quarta-feira, 16 de abril de 2014

Sem título

Matosinhos (José Ames)

 

APÁTRIDA

"A tecnologia universal moderna constitui intrinsecamente uma ameaça para as reivindicações de singularidade de qualquer sociedade."

"On China" (Henry Kissinger)

 

'Refractário à mudança', era uma expressão que se empregava muitas vezes quando começou a ser moda em Portugal 'reestruturar' as empresas e a aparecer com organigramas uns atrás dos outros, para designar os que não se adaptavam ao mundo dos computadores. O tempo encarregou-se de resolver esse problema, e hoje quase ninguém espera senão mudança. Passamos, numa geração, a um nomadismo geral, com tendas e acampamentos onde menos se esperava e pessoas condenadas ao provisório em segundo grau (a nossa própria existência é o primeiro grau).

Ora, o factor que melhor explica esta aceleração do tempo e a nossa consequente perda de estabilidade, talvez seja, de facto, a 'tecnologia universal moderna' de que fala o antigo secretário de estado de Richard Nixon, num livro dedicado ao país que foi, durante alguns milénios, o símbolo da imobilidade. Embora, no caso da China, se possa dizer, com mais propriedade, que o que a tornou um país em vias de perder a sua 'singularidade' e de, nessa medida, se tornar mais vulnerável à 'revolução tecnológica', tenha sido a ideologia anti-confucionista. Como reconhece Kissinger, desse confronto ideológico, não foi, porém, Marx o vencedor. Confúncio é que se adaptou aos tempos de hoje.

A tecnologia universal parece, de facto, imparável e atravessa mesmo as barreiras religiosas, como se vê nos países muçulmanos. O que a inteligência e a tolerância não conseguiram, um objecto 'mágico' e, talvez, erradamente 'neutro', como o telemóvel dir-se-ia penetrar no mundo mais fechado e criar mentalidades 'desprevenidas' para os vírus do desconhecido.

Como um Cavalo de Tróia sem emissário.

 


 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sem título

 

PERDER O NOSSO LATIM

 

Não sei se alguém já estudou o quanto o latim deixou de crescer, desde que o império romano desapareceu, levando consigo as instituições que faziam essa língua, o latim 'vulgar' e o dos literatos, ser uma língua falada e praticada dentro de um certo espírito e de uma certa disciplina.

Bem sei que durante toda a Idade Média, o latim foi cultivado por uma minoria letrada e que foi assim quase até ao fim do século XVIII. Além disso, foi desde o estabelecimento da Igreja Católica, e ainda é nos nossos dias, a sua língua oficial.

Mas uma língua morta parou no tempo, apesar do culto comemorativo, cada vez mais restringido à excentridade de uns poucos. Fourier, no seu falanstério, teria, sem dúvida, um jardim para os latinistas.

Ora, não é preciso mais do que uma consulta a um bom dicionário para nos darmos conta da riqueza e da complexidade dessa língua, que está na origem das que, hoje, grande parte dos europeus e nações de outros continentes falam. Esse legado da civilização romana podemos valorizá-lo, junto das novas gerações, quanto mais não seja para melhor se compreenderem as línguas modernas, ou podemos enterrá-lo, com aberrações como o acordo ortográfico.

Não poderemos ressuscitar o latim e o grego, nem imaginar a que alturas teriam chegado um e outro se ainda fossem línguas vivas. Mas com mais algumas pazadas deixaremos que o que fomos, o passado que é parte de nós, desapareça da nossa vista.

Ao contrário de algumas pedras amontoadas, de algumas colunas por terra ou sustentadas por ganchos, que só o prestígio antigo embeleza, e que alimentam o turista de ontem e de hoje, o dicionário do latim parece completo em si mesmo, exuberante, mesmo na sua imobilidade, como uma fonte suspensa. Só lhe falta um povo.

Albert Camus, citando Spengler, diz: "A coluna egípcia era no princípio uma coluna de pedra, a coluna dórica era uma coluna em madeira. A alma ática exprimia assim a sua profunda hostilidade em relação ao tempo ('la durée')". A cultura egípcia, a preocupação ('souci') incarnada." Os Gregos, povo feliz, não têm história."

Nós não nos julgamos felizes...ou será a não consciência de que o poderemos ser uma condição da felicidade?

 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sem título

 

Vila do Conde

 

A PERFEIÇÃO DA FORMA

"Depois de o ter visto perecer num suplício infame, ela sustém sobre os seus joelhos a sua cabeça inanimada. Eis, sem dúvida, a maior dor que pode sentir o coração de uma mãe.

Mas a religião vem anular num abrir e fechar de olhos o que poderia existir de enternecedor nesta história se ela se passasse no fundo duma cabana. Se Maria crê que o seu filho é Deus (e ela não pode ter dúvidas sobre isso), crê também que ele é Todo-Poderoso. A partir daí, o leitor só tem que mergulhar na sua alma; e se for susceptível de algum sentimento verdadeiro, verá que Maria já não pode amar Jesus com o amor de mãe, com esse amor tão íntimo que se compõe de recordações duma antiga protecção e da esperança num esteio futuro."

"Promenades dans Rome" (Stendhal)

 

Estas são as reflexões que ocupam Stendhal diante da "Pietà" de Miguel Ângelo, na igreja de S. Pedro, em Roma.

Ele não consegue encontrar a verdade humana dessa escultura sublime, que desafia, de facto, a psicologia (porque é a dor duma mãe que não sabe o que se passa, ou não pode encontrar consolo na glória futura) e as leis da natureza (a mãe tem a idade do filho).

Mas dir-se-ia que nada disso prejudica a universal admiração.

