domingo, 16 de março de 2014

Porto (José Ames)

LÓGICA E REALIDADE

Ludwig Wittgenstein (1889/1951)

"O eu filosófico não é o ser humano, não é o corpo humano ou a alma humana de que trata a Psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite - não uma parte - do mundo."

"O sujeito pensante não existe."

"Tratado Lógico-Filosófico" (Ludwig Wittgenstein)


Ainda ninguém tinha dito tão claramente que uma das consequências de pensar o mundo é a de não nos podermos pensar a pensar, isto é, no meio das coisas que existem sem metafísica, como diria o poeta da "Tabacaria".

Passa-se o mesmo com a ideia de Deus que também não se pode dizer que exista, como objecto para si mesmo. A prova ontológica é, assim, um absurdo. A existência não é uma perfeição a acrescentar às outras porque, como diz Wittgenstein, Deus está no limite que permite pensar a existência.

Mas para o filósofo do "Tratado" a filosofia não pode aspirar a mais do que a uma crítica da linguagem, a fim de que esta "exprima claramente o que se pode exprimir", guardando silêncio quanto "àquilo de que não se pode falar".

Na hipótese solipsista, não há razão para não sermos inteiramente lógicos, visto que, por assim dizer, elidimos a natureza, e com ela todo o problemático. Hegel: "a natureza é tudo o que falta à lógica".

É isso, porém, que recusamos com todas as nossas fibras.

Só saio desta contradição regressando à posição dualista. E o que não existe ( o passado, o espírito) passa a ser real.

Isto é, o mundo e o limite têm de compreender-se no plano inter-subjectivo, onde natureza e lógica são representadas na linguagem.

Sobre esta filosofia, sem falhas, mas que se anula, estou com Bertrand Russell:

"sinto-me incapaz de estar certo da correcção duma teoria, simplesmente pelo facto de não ver onde ela possa estar errada."

sábado, 15 de março de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

RULE, BRITANNIA!

"The life and death of colonel Blimp"

No maravilhoso "Vida e morte do coronel Blimp" (1943-Michael Powell e Emeric Pressburger), há vários achados. A sala dos troféus é um deles. Esse período deprimido do pitoresco militar é preenchido pelos seus desolados safaris e cada cabeça de animal pregada com um tiro na parede paga as frustrações do gentleman-soldado, sem guerra e sem amor.

Deborah Kerr, espiritual e azougada, é o mesmo ideal de mulher em várias encarnações que humaniza o huno alemão e o seu amigo.

Mas por que, quando Candy apresenta a Kretschmar-Schuldorff uma imagem da falecida para o impressionar com a semelhança entre ela e a mulher que foi amada por ambos, se serve duma pintura, em vez de recorrer à fotografia?

Dir-se-ia que a amizade não sobreviveria à exactidão fotográfica.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sem título

Alcochete

 

SOBREVIVÊNCIA

 

"A maior parte dos problemas - talvez todos - não são mais do que 'problemas de sobrevivência'"

(Karl Popper)


Se for assim, a nossa inteligência ocupa-se a maior parte do tempo com pseudo-problemas. Desentendimentos de linguagem, ou muito próximo disso, como pensava Wittgenstein. Quanto aos 'verdadeiros' problemas, não se referem à questão da verdade, mas do consenso e da operacionalidade, a 'compreensão mútua' para agir no 'mundo da vida' (Habermas).

Ora aí está um exemplo da 'redução da complexidade' de que fala a teoria dos sistemas. A ciência não pode estar segura de nada, mas concita uma consensualidade que só a Igreja, no tempo em que continuou o império romano 'por outros meios', pôde alcançar.

Como adoptou uma total abertura à crítica e à 'falsificação', a ciência entrou num 'funcionalismo' que se encontra ao abrigo de qualquer crise (fala-se, actualmente, numa crise da ciência, mas é mais a 'visão do mundo' que está em causa do que o sucesso das suas aplicações técnicas).

Em teoria, podemos perfeitamente entendermo-nos, sem verdadeira compreensão.

 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Sem título

(José Ames)

 

O PRÍNCIPE INANIMADO

Fernão Lopes nos Painéis de S. Vicente

 

"(...) cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas principe não animado, e o rei é principe animado, porque ellas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessaria, assim no povo como no rei, porque sem ella nenhuma cidade nem reino pode estar em socego.”
Fernão Lopes, “Chronica de el-rei D. Pedro I.”

Quem é justo cumpre toda a virtude, diz o cronista. Não se pode, por exemplo, ser intemperante e continuar justo, embora a ofensa possa ser feita só a nós próprios. Era também assim que o Sócrates de Platão o entendia: "Ninguém é mau voluntariamente", porque primeiro, somos injustos connosco mesmos, e já não se pode falar de livre vontade nesse caso.

