terça-feira, 8 de abril de 2014

CLARO-ESCURO


Marlon Brando em "Apocalypse now"
(1979-Francis Ford Coppola)



"E toma conta de vós, apesar de tudo, o desejo de ir um pouco mais longe para saber se se terá a força de voltar a encontrar a sua razão, ainda assim, entre os escombros."
"Voyage au bout de la nuit" (Louis-Ferdinand Céline)

Como chamaremos a este jogo com os limites que pode levar o comum de nós a pôr em perigo a sua vida ou a sua razão?

É sem dúvida esse instinto que permite o esforço do último quarto de hora, decisivo em algumas batalhas.

De qualquer modo, devemos saber que nada é suficientemente louco para nos afastar de tal experiência.

Ainda que muitas vezes se não regresse, como o coronel Kurtz, do coração das trevas.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Claustro" (José Ames)

QUEEQUEG

Abby Schlacter, 
Queequeg in her Coffin II
, 1997


"(...) and when our smoke was over, he pressed his forehead against mine, clasped me round the waist, and said that henceforth we were married; meaning, in his country's phrase, that we were bosom friends; he would gladly die for me, if need should be."
"Moby Dick" (Herman Melville)

A cena em que um temeroso Ismael, já metido debaixo dos cobertores, espera que a espécie de canibal com quem terá de partilhar a cama lhe apareça e, quando ele entra, julgando-se sozinho, desnuda um corpo cheio de incríveis tatuagens e se entrega a uma estranha cerimónia com um ídolo retirado da mochila, foi o que melhor me ficou gravado da primeira leitura de "Moby Dick", na adolescência. E o nome do arpoador: Queequeg.

Relendo essas páginas que empolgam a imaginação, encontro facilmente nessa cena o símbolo dum desforço sexual que o primitivo tira do homem branco.
O erotismo da cena é inescapável, e os gritos de Ismael que acabam por acordar o estalajadeiro têm uma conotação histérica.

Que Queequeg se venha a revelar um gentleman à sua maneira, não é a menos saborosa das surpresas.

domingo, 6 de abril de 2014

Sem título

Ponte da Arrábida

 

PARÁBOLA DOS CEGOS

Edward Gibbon (1737/1794)

"Mas no estado imperfeito da sociedade presente, o luxo, embora possa provir do vício ou da loucura, é aparentemente o único meio capaz de corrigir a desigual partilha dos bens. O diligente obreiro e o habilidoso artista, que não obtiveram qualquer quinhão na divisão da terra, recebem um imposto voluntário por parte dos donos da gleba;"

"(...) As províncias depressa teriam ficado esgotadas da sua riqueza, caso as manufacturas e o comércio do luxo não devolvessem gradualmente aos laboriosos súbditos as quantias que lhes eram arrancadas pelas armas e a autoridade de Roma."
"Declínio e Queda do Império Romano" (Edward Gibbon)

Gibbon, que conheceu Voltaire e foi amigo dos Enciclopedistas, publicou o "Declínio" uns anos anos da Revolução Francesa.

Mas aquelas palavras sobre o papel virtuoso do luxo na economia do império romano, cuja acção civilizadora enaltece, dimanam de princípios muito diferentes que os revolucionários não podiam deixar de considerar conservadores e ultrapassados.

Gibbon limita-se a "interpretar" as causas e os efeitos, como se a acção do homem não pudesse mudar, conscientemente, o curso da história. Neste caso, tratava-se de, sob o magistério da Razão, prescindir do papel anómalo do vício, qualquer que fosse a virtude do seu produto.

Hoje, muitos chamariam de abstracta a essa Razão e teriam todos os motivos para duvidar da consciência dos timoneiros que dela se reivindicam.
"Qui veut faire l'ange... fait la bête."

sábado, 5 de abril de 2014

Sem título

"Ponte Vasco da Gama" (José Ames)

 

A INSTRUÇÃO DE JOB

Job

"E depois, ele conseguia, de qualquer modo, carregar a sua pena um pouco mais longe, como um peso demasiado pesado para ele, infinitamente inútil, num caminho onde não encontrava ninguém para falar dela, dessa pena, de tal modo era enorme e múltipla. Nem saberia explicá-la, era uma pena que ultrapassava a sua instrução."
"Voyage ao bout de la nuit" (Louis-Ferdinand Céline)

Na citação deste romance em que nenhuma luz aparece, nem na terra, nem no céu, para guiar o caminhante na noite escura, o que é extraordinário é a palavra instrução. Não se trata de sensibilidade. O caminhante decerto sofre mais do que aquele que pudesse compreender e dar um sentido à sua pena.

Não é um bruto, ou um inconsciente, que carregasse o seu fardo como um animal, aliviado pelo facto de nem sequer pensar nisso.

É um homem que não cometeu nenhum crime, nem nenhuma injustiça e, no entanto, é perseguido. Não consegue explicar o que lhe acontece nem, "por falta de instrução", como diz Bardamu, encontrar consolo e justificação numa figura como Job.

Mas a explicação de Job, que transforma a injustiça numa prova de fé, não é uma verdadeira explicação.
É atribuir a tudo um sentido a priori por causa das vias misteriosas de Deus.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Sem título

Dubrovnik

 

WILD LIFE


Neste café vagaroso, lê-se o jornal, fuma-se, olha-se o ecrã sem som onde passa mais um episódio da vida selvagem.

Não há quem não se sinta fascinado por esse passado animal que já vemos como no museu, porque nenhum de nós, telespectadores, se embrenhará jamais numa verdadeira floresta, expondo-se aos seus reais perigos.

A nossa consciência ecológica percebe a ameaça que pesa sobre esse mundo.

