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| Matosinhos (José Ames) |
"A tecnologia universal moderna constitui intrinsecamente uma ameaça para as reivindicações de singularidade de qualquer sociedade."
"Depois de o ter visto perecer num suplício infame, ela sustém sobre os seus joelhos a sua cabeça inanimada. Eis, sem dúvida, a maior dor que pode sentir o coração de uma mãe.
Mas a religião vem anular num abrir e fechar de olhos o que poderia existir de enternecedor nesta história se ela se passasse no fundo duma cabana. Se Maria crê que o seu filho é Deus (e ela não pode ter dúvidas sobre isso), crê também que ele é Todo-Poderoso. A partir daí, o leitor só tem que mergulhar na sua alma; e se for susceptível de algum sentimento verdadeiro, verá que Maria já não pode amar Jesus com o amor de mãe, com esse amor tão íntimo que se compõe de recordações duma antiga protecção e da esperança num esteio futuro."
"Promenades dans Rome" (Stendhal)
Estas são as reflexões que ocupam Stendhal diante da "Pietà" de Miguel Ângelo, na igreja de S. Pedro, em Roma.
Ele não consegue encontrar a verdade humana dessa escultura sublime, que desafia, de facto, a psicologia (porque é a dor duma mãe que não sabe o que se passa, ou não pode encontrar consolo na glória futura) e as leis da natureza (a mãe tem a idade do filho).
Mas dir-se-ia que nada disso prejudica a universal admiração.
Haverá outras Pietàs mais realistas e mais próximas até do espírito religioso.
Mas a verdade é que a perfeição dispensa todas as justificações, embora Miguel Ângelo não tenha aqui atingido ainda a grandeza da sua terribilità.
No filme de Otto Preminger, "Tempestade sobre Washington", o secretário de estado Leffingwell (Henry Fonda) nomeado pelo presidente, necessita do "advise and consent" do Senado.
Ao princípio do filme, é surpreendido pelo filho adolescente a dizer uma mentira (estava em casa quando instruiu o rapaz para dizer ao telefone que o pai não estava), explicou-lhe que uma mentira 'Washington, DC' não era uma verdadeira mentira, porquanto, do outro lado da linha, sabia-se que era uma mentira e que o 'mentiroso' sabia que o outro sabia.
Mais tarde, a oposição do Senado, liderada pelo senador da Carolina do Sul, conhecido por "C" (o fabuloso Charles Laughton), que contesta a nomeação, desenterra do passado de Leffingwell um 'namoro' com os comunistas e apresenta nas audiências uma testemunha algo desequilibrada que é fácil ao nomeado confundir. Mas a verdade é que, quando jovem, Leffingwell chegara a frequentar uma ou outra reunião de 'célula', antes de se afastar de vez. Teve de mentir nas audiências para proteger um amigo desses tempos. O filme é de 1962, não tão distante assim da nefanda 'caça às bruxas'.
Essa mentira é muito mais difícil de fazer compreender a um adolescente que não espera menos do que a infalibilidade do seu ídolo. Leffingwell desta vez não se livra do aperto com o truque da mentira que não engana ninguém. Compreende que tem de contar a verdade.
É na complexidade da situação que se verifica a necessidade de um juízo moral 'sem rede', sem uma autoridade exterior e sem quaisquer precedentes. Não se trata de uma interpretação da lei, mas de uma verdadeira decisão.
Que sorte para aquele jovem ser ajudado assim a 'entrar no mundo'!
O Génio Maligno, cuja existência Descartes esconjurou para se valer apenas da evidência do seu pensamento solitário, e que o levava a suspeitar de toda a aparência que não tivesse passado pelo crivo da Razão, está hoje, para muitas pessoas, incarnado pela Administração americana.
Só que o cepticismo do filósofo, demasiado exigente e extenuante para a nossa dieta mediática, é nelas substituído pela mais ridícula das credulidades em qualquer outro génio maligno.
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| "persona" (Ingmar Bergman) |
"A psicologia é acção - não reflexão sobre si próprio. O homem determina-se ao longo da sua vida. Conhecer-se perfeitamente é morrer."
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"O objectivo de toda a publicidade é a insatisfação, ou para dizer de outra maneira, uma escassez de satisfação interna. Esta deve ser continuamente criada, mesmo no momento em que finalmente se comprou alguma coisa. Neste caso, a publicidade tem a função de 'criar' descontentamento em relação à coisa acabada de comprar, uma vez que quando o acto se completou, a compra não tem qualquer outro benefício para o sistema de mercado. O bem recentemente adquirido deve ser rejeitado e substituído pela 'necessidade' de um novo produto, o mais depressa possível. O mundo ideal para os publicitários seria um mundo em que não importa o que se comprasse fosse usado uma só vez e depois deitado fora. Muitos novos produtos foram concebidos para encaixar nesse mundo."
(Jerry Mander, "Four Arguments for the Elimination of Television")
Esta atenção dirigida para o 'lado mau' da publicidade perdeu alguma acutilância nas últimas décadas. Talvez, entretanto, áreas inteiras do nosso mundo tenham resvalado para o 'marketing', de modo a não podermos já distinguir, por exemplo, a política da 'publicidade' e da criação artificial de necessidades. Se alguma indignação subsiste, transitou da televisão, onde o 'marketing' é considerado uma espécie de imposto, às vezes divertido, para o que constitui o 'contrato social'.
Tudo o que Mander, nos anos setenta, disse sobre a televisão e a publicidade pode ser replicado na apreciação da política e da vida em sociedade, onde essas técnicas são ainda disruptivas. O nosso mundo 'natural' inclui necessariamente a crítica daqueles anos, como um dos seus 'momentos', para falar hegeliano.