defensores da liberdade', se deixassem enredar na teia das 'boas práticas'.
Um espírito arguto como Gondi via as malhas caíram sobre o seu 'partido' e explicou bem o fracasso da Fronda. Hoje, apesar das novas 'pièges à cons' (Sartre), o poder é protegido pela Babel das esquerdas.