Se dispuséssemos doutra consciência do tempo, até nós nos veríamos ameaçados.

Pelo futuro? Pelo passado?

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sem título

(José Ames)

 

A CÔRTE CELESTE

 

"(...) a ciência pensa como uma assembleia, como um tribunal ou uma igreja, e funciona como eles, de maneira que, na realidade, a história das ciências evolui, no pormenor como nas leis de conjunto, como uma repetição da história das religiões ou do direito."

(Michel Serres)


Não nos aproxima esta ideia da teoria da verdade como acordo inter-subjectivo? Destronada a Razão universal de divina descendência, que poderemos esperar para além de um acordo, sempre provisório, entre indivíduos que seguem um mesmo protocolo?

Todas as religiões são verdadeiras, num sentido regional. Não há conversão possível à unidade entre, por exemplo, o budismo e o cristianismo. Deus nem serve de denominador comum.

O facto das ciências parecerem ter uma única história, que é a história da complexidade crescente, deve-se à circunstância de uma só estirpe (de origem grega) ter avassalado o mundo com os seus prodígios.

Nesse aspecto, tornámo-nos incapazes de compreender que a história poderia ter sido outra, e outra a relação com a verdade. É difícil de aceitar, claro, que o nosso método científico, na maior parte dos domínios, aberto à experimentação e à crítica, se possa revelar tão vulnerável como, por exemplo, a física antes de Newton.

No fundo, é a mesma incapacidade que cegou o império de Qianlong de reconhecer que duas fragatas inglesas dariam conta das suas defesas costeiras ("On China", Henry Kissinger)

 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Sem título

Bérgamo

 

VALE DE LOBOS



"Tudo se ressentiu na sociedade portuguesa, com o desaparecimento desse alto poder moderador, destinado a ser o núcleo do seu governo moral. À tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do país a expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes entusiasmos ou dos profundos e implacáveis desdéns. Essa pobre tribuna deserta degradou-se sucessivamente até não ser hoje mais do que uma prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo de água."

"As Farpas" (Ramalho Ortigão)


Ramalho lamenta aqui o abandono da política por parte do eremita de Vale de Lobos, na hora da sua morte, em 13 de Setembro de 1877, aos 67 anos.

O autor sente-se na necessidade de criar dois homens a partir desta grande figura. O homem público e o solitário 'perdido para o mundo' no "remanso estéril do diletantismo bucólico" que "comprometeu o destino mental de uma geração inteira".


Esta perda irreparável para a vida cívica portuguesa leva-os mesmo a procurar os motivos para essa inexplicável desistência, para a grande incoerência que representa: "A elaboração psicológica das causas que levaram o espirito de Herculano a quebrar as suas relações mentais com a sociedade, é um importante estudo a que se acham obrigados aqueles que viveram na intimidade e na confidencia do grande escritor. A sociedade precisa de saber que grau de responsabilidade lhe cabe no emudecimento dessa voz. Porque a isolação de Herculano não é um simples episódio biográfico, é um facto social, é um dos mais tristes fenómenos da decadência portuguesa."


O auto-afastamento de Herculano aos 46 anos de idade, depois do seu tardio casamento, presta-se a muita especulação. Hoje quase ninguém é considerado velho naquela idade, mas não seria assim num tempo em que a esperança de vida era mais baixo do que isso. Cansado de lutar sem ver os resultados, ou julgando-se com direito ao 'repouso do guerreiro' num lar finalmente encontrado, não importa. Os seus contemporâneos compreenderam a dimensão do homem. O silêncio do eremita terá porventura pesado mais do que a perseverança tribunícia no espírito da nação.


Não há hoje nenhum político abstinente, afastado sequer da televisão (talvez a mais próxima analogia com o eremitério) que possa ter um papel tão influente. Nenhum mítico Vale de Lobos que julgue o 'pane e circenses' da actualidade.


A nossa imaginação cívica foi ocupada pela imagem proliferante e sem sentido. Todos os ídolos da hora não têm só 'pés de barro'. São de barro dos pés à cabeça.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Sem título

(José Ames)

 

PRIMAVERA

Auguste Comte


"Medito neste momento sobre um pensamento de Augusto Comte, que diz que as mudanças possíveis são muito pequenas, mas suficientes."

(Alain)

Não suficientes, de qualquer modo, para os que têm pressa de chegar "rumo à estrela polar", como no verso de Gedeão.

Não se pense que a impaciência é só característica da juventude. Alguns velhos querem fazer do seu tempo de vida a 'coda' final que resume e confirma as convicções de uma vida.

No tempo em que os sacerdotes egípcios guardavam os segredos do céu no templo, as coisas não corriam de todo. A mudança é uma ideia moderna e a aceleração do tempo é de ontem.

No nosso canto da Europa, já vimos os regimes sucederem-se e assistimos ao 'desembarque' na lua, a par de outras maravilhas como a internet.

As mudanças possíveis são, porém, realmente pequenas. Dá a ideia que cinco anos bastaram para o 'Ancien Régime' dar lugar à maior mudança política até então verificada, à ceifa dos revolucionários e à instalação do novo-velho poder (a burguesia já detinha o poder de facto). Logo a mudança foi aparente. Pôs-se os pontos nos ii à custa de um massacre.

Mas essa leitura é desiludida. Acima da realidade dos factos, escreveu-se uma história simbólica que é parte da França moderna. Foi essa história que teve as repercussões que se sabem na cabeça dos bolcheviques e na nossa, auto-complacentemente democrática.

É esse tempo 'histórico' que nos faz ver oportunidades, quase sempre perdidas, para as mudanças capitais em sinais 'errados' de uma mudança real, mas lenta e subterrânea.