terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A INFORMAÇÃO CERTA


"O pensamento era secundário em relação à fala, mas a fala e a acção eram consideradas coevas e iguais, do mesmo nível e da mesma espécie: e isto originariamente significava que a maior parte da acção política, tanto quanto esta permanece fora da esfera da violência, é na verdade transaccionada por palavras, mas, mais fundamentalmente, que encontrar as palavras certas, no momento certo, independentemente da informação ou da comunicação que possam veicular, é acção."
(Hannah Arendt)

Esta ideia sobre a política entre os Gregos privilegia a palavra, enquanto acção. Seria a palavra, a retórica e não a informação contida no discurso que torna possível o que Arendt chama de 'espaço público'.

Haveria um acordo, mais complexo do que um 'contrato social', que seria operado através da palavra, que pode assentar em noções que só têm sentido para uma época e uma 'mentalidade'. As sociedades, até Galileu, 'acordaram' as suas regras de vida, com informações que hoje consideramos erradas sobre os astros. Mas não era isso o fundamental.

Hoje, o novo presidente americano pode negar os efeitos da acção humana sobre a vida no planeta, ou tentar impor uma perspectiva míope sobre o que muitos consideram já  um dado adqurido, e,  na base dessa negação usar o seu poder para inviabilizar uma sociedade baseada na liberdade da palavra. O passado, de resto, já nos mostrou que a democracia americana pode sofrer ocasos temporários, como aconteceu com o macchartismo e a 'caça às bruxas'.

De qualquer modo, o predomínio da palavra e, sobretudo, a sua eficácia política na Antiguidade Clássica, não pode ser transposto para o nível de organização e complexidade dos nossos tempos. 

Sem tecnologia, não poderíamos ter as nossas cidades, os nossos centros de investigação, as grandes massas de população. Mas a troca de informação e a comunicação necessárias ao desenvolvimento técnico exigem grandes oásis de liberdade.

Podemos imaginar, por isso, que o mundo se torne um deserto em que a própria liberdade experimentada pelos Gregos não faça sentido, e porque, até certo ponto, é natural que nos afastemos, cada vez mais, dos seres políticos da definição aristotélica, e que as nossas cidades se tornem em estufas de cidadãos sem qualquer acordo ou contrato uns com os outros...um planeta de condóminos, sem interesse pela 'coisa pública'.

Como a informação certa não é o que conta, pode-se compreender melhor os novos nacionalismos... 


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