Haverá outras Pietàs mais realistas e mais próximas até do espírito religioso.

Mas a verdade é que a perfeição dispensa todas as justificações, embora Miguel Ângelo não tenha aqui atingido ainda a grandeza da sua terribilità.

 

domingo, 13 de abril de 2014

Sem título

(José Ames)

 

MENTIRA COM E SEM ASPAS

 

No filme de Otto Preminger, "Tempestade sobre Washington", o secretário de estado Leffingwell (Henry Fonda) nomeado pelo presidente, necessita do "advise and consent" do Senado.

Ao princípio do filme, é surpreendido pelo filho adolescente a dizer uma mentira (estava em casa quando instruiu o rapaz para dizer ao telefone que o pai não estava), explicou-lhe que uma mentira 'Washington, DC' não era uma verdadeira mentira, porquanto, do outro lado da linha, sabia-se que era uma mentira e que o 'mentiroso' sabia que o outro sabia.

Mais tarde, a oposição do Senado, liderada pelo senador da Carolina do Sul, conhecido por "C" (o fabuloso Charles Laughton), que contesta a nomeação, desenterra do passado de Leffingwell um 'namoro' com os comunistas e apresenta nas audiências uma testemunha algo desequilibrada que é fácil ao nomeado confundir. Mas a verdade é que, quando jovem, Leffingwell chegara a frequentar uma ou outra reunião de 'célula', antes de se afastar de vez. Teve de mentir nas audiências para proteger um amigo desses tempos. O filme é de 1962, não tão distante assim da nefanda 'caça às bruxas'.

Essa mentira é muito mais difícil de fazer compreender a um adolescente que não espera menos do que a infalibilidade do seu ídolo. Leffingwell desta vez não se livra do aperto com o truque da mentira que não engana ninguém. Compreende que tem de contar a verdade.

É na complexidade da situação que se verifica a necessidade de um juízo moral 'sem rede', sem uma autoridade exterior e sem quaisquer precedentes. Não se trata de uma interpretação da lei, mas de uma verdadeira decisão.

Que sorte para aquele jovem ser ajudado assim a 'entrar no mundo'!

sábado, 12 de abril de 2014



"Castelo do Queijo" (José Ames)

ABENÇOADA CREDULIDADE!


 

O Génio Maligno, cuja existência Descartes esconjurou para se valer apenas da evidência do seu pensamento solitário, e que o levava a suspeitar de toda a aparência que não tivesse passado pelo crivo da Razão, está hoje, para muitas pessoas, incarnado pela Administração americana.

Só que o cepticismo do filósofo, demasiado exigente e extenuante para a nossa dieta mediática, é nelas substituído pela mais ridícula das credulidades em qualquer outro génio maligno.

 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sem título

(José Ames)

 

POR DETRÁS DA MÁSCARA

"persona" (Ingmar Bergman)

 

"A psicologia é acção - não reflexão sobre si próprio. O homem determina-se ao longo da sua vida. Conhecer-se perfeitamente é morrer."

(Albert Camus)

 

De que é feito, então, o conhecimento 'psicológico' que guarnece os tratados e as aplicações 'in vivo' do que se convencionou chamar psicologia?

O objecto é um ser dotado da capacidade de pensar como modo da acção, mas que se pretende conhecer do exterior como um sistema autónomo e independente da acção.

Esse tipo de abordagem permite construir, por exemplo, uma galeria de homens ilustres, para um fim moral, ao jeito de Plutarco.

"Conhecer-se perfeitamente" só é possível nos romances (a morte não reflecte nada, nem sobre nada), mas o que se conhece é um tipo literário, como Karenine, Bovary, etc.

Vivemos todos com uma ideia prática sobre nós próprios que é um resultado inter-subjectivo. Essa 'persona' é indispensável à vida em comum.

Devíamos, porém, avançar apontando a máscara (o "larvatus prodeo" de Descartes). Talvez seja mesmo o 'sagrado', como queria Simone Weil, o que está por detrás.

 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sem título

Catedral de Tuy

 

MARKETING

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"O objectivo de toda a publicidade é a insatisfação, ou para dizer de outra maneira, uma escassez de satisfação interna. Esta deve ser continuamente criada, mesmo no momento em que finalmente se comprou alguma coisa. Neste caso, a publicidade tem a função de 'criar' descontentamento em relação à coisa acabada de comprar, uma vez que quando o acto se completou, a compra não tem qualquer outro benefício para o sistema de mercado. O bem recentemente adquirido deve ser rejeitado e substituído pela 'necessidade' de um novo produto, o mais depressa possível. O mundo ideal para os publicitários seria um mundo em que não importa o que se comprasse fosse usado uma só vez e depois deitado fora. Muitos novos produtos foram concebidos para encaixar nesse mundo."

(Jerry Mander, "Four Arguments for the Elimination of Television")

Esta atenção dirigida para o 'lado mau' da publicidade perdeu alguma acutilância nas últimas décadas. Talvez, entretanto, áreas inteiras do nosso mundo tenham resvalado para o 'marketing', de modo a não podermos já distinguir, por exemplo, a política da 'publicidade' e da criação artificial de necessidades. Se alguma indignação subsiste, transitou da televisão, onde o 'marketing' é considerado uma espécie de imposto, às vezes divertido, para o que constitui o 'contrato social'.

Tudo o que Mander, nos anos setenta, disse sobre a televisão e a publicidade pode ser replicado na apreciação da política e da vida em sociedade, onde essas técnicas são ainda disruptivas. O nosso mundo 'natural' inclui necessariamente a crítica daqueles anos, como um dos seus 'momentos', para falar hegeliano.

 

quarta-feira, 9 de abril de 2014