segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

FILANTROPIA



"O evergetismo não é redistribuição social, compensação política, consequência das rivalidades políticas ou sociais, mas contra-efeito de uma dinâmica de grupo para funções politicamente não decisivas."

(Paul Marie Veyne)

O que é o evergetismo? Veyne resume-o assim: 'são os dons do indivíduo à colectividade, o mecenato em relação à cidade". "Veyne diz, com efeito, que o evergetismo dos notáveis das cidades gregas pode resultar de três motivos: 'Eles dão por piedade, para receberem honras, ou por se interessarem por uma causa' e nomeadamente por patriotismo."( J. Andreau, P. Schmitt, A. Schnapp, "La méthode de P. Veyne")

E segundo a Wikipedia: " Embora o termo evergetismo seja hoje praticamente desconhecido, o fenómeno está claramente presente e difundido na época contemporânea, como evidenciado pelas doações maciças para o público através da criação de fundações, voluntariado, filantropia etc. Parece inegável que o grande centro do evergetismo contemporâneo é, novamente, o centro do poder "imperial": os E.U.A. são na verdade o estado em que, por razões relacionadas com a ética calvinista, a tendência para o evergetismo é mais generalizada e pronunciada.

Há um evergetismo-fenómeno relacionado com os novos mídia. O mais óbvio é talvez o conceito de fonte aberta, que envolve a transferência de trabalho e tempo livre em benefício da comunidade. A Wikipédia, neste sentido, pode ser definida como um fenómeno evergetico."

António Champalimaud, que teve o perfil que teve nos negócios, e hoje é cada vez mais lembrado pela sua Fundação, foi um evergeta? Os novos bilionários da tecnologia parece não serem imunes a essa 'piedade' humanitária, à glória póstuma do seu nome, ou até ao favorecimento das grandes causas. O evergetismo não é um exclusivo da Antiguidade Clássica ou do período helenístico. Mas talvez seja mais difícil, hoje, atribuír-lhe o putativo desinteresse de outros tempos. A fuga aos impostos mancha indelevelmente todos esses gestos de magnificência.

Mas, para não sucumbirmos tão facilmente à misantropia, reconheçamos  que na própria continuidade, ao longo da história,  do fenómeno evergetista haverá, talvez, para além da sincera ou insincera invocação do amor a Deus ou à humanidade, um misto de miséria humana e de ambígua generosidade que se encontra em todo o filantropista, verdadeiro ou falso.

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