Este conceito de justiça, entretanto, perdeu-se. Agora, no dizer de Alexandre O'Neill, "com os seus altos valores, o Ocidente dá por de mais ao dente, dá por de mais ao dente." A 'Razão universal' caucionou estas máximas por muito tempo, depois do assalto iniciado por Nietzsche. Simplesmente, deixou de haver o 'príncipe não animado' a quem só faltaria o príncipe em carne e osso para lhe dar voz e reinar incontestado.

Na actual situação, só podemos esperar as satrapias oscilantes que um poder descentrado encarna. A complexidade do sistema deixa-nos sem objecto. Que simples eram os tempos da visão 'panorâmica'!

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sem título

Tavira

 

MATERIAL EM BRUTO

John Le Carré

"Estou mais interessado em falar com o jardineiro. Percebe o que quero dizer? Quero conhecer o material da vida em bruto. Não estou interessado em escritores."

(John Le Carré ao Expresso, 27/4/13)


Mas a vida ou a representação dela tem mais peles do que as que podemos contar.

O escritor pode ser o 'observador de monóculo' (como Raul Brandão descrevia Eça) e, para outro escritor, o seu material ser sempre de segunda mão. Todavia, onde está essa 'terra por lavrar' que nos daria o húmus autêntico de um povo? Onde está o homem tão completamente surdo ao ruído da 'colmeia mediática' que se aproxime desse ideal do 'material em bruto?

Por outro lado, não é, e não foi sempre, a própria literatura (como no 'texto infinito' de Barthes) o melhor material do escritor?

A verdade é que o 'mundo fora da literatura' talvez nem seja 'tratável'.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sem título

(José Ames)

 

PRETENSÕES DE VALIDADE

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"A modernidade busca os vestígios de uma escrita que já não promete a totalidade de uma coerência semântica, como fazia o livro da natureza ou a escritura sagrada."

Jürgen Habermas ("O Discurso Filosófico da Modernidade")

 

Como é que a racionalidade convive com esta dispersão do sentido das coisas? Os 'mundos paralelos' de que fala Michio Kaku talvez não sejam tão ficcionais ou especulativos quanto isso...

Toda a razão referida a uma totalidade é usurpadora. É um daqueles sofismas que Wittgenstein 'despachou' numa das suas frases lapidares. Não sabemos, nem podemos saber da totalidade. O melhor, pois, é não fazer frases, nem cálculos sobre isso.

Mas claro que os 'saberes' continuam a reivindicar o seu direito às extrapolações. O êxito das aplicações técnicas da razão instrumental é a taumaturgia de uma religião sem Deus.

Diz Habermas: "A transposição, 'sem mediação' do saber especializado para as esferas privadas e públicas do quotidiano pode, por um lado, pôr a autonomia e o sentido próprio dos sistemas de saber em perigo e, por outro lado, ferir a integridade dos contextos do mundo da vida. Um saber especializado apenas em pretensões de validade que, de modo contextualmente não específico, embata em toda a extensão do espectro de validade da práxis do quotidiano, desequilibra a infra-estrutura comunicacional do mundo da vida."



 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sem título

Puglia

 

MORTAL

Elias Canetti

 

"O momento em que um ser humano sobrevive a outro é um momento 'concreto', e eu acredito que a experiência deste momento tem consequências muito graves. Penso que esta experiência está coberta pelas convenções, por aquilo que cada um 'deveria' estar a sentir quando tem a experiência da morte de outro ser humano, mas que por detrás disso se esconde o sentimento de uma certa satisfação, e deste sentimento de satisfação, que pode ser de triunfo - como no caso de um combate - algo de muito perigoso pode surgir, se acontece com mais frequência e se acumula. Esta experiência perigosamente acumulada da morte de outro ser humano é, creio eu, um germe essencial do poder."

Elias Canetti (numa discussão radiofónica com Theodor Adorno, em 1962)

A palavra concreto, entre aspas, neste caso, é muito significativa. Como se devêssemos distinguir no tempo (na 'durée' bergsoniana), para além dos momentos 'fortes' e dos momentos 'fracos', que ficam mais ou menos gravados na nossa memória, uma outra experiência, possivelmente independente da consciência e da memória, mas que nos transforma profundamente. A 'acumulação' de que fala Canetti é sem dúvida importante na maior parte dessas mutações (de carácter?). Mas sabemos também que a metamorfose pode ser súbita, como se todas as 'forças' se concentrassem num ponto.

Esta ideia do poder implica, evidentemente, uma origem que é independente da política. Podíamos dizer até, parafraseando a 'blague' de Lacan a propósito do amor (de que não há relação), que o poder é sempre uma relação 'mortal'.

 

domingo, 9 de março de 2014